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segunda-feira, 6 de março de 2023

Charles Baudelaire: A solidão


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[traduzido por Alessandro Zir]

XXIII

     Um jornalista filantropo me disse que a solidão faz mal ao homem; e para apoiar sua tese ele cita, como todos os incrédulos, as palavras dos Padres da Igreja.
     Eu sei que o Demônio frequenta de boa vontade os lugares áridos, e que o Espírito assassino e lascivo muito espontaneamente se acende nos momentos de solidão. Mas é possível que essa solidão não seja perigosa senão para a alma ociosa e divagante que a povoa com suas paixões e quimeras.
     Ninguém duvida que um tagarela, cujo prazer supremo consiste em falar do alto de uma cátedra ou tribuna, corre um grande risco de se tornar um louco furioso na ilha de Robinson. Não exijo do meu jornalista as virtudes corajosas de Crusoé, mas peço que ele não impute, com suas acusações, os apaixonados pela solidão e o mistério.
     Há, nas nossas raças tagarelas, indivíduos que aceitariam com menos repugnância o suplício supremo, se lhes fosse permitido proferir, do alto do cadafalso, uma copiosa arenga, sem medo de serem interrompidos intempestivamente pelos tambores de Santerre.
     Eu não os lamento, porque suponho que suas efusões de eloquência lhes proporcionam volúpias iguais àquelas que outros obtêm do silêncio e do isolamento; mas eu os desprezo.
     Desejo, sobretudo, que meu tão estimado jornalista deixe-me me divertir como me aprouver.
      Você não sente nunca pergunta-me ele, tão fanho quanto apostólico a necessidade de partilhar suas alegrias?
     Observem a astúcia do invejoso! Ele sabe o quanto desdenho as suas, e quer se insinuar nas minhas, o miserável estraga-prazeres!
     “O grande infortúnio de não se aguentar ficar só!...”, escreve em alguma parte La Bruyère, como para envergonhar aqueles que correm à multidão em busca de esquecimento, porque temem sem dúvida não aguentar a si próprios.
     “Quase todas as nossas aflições advêm de não termos sabido ficar em nosso quarto”, afirma um outro sábio, creio que Pascal, dirigindo-se assim, na cela do recolhimento, a todos esses alterados que procuram a felicidade no movimento e em uma prostituição que eu poderia chamar de fraternal, se quisesse falar a bela língua do meu século.

Charles Baudelaire

La solitude

XXIII

     Un gazetier philanthrope me dit que la solitude est mauvaise pour l'homme; et à l'appui de sa thèse, il cite, comme tous les incrédules, des paroles des Pères de l'Eglise.
     Je sais que le Démon fréquente volontiers les lieux arides, et que l'Esprit de meurtre et de lubricité s'enflamme merveilleusement dans les solitudes. Mais il serait possible que cette solitude ne fût dangereuse que pour l'âme oisive et divagante qui la peuple de ses passions et de ses chimères.
     Il est certain qu'un bavard, dont le suprême plaisir consiste à parler du haut d'une chaire ou d'une tribune, risquerait fort de devenir fou furieux dans l'île de Robinson. Je n'exige pas de mon gazetier les courageuses vertus de Crusoé, mais je demande qu'il ne décrète pas d'accusation les amoureux de la solitude et du mystère.
     Il y a dans nos races jacassières, des individus qui accepteraient avec moins de répugnance le supplice suprême, s'il leur était permis de faire du haut de l'échafaud une copieuse harangue, sans craindre que les tambours de Santerre ne leur coupassent intempestivement la parole.
     Je ne les plains pas, parce que je devine que leurs effusions oratoires leur procurent des voluptés égales à celles que d'autres tirent du silence et du recueillement; mais je les méprise.
     Je désire surtout que mon maudit gazetier me laisse m'amuser à ma guise. "Vous n'éprouvez donc jamais, me dit-il, avec un ton de nez très apostolique, le besoin de partager vos jouissances?" Voyez-vous le subtil envieux! Il sait que je dédaigne les siennes, et il vient s'insinuer dans les miennes, le hideux trouble-fête!
     "Ce grand malheur de ne pouvoir être seul!..." dit quelque part La Bruyère, comme pour faire honte à tous ceux qui courent s'oublier dans la foule, craignant sans doute de ne pouvoir se supporter eux-mêmes.
     "Presque tous nos malheurs nous viennent de n'avoir pas su rester dans notre chambre", dit un autre sage, Pascal, je crois, rappelant ainsi dans la cellule du recueillement tous ces affolés qui cherchent le bonheur dans le mouvement et dans une prostitution que je pourrais appeler fraternitaire, si je voulais parler la belle langue de mon siècle.
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Charles Baudelaire: O crepúsculo da noite

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[traduzido por Alessandro Zir]

