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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Aleksandr Blok: Veneza II *

 
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II

Pelas lagunas, frio vento.
Gôndolas mudas tumbas.
Esta noite, jovem e doente,
Sob a coluna do leão sucumbes.

Na torre, com uma canção de chumbo,
Os gigantes dão a hora noturna.
Na laguna lunar Marcos mergulha
Sua iconóstase soturna.

Nas sombras das galerias dos palácios,
À palidez da lua passos.
Salomé, esgueirando-se, passeia
Minha cabeça em sangue nos seus braços.

Tudo dorme palácios, canais, gente.
Só o passo deslizante da princesa
sobre o peito negro uma cabeça
Contempla a treva em torno com tristeza.

agosto 1909

Aleksandr Blok

Венеция

2

Холодный ветер от лагуны.
Гондол безмолвные гроба.
Я в эту ночь больной и юный
Простёрт у львиного столба.

На башне, с песнию чугунной,
Гиганты бьют полночный час.
Марк утопил в лагуне лунной
Узорный свой иконостас.

В тени дворцовой галлереи,
Чуть озарённая луной,
Таясь, проходит Саломея
С моей кровавой головой.

Всё спит дворцы, каналы, люди,
Лишь призрака скользящий шаг,
Лишь голова на чёрном блюде
Глядит с тоской в окрестный мрак.

август 1909 г.

* Nota do tradutor Augusto de Campos: O segundo, de uma série de três poemas sob esse título.
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Linguaviagem — Augusto de Campos: Ensaios, Estudos [acerca] de seis poetas selecionados & poemas traduzidos, Breve introdução e Tradução dos poemas [bilíngue], por Augusto de Campos, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Aleksandr Blok (1880 1921), russo de São Petersburgo, estudou Direito, desistiu, transferiu-se para o departamento eslavo-russo da Faculdade de História e Filologia (историко-филологического факультета) da Universidade de São Petersburgo e ali se formou, foi poeta lírico, escritor, tradutor, publicitário, dramaturgo e crítico literário; ainda estudante tornou-se famoso como poeta simbolista; de sua biografia, consta que “aos cinco anos de idade” iniciou-se na arte poética, aos dez anos, criou dois números da revista “Ship (Корабль), e, de 1894 a 1897, Aleksandr Blok e seus irmãos criaram e publicaram a revista ‘manuscrita’ “Vestnik (Вестник), num total de 37 edições; a partir sobretudo da Revolução de 1905, sua poesia passou a refletir profunda preocupação social; depois da Revolução de Outubro (1917) escreveu “relativamente” pouca poesia; em 1918, seu longo poema Os Doze (Двенадцать) provocou acirradas polêmicas: muitos revolucionários consideraram tal obra “alheia ao verdadeiro espírito de Outubro”, já a maioria dos seus amigos e antigos companheiros do simbolismo passaram a ver o poeta como “um trânsfuga, um renegado”; tido “como o poeta máximo do simbolismo russo”, ele próprio já via tal corrente como “completamente ultrapassada, pelo menos nos últimos anos de vida”; suas obras: em poesia: До света (Ante Lucem [Antes da luz], 1898-1900), Стихи о Прекрасной Даме (Versos sobre a bela dama, 1904-1905), Нечаянная радость e Снежная маска (O gozo imprevisto e Máscara de neve, ambos em 1907), Земля в снегу (A terra na neve, 1908), Ночные часы (As horas da noite, 1911), Двенадцать (Os doze, 1918), para teatro: Балаганчик (O teatro de feira), Король на площади (O rei na praça), Незнакомка (A desconhecida), todos de 1906, Песня Судьбы (A canção do Destino, 1908), Роза и Крест (A rosa e a cruz, 1913), Рамзес (Ramsés, 1919) ...; nos anos 1918-1920, o poeta foi eleito e ocupou várias funções no governo revolucionário que se iniciava, trabalhou muito, cansou-se, talvez daí possa decorrer seu “silêncio criativo”, teve sua saúde minada e adoeceu; na primavera de 1921, Aleksandr Blok e outro poeta pediram permissão à burocracia do governo para buscar tratamento da saúde fora do país, na Finlândia, e tiveram seu visto de saída negado, tal autorização só foi concedida após interferência de outros escritores russos, mas chegou tarde; o escritor Maximo Gorky, um dos intervenientes pró Blok, só soube do visto em 6 de agosto e, no dia seguinte, o poeta faleceu.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Aleksandr Blok: Noite. Fanal. Rua. Farmácia. . . .

