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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Amador Ribeiro Neto: O que é poesia? — Entrevista

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        Pergunta: O que é poesia para você?
        Amador Ribeiro Neto: Embora seja professor de teoria da poesia e poeta, eu não sei o que é poesia. Por isto me valho de 2 grandes pensadores: poesia é palavra na sua mais condensada dimensão (Pound) e é som, sentido e imagem numa interação semiótica (Jakobson).

        P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
        ARN: Clareza de pensamentos e consciência de linguagem. Neca de pitibiribas de inspiração. Muito tutano, no duro.

        P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
        ARN: Poetas: Augusto de Campos, João Cabral de Melo Neto e Caetano Veloso. Escolhi estes 3 poetas porque o que fazem/fizeram me provocam, me instigam e me incomodam sempre.

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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), 2009, Confraria do Vento e Editora Calibán, Rio de Janeiro — RJ; Amador Ribeiro Neto e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Amador Ribeiro Neto, nascido em 1953, paulista de Caconde, com mestrado em Teoria Literária pela USP e doutorado em Semiótica pela PUC SP, é poeta, crítico literário, pesquisador e professor; escreveu e publicou Barrocidade (poesias, 2003), Imagens & Poemas (com Roberto Coura, 2008), organizou Muitos — Outras Leituras de Caetano Veloso (2003), Literatura na Universidade (ensaios, 2001), Epifania da Poesia sobre Haicais de Saulo Mendonça (ensaios, 2012) e participou de antologias.

domingo, 18 de setembro de 2016

Frederico Barbosa: O que é poesia? — Entrevista

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          Pergunta: O que é poesia para você?
          Frederico Barbosa: Durante muitos anos recusei-me a responder a essa pergunta. Considerava precipitado ou enganador quem a tentava responder. E muitas tentativas de definição da poesia são mesmo superficialidades subjetivas demais para meu gosto: palavras vagas que formam quase sempre a mesma ladainha difusa e mistificadora.
          Mas, paradoxalmente, se me recusava a definir a poesia, adorava e adotava a definição de Roman Jakobson, de que a função poética da linguagem é a projeção  do "princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de combinação", ou seja, na criação literária a composição se sobrepõe, como princípio construtivo, à mera escolha das palavras guiada apenas pela semântica. Jakobson acrescenta ainda que a função poética é caracterizada por três aspectos básicos: imagens, sonoridade e ritmo. A partir destes conceitos do mestre linguista, eu inventei uma oficina de poesia que ministrei em vários cantos do país. Foi na troca instigante com os participantes destas oficinas que cheguei, sem abandonar os conceitos fundamentais de Jakobson, à minha definição de poesia que, embora pareça simples, norteia hoje meu pensamento sobre ela:
           Poesia é a palavra/impacto, é uma composição construtiva de efeitos. É a linguagem organizada da forma mais meticulosa possível para fazer sentir.
          Decorrente desta definição, podemos deduzir que:
          Fazer um poema é escrever usando todos os recursos imagináveis para causar o maior impacto possível no leitor.
           Compor um poema é controlar nos mínimos detalhes os efeitos que o texto vai provocar no leitor.
          A poesia dissolve as fronteiras entre som e sentido, forma e conteúdo.
           O verdadeiro poeta, de Homero a Augusto de Campos, sempre será o mais consciente artífice da linguagem.
           No poema sempre se usarão os recursos econômicos e sutis para atingir os resultados mais impactantes.
           Na poesia menos é sempre mais.
           O maior efeito que um poeta pode produzir não é dizer ao leitor o que ele (poeta) sente, mas é fazer o leitor sentir o mesmo ao ler o poema.
          No meu entender é isso o que define o poeta. O resto pode ser filosofia, religião, psicologia, sociologia, mistificação... qualquer coisa, menos poesia.
          
          P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
          FB: Precisa se despir de todas as ideias preconcebidas, românticas e preconceituosas que rondam o fazer poético. Como os conceitos de dom, talento e inspiração. Como a ideia de que o poeta é mais sensível ou que escrever poesia é sentir ou vivenciar emoções... Deve desconfiar de todas as mistificações da poesia e do papel do poeta.