XXII

          O dia termina. Um grande apaziguamento se faz sentir nos pobres espíritos fatigados pela labuta diária; e seus pensamentos assumem agora as cores suaves e indecisas do crepúsculo.
          Entretanto, do alto da montanha, chega à minha sacada, através das nuvens transparentes da noite, um grande alarido, composto de uma massa de gritos discordantes que o espaço transforma em uma lúgubre harmonia, como aquela da maré que sobe ou de uma tempestade que se arma.
          Quem são os desafortunados que o escurecer não acalma, e que tomam, como as corujas, a chegada da noite como sinal de um sabá? Essa sinistra ululação vem do hospício cinzento, pousado sobre a montanha.
          À noite, fumo e contemplo o repouso do imenso vale, eriçado de casas cujas janelas dizem:
           Estamos em paz! Momento de alegria familiar!
          E posso, cada vez que o vento sopra lá de cima, embalar meus pensamentos espantados nessa imitação das harmonias do inferno.
          O crepúsculo excita os loucos.
          Recordo de dois amigos que o crepúsculo fazia adoecer por completo. Um passava a desconhecer todos os princípios de polidez e camaradagem, e maltratava, ferozmente, o primeiro que aparecia. Eu o vi arremessar na cabeça de um maître um frango excelente, no qual ele acreditava ter visto não sei que hieróglifo ofensivo. A noite, precursora das voluptuosidades profundas, lhe estragava as coisas mais suculentas.
          O outro, um ambicioso frustrado, tornava-se, à medida que o sol se punha, mais amargo, mais sombrio, mais chato. Indulgente e sociável ainda durante o dia, à noite se mostrava implacável; e não era somente sobre os outros, mas também sobre si mesmo que, enfurecida, a sua loucura crepuscular se exercia.
          O primeiro morreu louco, incapaz de reconhecer esposa e filho; o segundo carrega em si a inquietação de um eterno mal-estar, e mesmo que fosse agraciado com todas as honras que podem oferecer as repúblicas e os príncipes, penso que o crepúsculo ainda acenderia nele uma ardente inveja por distinções imaginárias. A noite, que no espírito dos dois impelia trevas, cria a luz no meu; e por mais que não seja raro ver a mesma causa engendrar efeitos contrários, isso sempre me intrigou e deixou alarmado.
          Oh noite! Oh trevas revigorantes! Vocês são para mim o sinal de uma festa interior, vocês me libertam da angústia! Na solidão das planícies, nos labirintos de pedra de uma capital, brilho de estrelas, explosão de luzes, vocês são o fogo da deusa Liberdade!
          Crepúsculo, como você é doce e terno! Os clarões rosáceos que vagam ainda pelo horizonte como a agonia do dia sob a opressão vitoriosa da noite, os fogos das candeias que mancham de um vermelho opaco as últimas glórias do poente, as imensas tapeçarias que uma mão invisível suscita das profundezas do Oriente imitam toda a gama de sentimentos complicados que lutam no coração dos homens nos momentos solenes da vida.
          Ou lembram ainda um desses vestidos curiosos, de dançarinas, em que um véu transparente e escuro deixa entrever o esplendor amortecido de uma saia radiante, assim como sob a obscuridade do presente transpassa o delicioso passado; e as estrelas fascinantes, de ouro e prata, por ela disseminadas, representam esses fantásticos fogos verdadeiramente se iluminam bem sob o luto profundo da Noite.

Charles Baudelaire

XXII

Le crépuscule du soir

          Le jour tombe. Un grand apaisement se fait dans les pauvres esprits fatigués du labeur de la journée; et leurs pensées prennent maintenant les couleurs tendres et indécises du crépuscule.
          Cependant du haut de la montagne arrive à mon balcon, à travers les nues transparentes du soir, un grand hurlement, composé d'une foule de cris discordants, que l'espace transforme en une lugubre harmonie, comme celle de la marée qui monte ou d'une tempête qui s'éveille.
          Quels sont les infortunés que le soir ne calme pas, et qui prennent, comme les hiboux, la venue de la nuit pour un signal de sabbat? Cette sinistre ululation nous arrive du noir hospice perché sur la montagne, et, le soir, en fumant et en contemplant le repos de l'immense vallée, hérissée de maisons dont chaque fenêtre dit: "C'est ici la paix maintenant; c'est ici la joie de la famille!" je puis, quand le vent souffle de là-haut, bercer ma pensée étonnée à cette imitation des harmonies de l'enfer.
          Le crépuscule excite les fous. Je me souviens que j'ai eu deux amis que le crépuscule rendait tout malades. L'un méconnaissait alors tous les rapports d'amitié et de politesse, et maltraitait, comme un sauvage, le premier venu. Je l'ai vu jeter à la tête d'un maître d'hôtel un excellent poulet, dans lequel il croyait voir je ne sais quel insultant hiéroglyphe. Le soir, précurseur des voluptés profondes, lui gâtait les choses les plus succulentes.
          L'autre, un ambitieux blessé, devenait, à mesure que le jour baissait, plus aigre, plus sombre, plus taquin. Indulgent et sociable encore pendant la journée, il était impitoyable le soir; et ce n'était pas seulement sur autrui, mais aussi sur lui-même que s'exerçait rageusement sa manie crépusculeuse.
          Le premier est mort fou, incapable de reconnaître sa femme et son enfant; le second porte en lui l'inquiétude d'un malaise perpétuel, et fût-il gratifié de tous les honneurs que peuvent conférer les républiques et les princes, je crois que le crépuscule allumerait encore en lui la brûlante envie de distinctions imaginaires. La nuit, qui mettait ses ténèbres dans leur esprit, fait la lumière dans le mien; et, bien qu'il ne soit pas rare de voir la même cause engendrer deux effets contraires, j'en suis toujours comme intrigué et alarmé.
          O nuit! ô rafraîchissantes ténèbres! vous êtes pour moi le signal d'une fête intérieure, vous êtes la délivrance d'une angoisse! Dans la solitude des plaines, dans les labyrinthes pierreux d'une capitale, scintillement des étoiles, explosion des lanternes, vous êtes le feu d'artifice de la déesse Liberté!
          Crépuscule, comme vous êtes doux et tendre! Les lueurs roses qui traînent encore à l'horizon comme l'agonie du jour sous l'oppression victorieuse de sa nuit, les feux des candélabres qui font des taches d'un rouge opaque sur les dernières gloires du couchant, les lourdes draperies qu'une main invisible attire des profondeurs de l'Orient, imitent tous les sentiments compliqués qui luttent dans le coeur de l'homme aux heures solennelles de la vie.
          On dirait encore une de ces robes étranges de danseuses, où une gaze transparente et sombre laisse entrevoir les splendeurs amorties d'une jupe éclatante, comme sous le noir présent transperce le délicieux passé; et les étoiles vacillantes d'or et d'argent, dont elle est semée, représentent ces feux de la fantaisie qui ne s'allument bien que sous le deuil profond de la Nuit.
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Charles Baudelaire: O galante atirador