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Noite. Fanal. Rua. Farmácia.
Uma luz estúpida e baça.
Ainda que vivas outra vida,
Tudo é igual. Não há saída.

Morres e tudo recomeça,
E se repete a mesma peça:
Noite rugas de gelo no canal.
Farmácia. Rua. Fanal.

[10 de outubro de] 1912

(Do Ciclo “Dança da Morte”)

Aleksandr Blok

Пляски смерти

Ночь, улица, фонарь, аптека,
Бессмысленный и тусклый свет.
Живи еще хоть четверть века
Всё будет так. Исхода нет.

Умрешь начнешь опять сначала
И повторится всё, как встарь:
Ночь, ледяная рябь канала,
Аптека, улица, фонарь.

10 октября 1912
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Poesia Russa Moderna [várias autorias] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Aleksandr Blok (1880 1921), russo de São Petersburgo, estudou Direito, desistiu, transferiu-se para o departamento eslavo-russo da Faculdade de História e Filologia (историко-филологического факультета) da Universidade de São Petersburgo e ali se formou, foi poeta lírico, escritor, tradutor, publicitário, dramaturgo e crítico literário; ainda estudante tornou-se famoso como poeta simbolista; de sua biografia, consta que “aos cinco anos de idade” iniciou-se na arte poética, aos dez anos, criou dois números da revista “Ship (Корабль), e, de 1894 a 1897, Aleksandr Blok e seus irmãos criaram e publicaram a revista ‘manuscrita’ “Vestnik (Вестник), num total de 37 edições; a partir sobretudo da Revolução de 1905, sua poesia passou a refletir profunda preocupação social; depois da Revolução de Outubro (1917) escreveu “relativamente” pouca poesia; em 1918, seu longo poema Os Doze (Двенадцать) provocou acirradas polêmicas: muitos revolucionários consideraram tal obra “alheia ao verdadeiro espírito de Outubro”, já a maioria dos seus amigos e antigos companheiros do simbolismo passaram a ver o poeta como “um trânsfuga, um renegado”; tido “como o poeta máximo do simbolismo russo”, ele próprio já via tal corrente como “completamente ultrapassada, pelo menos nos últimos anos de vida”; suas obras: em poesia: До света (Ante Lucem [Antes da luz], 1898-1900), Стихи о Прекрасной Даме (Versos sobre a bela dama, 1904-1905), Нечаянная радость e Снежная маска (O gozo imprevisto e Máscara de neve, ambos em 1907), Земля в снегу (A terra na neve, 1908), Ночные часы (As horas da noite, 1911), Двенадцать (Os doze, 1918), para teatro: Балаганчик (O teatro de feira), Король на площади (O rei na praça), Незнакомка (A desconhecida), todos de 1906, Песня Судьбы (A canção do Destino, 1908), Роза и Крест (A rosa e a cruz, 1913), Рамзес (Ramsés, 1919) ...; nos anos 1918-1920, o poeta foi eleito e ocupou várias funções no governo revolucionário que se iniciava, trabalhou muito, cansou-se, talvez daí possa decorrer seu “silêncio criativo”, teve sua saúde minada e adoeceu; na primavera de 1921, Aleksandr Blok e outro poeta pediram permissão à burocracia do governo para buscar tratamento da saúde fora do país, na Finlândia, e tiveram seu visto de saída negado, tal autorização só foi concedida após interferência de outros escritores russos, mas chegou tarde; o escritor Maximo Gorky, um dos intervenientes pró Blok, só soube do visto em 6 de agosto e, no dia seguinte, o poeta faleceu.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Anna Akhmátova: Eu visitei o poeta

 
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[traduzido por Lauro Machado Coelho]

Para Aleksandr Blok

Eu visitei o poeta
ao meio-dia em ponto. Domingo.
Quietude no amplo quarto
e, fora das janelas, o frio

e um sol cor de amoras silvestres,
envolto em névoa hirsuta e azulada...
Com que olhar aguçado o taciturno
anfitrião olhava para mim!

Tinha olhos daquele tipo
de que a gente nunca se esquece;
melhor seria, cuidadosa,
eu não devolver seu olhar.