          Deve saber que escrever poesia é um trabalho meticuloso e preciso e que, muitas vezes, não recebe o reconhecimento que merece, até porque está envolto em tanta mistificação... Se os próprios poetas consideram seu trabalho uma "inspiração divina", um "dom artístico"... quem irá respeitar o trabalho do poeta?
          O iniciante deve tentar lutar contra a sedução da facilidade e buscar sempre os caminhos mais difíceis.
          O iniciante deve correr da troca de elogios fáceis do compadrio, típico da vida literária brasileira.
          O iniciante não deve querer ser poeta, deve querer fazer bons poemas.
          
          P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas? 
          FB: Seguindo a minha definição acima, minha escolha recai sobre três poetas que escrevem usando todos os recursos imagináveis para causar o maior impacto possível e que controlam nos mínimos detalhes os efeitos que o texto vai provocar no leitor. São, portanto, três dos mais conscientes artífices da nossa língua: Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto e Augusto de Campos.

          Três textos teóricos fundamentais para a elaboração da teoria da poesia como palavra/impacto são:
          "A filosofia da composição", de Edgar Allan Poe, que expõe em detalhes o processo de criação racional e meticuloso do poema "O Corvo". Até hoje choca os defensores da inspiração mistificadora.
          ABC da literatura, de Ezra Pound, que apresenta o conceito de grande literatura como "linguagem carregada de sentido ao máximo grau possível".
          Linguística e comunicação, de Roman Jakobson, que apresenta a teoria da função poética da linguagem, que precisa ser levada em conta em toda e qualquer discussão sobre a definição de poesia.

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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), 2009, Confraria do Vento e Editora Calibán, Rio de Janeiro — RJ; no livro, Frederico Barbosa e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Frederico Tavares Bastos Barbosa, nascido em 1961, pernambucano de Recife, formado pela USP Universidade de São Paulo em Física, Grego, Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, é poeta e crítico literário; escreveu e publicou Rarefato (1990), Nada feito nada (recebeu o Prêmio Jabuti, 1993), Contracorrente (2000), Louco no oco sem beiras (2001), Cantar de amor entre os escombros (2002), A construção do zero (2004) e, em parceria com Antonio Risério, Brasibraseiro (recebeu, pela segunda vez, o Prêmio Jabuti, 2004), além de outros títulos em verso e prosa; tem poemas traduzidos e publicados em diversas coletâneas de Portugal, Estados Unidos, Austrália, México, Espanha e Colômbia; participante de organismos ligados à literatura, hoje é supervisor de Ações Culturais da Casa das Rosas Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo SP; participou de antologias, com seus textos, e organizou antologias poéticas de outros autores.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Carlos Felipe Moisés: O que é poesia? — Entrevista

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          Pergunta: O que é poesia para você?
          Carlos Felipe Moisés: No começo, aos 13-14 anos, era só uma brincadeira. No colégio onde estudei, poesia era praticamente sinônimo de "rima", e havia uma tal de "métrica", esse negócio de contar as sílabas, umas fortes, outras fracas, e por aí vai (ou melhor, ia). Então achei divertidíssimo brincar de procurar rimas, contar as sílabas nos dedos, para ver se eu tinha um decassílabo, um alexandrino ou um redondilho. Achei, desde o começo, que isso era tão divertido quanto fazer palavras cruzadas, colecionar figurinhas, jogar bola na rua, empinar papagaio, chocar traseira de caminhão, paquerar as meninas etc. Não era nada que eu levasse a sério. E ainda bem... Nessa idade, não acho saudável levar a sério seja lá o que for. Aconteceu que, lá pelos 16-17, eu li por acaso uns poetas modernos, quer dizer, do início do século XX, e de repente descobri que a poesia é a expressão mais apurada, mais densa, mais inquietante e mais verdadeira que o ser humano é capaz de dar ao seu "sentimento do mundo", como diz Carlos Drummond de Andrade. Passei a encarar a poesia como uma espécie de síntese superior de tudo quanto você for capaz de pensar e sentir, sobre a vida, a natureza, o amor e a morte, o destino, a amizade, e assim por diante. Desde essa época, a poesia me acompanha, como uma espécie de cúmplice imprescindível. Escrever os meus poemas tem-me ajudado a ir filtrando aquilo que vale a pena ser lembrado, tem me ajudado a ir deixando no papel umas imagens, umas cenas, umas impressões, que me dão a certeza de algo afinal tão banal, que é simplesmente estar vivo. Mas estar vivo como alguém que vai deixando o seu testemunho, e não como alguém que apenas sobrevive e vê o tempo passar. O que é a poesia para mim? Começou como brincadeira, depois foi-se tornando a representação simbólica do sentido (possível) da minha existência, aquela atividade sem a qual a (minha) vida não teria sentido. E, pensando bem, nunca deixou de ser, de um modo ou de outro, uma espécie de brincadeira, embora eu nunca mais me preocupasse com as rimas e com a sílabas contadas nas pontas dos dedos.
          
