____________________
[traduzido por Alessandro Zir]
XXIII
Um jornalista filantropo me disse que a solidão faz mal ao homem; e para
apoiar sua tese ele cita, como todos os incrédulos, as palavras dos Padres da
Igreja.
Eu sei que o Demônio frequenta
de boa vontade os lugares áridos, e que o Espírito assassino e lascivo muito
espontaneamente se acende nos momentos de solidão. Mas é possível que essa
solidão não seja perigosa senão para a alma ociosa e divagante que a povoa com
suas paixões e quimeras.
Ninguém duvida que um
tagarela, cujo prazer supremo consiste em falar do alto de uma cátedra ou
tribuna, corre um grande risco de se tornar um louco furioso na ilha de Robinson.
Não exijo do meu jornalista as virtudes corajosas de Crusoé, mas peço que ele
não impute, com suas acusações, os apaixonados pela solidão e o mistério.
Há, nas nossas raças tagarelas,
indivíduos que aceitariam com menos repugnância o suplício supremo, se lhes
fosse permitido proferir, do alto do cadafalso, uma copiosa arenga, sem medo de
serem interrompidos intempestivamente pelos tambores de Santerre.
Eu não os lamento, porque suponho
que suas efusões de eloquência lhes proporcionam volúpias iguais àquelas que
outros obtêm do silêncio e do isolamento; mas eu os desprezo.
Desejo, sobretudo, que meu tão estimado jornalista
deixe-me me divertir como me aprouver.
— Você não sente nunca — pergunta-me
ele, tão fanho quanto apostólico — a necessidade de partilhar suas alegrias?
Observem a astúcia do invejoso!
Ele sabe o quanto desdenho as suas, e quer se insinuar nas minhas, o miserável
estraga-prazeres!
“O grande infortúnio de não se
aguentar ficar só!...”, escreve em alguma parte La Bruyère, como para
envergonhar aqueles que correm à multidão em busca de esquecimento, porque
temem sem dúvida não aguentar a si próprios.
“Quase todas as nossas aflições
advêm de não termos sabido ficar em nosso quarto”, afirma um outro sábio, creio
que Pascal, dirigindo-se assim, na cela do recolhimento, a todos esses alterados
que procuram a felicidade no movimento e em uma prostituição que eu poderia
chamar de fraternal, se
quisesse falar a bela língua do meu século.
La
solitude
XXIII
Un gazetier philanthrope me dit
que la solitude est mauvaise pour l'homme; et à l'appui de sa thèse, il cite,
comme tous les incrédules, des paroles des Pères de l'Eglise.
Je sais que le Démon fréquente volontiers les lieux arides, et que l'Esprit de
meurtre et de lubricité s'enflamme merveilleusement dans les solitudes. Mais il
serait possible que cette solitude ne fût dangereuse que pour l'âme oisive et
divagante qui la peuple de ses passions et de ses chimères.
Il est certain qu'un bavard, dont le suprême plaisir consiste à parler du haut
d'une chaire ou d'une tribune, risquerait fort de devenir fou furieux dans
l'île de Robinson. Je n'exige pas de mon gazetier les courageuses vertus de
Crusoé, mais je demande qu'il ne décrète pas d'accusation les amoureux de la
solitude et du mystère.
Il y a dans nos races jacassières, des individus qui accepteraient avec moins
de répugnance le supplice suprême, s'il leur était permis de faire du haut de
l'échafaud une copieuse harangue, sans craindre que les tambours de Santerre ne
leur coupassent intempestivement la parole.
Je ne les plains pas, parce
que je devine que leurs effusions oratoires leur procurent des voluptés égales
à celles que d'autres tirent du silence et du recueillement; mais je les
méprise.
Je désire surtout que mon
maudit gazetier me laisse m'amuser à ma guise. "Vous n'éprouvez donc
jamais, — me dit-il, avec un ton de nez très apostolique, — le besoin de
partager vos jouissances?" Voyez-vous le subtil envieux! Il sait que je
dédaigne les siennes, et il vient s'insinuer dans les miennes, le hideux
trouble-fête!
"Ce grand malheur de ne pouvoir être seul!..." dit quelque part La
Bruyère, comme pour faire honte à tous ceux qui courent s'oublier dans la
foule, craignant sans doute de ne pouvoir se supporter eux-mêmes.
"Presque tous nos malheurs nous viennent de n'avoir pas su rester dans
notre chambre", dit un autre sage, Pascal, je crois, rappelant ainsi dans
la cellule du recueillement tous ces affolés qui cherchent le bonheur dans le
mouvement et dans une prostitution que je pourrais appeler fraternitaire,
si je voulais parler la belle langue de mon siècle.
____________________
O Spleen de Paris: pequenos poemas
em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda
Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre
— RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 — 1867), francês e parisiense, estudou no
Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da
Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato;
considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como
um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou
profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas
obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860),
O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.