Mas me lembrarei sempre da conversa,
do meio-dia nevoento, domingo,
naquela casa alta e cinzenta,
junto aos portões do Nevá para o mar.

Janeiro de 1914

Anna Akhmátova

Я пришла к поэту в гости...

Александру Блоку

Я пришла к поэту в гости.
Ровно полдень. Воскресенье.
Тихо в комнате просторной,
А за окнами мороз.

И малиновое солнце
Над лохматым сизым дымом...
Как хозяин молчаливый
Ясно смотрит на меня!

У него глаза такие,
Что запомнить каждый должен,
Мне же лучше, осторожной,
В них и вовсе не глядеть.

Но запомнится беседа,
Дымный полдень, воскресенье
В доме сером и высоком
У морских ворот Невы.

Январь 1914
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Antologia Poética: Anna Akhmátova, Seleção, Tradução do russo, Apresentação e Notas de Lauro Machado Coelho, Coleção L&PM Pocket, volume 751, 1ª edição em fevereiro de 2009 e reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ou Anna Andrêievna Gorienko, ucraniana nascida num subúrbio de Odessa, Bolshôi Fontán, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; escreveu seus primeiros versos no inverno de 1905, aos dezesseis anos; participou da criação do Tsékh Poétov (Oficina dos Poetas) e do Acmeísmo movimento literário de reação ao Simbolismo [escola moscovita, da qual faziam parte os poetas Vladímir Maiakóvski e Velimír Khlébnikov, além de Aleksandr Blok], publicou seus poemas nas revistas petersburguesas Apollon e Guiperbória; suas obras: Вечер (Noite, 1912), Чётки (Rosário ou, literalmente, Contas, 1914), Белая Стая (Revoada Branca, 1917), Podorójnik (Tanchagem, ou Capim, 1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Реквием — поэма (Réquiem poemas, 1963), Бег Времени (O voo do tempo, 1965), e outros títulos, além de reedições; a poetisa, que optou por nunca sair da então União Soviética, aliás, que sempre chamou de Rússia, jamais quis emigrar, sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; nos períodos mais difíceis de sua vida social e literária, embora continuasse a produzir poemas, traduziu obras de Victor Hugo, Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi e “realizou trabalhos acadêmicos sobre Pushkin e Dostoiévski; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Aleksandr Blok: Veneza III *

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

III

O barulho da vida já não dura.
A maré de inquietudes se quebranta.
E no veludo negro o vento canta
Minha vida futura.

Talvez despertarei noutro lugar,
Quem sabe nesta terra entristecida,
E algumas vezes hei de suspirar
Pensando em sonho nesta vida?

Mercador, padre, arrais, neto de um doge,
Quem me fará viver? Que criatura
Há de forjar com minha mãe futura
Na noite escura a vida que me foge?

Quem sabe até, ao escutar o canto
Da jovem veneziana, comovido,
O meu futuro pai por entre o encanto
Da canção já me tenha pressentido?

Quem sabe em algum século vindouro
A mim, criança, a sorte me consente
Abrir as pálpebras, tremulamente,
Junto à coluna do leão de ouro?

Mãe, o que canta este áfono instrumento?
Talvez a fantasia já te embale
E me protejas com teu santo xale
Da laguna e do vento?

Não! O que é, o que foi tudo está vivo!
Fantasias, visões, ideias tudo!
A onda do oceano recidivo
As despeja na noite de veludo!

26 de agosto de 1909

Aleksandr Blok

Венеция

3

Слабеет жизни гул упорный.
Уходит вспять прилив забот.
И некий ветр сквозь бархат чёрный
О жизни будущей поёт.

Очнусь ли я в другой отчизне,
Не в этой сумрачной стране?
И памятью об этой жизни
Вздохну ль когда-нибудь во сне?

Кто даст мне жизнь? Потомок дожа,
Купец, рыбак, иль иерей
В грядущем мраке делит ложе
С грядущей матерью моей?

Быть может, венецейской девы
Канцоной нежной слух пленя,
Отец грядущий сквозь напевы
Уже предчувствует меня?

И неужель в грядущем веке
Младенцу мне — велит судьба
Впервые дрогнувшие веки
Открыть у львиного столба?

Мать, что поют глухие струны?
Уж ты мечтаешь, может быть,
Меня от ветра, от лагуны
Священной шалью оградить?