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[traduzido por Alessandro Zir]

XLIII

     Atravessavam um bosque, quando ele pediu ao cocheiro que parasse na proximidade de uma galeria de tiro, dizendo que lhe seria agradável disparar algumas balas para matar o tempo. Matar esse monstro, não é essa a ocupação mais ordinária e a mais legítima de todos nós? E, galante, ele deu a mão à sua querida, deliciosa e execrável mulher, a essa misteriosa mulher a quem ele devia tantos prazeres, tantos sofrimentos, e talvez também uma boa parte do seu gênio.
     Numerosas balas bateram longe do alvo proposto; uma delas chegou a enfiar-se no teto; e como a encantadora criatura ria como louca, debochando da falta de jeito do marido, ele se voltou bruscamente na direção dela e disse:
      Você está vendo essa boneca, ali, à direita, de nariz empinado e que tem uma aparência tão altaneira? Pois bem, meu anjo, vou fazer de conta que é você.
     E ele fechou os olhos e atirou. A boneca foi decapitada.
     Voltando-se, então, para a sua querida, deliciosa, execrável mulher, sua incontornável e inexorável Musa, e beijando-lhe respeitosamente a mão, acrescentou:
      Ah, meu anjo! Quanto lhe sou grato pela minha destreza!


Le galant tireur

     Comme la voiture traversait le bois, il la fit arrêter dans le voisinage d'un tir, disant qu'il lui serait agréable de tirer quelques balles pour tuer le Temps. Tuer ce monstre-là, n'est-ce pas l'occupation la plus ordinaire et la plus légitime de chacun? Et il offrit galamment la main à sa chère, délicieuse et exécrable femme, à cette mystérieuse femme à laquelle il doit tant de plaisirs, tant de douleurs, et peut-être aussi une grande partie de son génie.
     Plusieurs balles frappèrent loin du but proposé; l'une d'elles s'enfonça même dans le plafond; et comme la charmante créature riait follement, se moquant de la maladresse de son époux, celui-ci se tourna brusquement vers elle, et lui dit: "Observez cette poupée, là-bas, à droite, qui porte le nez en l'air et qui a la mine si hautaine. Eh bien! cher ange, je me figure que c'est vous. "Et il ferma les yeux et il lâcha la détente. La poupée fut nettement décapitée.
     Alors s'inclinant vers sa chère, sa délicieuse, son exécrable femme, son inévitable et impitoyable Muse, et lui baisant respectueusement la main, il ajouta: "Ah! mon cher ange, combien je vous remercie de mon adresse!"
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

sábado, 5 de novembro de 2022

Charles Baudelaire: Dar uma coça nos pobres

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[traduzido por Alessandro Zir]

