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terça-feira, 28 de novembro de 2023

Padre Corrêa de Almeida: Agradecimento


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Eu, apesar de ser do sexo feio,
por obséquio recebo a Mensageira,
revista literária, que me veio
causar uma surpresa verdadeira.

As produções lindíssimas, que leio,
abonam muita e muita Brasileira,
às quais dedico um simples galanteio,
falando-lhes assim desta maneira:

Obedecendo à Igreja, Santa Madre,
celibatário e macambúzio padre
alegrias domésticas não logra.

Porém eu (a consciência m’o exigia)
fiz a defesa e fiz a apologia
da injuriada e respeitável sogra.*

Barbacena, 9 de Dezembro de 1897.
Padre Corrêa de Almeida


* Nota da edição: Veja-se a página 120 das Produções da caducidade [1896].
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; José Joaquim Correia de Almeida (1820 1905), mineiro de Barbacena, foi professor de latim e poeta satírico; presbítero secular (padre), ordenado em 1844, Correia de Almeida logo teve as ordens sacerdotais cassadas por uma vez ter revelado, em poemas, coisas de sabor cômico que uma beata lhe confidenciou no segredo do confessionário; suas obras: Satyras, epigramas e outras poesias (1ª edição em 1854), A república dos tolos — dois volumes (1881 e 1887), Sonetos e sonetinhos (1884), Sonetos e sonetinhos — 2º volume (1887), Sensaborias métricas — 2 volumes (1890 e 1892), Decrepitudes metromaníacas (1894), Produções da caducidade (1896), Puerilidades de um macróbio (1898), entre outros.

sábado, 9 de setembro de 2023

Padre Correia de Almeida: Ele ou Ela?


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Da Mensageira, Revista
dada à luz na Paulicéia,
uma questão ponho à vista,
e não é theodicéia.
As eruditas senhoras
que ilustram a Mensageira
certamente são credoras
de saudação lisonjeira.
Eu, portanto, mui sincero
as cumprimento e saúdo;
no acolhimento, que espero,
estribo-me e não me iludo.
E conto que elas me escutem
atentas, benevolentes;
pois casos que se discutem
não se topam indolentes.
Vou falar das criaturas
que povoam este globo,
quer boas, quer más figuras,
homem, mulher, loba ou lobo.
A preferência dos sexos
é o ponto discutível,
e eu, sem rodeios complexos,
direi qual o preferível.
Que é mais garboso o cavalo
do que sua companheira
não é preciso prová-lo
nem há aí quem o requeira.
A mais formosa vitela,
de mais luzidio couro,
de ser desenhada em tela
é menos digna que um touro.
Se em crista, em cores, em cauda
o galo vence a galinha,
para que melhor se aplauda,
o paralelo se alinha.
Se o passarinho bem canta,
fica sabido que é macho,
nem mais questão se levanta,
pois motivos lhe não acho.
Se o peru todo enfunado
no brio se conceitua,
não tem crédito abonado
a cabisbaixa perua.
Vai sendo dito e redito,
e a fama não corre, voa,
que um pavão é tão bonito,
quanto é feia uma pavoa.
Não ser o pato vaidoso,
comparado com a pata,
caso é assaz duvidoso,
e que não se desempata.
Incapaz de aleivosia,
se discorro desta sorte,
não é porque primazia
queira dar ao sexo forte.
Longe mim tal intento,
nesta medalha há reverso,
e demonstrá-lo é o que tento
neste meu prosaico verso.
O meu intuito é discreto,
não sei jogar por tabela
e aceito como decreto
o parecer de uma bela.
Sem timidez nem fraqueza,
pois que nenhuma é medrosa,
cada uma com franqueza
exprima-se em verso ou prosa.
Declare a mais erudita,
assim em forma de esboço,
se acha a moça mais bonita,
ou se é mais bonito o moço.
Com a candura de um anjo,
cujas vistas não são baças,
encare bem um marmanjo,
olhe bem para um barbaças.
E nesta questão pendente,
se ser franca bem o pode,
fotografe um pretendente,
figurino de bigode.
Merece fotografia,
e menção em treva ou copla!
A mão ele nunca enfia,
Por ser maior que a manopla!
E quanto ao pé, não falemos,
nem o castelo se arrase!
Descende dos Polyphemos,
a julgar-se pela base!
Raciocinando com jeito,
e dando o seu a seu dono,
veja se um outro sujeito
não escapou de ser mono.
Repare se o mais janota,
que é besouro quando canta,
não tem um nó que se nota,
e lhe faz grossa a garganta.
Diga tudo quanto saiba,
ajuste o direito ao fato,
e, ainda que bem não caiba,
a execução eu lhe acato.
Se as razões que há pró e contra
com restrições eu lhe aplaudo,
a incerteza que se encontra
exige de mim um laudo.
Não dou muito apreço às raças
em cujo instinto há fereza,
para não fazer pirraças
ao primor da natureza.
E exponho, enfim, o meu voto,
que pouco influi no libelo:
O sexo que é mais devoto
É sem dúvida o mais belo.