Нет! Всё, что есть, что было, живо!
Мечты, виденья, думы прочь!
Волна возвратного прилива
Бросает в бархатную ночь!

26 августа 1909

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado que este poema Veneza compõe “uma série de três poemas sob esse título. [Augusto de Campos, em Linguaviagem — 1987]
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poesia da recusa (várias autorias) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços Biobibliográficos, Introdução e Notas de Augusto de Campos, Coleção Signo 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Aleksandr Blok (1880 1921), russo de São Petersburgo, estudou Direito, desistiu, transferiu-se para o departamento eslavo-russo da Faculdade de História e Filologia (историко-филологического факультета) da Universidade de São Petersburgo e ali se formou, foi poeta lírico, escritor, tradutor, publicitário, dramaturgo e crítico literário; ainda estudante tornou-se famoso como poeta simbolista; de sua biografia, consta que “aos cinco anos de idade” iniciou-se na arte poética, aos dez anos, criou dois números da revista “Ship (Корабль), e, de 1894 a 1897, Aleksandr Blok e seus irmãos criaram e publicaram a revista ‘manuscrita’ “Vestnik (Вестник), num total de 37 edições; a partir sobretudo da Revolução de 1905, sua poesia passou a refletir profunda preocupação social; depois da Revolução de Outubro (1917) escreveu “relativamente” pouca poesia; em 1918, seu longo poema Os Doze (Двенадцать) provocou acirradas polêmicas: muitos revolucionários consideraram tal obra “alheia ao verdadeiro espírito de Outubro”, já a maioria dos seus amigos e antigos companheiros do simbolismo passaram a ver o poeta como “um trânsfuga, um renegado”; tido “como o poeta máximo do simbolismo russo”, ele próprio já via tal corrente como “completamente ultrapassada, pelo menos nos últimos anos de vida”; suas obras: em poesia: До света (Ante Lucem [Antes da luz], 1898-1900), Стихи о Прекрасной Даме (Versos sobre a bela dama, 1904-1905), Нечаянная радость e Снежная маска (O gozo imprevisto e Máscara de neve, ambos em 1907), Земля в снегу (A terra na neve, 1908), Ночные часы (As horas da noite, 1911), Двенадцать (Os doze, 1918), para teatro: Балаганчик (O teatro de feira), Король на площади (O rei na praça), Незнакомка (A desconhecida), todos de 1906, Песня Судьбы (A canção do Destino, 1908), Роза и Крест (A rosa e a cruz, 1913), Рамзес (Ramsés, 1919) ...; nos anos 1918-1920, o poeta foi eleito e ocupou várias funções no governo revolucionário que se iniciava, trabalhou muito, cansou-se, talvez daí possa decorrer seu “silêncio criativo”, teve sua saúde minada e adoeceu; na primavera de 1921, Aleksandr Blok e outro poeta pediram permissão à burocracia do governo para buscar tratamento da saúde fora do país, na Finlândia, e tiveram seu visto de saída negado, tal autorização só foi concedida após interferência de outros escritores russos, mas chegou tarde; o escritor Maximo Gorky, um dos intervenientes pró Blok, só soube do visto em 6 de agosto e, no dia seguinte, o poeta faleceu.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Aleksandr Blok: Cleópatra

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

O museu triste da rainha
Há um, dois, três anos já se abriu.
Bêbada e louca a turba ainda se apinha…
Ela espera no túmulo sombrio.

Jaz na sinistra caixa
De vidro, nem morta nem viva.
Sobre ela a multidão saliva
Palavras torpes em voz baixa.

Ela se estende preguiçosamente
No sono eterno a que se recolhera…
Lenta e suave, uma serpente
Morde o peito de cera.

Eu mesmo, fútil e perverso,
Com olheiras de anil,
Vim ver o lúgubre perfil
Na cera fria imerso.

Todos te contemplamos neste instante.
Se essa tumba não fosse uma mentira
Eu ouviria, outra vez, arrogante,
Teu lábio putrefato que suspira:

“Dai-me incenso. Esparzi-me flores.
Em eras anteriores
Fui rainha do Egito. Hoje sou só
Cera. Apodrecimento. Pó.”

“Rainha! O que há em ti que me fascina?
No Egito, como escravo, eu te adorei.
Agora a sorte me destina
A ser poeta e rei.

Da tua tumba não vês que já imperas
Na Rússia como em Roma? Não vês, mais,
Que eu e César, em séculos e eras,
Ante o destino seremos iguais?”

