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[Transcrito do Município, nos idos anos de 1870,
sob o título 'O Povo quer mais escolas']
Diversos indivíduos estavam em um escritório de advogado, fazendo consultas.
Consultas variadas, sobre fatos diversos.
Dentre os indivíduos presentes estava um que parecia não ter pressa.
Contemplava, em pé, os livros espalhados pela estante.
Parecia ter de idade vinte anos.
Estava tão preocupado que não percebeu que o advogado havia ficado só, tendo por isso chegado a sua vez.
O advogado observou-o por algum tempo e, depois, fez-lhe a seguinte pergunta:
— O que pretende o senhor?
— Eu quero um conselho.
— Nesse caso — sente-se e fale.
O moço obedeceu, chegou-se para junto do advogado, tomou uma cadeira e disse:
— Quero que o senhor me dê uma lista daqueles livros, para eu mandar comprar.
— Pretende advogar? — perguntou rindo, o advogado.
— Não senhor. Eu quero aprender mais do que sei.
— Aprender o quê?
— Aprender, preciso saber.
— Sabe ler?
— Sei um pouco.
— Nesse caso, comece por aprender a sua língua; compre antes de qualquer livro, uma gramática.
Deu o nome do autor cuja gramática devia o cliente original comprar.
Ao sair, o moço lhe perguntou: — Quanto lhe devo pelo conselho?
— Nada.
— Obrigado, senhor.
O moço saiu. Passou ao advogado, o fato desapercebido, julgando ao moço falta de bom senso.
Passado algum tempo, o mesmo cliente apareceu e narrou-lhe o seguinte:
— Comprei a gramática, e lendo-a, logo nas primeiras páginas, encontrei: para se aprender o português, precisa-se de prática e de dicionário. Mandei comprar o dicionário, abri e reabri os dois grandes livros e fiquei mais confundido; não entendi nada. Quero que o senhor dê-me algumas lições, pode?
— Não posso, meus afazeres não permitem; há aí uma escola noturna onde o senhor pode tomar lições.
O moço alegou que não podia frequentar as escolas, morava no sítio e por isso só podia aprender, consultando.
Justou com o advogado que o ensinasse, permitindo pagar-lhe.
O advogado deu-lhe algumas explicações. O moço ficou contente e, ao retirar-se, perguntou-lhe: — Quanto lhe devo?
— Nada.
— Assim não virei mais. Quero aprender e pago-lhe. Se o senhor nada quiser pelo seu trabalho, como hei de vir aqui mais?
O advogado notou-lhe que tinha satisfação de ensiná-lo, e jamais julgaria importuno. Não queria e não devia perceber nada desse trabalho.
O moço insistiu a ponto do advogado dizer-lhe: — No fim o sr. pagará.
Mais de uma lição tem sido dada ao distinto moço, que faz um esforço sobrehumano para aprender.
O fato é verdadeiro. O moço chama-se José Rodrigues de Oliveira e mora no bairro do Guarapó, deste município.
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Itapetininga e sua
história — Antonio Galvão Júnior, Prefácio: Antonio Antunes Alves,
Graco da Silveira Santos, Juvenal Paiva Pereira e Plinio Ribeiro, 1956,
Gráfica Biblos Ltda., São Paulo — SP; Galvãozinho, ou Antonio Galvão
Júnior, itapetiningano, foi jornalista, tido como “um dos maiores repórteres
surgidos na cidade”; trabalhou inicialmente na oficina do pai, como tipógrafo, e atuou nos periódicos itapetininganos Tribuna Popular e Diário de Itapetininga,
e no Semanário, de Sorocaba.