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[traduzido por Henriqueta Lisboa]
Eu cantar, cantar, cantei;
a graça não era muita,
pois nunca por meu pesar,
fui eu menina graciosa.
Cantei como foi possível,
dando voltas e mais voltas
assim como quem não sabe
perfeitamente uma cousa.
Porém depois de mansinho
e um pouco mais alto agora,
fui soltando essas cantigas
como quem não quer a cousa.
Eu bem quisera, é verdade,
que elas fossem mais bonitas;
eu bem quisera que nelas
bailasse o sol com as pombas,
as brancas águas com a luz,
e os ares mansos com as rosas.
Que nelas claras se vissem
a espuma das verdes ondas,
do céu as brancas estrelas
da terra as plantas formosas,
as névoas de cor sombria
que lá nas montanhas voam;
os pios do triste mocho,
as campainhas que dobram
a primavera que ri,
e os passarinhos que voam.
E canta que canta, enquanto
os corações tristes choram.
Isto e ainda mais quisera
dizer com língua graciosa;
mas onde a graça me falta,
o sentimento me sobra.
Entretanto isto não basta
para explicar certas cousas
que, às vezes, por fora um canta
enquanto por dentro chora.
Não me expliquei qual quisera:
sou de pouca explicação;
se graça em cantar não tenho,
o amor da terra me afoga.
Eu cantar, cantar, cantei,
a graça não era muita,
mas que fazer — desgraçada! —
se não nasci mais graciosa?
![]() |
| Rosalía de Castro |
XXXV
Eu cantar, cantar,
cantei,
A gracia non era moita,
Que nunca (délo me pesa)
Fun eu menina graciosa.
Cantei como mal sabía
Dándolle reviravoltas,
Cal fán aqués que non
saben
Direitamente unha cousa.
Pero dempois paseniño,
Y un pouco máis alto
agora,
Fun votando as miñas
cantigas
Como quen non quer á
cousa.
Eu ben quixera, é
verdade,
Que máis boniteiras foran;
Eu ben quixera que nelas
Bailase ó sol c as
pombas,
As brandas auguas c'á luz
Y os aires mainos c'as
rosas.
Que nelas eraras se visen
A espuma d'as verdes
ondas,
Do ceu as brancas
estrelas,
Da terr'as prantas
hermosas,
As niebras de cor
sombriso
Qu' aló ñas montañas
voan;
Os berros do triste
moucho,
As campaniñas que dobran,
A primadera que ríe
y os paxariños que voan.
Canta que te canta,
mentras
Os coragóns tristes
choran.
Esto e inda máis, eu
quixera
Desir con lengua
graciosa;
Mais donde á gracia me
falta
O sentimento me sobra,
Anqu' este tampouco
abasta
Para expricar certas
cousas,
Qu' á veces por fora un
canta
Mentras que por dentro un
chora.
Non me expriquei cal
quixera
Pois son de expricansa
pouca;
Si gracia en cantar non
teño
O amor da patria m'afoga.
Eu cantar, cantar,
cantei,
A gracia non era moita,
¡Mais qué facer,
desdichada,
Si non nacín máis
graciosa!
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Antologia de Poemas para a
Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta
Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de
Janeiro — RJ; Maria Rosalía Rita de Castro (1837 — 1885), espanhola
de Santiago de Compostela — Galícia, foi escritora e poeta com inspiração na lírica
popular trovadoresca; bibliografia: Cantares Galegos (poesia, 1863), Folhas
Novas (poesia, 1880), En las Orillas del Sar (poesia, 1884), Conto Galego
(prosa, publicação póstuma, 1923); escreveu seus poemas em galego e em
castelhano.