Emudeço. Contemplo. Ela não muda.
Só o peito pulsa, quase
Respirando entre a gaze,
E ouço uma fala muda:

“Outrora eu suscitei paixões e lutas.
O que suscito agora?
Um poeta bêbado que chora
E o riso bêbado das prostitutas.”

Aleksandr Blok

Клеопатра

Открыт паноптикум печальный
Один, другой и третий год.
Толпою пьяной и нахальной
Спешим... В гробу царица ждет.

Она лежит в гробу стеклянном,
И не мертва и не жива,
А люди шепчут неустанно
О ней бесстыдные слова.

Она раскинулась лениво
Навек забыть, навек уснуть...
Змея легко, неторопливо
Ей жалит восковую грудь...

Я сам, позорный и продажный,
С кругами синими у глаз,
Пришел взглянуть на профиль важный,
На воск, открытый напоказ...

Тебя рассматривает каждый,
Но, еслиб гроб твой не был пуст,
Я услыхал бы не однажды
Надменный вздох истлевших уст:

“Кадите мне. Цветы рассыпьте.
Я в незапамятных веках
Была царицею в Египте.
Теперь  я воск. Я тлен. Я прах.”

“Царица! Я пленен тобою!
Я был в Египте лишь рабом,
А ныне суждено судьбою
Мне быть поэтом и царем!

Ты видишь ли теперь из гроба,
Что Русь, как Рим, пьяна тобой?
Что я и Цезарь  будем оба
В веках равны перед судьбой?”

Замолк. Смотрю. Она не слышит.
Но грудь колышется едва
И за прозрачной тканью дышит...
И слышу тихие слова:

“Тогда я исторгала грозы.
Теперь исторгну жгучей всех
У пьяного поэта  слезы,
У пьяной проститутки  смех.”

[16 декабря 1907]
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poesia da recusa (várias autorias) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços Biobibliográficos, Introdução e Notas de Augusto de Campos, Coleção Signo 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Aleksandr Blok (1880 1921), russo de São Petersburgo, estudou Direito, desistiu, transferiu-se para o departamento eslavo-russo da Faculdade de História e Filologia (историко-филологического факультета) da Universidade de São Petersburgo e ali se formou, foi poeta lírico, escritor, tradutor, publicitário, dramaturgo e crítico literário; ainda estudante tornou-se famoso como poeta simbolista; de sua biografia, consta que “aos cinco anos de idade” iniciou-se na arte poética, aos dez anos, criou dois números da revista “Ship (Корабль), e, de 1894 a 1897, Aleksandr Blok e seus irmãos criaram e publicaram a revista ‘manuscrita’ “Vestnik (Вестник), num total de 37 edições; a partir sobretudo da Revolução de 1905, sua poesia passou a refletir profunda preocupação social; depois da Revolução de Outubro (1917) escreveu “relativamente” pouca poesia; em 1918, seu longo poema Os Doze (Двенадцать) provocou acirradas polêmicas: muitos revolucionários consideraram tal obra “alheia ao verdadeiro espírito de Outubro”, já a maioria dos seus amigos e antigos companheiros do simbolismo passaram a ver o poeta como “um trânsfuga, um renegado”; tido “como o poeta máximo do simbolismo russo”, ele próprio já via tal corrente como “completamente ultrapassada, pelo menos nos últimos anos de vida”; suas obras: em poesia: До света (Ante Lucem [Antes da luz], 1898-1900), Стихи о Прекрасной Даме (Versos sobre a bela dama, 1904-1905), Нечаянная радость e Снежная маска (O gozo imprevisto e Máscara de neve, ambos em 1907), Земля в снегу (A terra na neve, 1908), Ночные часы (As horas da noite, 1911), Двенадцать (Os doze, 1918), para teatro: Балаганчик (O teatro de feira), Король на площади (O rei na praça), Незнакомка (A desconhecida), todos de 1906, Песня Судьбы (A canção do Destino, 1908), Роза и Крест (A rosa e a cruz, 1913), Рамзес (Ramsés, 1919) ...; nos anos 1918-1920, o poeta foi eleito e ocupou várias funções no governo revolucionário que se iniciava, trabalhou muito, cansou-se, talvez daí possa decorrer seu “silêncio criativo”, teve sua saúde minada e adoeceu; na primavera de 1921, Aleksandr Blok e outro poeta pediram permissão à burocracia do governo para buscar tratamento da saúde fora do país, na Finlândia, e tiveram seu visto de saída negado, tal autorização só foi concedida após interferência de outros escritores russos, mas chegou tarde; o escritor Maximo Gorky, um dos intervenientes pró Blok, só soube do visto em 6 de agosto e, no dia seguinte, o poeta faleceu.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Aleksandr Blok: No templo de naves escuras, . . .