XLIX

     Durante quinze dias me tranquei no quarto, cercado de livros que estavam então na moda (há dezesseis ou dezessete anos). Queria falar de livros que tratam da arte de trazer felicidade aos povos, de torná-los sábios e ricos em vinte e quatro horas. Para isso eu havia digerido, enfiado goela abaixo todas as elucubrações de todos esses empreendedores do bem público, dos que aconselham os pobres a se escravizar aos que os tratam como se reis destronados fossem. Não surpreende, portanto, que eu estivesse então em um estado de espírito que oscila entre a vertigem e a estupidez.
     Eu podia sentir, confinado no fundo do meu intelecto, o germe obscuro de uma idéia superior a todas aquelas receitas de matronas virtuosas cujo repertório eu acabara de percorrer. Mas não era senão a idéia de uma idéia, algo de infinitamente vago.
     E saí de casa com a garganta seca. Pois a exaltação causada por leituras tão ruins acarreta uma necessidade proporcional de espaço aberto e refrescos.
     Quando eu estava prestes a entrar num cabaré, um mendigo me estendeu seu chapéu, lançando-me um olhar inesquecível desses que derrubariam tronos, se o espírito afetasse a matéria e o olho do hipnotizador tivesse força para amadurecer as uvas.
     Ao mesmo tempo, ouvi uma voz que me cochichava ao pé do ouvido, uma voz que de pronto reconheci. Era a voz do anjo bondoso, ou do formidável demônio, que por toda parte me acompanha. Se Sócrates tinha o seu demônio, por que é que não teria eu meu anjo, e por que é que não teria eu a honra, como Sócrates, de ver meu atestado de loucura, expedido pelo sábio Lélut ou pelo experiente Baillarger?
     Há uma diferença entre o demônio de Sócrates e o meu: o de Sócrates manifestava-se sempre numa atitude defensiva, para advertir e impedir. O meu se digna a dar conselhos, sugerir, persuadir. O pobre Sócrates não tinha senão um demônio censor. O meu é um demônio que afirma sem pejo, que age, que combate.
     Ora, a voz dele cochichou o seguinte:
      Só é igual a outro quem o prova sê-lo, e só é digno de liberdade quem sabe conquistá-la.
     Sem nem pensar duas vezes, parti pra cima do mendigo. Com um murro certeiro lhe acertei um olho, que no mesmo instante inchou do tamanho de uma bola. Quebrei uma das unhas ao lhe arrebentar dois dentes, e como não me acreditava forte o bastante (minha compleição é delicada de nascença, e pouco me exercitei no boxe) para acabar de vez com aquele velhaco, agarrei-o com uma mão pelo colete, enquanto com a outra lhe segurava pela garganta, sacudindo freneticamente sua cabeça de encontro à parede. Devo confessar que havia previamente inspecionado os arredores com um golpe de vista, verificando que, naquele arrabalde deserto, eu me encontrava, por um bom tempo, fora do alcance dos agentes da polícia.
     Havendo em seguida, com um pontapé que lhe estampei nas costas, enérgico o suficiente para lhe quebrar as omoplatas, lançado por terra esse sexagenário morto de fome, me servi de um galho grosso de árvore caído no chão, que usei para bater nele com a energia obstinada de um cozinheiro que quer amaciar o bife.
     Eis que, de uma hora para outra, oh milagre! Oh alegria do filósofo que comprova a excelência da sua teoria! Vi essa velha carcaça se virar, se endireitar com uma energia que eu jamais supunha ser possível em uma máquina tão singularmente enguiçada, e, com um olhar de ódio que me pareceu um bom augúrio, aquele malandro decrépito partiu pra cima de mim, me arroxeou os dois olhos, me quebrou quatro dentes e, com o mesmo galho grosso, me moeu de pancadas. Meu remédio enérgico havia lhe restituído o orgulho e a vida.
     Então, com um certo alarde, sinalizei a ele que dava a discussão por encerrada e, me levantando com a satisfação de um sofista de Pórtico, eu disse:
      Caríssimo, o senhor é igual a mim! Queira me dar a honra de compartilhar comigo da minha bolsa. E lembre-se, caso tenha uma alma de filantropo, que é preciso aplicar nos seus semelhantes, quando lhe pedirem esmola, a teoria que dolorosamente testei no seu dorso.
     Ele me assegurou que havia compreendido a teoria, e que seguiria meu conselho.

Charles Baudelaire

Assommons les pauvres!

XLIX

     Pendant quinze jours je m’étais confiné dans ma chambre, et je m’étais entouré des livres à la mode dans ce temps-là (il y a seize ou dix-sept ans); je veux parler des livres où il est traité de l’art de rendre les peuples heureux, sages et riches, en vingt-quatre heures. J’avais donc digéré, avalé, veux-je dire, toutes les élucubrations de tous ces entrepreneurs de bonheur public, de ceux qui conseillent à tous les pauvres de se faire esclaves, et de ceux qui leur persuadent qu’ils sont tous des rois détrônés. On ne trouvera pas surprenant que je fusse alors dans un état d’esprit avoisinant le vertige ou la stupidité.
     Il m’avait semblé seulement que je sentais, confiné au fond de mon intellect, le germe obscur d’une idée supérieure à toutes les formules de bonne femme dont j’avais récemment parcouru le dictionnaire. Mais ce n’était que l’idée d’une idée, quelque chose d’infiniment vague.
     Et je sortis avec une grande soif. Car le goût passionné des mauvaises lectures engendre un besoin proportionnel du grand air et des rafraîchissants.
     Comme j’allais entrer dans un cabaret, un mendiant me tendit son chapeau, avec un de ces regards inoubliables qui culbuteraient les trônes, si l’esprit remuait la matière, et si l’œil d’un magnétiseur faisait mûrir les raisins.
     En même temps, j’entendis une voix qui chuchotait à mon oreille, une voix que je reconnus bien; c’était celle d’un bon Ange, ou d’un bon Démon, qui m’accompagne partout. Puisque Socrate avait son bon Démon, pourquoi n’aurais-je pas mon bon Ange, et pourquoi n’aurais-je pas l’honneur, comme Socrate, d’obtenir mon brevet de folie, signé du subtil Lélut et du bien-avisé Baillarger?
     Il existe cette différence entre le Démon de Socrate et le mien, que celui de Socrate ne se manifestait à lui que pour défendre, avertir, empêcher, et que le mien daigne conseiller, suggérer, persuader. Ce pauvre Socrate n’avait qu’un Démon prohibiteur; le mien est un grand affirmateur, le mien est un Démon d’action, ou Démon de combat.
     Or, sa voix me chuchotait ceci: «Celui-là seul est l’égal d’un autre, qui le prouve, et celui-là seul est digne de la liberté, qui sait la conquérir.»
     Immédiatement, je sautai sur mon mendiant. D’un seul coup de poing, je lui bouchai un œil, qui devint, en une seconde, gros comme une balle. Je cassai un de mes ongles à lui briser deux dents, et comme je ne me sentais pas assez fort, étant né délicat et m’étant peu exercé à la boxe, pour assommer rapidement ce vieillard, je le saisis d’une main par le collet de son habit, de l’autre, je l’empoignai à la gorge, et je me mis à lui secouer vigoureusement la tête contre un mur. Je dois avouer que j’avais préalablement inspecté les environs d’un coup d’œil, et que j’avais vérifié que dans cette banlieue déserte je me trouvais, pour un assez long temps, hors de la portée de tout agent de police.
     Ayant ensuite, par un coup de pied lancé dans le dos, assez énergique pour briser les omoplates, terrassé ce sexagénaire affaibli, je me saisis d’une grosse branche d’arbre qui traînait à terre, et je le battis avec l’énergie obstinée des cuisiniers qui veulent attendrir un beefteack.
     Tout à coup, ô miracle! ô jouissance du philosophe qui vérifie l’excellence de sa théorie! je vis cette antique carcasse se retourner, se redresser avec une énergie que je n’aurais jamais soupçonnée dans une machine si singulièrement détraquée, et, avec un regard de haine qui me parut de bon augure, le malandrin décrépit se jeta sur moi, me pocha les deux yeux, me cassa quatre dents, et avec la même branche d’arbre me battit dru comme plâtre. — Par mon énergique médication, je lui avais donc rendu l’orgueil et la vie.
     Alors, je lui fis force signes pour lui faire comprendre que je considérais la discussion comme finie, et me relevant avec la satisfaction d’un sophiste du Portique, je lui dis: «Monsieur, vous êtes mon égal! veuillez me faire l’honneur de partager avec moi ma bourse; et souvenez-vous, si vous êtes réellement philanthrope, qu’il faut appliquer à tous vos confrères, quand ils vous demanderont l’aumône, la théorie que j’ai eu la douleur d’essayer sur votre dos.»
     Il m’a bien juré qu’il avait compris ma théorie, et qu’il obéirait à mes conseils.
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Charles Baudelaire: O brinquedo do pobre