          P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
          CFM: Apesar dos vários livros publicados, alguns premiados, ou justamente por isso, não me sinto em condições de dar conselho a ninguém. Ainda que seja um "iniciante"? Ainda assim. Iniciante, na verdade, é exatamente como eu próprio me sinto, com toda a suposta "experiência" acumulada em tantos anos. Cada livro, cada poema, é aquela mesma angústia, aquela mesma dúvida dos primeiros: será que vou ser capaz? Será que que vale a pena tentar escrever sobre isto? E, depois de escrito: será que funcionou, será que acertei a mão? É sempre como se eu estivesse começando tudo de novo. Com o iniciante não é assim mesmo? Conselhos recebi muitos, e sou grato a todos: os que acatei e deram certo, os que acatei e não deram certo, os que rejeitei e poderiam ter dado certo (mas não tenho mais como saber) e os que rejeitei porque eram pura besteira. O que o iniciante deve perseguir? A sua verdade. Se ainda não tem uma, vá atrás dela. Ainda que não a encontre, valerá a pena procurar. E não acredite em nenhum conselho que lhe diga (em matéria de poesia ou outra matéria qualquer): aqui está a verdade. Mais conselhos (só para confirmar que sou mesmo contraditório): não acredite muito em elogios, prefira sempre ficar com as críticas, se eles forem inteligentes e honestas. Com os elogios excessivos, a sua busca da verdade se interrompe, você dá um suspiro de alívio e fica achando, bestamente, que já chegou lá. Com as críticas, as boas, você cresce, você se supera, e segue em frente. Como distinguir as boas das más críticas? Ah! Só você vai ser capaz de distinguir. Por fim, por melhor que seja o poema que você acabou de escrever (na sua opinião e na de "todo mundo"), ache, sempre, que você pode escrever outro ainda melhor.

          P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas? 
          CFM: Retomando o que já comentei na primeira pergunta, os poetas modernos (não foram só três, mas vou ficar com "os três mais") que me marcaram para sempre, que me ajudaram a encontrar o que talvez seja uma vocação, que me revelaram o que há de verdadeiramente humano na poesia foram: Mário de Andrade, Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade. Quando li esses poetas pela primeira vez, lá pelos 15 anos, a sensação foi uma só: eu tinha acabado de levar uma descomunal porrada, ao mesmo tempo na boca do estômago, no meio da cara e no fundo da alma. Minha vida, minha visão de mundo, nunca mais foram as mesmas. Então decidi: um dia vou escrever um poema, um só, do jeito deles, quem sabe misturando um pouco do jeito de cada um. Ainda não consegui, mas continuo tentando. Naquela idade, e depois, não tive pejo nenhum: vou imitar esses poetas. E imitei mesmo, e segui imitando, embora sempre tentando disfarçar, isto é, acrescentando à imitação alguma coisa própria. E acho (sinto) que deu mais ou menos certo: hoje não imito mais, mas não saberia dizer a partir de que momento o disfarce passou a prevalecer. Bem, os três poetas são esses, embora eu pudesse acrescentar mais alguns. Agora, três poemas? Quer dizer, um de cada? Aí já fica mais difícil. Mas posso tentar: do Mário, a Paulicéia desvairada, inteira, especialmente a série com o título "Paisagem" e a "Ode ao burguês"; do Pessoa, a dificuldade aumenta, mas digamos que o Alberto Caeiro e o Álvaro de Campos, inteiros, especialmente o "Há metafísica bastante em não pensar em nada", do primeiro, e a "Tabacaria", do segundo; do Drummond, a dificuldade é a mesma, mas vou destacar o Sentimento do mundo, A rosa do povo e o Claro enigma, inteiros, especialmente, na ordem, "Mãos dadas", "Procura da poesia" e "A máquina do mundo". Escolhas? A impressão que tenho, tantos anos depois, tanto tempo de convívio, é que eu não os escolhi, eles é que me escolheram. Ou o acaso se incumbiu de tudo.