 
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[traduzido por Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]

No templo de naves escuras,
Celebro um rito singelo.
Aguardo a Dama Formosura
À luz dos velários vermelhos.

À sombra das colunas altas,
Vacilo aos portais que se abrem.
E me contempla iluminada
Ela, seu sonho, sua imagem.

Acostumei-me a esta casula
Da majestosa Esposa Eterna.
Pelas cornijas vão em fuga
Delírios, sorrisos e lendas.

São meigos os círios, Sagrada!
Doce o teu rosto resplendente!
Não ouço nem som, nem palavra,
Mas sei, Dileta estás presente.

[25 de outubro] 1902


(Do ciclo Versos sobre a Bela Dama)

Aleksandr Blok

Вхожу я в темные храмы...

Вхожу я в темные храмы,
Совершаю бедный обряд.
Там жду я Прекрасной Дамы
В мерцаньи красных лампад.

В тени у высокой колонны
Дрожу от скрипа дверей.
А в лицо мне глядит, озаренный,
Только образ, лишь сон о Ней.

О, я привык к этим ризам
Величавой Вечной Жены!
Высоко бегут по карнизам
Улыбки, сказки и сны.

О, Святая, как ласковы свечи,
Как отрадны Твои черты!
Мне не слышны ни вздохи, ни речи,
Но я верю: Милая Ты.

October 25, 1902
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Poesia Russa Moderna [várias autorias] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Aleksandr Blok (1880 1921), russo de São Petersburgo, estudou Direito, desistiu, transferiu-se para o departamento eslavo-russo da Faculdade de História e Filologia (историко-филологического факультета) da Universidade de São Petersburgo e ali se formou, foi poeta lírico, escritor, tradutor, publicitário, dramaturgo e crítico literário; ainda estudante tornou-se famoso como poeta simbolista; de sua biografia, consta que “aos cinco anos de idade” iniciou-se na arte poética, aos dez anos, criou dois números da revista “Ship (Корабль), e, de 1894 a 1897, Aleksandr Blok e seus irmãos criaram e publicaram a revista ‘manuscrita’ “Vestnik (Вестник), num total de 37 edições; a partir sobretudo da Revolução de 1905, sua poesia passou a refletir profunda preocupação social; depois da Revolução de Outubro (1917) escreveu “relativamente” pouca poesia; em 1918, seu longo poema Os Doze (Двенадцать) provocou acirradas polêmicas: muitos revolucionários consideraram tal obra “alheia ao verdadeiro espírito de Outubro”, já a maioria dos seus amigos e antigos companheiros do simbolismo passaram a ver o poeta como “um trânsfuga, um renegado”; tido “como o poeta máximo do simbolismo russo”, ele próprio já via tal corrente como “completamente ultrapassada, pelo menos nos últimos anos de vida”; suas obras: em poesia: До света (Ante Lucem [Antes da luz], 1898-1900), Стихи о Прекрасной Даме (Versos sobre a bela dama, 1904-1905), Нечаянная радость e Снежная маска (O gozo imprevisto e Máscara de neve, ambos em 1907), Земля в снегу (A terra na neve, 1908), Ночные часы (As horas da noite, 1911), Двенадцать (Os doze, 1918), para teatro: Балаганчик (O teatro de feira), Король на площади (O rei na praça), Незнакомка (A desconhecida), todos de 1906, Песня Судьбы (A canção do Destino, 1908), Роза и Крест (A rosa e a cruz, 1913), Рамзес (Ramsés, 1919) ...; nos anos 1918-1920, o poeta foi eleito e ocupou várias funções no governo revolucionário que se iniciava, trabalhou muito, cansou-se, talvez daí possa decorrer seu “silêncio criativo”, teve sua saúde minada e adoeceu; na primavera de 1921, Aleksandr Blok e outro poeta pediram permissão à burocracia do governo para buscar tratamento da saúde fora do país, na Finlândia, e tiveram seu visto de saída negado, tal autorização só foi concedida após interferência de outros escritores russos, mas chegou tarde; o escritor Maximo Gorky, um dos intervenientes pró Blok, só soube do visto em 6 de agosto e, no dia seguinte, o poeta faleceu.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Aleksandr Blok: Fábrica

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[traduzido por Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]

No prédio há janelas citrinas.
E à noite quando cai a noite,
Rangem aldravas pensativas,
Homens aproximam-se afoitos.