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[traduzido por Alessandro Zir]

XIX

     Quero dar-lhes a ideia de um divertimento inocente. São tão poucos os jogos livres de culpa! Uma manhã em quem você levante disposto a um passeio descompromissado pelas grandes vias, encha os bolsos dessas invenções baratas (tais como o simples polichinelo de madeira, animado por um único fio, os ferreiros que batem bigorna, o cavaleiro e seu cavalo, cuja cauda é um apito) e, em frente aos cafés, ao pé das árvores, doe-os às crianças desconhecidas e pobres que vier a encontrar. Você verá os olhos delas crescerem desmesuradamente. De início, elas não ousam aceitar; duvidam da própria felicidade. Depois suas mãos agarram decididamente o presente, e elas desaparecem de vista, como gatos que, tendo aprendido a desconfiar dos homens, levam para longe o bocado de comida que lhes é dado.
     Em uma estrada, atrás da grade de um amplo jardim, ao final do qual o sol fazia brilhar imponente a brancura de um charmoso castelo, estava um menino belo e viçoso, vestido em um desses trajes campestres, que são tão garridos.
     O luxo, a despreocupação e os sinais habituais de riqueza conferem tanto charme a essas crianças que se poderia imaginar que elas provém de uma mistura diversa daquela de que são feitos os filhos das classes medíocres e pobres.
     Ao lado dele, jazia sobre o gramado um brinquedo formidável, tão viçoso quanto o dono, envernizado, dourado, vestido de púrpura, coberto de plumas e de lantejoulas. Mas o menino não se importava com seu brinquedo favorito, e eis ao que ele dava atenção:
     Do outro lado da grade, na estrada, entre cardos e urtigas, estava um outro menino, malvestido, magro, sujo de fuligem: um desses pequenos párias cuja beleza poderia ser descoberta por um expectador imparcial, que lhe limpasse da pátina repugnante da miséria, como um olho experimentado adivinha a pintura ideal sob o verniz de um fabricante de carroças.
     Através dessas barras simbólicas separando dois mundos, a estrada e o castelo, o menino pobre mostrava ao menino rico seu próprio brinquedo, que esse examinava avidamente, como se se tratasse de um objeto raro e desconhecido. Ora, esse brinquedo, que o pequeno maltrapilho irritava, agitava e sacudia dentro de uma gaiola, era um rato vivo! Os pais, sem dúvida por uma questão de economia, haviam obtido da própria vida o brinquedo.
     E as duas crianças riam, regozijando-se fraternalmente, com dentes de igual brancura.