Barbacena, 24 de Fever[eiro] de 1898.
P. Corrêa de Almeida

[A Mensageira — São Paulo,
15 de março de 1898 — Ano I, nº II]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; José Joaquim Correia de Almeida (1820 1905), mineiro de Barbacena, foi professor de latim e poeta satírico; presbítero secular (padre), ordenado em 1844, Correia de Almeida logo teve as ordens sacerdotais cassadas por uma vez ter revelado, em poemas, coisas de sabor cômico que uma beata lhe confidenciou no segredo do confessionário; suas obras: Satyras, epigramas e outras poesias (1ª edição em 1854), A república dos tolos — dois volumes (1881 e 1887), Sonetos e sonetinhos (1884), Sonetos e sonetinhos — 2º volume (1887), Sensaborias métricas — 2 volumes (1890 e 1892), Decrepitudes metromaníacas (1894), Produções da caducidade (1896), Puerilidades de um macróbio (1898), entre outros.

domingo, 5 de dezembro de 2021

José Joaquim Correia de Almeida: In medio stat virtus

 
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Governou a república o soldado,
e governa a república o paisano;
o supremo poder tem funcionado
do modo mais feroz ou mais humano.

Depois de assim ter sido revezado
que será de hoje a pouco mais de um ano?
Deverá ser eleito algum togado?
Deverá ser eleito um miliciano?

Para que se não dê desgosto às partes,
pode, sem se empregar as malas artes,
salvar-se a das mais justas ambições.

É o melhor dos alvitres que se eleja
um General Civil, que então se veja
de espada e de casaca e de calções.

(Sátiras, epigramas e outras poesias [1982])

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversos autores], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; José Joaquim Correia de Almeida (1820 1905), mineiro de Barbacena, ordenou-se presbítero secular (padre) no Rio de Janeiro, foi professor de latim e poeta satírico; ordenado em 1844, Correia de Almeida logo teve as ordens sacerdotais cassadas por uma vez ter revelado, em poemas, coisas de sabor cômico que uma beata lhe confidenciou no segredo do confessionário; obras: Satyras, epigrammas e outras poesias (1ª edição em 1854), A república dos tolos — dois volumes (1881 e 1887), Sonetos e sonetinhos (1884), Sonetos e sonetinhos — 2º volume (1887), Sensaborias métricas — 2 volumes (1890 e 1892), Decrepitudes metromaníacas (1894), Produções da caducidade (1896), Puerilidades de um macróbio (1898), entre outros.

domingo, 19 de agosto de 2018

Corrêa de Almeida: Degeneração

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Dos homens de civismo a pura raça
No torrão brasileiro degenera;
A uberdade tornou-se tão escassa,
Que o terreno parece que não gera.