E os portões fechados, severos;
Do muro do alto do muro,
Alguém imóvel, alguém negro
Numera os homens sem barulho.

Eu, dos meus cimos, tudo ouço:
Ele os chama, com voz de aço,
Costas curvas, sofrido esforço,
O povo aglomerado embaixo.

Eles hão de entrar à porfia,
Hão de pôr às costas o fardo.
Riso nas janelas citrinas:
Tapearam os pobres-diabos.

[24 de novembro de] 1903

Aleksandr Blok

Фабрика

В соседнем доме окна жолты.
По вечерам по вечерам
Скрипят задумчивые болты,
Подходят люди к воротам.

И глухо заперты ворота,
А на стене а на стене
Недвижный кто-то, черный кто-то
Людей считает в тишине.

Я слышу всё с моей вершины:
Он медным голосом зовет
Согнуть измученные спины
Внизу собравшийся народ.

Они войдут и разбредутся,
Навалят на спины кули.
И в желтых окнах засмеются,
Что этих нищих провели.

24 ноября 1903
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Poesia Russa Moderna [várias autorias] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Aleksandr Blok (1880 1921), russo de São Petersburgo, estudou Direito, desistiu, transferiu-se para o departamento eslavo-russo da Faculdade de História e Filologia (историко-филологического факультета) da Universidade de São Petersburgo e ali se formou, foi poeta lírico, escritor, tradutor, publicitário, dramaturgo e crítico literário; ainda estudante tornou-se famoso como poeta simbolista; de sua biografia, consta que “aos cinco anos de idade” iniciou-se na arte poética, aos dez anos, criou dois números da revista “Ship (Корабль), e, de 1894 a 1897, Aleksandr Blok e seus irmãos criaram e publicaram a revista ‘manuscrita’ “Vestnik (Вестник), num total de 37 edições; a partir sobretudo da Revolução de 1905, sua poesia passou a refletir profunda preocupação social; depois da Revolução de Outubro (1917) escreveu “relativamente” pouca poesia; em 1918, seu longo poema Os Doze (Двенадцать) provocou acirradas polêmicas: muitos revolucionários consideraram tal obra “alheia ao verdadeiro espírito de Outubro”, já a maioria dos seus amigos e antigos companheiros do simbolismo passaram a ver o poeta como “um trânsfuga, um renegado”; tido “como o poeta máximo do simbolismo russo”, ele próprio já via tal corrente como “completamente ultrapassada, pelo menos nos últimos anos de vida”; suas obras: em poesia: До света (Ante Lucem [Antes da luz], 1898-1900), Стихи о Прекрасной Даме (Versos sobre a bela dama, 1904-1905), Нечаянная радость e Снежная маска (O gozo imprevisto e Máscara de neve, ambos em 1907), Земля в снегу (A terra na neve, 1908), Ночные часы (As horas da noite, 1911), Двенадцать (Os doze, 1918), para teatro: Балаганчик (O teatro de feira), Король на площади (O rei na praça), Незнакомка (A desconhecida), todos de 1906, Песня Судьбы (A canção do Destino, 1908), Роза и Крест (A rosa e a cruz, 1913), Рамзес (Ramsés, 1919) ...; nos anos 1918-1920, o poeta foi eleito e ocupou várias funções no governo revolucionário que se iniciava, trabalhou muito, cansou-se, talvez daí possa decorrer seu “silêncio criativo”, teve sua saúde minada e adoeceu; na primavera de 1921, Aleksandr Blok e outro poeta pediram permissão à burocracia do governo para buscar tratamento da saúde fora do país, na Finlândia, e tiveram seu visto de saída negado, tal autorização só foi concedida após interferência de outros escritores russos, mas chegou tarde; o escritor Maximo Gorky, um dos intervenientes pró Blok, só soube do visto em 6 de agosto e, no dia seguinte, o poeta faleceu.