Charles Baudelaire

Le joujou du pauvre

     Je veux donner l’idée d’un divertissement innocent. Il y a si peu d'amusements qui ne soient pas coupables!
     Quand vous sortirez le matin avec l'intention décidée de flâner sur les grandes routes, remplissez vos poches de petites inventions à 'un sol, telles que le polichinelle plat mû par un seul fil, les forgerons qui battent l'enclume, le cavalier et son cheval dont la queue est un sifflet, et le long des cabarets, au pied des arbres, faites-en hommage aux enfants inconnus et pauvres que vous rencontrerez. Vous verrez leurs yeux s'agrandir démesurément. D'abord ils n'oseront pas prendre; ils douteront de leur bonheur. Puis leurs mains agripperont vivement le cadeau, et ils s'enfuiront comme font les chats qui vont manger loin de vous le morceau que vous leur avez donné, ayant appris à se défier de l'homme.
     Sur une route, derrière la grille d'un vaste jardin, au bout duquel apparaissait la blancheur d'un joli château frappé par le soleil, se tenait un enfant beau et frais, habillé de ces vêtements de campagne si pleins de coquetterie.
     Le luxe, l'insouciance et le spectacle habituel de la richesse, rendent ces enfants-là si jolis, qu'on les croirait faits d'une autre pâte que les enfants de la médiocrité ou de la pauvreté.
     A côté de lui, gisait sur l'herbe un joujou splendide, aussi frais que son maître, verni, doré, vêtu d'une robe pourpre, et couvert de plumets et de verroteries. Mais l'enfant ne s'occupait pas de son joujou préféré, et voici ce qu'il regardait:
     De l'autre côté de la grille, sur la route, entre les chardons et les orties, il y avait un autre enfant, sale, chétif, fuligineux, un de ces marmots-parias dont un œil impartial découvrirait la beauté, si, comme l’œil du connaisseur devine une peinture idéale sous un vernis de carrossier, il le nettoyait de la répugnante patine de la misère.
     A travers ces barreaux symboliques séparant deux mondes, la grande route et le château, l'enfant pauvre montrait à l'enfant riche son propre joujou, que celui-ci examinait avidement comme un objet rare et inconnu. Or, ce joujou, que le petit souillon agaçait, agitait et secouait dans une boîte grillée, c'était un rat vivant! Les parents, par économie sans doute, avaient tiré le joujou de la vie elle-même.
     Et les deux enfants se riaient l'un à l'autre fraternellement, avec des dents d'une égale blancheur.
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

sábado, 22 de outubro de 2022

Charles Baudelaire: Os olhos dos pobres

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[traduzido por Alessandro Zir]

XXVI

     Ah! Quer saber por que hoje eu a odeio? Pois será certamente mais difícil a você entender do que a mim explicar. Você é, creio eu, o melhor exemplo que se pode encontrar de impermeabilidade feminina.
     Passamos juntos um dia inteiro, que me pareceu curto. Fizemos um ao outro a promessa de compartilhar todos os nossos pensamentos, a promessa de que nossas almas, a partir de então, formariam uma só: um sonho que, afinal, de original não tem nada, exceto que, sendo sonhado por todos os homens, não é realizado por nenhum.
     À noite, um pouco cansada, na esquina de um novo boulevard, você quis sentar-se em frente a um novo café, ainda cheio de entulho, mas já dando mostras de seus esplendores inacabados. O café luzia. O próprio gás exibia o entusiasmo de uma inauguração, e iluminava com todas as suas forças as paredes  ofuscantes de tão brancas, a superfície deslumbrante dos espelhos, o dourado das molduras, das cornijas, os pajens bochechudos arrastados pelos cães que traziam à coleira, as damas sorridentes empunhando falcões, as ninfas e as deusas carregando frutas, empadas e animais de caça sobre a cabeça, as Hebes e os Ganimedes oferecendo, de braços estendidos, a pequena ânfora de creme bavaroise ou o obelisco bicolor de sorvetes misturados; a mitologia e a história a serviço da glutonaria.
     Logo à nossa frente, na calçada, estava plantado um bravo homem, de cerca de quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazendo por uma das mãos um menino pequeno, e carregando no outro braço um serzinho frágil demais para andar por si só. Ele cumpria a função de ama, levando os filhos para tomar um ar em plena noite. Todos maltrapilhos. Os três rostos eram extraordinariamente sérios, e os seis olhos contemplavam fixamente o café novo, com a mesma admiração, em nuances que divergiam apenas pela idade.
     Os olhos do pai diziam:
      Como é belo! Como é belo! Parece que o ouro todo deste pobre mundo veio se depositar nessas paredes.
     Os olhos do menino pequeno:
      Como é belo! Como é belo! Mas é um lugar onde só podem entrar pessoas que não são como nós.
     Quanto aos olhos do menor, sua fascinação era tanta que não exprimiam senão uma alegria estúpida e profunda.
     Os compositores de canções dizem que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. A canção tinha razão naquela noite, no que diz respeito a mim. Aquela família de olhos me enternecia e, além disso, eu sentia um pouco de vergonha dos nossos copos e das nossas garrafas, maiores que nossa sede. Eu buscava, minha cara, com meu olhar também o seu, para aí ler o meu pensamento; eu mergulhava nos seus olhos tão belos e estranhamente doces, nos seus olhos verdes, habitados pelo Capricho e pela Lua, quando você me disse:
      Não suporto essa gente de olhos escancarados como porteiras! Será que você poderia pedir ao proprietário que os afastasse daqui?
     Tal é a dificuldade de entendimento, meu caro anjo, tal é a incomunicabilidade do pensamento, mesmo entre os que se amam!