 
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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), 2009, Confraria do Vento e Editora Calibán, Rio de Janeiro — RJ; no livro, Carlos Felipe Moisés e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Carlos Felipe Moisés, nascido em 1942, paulista e paulistano, graduado em Letras Clássicas pela USP  Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado em Literatura Portuguesa também pela USP, é poeta, crítico literário, professor e tradutor, com extensa obra e publicações em jornais e revistas; obra poética: Carta de marear (1966), Poemas reunidos (1974), Círculo imperfeito (1978), Subsolo (1989), Lição de casa & poemas anteriores (1998)...

sábado, 10 de março de 2012

Ana Elisa Ribeiro: O que é poesia? — Entrevista


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          Pergunta: O que é poesia para você?
          Ana Elisa: Eu não sei bem o que é, mas certamente é algo necessário em minha vida. A poesia é um aspecto das coisas que só alguns conseguem transformar em texto. Talvez isso. E esse texto precisa ter certas características. Umas delas são óbvias, formais; outras são mais sutis. João Cabral de Melo Neto dizia que o poeta sabe quando o poema está pronto porque o texto faz um clique, algo parecido com o clique dos estojos quando se fecham. O pulo do gato da poesia, para o poeta, é esse clique. Para o leitor, o texto precisa provocar um outro clique desses.

          P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
          AE: Ele deve perseguir a precisão. Não é engraçado? Geralmente, associamos a poesia à subjetividade, à abstração. Essas coisas têm um quê de vaguidão. Mentira. O poema precisa ser exato, justo. Não pode ter palavra demais.

          P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas? 
          AE: Não são exatamente escolhas. São cliques. A gente lê um poeta, um dia, e calha de ele fazer clique na gente. Foi assim com Paulo Leminski, que me deixou perplexa por uns dias. Conheci os poemas dele no colégio. João Cabral de Melo Neto me deixava perplexa de um outro jeito. E, por fim, a Adília Lopes, que tem uma ironia que me causa muito estranhamento.


O QUE E POESIA? - 1ªED.(2009) - Vários (ver informações no detalhe ...
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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), Confraria do Vento e Editora Calibán, 2009, Rio de Janeiro  RJ; No livro, Ana Elisa Ribeiro e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Ana Elisa, mineira de Belo Horizonte, nascida em 1975, formou-se em Letras e é doutora em Linguística Aplicada (Linguagem e Tecnologia) pela UFMG; publicou Poesinha, Perversa (Ciência do Acidente, 2002), Fresta por onde olhar (Editorial Interditado, 2008)..., além de minicontos e poemas em revistas e jornais, no Brasil e em Portugal; é cronista do www.digestivocultural.com/

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Antonio Cicero: O que é poesia? — Entrevista


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          Pergunta: O que é poesia para você? 
          Antonio Cicero: A poesia é o que faz de um "poema" um poema; ou, o que dá no mesmo, é o que faz de um poema um poema bom. Também se pode dizer: é a propriedade do poema enquanto poema. É a propriedade que torna um objeto  em particular, um objeto verbal  algo que, mesmo sendo inútil, mereça existir. Se fosse possível descrever essa propriedade, seria possível dar uma receita de poema. Isso, porém, é impossível. Como diz Montaigne, é mais fácil produzir poesia do que conhecê-la. "Em certa medida baixa", afirma ele, "pode-se julgá-la pelos preceitos e pela arte [isto é, pela técnica]. Mas a boa, a excessiva, a divina está acima das regras e da razão". É que a razão é apenas uma das faculdades humanas; ora, a poesia é produzida e apreciada com todas as faculdades humanas, inclusive as não-racionais, elevadas ao seu mais alto grau.

          P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
          AC: Acho que há diferentes caminhos. Penso, porém, que o mais importante é, em primeiro lugar, aprender a ler e apreciar poesia. e isso se faz, em primeiro lugar, através da leitura intensiva dos grandes poemas da tradição. É através deles que se sabe o que é a poesia.


