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terça-feira, 1 de abril de 2025

Giosuè Carducci: Canto da manhã

 
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[traduzido por Freitas Guimarães]

Bate à tua janela o sol, e assim te fala:
Vamos! chegou o tempo em que se deve amar!
Eu conduzo comigo o aroma que trescala
A violeta, e o hino esplêndido que exala
Cada rosa, a se abrir, para a manhã saudar.
Eu trago do áureo trono excelso abril e maio,
Para te homenagear, ó flor primaveril!
E o novo ano que vai doirando com o seu raio
A frescura que tens, e evitando o desmaio
Da tua mocidade estranha e senhoril!

Diz o vento, batendo, à tua porta: quanto
Espaço eu não venci, dos montes através
E das planícies! Por sobre a terra em quebranto,
Um só concerto se ouve, apenas se ouve o canto
Que a natureza entoa, ajoelhada a teus pés!
Já chegou a estação: amemos, flor, amemos!
E os túmulos também, dentre as flores que vemos
A enfeitá-los de novo, erguem brados supremos:
Vêde o tempo que passa! amai, amai, amai!

Bate em teu coração, belo jardim florido,
Meu pensamento e diz: Pode-se entrar aqui?
Um viajante eu sou, tristonho e envelhecido...
Sentindo-me sem ar e já desfalecido
Venho pedir descanso àquela a quem servi!
Quisera receber entre estas lindas flores
Sonhando um bem que nunca ninguém sonhou:
Quisera descansar aqui das minhas dores,
Sonhar junto de ti, sonho dos meus amores,
Um bem que não gozei e já por mim passou!

(Rimas Novas [1887])

Giosuè Carducci

LII.
Mattinata

Batte a la tua finestra, e dice, il sole:
Lèvati, bella, ch’è tempo d’amare.
Io ti reco il desir de le viole
E gl’inni de le rose al risvegliare.
Dal mio splendido regno a farti omaggio
Io ti meno valletti aprile e maggio
E il giovin anno che la fuga affrena
Su ‘l fior de la tua vaga età serena

Batte a la tua finestra, e dice, il vento:
Per monti e piani ho viaggiato tanto!:
Sol uno de la terra oggi è il concento,
E de’ vivi e de’ morti un solo è il canto.
De’ nidi a i verdi boschi ecco il richiamo
Il tempo torna: amiamo, amiamo, amiamo
E il sospir de le tombe rinfiorate
Il tempo passa: amate, amate, amate.

Batte al tuo cor, ch’è un bel giardino in fiore,
Il mio pensiero, e dice:  Si può entrare?
Io sono un triste antico vïatore,
E sono stanco, e vorrei riposare.
Vorrei posar tra questi lieti mai
Un ben sognando che non fu ancor mai:
Vorrei posare in questa gioia pia
Sognando un bene che già mai non fia.

20 marzo 1882

(Rime Nuove — 1887)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857-1870] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia [1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897], Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Giosuè Carducci: Deu-lhe Dante um mover de asas divino, . . . [soneto]

 
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[traduzido por Freitas Guimarães]

Deu-lhe Dante um mover de asas divino,
E o circundou de azul e oiro esplendente:
Nele vazou Petrarca um cristalino
Rio de amor, de lágrimas, fremente.

A ambrosia mantuana e o venusino
Mel Tasso lhe infundiu no seio albente;
Fez dele Alfieri dardo adamantino
Contra servos e déspotas, veemente.

Dos rouxinóis, sob jônicos ciprestes,
Hugo as canções lhe deu quase celestes,
E de acanto o cingiu do solo amado.

Último eu não sexto arte, êxtase, pranto,
Perfume e ira renovo e aos mortos canto,
Nestes inglórios dias, desolado.

(Rimas Novas)

Giosuè Carducci

III.
Il Sonetto

Dante il mover gli diè del cherubino
E d’aere azzurro e d’or lo circonfuse:
Petrarca il pianto del suo cor, divino
Rio che pe’ versi mormora, gl’infuse.

La mantuana ambrosia e ’l venosino
Miel gl’impetrò da le tiburti muse
Torquato; e come strale adamantino
Contro i servi e’ tiranni Alfier lo schiuse.

La nota Ugo gli diè de’ rusignoli
Sotto i ionii cipressi, e de l’acanto
Cinsel fiorito a’ suoi materni soli.

Sesto io no, ma postremo, estasi e pianto
E profumo, ira ed arte, a’ miei dí soli
Memore innovo ed a i sepolcri canto.

[1870 ?]
(Rime nuove — Libro Secondo, 1887)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada”, por suas opiniões políticas junto às comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença, já aos quatorze anos, que o poeta passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Levia Gravia [1857-1870], (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia [1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição definitiva, 1880), Ça Ira (1883), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897], Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

sábado, 13 de janeiro de 2024

José María de Heredia: A Flauta


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[traduzido por Freitas Guimarães]

A tarde já chegou. Revoam pombos no ar.
Não dá nenhum encanto à paixão amorosa,
Cabreiro! a gaita com que estás a acompanhar
A água que, entre juncais, desliza sonorosa.

Deste plátano à sombra, onde viemos deitar,
A relva é mais macia. Amigo! a cabra ociosa,
Surda a seu cabritinho a fim de o desmamar,
Deixa que aos morros trepe e aos brotos busque, ansiosa.

A minha flauta de sete hastes de cicuta
Feita, unidas a cera aguda, ou grave, escuta!
Ou chore, ou gema ou cante é sempre ao meu sabor.

Vem conosco aprender a arte do deus Sileno!
Deste sagrado tubo irão pelo ar sereno,
Como aladas canções, teus suspiros de amor!

José María de Heredia

La flûte

Voici le soir. Au ciel passe un vol de pigeons.
Rien ne vaut pour charmer une amoureuse fièvre,
Ô chevrier, le son d'un pipeau sur la lèvre
Qu'accompagne un bruit frais de source entre les joncs.

A l'ombre du platane où nous nous allongeons
L'herbe est plus molle. Laisse, ami, l'errante chèvre,
Sourde aux chevrotements du chevreau qu'elle sèvre,
Escalader la roche et brouter les bourgeons.

Ma flûte, faite avec sept tiges de ciguë
Inégales que joint un peu de cire, aiguë
Ou grave, pleure, chante ou gémit à mon gré.

Viens. Nous t'enseignerons l'art divin du Silène,
Et tes soupirs d'amour, de ce tuyau sacré,
S'envoleront parmi l'harmonieuse haleine.

[Les Trophées — 1893]
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Volume VIII da coleção Antologia da Literatura Mundial, [1960], Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; José María de Heredia Girard (1842 1905), nascido em Cuba (à época, colônia espanhola), na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado para a França, estudou e bacharelou-se no colégio dos padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent, em Senlis, foi poeta, escritor e tradutor; em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde permaneceu por pouco mais de um ano, aprofundou os conhecimentos da língua e da literatura espanhola, compôs seus primeiros poemas franceses que chegaram até nós, e depois retornou para Paris França; fez parte do grupo que tinha em Leconte de Lisle um “chefe e mestre”, e do qual também participavam François Coppée, Sully Prudhomme, Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos como os poetas do Parnaso, “os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se francês, publicou Les Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi eleito membro da Academia Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal, de Paris, e organizou uma edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia é reconhecido como um dos poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção pouco abundante, mas de boa qualidade”; além da já citada publicação de Les Tropheés, deixou-nos também sua obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu para a Revue de Deux Mondes, o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol para o francês, A Verdadeira História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes, do Capitão Bernal Diaz del Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne — 3 volumes, 1877-1878).