Charles Baudelaire

Les yeux des pauvres

     Ah! vous voulez savoir pourquoi je vous hais aujourd’hui. Il vous sera sans doute moins facile de le comprendre qu’à moi de vous l’expliquer; car vous êtes, je crois, le plus bel exemple d’imperméabilité qui se puisse rencontrer.
     Nous avions passé ensemble une longue journée qui m’avait paru courte. Nous nous étions bien promis que toutes nos pensées nous seraient communes à l’un et à l’autre, et que nos deux âmes désormais n’en feraient plus qu’une; un rêve qui n’a rien d’original, après tout, si ce n’est que, rêvé par tous les hommes, il n’a été réalisé par aucun.
     Le soir, un peu fatiguée, vous voulûtes vous asseoir devant un café neuf qui formait le coin d’un boulevard neuf, encore tout plein de gravois et montrant déjà glorieusement ses splendeurs inachevées. Le café étincelait. Le gaz lui-même y déployait toute l’ardeur d’un début, et éclairait de toutes ses forces les murs aveuglants de blancheur, les nappes éblouissantes des miroirs, les ors des baguettes et des corniches, les pages aux joues rebondies traînés par les chiens en laisse, les dames riant au faucon perché sur leur poing, les nymphes et les déesses portant sur leur tête des fruits, des pâtés et du gibier, les Hébés et les Ganymèdes présentant à bras tendu la petite amphore à bavaroises ou l’obélisque bicolore des glaces panachées; toute l’histoire et toute la mythologie mises au service de la goinfrerie.
     Droit devant nous, sur la chaussée, était planté un brave homme d’une quarantaine d’années, au visage fatigué, à la barbe grisonnante, tenant d’une main un petit garçon et portant sur l’autre bras un petit être trop faible pour marcher. Il remplissait l’office de bonne et faisait prendre à ses enfants l’air du soir. Tous en guenilles. Ces trois visages étaient extraordinairement sérieux, et ces six yeux contemplaient fixement le café nouveau avec une admiration égale, mais nuancée diversement par l’âge.
     Les yeux du père disaient: «Que c’est beau! que c’est beau! on dirait que tout l’or du pauvre monde est venu se porter sur ces murs.» Les yeux du petit garçon: «Que c’est beau! que c’est beau! mais c’est une maison où peuvent seuls entrer les gens qui ne sont pas comme nous.» Quant aux yeux du plus petit, ils étaient trop fascinés pour exprimer autre chose qu’une joie stupide et profonde.
     Les chansonniers disent que le plaisir rend l’âme bonne et amollit le cœur. La chanson avait raison ce soir-là, relativement à moi. Non-seulement j’étais attendri par cette famille d’yeux, mais je me sentais un peu honteux de nos verres et de nos carafes, plus grands que notre soif. Je tournais mes regards vers les vôtres, cher amour, pour y lire ma pensée; je plongeais dans vos yeux si beaux et si bizarrement doux, dans vos yeux verts, habités par le Caprice et inspirés par la Lune, quand vous me dites: «Ces gens-là me sont insupportables avec leurs yeux ouverts comme des portes cochères! Ne pourriez-vous pas prier le maître du café de les éloigner d’ici?»
     Tant il est difficile de s’entendre, mon cher ange, et tant la pensée est incommunicable, même entre gens qui s’aiment!
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Charles Baudelaire: Os favores da Lua

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[traduzido por Alessandro Zir]

XXXVII

          A Lua, que é o próprio capricho, olhou pela janela você dormindo no berço e disse:
           Gosto dessa criança.
          E ela desceu languidamente a sua escadaria de nuvens e, sem fazer barulho, atravessou a vidraça. Depois ela se inclinou sobre você com a agilidade afetuosa de uma mãe, e lhe deixou sobre a face as cores dela. Desde então você tem as pupilas verdes e as bochechas muito pálidas. O tamanho bizarro alcançado pelos seus olhos vem de contemplar essa visitante; e ela lhe apertou a garganta com tanta ternura que você guarda para sempre a vontade de chorar.
          Ao mesmo tempo, se expandindo em sua alegria, a Lua tomava conta do quarto, como uma atmosfera fosfórica, como um peixe luminoso; e toda essa luz, viva, pensava e dizia:
           Você sofrerá para sempre a influência do meu beijo. Você será bela à minha maneira. Você vai amar o que eu amo e o que me ama: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o oceano imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar em que você não vai estar; o amante que você não vai conhecer; as flores monstruosas; os perfumes que fazem delirar; os gatos que desfalecem sobre os pianos e que gemem como mulheres, numa voz rouca e doce!
          “E você será amada por meus amantes; cortejada pelos meus admiradores. Você será a rainha dos homens de olhos verdes cuja garganta também apertei em minhas carícias noturnas; daqueles que amam o oceano, o oceano imenso, tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar em que eles não estão, a mulher que eles não conhecem, as flores sinistras que parecem incensórios de uma religião desconhecida, os perfumes que perturbam a vontade e os animais selvagens e voluptuosos que são os emblemas da loucura deles.”
          E é por isso, maldita criança mimada, que agora estou aqui deitado aos seus pés, buscando em você, em sua pessoa, o reflexo da temível divindade, da madrinha fatídica, da ama intoxicante de todos os lunáticos.