          P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?        
          AC: Citarei Horácio, T.S. Eliot e Drummond. Digamos o poema 7 do Livro IV das Odes de Horário; o poema "East Coker", de Four Quartets, de T.S. Eliot; "Coração Numeroso", de Alguma Poesia, de Drummond. São três obras-primas. Admiro imensamente seus autores. Todos são mestres insuperáveis da forma, da sutileza, da malícia... Horácio, por exemplo, usa todos os recursos da língua, como, por exemplo, a liberdade da ordem das palavras, em latim, para multiplicar maravilhosamente os sentidos de cada verso, de cada palavra, de cada estrofe. Ele é intraduzível, de modo que aprendi a apreciá-lo tarde, quando estudei a sério o latim. Cito T.S. Eliot porque foi através dele que me imbuí, na adolescência, dos ritmos da poesia moderna. E não é necessário explicar a escolha de Drummond. Ele e Pessoa são, para mim, o máximo da poesia moderna em português, e tão grandes quanto qualquer outro poeta, de qualquer outra língua.


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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), Confraria do Vento e Editora Calibán, 2009, Rio de Janeiro  RJ; No livro, Antonio Cicero e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Antonio Cicero, nascido em 1945 no Rio de Janeiro  RJ, além de poeta, é compositor, filósofo e escritor, e tem um blogue: www.antoniocicero.blogspot.com/

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Glauco Mattoso: "A poesia é uma metralhadora na mão dum palhaço"


     Pergunta: O que é poesia para você?
     Glauco Mattoso: Já dei várias respostas a essa pergunta, mas acho que a melhor foi aquela que usei numa oficina que ministrei na Casa das Rosas: a poesia é uma metralhadora na mão dum palhaço. Seu poder de fogo pode ser apenas intencional, e seu efeito apenas hilário, mas o franco-atirador, ao expor-se em sua ridícula revolta, no mínimo consegue provocar alguma reação, ainda que meramente divertindo o público, e alguma reflexão sobre o papel patético dos idealistas e visionários, que, no fundo, somos todos nós.

     P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
     GM: Depende justamente da concepção poética que ele adotou. No meu caso, trata-se de vomitar algo visceral, de me expor, me devassar e desabafar uma biografia excêntrica para me identificar com outros excêntricos e tirar, dessa diversidade de individualidades, o traço de humanidade que nos une, isto é, o sofrimento e a revolta contra as opressões e repressões. Uma das "missões" do poeta  mas não a única  é ser porta -voz  dos perseguidos, injustiçados, excluídos, rejeitados e humilhados, ainda que tais angústias sejam meramente sentimentais ou emocionais frustrações amorosas, por exemplo. Voltando à questão do iniciante, eu recomendaria três coisas: primeiro, muita leitura, poesia de várias épocas e estilos, para estabelecer preferências e simpatias; segundo, fidelidade à própria biografia, nada de fingir demais, ainda que o poeta seja um fingidor, como dizia Pessoa; terceiro, estudar versificação, mesmo que o cara não pretenda fazer poesia rimada nem metrificada. Assim, ele estará minimamente instrumentado para o "ofício".

     P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
     GM: Isso é sempre muito pessoal e intransferível, mas vamos lá. Gregório de Matos, por ser pioneiro na nossa história e por ter praticado duas coisas que utilizo: os jogos verbais barrocos (antíteses, paradoxos, paronomásias, paródias, trocadilhos) e sátira desbocada (inclusive enveredando pelo fescenino); Bocage, por duas características que adotei: apuro formal do soneto e deboche obsceno; Bandeira, por uma única e fundamental razão: provar que é perfeitamente possível praticar todas as modalidades poéticas, desde o verso mais ritmado e rimado até o experimentalismo mais iconoclasta e anárquico, sem perder de vista o lado humano, confessional e emocional. Quanto aos textos referenciais, sugiro, primeiro, Os Luzíadas, não para ler de cabo a rabo, mas para passear nele, viajar no ritmo, ir se acostumando a discorrer, raciocinar metrificando, pensar em decassílabo; segundo, Eu, de Augusto dos Anjos, para, ao contrário dos "Luzíadas", percorrer, num único e curto livrinho, toda a obra duma vida, o que nos dá noção de que o poder de síntese pode ser essencial e suficiente; terceiro, Poesia completa e prosa, a obra reunida de Manuel Bandeira, que tenho em papel-bíblia mas que existe em diferentes edições, incluindo o Itinerário de Pasárgada, roteiro autobiográfico-intelectual, e a Apresentação da poesia brasileira, que, embora incompleta e parcial, dá uma visão panorâmica.
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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), Confraria do Vento e Editora Calibán, 2009, Rio de Janeiro RJ; No livro, Glauco Mattoso e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Glauco Mattoso é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias; Pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (paulistano de 1951), o nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); Pedro José Ferreira da Silva, hoje aposentado como bancário, foi funcionário do Banco do Brasil.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Virna Teixeira: O que é poesia? — Entrevista

