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domingo, 19 de novembro de 2017

Walcyr Carrasco: Diários na web

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               Eu andava supercurioso a respeito dos blogs. Para quem não sabe, é uma espécie de diário que alguém coloca na internet, em geral assinado por pseudônimo. Liberdade total. Alguns comentam sobre a vida. Outros revelam intimidades de arrepiar! Recentemente, um amigo me forneceu o “endereço” de seu blog. Fui ler. Lá pelas tantas, ele falava de nosso último almoço. Concluía que nossa amizade estava no fim! Liguei imediatamente:
                Eu não briguei com você, briguei?
               Esclarecemos o mal-estar. Aproveitei para saber como localizar outros blogs. Adolescentes sabem fazer isso de olhos fechados. Mas um velhusco como eu tem certa dificuldade. Descobri endereços que abrigam uma enormidade de blogs! Como uma grande biblioteca onde se pode entrar, escolher o livro e abrir. Mas é a vida real! Infinitamente verdadeira. Sou do tempo em que ainda se fazia diário com chavinha! Imaginem a chance de ler quantos quiser! Entrei no primeiro. Um adolescente contava como entrou no elevador ao mesmo tempo que a vizinha trintona. Olhou o decote. Ela retribuiu com um sorriso.
                Oi!  disse ele.
                Oi!  respondeu ela.
               Começou a conversa, com piscadas e parte a parte. O elevador parou no quarto andar, o dele. O garotão desceu enquanto a moça continuava até o décimo quarto. Ele ficou se lastimando, pensando no que mais poderia ter dito. Só isso. Um flagrante da vida real. Ri com outro, sugestivamente chamado “Hálito de Virgem”. A autora propõe uma campanha para criar nova lei. Segundo a qual todos os salões de beleza seriam obrigados a assinar revistas interessantes! Alguns são divertidos já no título, como o “Pensar enlouquece. Pense nisso”. Um rapaz adverte: “Perdi os óculos. Isso quer dizer que estou mais perigoso no trânsito”.
               São relatados todos os tipos de experiências, até as sociológicas. Uma garota foi entrevistar camelôs para entender o mundo dos excluídos. Quase caiu dura ao descobrir que o primeiro com quem falou tinha o segundo ano de faculdade de Filosofia! Mais tarde, outro lhe explicou longamente a contradição entre capital e trabalho, na melhor retórica marxista. De queixo caído, a estudante descobriu que excluída estava ela. Da realidade. Outra reage contra o mito da Cinderela. “Foi por causa dessa besta da Cinderela que acreditei em príncipe encantado!”, reclama. Em busca do tal príncipe, aos 27 anos já se casou três vezes! Uma internauta reflete: “qual é a hora certa de romper uma amizade, de terminar um amor?”
               “Emoções e Magias” oferece receitas do tipo: “Para Realizar um Desejo... pegue uma folha de papel branco e...” Achei ótimo o título sarcástico de um blog: “Viver Faz Mal à Saúde”. Fiquei tocado pela mensagem otimista de uma garota que viveu nos Estados Unidos, onde trabalhou como babá. Ao voltar, não conseguia emprego. Finalmente, comemorava um lugar como secretária. “Meu Futuro me acena sorrindo e eu aceno de volta para ele. Não tenho certeza, mas acho que estamos namorando”.
               Tal é o sucesso dos blogs que o autor de “Escrevescreve” assusta-se: “Foram mais de trezentos acessos só esta tarde. Será que foi alguma coisa que eu escrevi?”
               Saí fascinado do passeio pela web. Acredito que os  blogs são uma grande revolução. Sei de gente que tem amigos em outros estados, com quem compartilha de todas as intimidades  e haja intimidade nisso! Sem nunca terem se conhecido pessoalmente! Será uma nova forma de amizade? No futuro, todo relacionamento vai ser assim?

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Crônica Brasileira Contemporânea — Antologia de Crônicas, Organização e Apresentação de Manuel da Costa Pinto, 2005, 1a. edição, Editora Moderna, São Paulo — SP; Walcyr Rodrigues Carrasco, nascido em 1951, paulista de Bernardino de Campos, é escritor, novelista, roteirista, dramaturgo e cronista; escreveu, roteirizou e adaptou séries, minisséries e novelas nas tevês SBT  Cortina de Vidro, Fascinação , Manchete  Chica da Silva, Filhos do Sol, O Guarani  e Globo  Alma Gêmea, O Profeta, Êta Mundo Bom!, Brava Gente, Sítio do Picapau Amarelo, etc. ; para o teatro, produziu A Filha da Branca de Neve, Uma Cama entre Nós, Até que o sexo nos separe, A Mulher do Candidato, Êxtase, e outros textos; bibliografia literária: O caçador de palavras (1994), O Menino que tocou a sombra (1999), Vida de droga (2000), O Menino Narigudo (2003), O Garoto as Novela (2003), Pequenos delitos e outras crônicas (2004), Contos de Pânico (2004), A Menina que queria ser anjo (2005), A Palavra não dita (2007), Veneno digital (2013) e outros textos; recebeu premiações por suas obras; é colunista da revista Época.