Charles Baudelaire

Les bienfaits de la lune

          La Lune, qui est le caprice même, regarda par la fenêtre pendant que tu dormais dans ton berceau, et se dit: «Cette enfant me plaît.»
          Et elle descendit moelleusement son escalier de nuages et passa sans bruit à travers les vitres. Puis elle s’étendit sur toi avec la tendresse souple d’une mère, et elle déposa ses couleurs sur ta face. Tes prunelles en sont restées vertes, et tes joues extraordinairement pâles. C’est en contemplant cette visiteuse que tes yeux se sont si bizarrement agrandis; et elle t’a si tendrement serrée à la gorge que tu en as gardé pour toujours l’envie de pleurer.
          Cependant, dans l’expansion de sa joie, la Lune remplissait toute la chambre comme une atmosphère phosphorique, comme un poison lumineux; et toute cette lumière vivante pensait et disait: «Tu subiras éternellement l’influence de mon baiser. Tu seras belle à ma manière. Tu aimeras ce que j’aime et ce qui m’aime: l’eau, les nuages, le silence et la nuit; la mer immense et verte; l’eau informe et multiforme; le lieu où tu ne seras pas; l’amant que tu ne connaîtras pas; les fleurs monstrueuses; les parfums qui font délirer; les chats qui se pâment sur les pianos et qui gémissent comme les femmes, d’une voix rauque et douce!
          «Et tu seras aimée de mes amants, courtisée par mes courtisans. Tu seras la reine des hommes aux yeux verts dont j’ai serré aussi la gorge dans mes caresses nocturnes; de ceux-là qui aiment la mer, la mer immense, tumultueuse et verte, l’eau informe et multiforme, le lieu où ils ne sont pas, la femme qu’ils ne connaissent pas, les fleurs sinistres qui ressemblent aux encensoirs d’une religion inconnue, les parfums qui troublent la volonté, et les animaux sauvages et voluptueux qui sont les emblèmes de leur folie.»
          Et c’est pour cela, maudite chère enfant gâtée, que je suis maintenant couché à tes pieds, cherchant dans toute ta personne le reflet de la redoutable Divinité, de la fatidique marraine, de la nourrice empoisonneuse de tous les lunatiques.
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Baudelaire: Um tipo divertido

 
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[traduzido por Alessandro Zir]

IV

          Era a explosão do ano-novo: um caos de barro e de neve, atravessado por mil carroças, cintilando de brinquedos e doces, fervilhando de cobiças e desesperos, delírio oficial de uma cidade grande feito sob medida para perturbar o cérebro do solitário mais arredio.

          Em meio a essa zoeira e barafunda, um asno trotava alerta, fustigado por um campônio armado de chicote.

          Quando o animal estava prestes a fazer a curva numa esquina, um belo senhor de luvas, sapatos reluzentes, cruelmente engravatado e que mal se mexia no seu traje todo novo inclinou-se solene diante da humilde besta e lhe disse, tirando o chapéu:

          Feliz ano-novo!

          Em seguida virou-se na direção de sabe-se quem, pleno de satisfação, como para colher os cumprimentos que lhe seriam prestados pelos amigos.

          O asno passou reto pelo belo tipo, e continuou a correr zeloso conforme lhe era exigido pelo dever.

          Quanto a mim, fui tomado de uma raiva inexprimível daquele magnífico imbecil, que me pareceu concentrar em si o verdadeiro espírito da França.

Baudelaire

Un Plaisant

          C’était l’explosion du nouvel an: chaos de boue et de neige, traversé de mille carrosses, étincelant de joujoux et de bonbons, grouillant de cupidités et de désespoirs, délire officiel d’une grande ville fait pour troubler le cerveau du solitaire le plus fort.

          Au milieu de ce tohu-bohu et de ce vacarme, un âne trottait vivement, harcelé par un malotru armé d’un fouet.

          Comme l’âne allait tourner l’angle d’un trottoir, un beau monsieur ganté, verni, cruellement cravaté et emprisonné dans des habits tout neufs, s’inclina cérémonieusement devant l’humble bête, et lui dit, en ôtant son chapeau: «Je vous la souhaite bonne et heureuse!» puis se retourna vers je ne sais quels camarades avec un air de fatuité, comme pour les prier d’ajouter leur approbation à son contentement.

          L’âne ne vit pas ce beau plaisant, et continua de courir avec zèle où l’appelait son devoir.

          Pour moi, je fus pris subitement d’une incommensurable rage contre ce magnifique imbécile, qui me parut concentrer en lui tout l’esprit de la France.
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Baudelaire: O cachorro e o frasco

 
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[traduzido por Alessandro Zir]

VIII

          Que fofo, que amado, que lindo cãozinho; venha cá cheirar este excelente perfume comprado na melhor botica da cidade.

          E o cachorro, abanando o rabo, gesto que creio ser equivalente do riso e do sorriso entre essas pobres criaturas, aproximou-se e apoiou curioso o focinho úmido na boca do frasco destampado; depois, recuando de um pulo, ainda latiu contra mim, como para reclamar.

          Ah, cachorro maldito, se eu lhe tivesse oferecido um pacote de excrementos, você o farejaria deliciado, e possivelmente o devorava. E assim, companheiro indigno da minha triste vida, descubro-te tal qual o público, a quem não convém jamais oferecer perfumes delicados, que o exasperam, mas vilezas cuidadosamente escolhidas.

Charles Baudelaire

Le Chien et le Flacon

          « Mon beau chien, mon bon chien, mon cher toutou, approchez et venez respirer un excellent parfum acheté chez le meilleur parfumeur de la ville.»

          Et le chien, en frétillant de la queue, ce qui est, je crois, chez ces pauvres êtres, le signe correspondant du rire et du sourire, s’approche et pose curieusement son nez humide sur le flacon débouché; puis, reculant soudainement avec effroi, il aboie contre moi en manière de reproche.

          « Ah! misérable chien, si je vous avais offert un paquet d’excréments, vous l’auriez flairé avec délices et peut-être dévoré. Ainsi, vous-même, indigne compagnon de ma triste vie, vous ressemblez au public, à qui il ne faut jamais présenter des parfums délicats qui l’exaspèrent, mais des ordures soigneusement choisies.»
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.