____________________
II
Pelas lagunas, frio vento.
Gôndolas — mudas tumbas.
Esta noite, jovem e doente,
Sob a coluna do leão sucumbes.
Na torre, com uma canção de
chumbo,
Os gigantes dão a hora
noturna.
Na laguna lunar Marcos
mergulha
Sua iconóstase soturna.
Nas sombras das galerias dos
palácios,
À palidez da lua — passos.
Salomé, esgueirando-se,
passeia
Minha cabeça em sangue nos
seus braços.
Tudo dorme — palácios, canais,
gente.
Só o passo deslizante da
princesa
Só — sobre o peito negro — uma
cabeça
Contempla a treva em torno com
tristeza.
agosto 1909
Венеция
2
Холодный ветер от лагуны.
Гондол безмолвные гроба.
Я в эту ночь — больной и юный —
Простёрт у львиного столба.
На башне, с песнию чугунной,
Гиганты бьют полночный час.
Марк утопил в лагуне лунной
Узорный свой иконостас.
В тени дворцовой галлереи,
Чуть озарённая луной,
Таясь, проходит Саломея
С моей кровавой головой.
Всё спит — дворцы, каналы,
люди,
Лишь призрака скользящий шаг,
Лишь голова на чёрном блюде
Глядит с тоской в окрестный
мрак.
август 1909 г.
* Nota do tradutor Augusto de
Campos: O segundo, de uma série de três poemas sob esse título.
____________________
Linguaviagem — Augusto de Campos: Ensaios, Estudos [acerca] de seis poetas
selecionados & poemas traduzidos, Breve introdução e Tradução dos poemas [bilíngue],
por Augusto de Campos, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Aleksandr
Blok (1880 — 1921), russo
de São Petersburgo, estudou Direito, desistiu, transferiu-se para o departamento
eslavo-russo da Faculdade de História e Filologia (историко-филологического факультета)
da Universidade de São Petersburgo e ali se formou, foi poeta lírico, escritor,
tradutor, publicitário, dramaturgo e crítico literário; ainda estudante tornou-se
famoso como poeta simbolista; de sua biografia, consta que “aos cinco anos de idade”
iniciou-se na arte poética, aos dez anos, criou dois números da revista “Ship” (Корабль), e, de 1894 a 1897, Aleksandr
Blok e seus irmãos criaram e publicaram a revista ‘manuscrita’ “Vestnik” (Вестник), num total de 37 edições; a partir sobretudo da Revolução
de 1905, sua poesia passou a refletir profunda preocupação social; depois da Revolução
de Outubro (1917) escreveu “relativamente” pouca poesia; em 1918, seu longo poema
Os Doze (Двенадцать) provocou
acirradas polêmicas: muitos revolucionários consideraram tal obra “alheia ao verdadeiro
espírito de Outubro”, já a maioria dos seus amigos e antigos companheiros do simbolismo
passaram a ver o poeta como “um trânsfuga, um renegado”; tido “como o poeta máximo
do simbolismo russo”, ele próprio já via tal corrente como “completamente ultrapassada,
pelo menos nos últimos anos de vida”; suas obras: em poesia: До света (Ante Lucem [Antes da luz],
1898-1900), Стихи о Прекрасной Даме
(Versos sobre a bela dama, 1904-1905), Нечаянная радость e Снежная маска (O gozo
imprevisto e Máscara de neve, ambos em 1907), Земля в снегу (A terra na neve, 1908),
Ночные часы (As horas da noite, 1911), Двенадцать (Os doze, 1918), para teatro:
Балаганчик (O teatro de feira), Король на площади (O rei na praça), Незнакомка (A
desconhecida), todos de 1906, Песня Судьбы (A canção do Destino, 1908), Роза и Крест
(A rosa e a cruz, 1913), Рамзес (Ramsés, 1919) ...; nos anos 1918-1920, o poeta
foi eleito e ocupou várias funções no governo revolucionário que se iniciava, trabalhou
muito, cansou-se, talvez daí possa decorrer seu “silêncio criativo”, teve sua saúde
minada e adoeceu; na primavera de 1921, Aleksandr Blok e outro poeta pediram permissão
à burocracia do governo para buscar tratamento da saúde fora do país, na Finlândia,
e tiveram seu visto de saída negado, tal autorização só foi concedida após interferência
de outros escritores russos, mas chegou tarde; o escritor Maximo Gorky, um dos intervenientes
pró Blok, só soube do visto em 6 de agosto e, no dia seguinte, o poeta faleceu.