Por mais irrigação que se lhe faça,
Os frutos já não há, como os houvera;
A lavoura de outrora hoje é fumaça,
Cultivada fazenda hoje é tapera.

A indústria nacional é quase nula,
E é só de cavalheiro a que regula,
Consistindo nas trocas e baldrocas.

A terra, enfim, não é como era dantes:
Depois de produzir muitos gigantes,
Produz agora lesmas e minhocas.

Resultado de imagem para josé joaquim corrêa de almeida
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Sonetos Brasileiros — Séculos XVII ao XX, Coletânea organizada por Laudelino Freire, 1929, F. Briguiet & Cia. Editores, Rio de Janeiro — RJ; José Joaquim Corrêa de Almeida (1820 —  1905), mineiro de Barbacena, foi poeta satírico; escreveu Satyras, Epigrammas e outras poesias (1854), Sonetos e Sonetinhos (1884), Sonetos e Sonetinhos — 2º volume (1887), Sensaborias Métricas — 2 volumesDecrepitude Metromaníaca (1894), Produções da Caducidade (1896); presbítero secular (padre), Corrêa de Almeida teve suas ordens sacerdotais cassadas, por uma vez ter revelado coisas de sabor cômico que uma beata lhe confidenciou no segredo do confessionário.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Corrêa de Almeida: A Dança dos Partidos

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Os dous estragadíssimos partidos
Ocupam a seu turno a governança
E nos imos vivendo da esperança
De ver os nossos males combatidos.
           
Os quinhões são de novo repartidos,
Toda vez que se dá qualquer mudança,
Se aquele outrora encheu, este enche a pança
E os clamores do povo são latidos.

Se as velhas leis têm sido violadas,
Estando nossas crenças abaladas,
Novas leis não darão melhores normas.

Palavras eu não sei se adubam sopa,
Mas a fala do trono é que não poupa
Reformas e reformas e reformas.

José Joaquim CORREA DE ALMEIDA
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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; José Joaquim Corrêa de Almeida (1820 1905), mineiro de Barbacena, foi poeta satírico; escreveu Satyras, Epigrammas e outras poesias (1854), Sonetos e Sonetinhos (1884), Sonetos e Sonetinhos — segundo volume (1887), Sensaborias Métricas — 2 volumes, Decrepitude Metromaníaca (1894), Produções da Caducidade (1896); presbítero secular (padre), Corrêa de Almeida teve as ordens sacerdotais cassadas por uma vez ter revelado coisas de sabor cômico que uma beata lhe confidenciou no segredo do confessionário.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Corrêa de Almeida: Gente que vem da Corte para a roça (soneto)

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Gente que vem da Corte para a roça
Só acha em nossa casa porcaria;
Tudo lhe causa nojo, engulho, azia,
À mesa quando janta ou quando almoça.

Agradar-lhe não há cousa que possa,
Pois crendo que palácios acharia,
Foi hospedado em lôbrega vazia,
Misérrima e vilíssima palhoça.

À vista da sujíssima torpeza,
Pretende convencer-nos da limpeza
Exclusiva da Corte, mãe do luxo.

Não reflete, porém, que se fabrica
Com salobro suor correndo em bica
O pão que lá se leva para o buxo.

José Joaquim CORREA DE ALMEIDA
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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; José Joaquim Corrêa de Almeida (1820  1905), mineiro de Barbacena, foi poeta satírico; escreveu Satyras, Epigrammas e outras poesias (1854), Sonetos e Sonetinhos (1884), Sonetos e Sonetinhos segundo volume (1887), Sensaborias Métricas  2 volumes, Decrepitude Metromaníaca (1894), Produções da Caducidade (1896); presbítero secular (padre), teve as ordens sacerdotais cassadas por uma vez ter revelado coisas de sabor cômico lhe confidenciado por uma beata no segredo do confessionário.