Virna Teixeira

        Pergunta: O que é poesia para você?
        Virna Teixeira: Uma tensão entre linguagem, silêncio e música. 
        
        P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
        VT: Concentrar-se na sua verdade, na sua técnica, de forma autêntica. Deve informar-se, escolher boas leituras que lhe sirvam de exemplo, com as quais tenha afinidade. Exercitar-se constantemente, questionar o próprio trabalho.
        
        P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
        VT: Poetas: Lorine Niedecker, pela concisão e  musicalidade (Lorine foi a Emily Dickinson da sua época); o escocês Edwin Morgan, pela sua versatilidade e inventividade, e pelo seu trabalho extraordinário como tradutor; Ana Cristina César, pela audácia e criatividade — leio a Ana Cristina desde a década de 80 e sempre encontro referências novas no seu trabalho, surpreendentes.
        Textos: Destruição do pai / reconstrução do pai, de Louise Bourgeois — um eterno aprendizado emocional e formal; Devil's playground, da fotógrafa Nan Goldin — não me canso da força e da intensidade de suas imagens —; qualquer texto de Gertrude Stein — pela forma que lida com a linguagem, por sua inteligência e ironia.
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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), Confraria do Vento e Editora Calibán, 2009, Rio de Janeiro  RJ; No livro, Virna Teixeira e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Virna Teixeira, nascida em Fortaleza, é poeta, tradutora e neurologista, e tem um blogue: papel de rascunho

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Augusto de Campos: O que é poesia? — Entrevista

VIVA VAIA - Augusto de Campos

    Pergunta: O que é poesia para você?
        Augusto de Campos: De preferência, a poesia dos outros. E o que é poesia? Respondendo à pergunta "o que é música?", Shoenberg saiu-se com esta historinha:
        Um cego perguntou ao seu guia:  Como é o leite?
        O outro:  O leite é branco.
        O cego:  E o que é esse branco? Me dê um exemplo de algo que seja "branco"!
        O guia:  Um cisne. Ele é totalmente branco e tem um pescoço longo e curvo.
        O cego:  Pescoço curvo? Como é isso?
        O guia, imitando a forma do pescoço do cisne com o braço, fez com que o cego o apalpasse.
        O cego:  "Ah, agora eu sei como é o leite"...

        Bom, para não desanimar o leitor, dou duas definições de poesia de dois outros cegos:
        Paul Valéry: "Hesitação entre o som e o sentido";
        Ezra Pound: "Uma espécie de matemática inspirada que nos dá equações não para imagens abstratas, triângulos, esferas, etc, mas equações para as emoções humanas".

        P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
        AC: Perseguir implacavelmente a si próprio. Jamais perseguir o sucesso.
     
        P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
        AC: "Um lance de dados jamais abolirá o acaso", de Stéphane Mallarmé. Inaugurou a poesia do século 20 e continua a presidir o espaço poético-cyberal;
        "Finnegans Wake", de Joyce, panAroma das flores da fala, telescopagem vocabular, racionalidade do caos;
        "Os Cantos", de Pound, montagem-colagem-ideograma, estratégias básicas para a poesia de nosso tempo.
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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), Confraria do Vento e Editora Calibán, 2009, Rio de Janeiro  RJ; no livro, Augusto de Campos e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; paulista e paulistano, nascido em 1931, o poeta, tradutor, ensaísta e crítico de literatura e música é reconhecido, com o lançamento da revista literária Noigandres, em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, como um dos criadores, representantes e divulgadores do movimento internacional da Poesia Concreta no Brasil.