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sábado, 31 de dezembro de 2016

Rosalía de Castro: Cantiga

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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

Eu cantar, cantar, cantei;
a graça não era muita,
pois nunca por meu pesar,
fui eu menina graciosa.
Cantei como foi possível,
dando voltas e mais voltas
assim como quem não sabe
perfeitamente uma cousa.
Porém depois de mansinho
e um pouco mais alto agora,
fui soltando essas cantigas
como quem não quer a cousa.
Eu bem quisera, é verdade,
que elas fossem mais bonitas;
eu bem quisera que nelas
bailasse o sol com as pombas,
as brancas águas com a luz,
e os ares mansos com as rosas.
Que nelas claras se vissem
a espuma das verdes ondas,
do céu as brancas estrelas
da terra as plantas formosas,
as névoas de cor sombria
que lá nas montanhas voam;
os pios do triste mocho,
as campainhas que dobram
a primavera que ri,
e os passarinhos que voam.
E canta que canta, enquanto
os corações tristes choram.
Isto e ainda mais quisera
dizer com língua graciosa;
mas onde a graça me falta,
o sentimento me sobra.
Entretanto isto não basta
para explicar certas cousas
que, às vezes, por fora um canta
enquanto por dentro chora.
Não me expliquei qual quisera:
sou de pouca explicação;
se graça em cantar não tenho,
o amor da terra me afoga.
Eu cantar, cantar, cantei,
a graça não era muita,
mas que fazer  desgraçada!
se não nasci mais graciosa?

Rosalía de Castro

XXXV

Eu cantar, cantar, cantei,
A gracia non era moita,
Que nunca (délo me pesa)
Fun eu menina graciosa.
Cantei como mal sabía
Dándolle reviravoltas,
Cal fán aqués que non saben
Direitamente unha cousa.
Pero dempois paseniño,

Y un pouco máis alto agora,
Fun votando as miñas cantigas
Como quen non quer á cousa.
Eu ben quixera, é verdade,
Que máis boniteiras foran;

Eu ben quixera que nelas
Bailase ó sol c as pombas,
As brandas auguas c'á luz

Y os aires mainos c'as rosas.
Que nelas eraras se visen

A espuma d'as verdes ondas,
Do ceu as brancas estrelas,
Da terr'as prantas hermosas,

As niebras de cor sombriso
Qu' aló ñas montañas voan;
Os berros do triste moucho,
As campaniñas que dobran,
A primadera que ríe
y os paxariños que voan.
Canta que te canta, mentras
Os coragóns tristes choran.
Esto e inda máis, eu quixera
Desir con lengua graciosa;
Mais donde á gracia me falta
O sentimento me sobra,
Anqu' este tampouco abasta
Para expricar certas cousas,
Qu' á veces por fora un canta
Mentras que por dentro un chora.
Non me expriquei cal quixera
Pois son de expricansa pouca;
Si gracia en cantar non teño
O amor da patria m'afoga.
Eu cantar, cantar, cantei,
A gracia non era moita,
¡Mais qué facer, desdichada,
Si non nacín máis graciosa!
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Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro  RJ; Maria Rosalía Rita de Castro (1837 1885), espanhola de Santiago de Compostela Galícia, foi escritora e poeta com inspiração na lírica popular trovadoresca; bibliografia: Cantares Galegos (poesia, 1863), Folhas Novas (poesia, 1880), En las Orillas del Sar (poesia, 1884), Conto Galego (prosa, publicação póstuma, 1923); escreveu seus poemas em galego e em castelhano.