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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Abílio Victor (Nhô Bentico): Nunca vi:

 
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Chuva braba sem trovão,
gaiola sem arçapão,
casa véia sem fogão,
padaria sem tê pão,
mamãoêro sem mamão,
quintá sujo sem picão,
nem festa sem tê rojão.
Orquestra sem rabecão,
São Pedro sem tê balão,
nem camisa sem botão.
Mulata no riberão,
lavá  rôpa sem sabão,
nem bespa sem tê ferrão.
Manguêra sem tê portão,
sobrado sem tê porão,
nem cavalo redomão
cumê mío em garrafão.
Trem de ferro sem vagão,
nem sáia sem tê cordão,
espingarda sem tê cão,
bengala com dois gastão,
tomóve sem direção,
carne assada sem limão,
guardamento sem quentão,
nem cama sem tê corchão.
Burro véio sem senão,
escola sem decurião,
nem reza sem capelão.
Casamento sem função,
u banda sem tê pistão.
Defunto de pé no chão,
nem negócio sem barcão,
u guerra sem tê canhão.
Moça linda sem batão,
i sogra cum coração...

Folhas do Mato (1938 e 1940)

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Poemas Sertanejos — Apresentação de Juvenal Paiva Pereira (reedição de Folhas do Mato — Prefácio de Manoel Cerqueira Leite, e Favas de Ingá), 1984 — Gráfica Itapetininga, Itapetininga — SP; Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato (1938, 2ª edição em 1940), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Juvenal Paiva Pereira: Abílio Victor (Nhô Bentico)

[O professor Juvenal Paiva Pereira, prefaciou Poemas Sertanejos, de Abílio Víctor ou 'Nhô Bentico', reedição de 1980. Eis abaixo sua consideração acerca do autor itapetiningano e de sua obra.]

Resultado de imagem para Carlos Fidêncio Itapetininga ontem - hoje
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                    Conheci Abílio Víctor no convívio do trabalho de tipografia, na composição do jornal O Democrata. Era um boêmio que encarava a vida, sem queixas amargas, sem azedume, sem revolta. Ao contrário,com um acentuado sorriso de leve tristeza no rosto magro e doentio.
                    Disse-me algumas vezes sentir no seu destino um colorido apagado de violeta e rosa, entre engraçado e trágico, no qual ele preferia ver mais a matriz da pilhéria, e ris sempre para o mundo com velada ironia.
                    Era poeta por dom e temperamento.
                    No labor de seu ofício havia de ter, sem dúvida, aprimorado a redação verbal pelo contato diuturno com a letra da imprensa. Poderia fazer versos em bom vernáculo. Mas detestava o linguajar gramatical prosaico.
                    É que ele vivia a poesia na sua essência; a poesia da natureza, que viceja no ambiente; e preferiu vazar na linguagem caipira a beleza de pensamentos que brotavam no seu talento poético.
                    Folhas do Mato, Favas do Ingá e Poemas Sertanejos não são simplesmente versos rimados; são um repertório de poesia autêntica; de sentimentos, idéias, imagens e emoções. em que se diria plasmada uma resignada filosofia de ternura e humanidade, de realismo, de aceitação crítica das contingências do mundo.
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Itapetininga: ontem — hoje, Carlos Fidêncio, 1986, Editora Cehon, Itapetininga — SP; Juvenal Paiva Pereira (1899 1984), paulista e itapetiningano, iniciou sua vida laboral como tipógrafo e representante comercial viajante na Tipografia Camilo Léllis; fez seus estudos primário, secundário e de normalista na antiga Escola Normal Peixoto Gomide (hoje E.E. Peixoto Gomide Itapetininga) e formou-se em Educação e Odontologia (cirurgião-dentista); foi professor de Sociologia e diretor da 'Peixoto' e professor da Escola de Farmácia e Odontologia, instituições onde estudara; colaborou em revistas e jornais, especialmente em assuntos educacionais na Revista Educação; é de sua autoria o livro Um esquema de Sociologia Geral (obra didática, 1946); foi fundador de estabelecimentos de ensino em Itapetininga e professor em escolas daquela região (Capão Bonito e Angatuba).

segunda-feira, 30 de março de 2015

Antonio Galvão Júnior: O Povo quer mais escolas

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[Transcrito do Município, nos idos anos de 1870,
sob o título 'O Povo quer mais escolas']



          Diversos indivíduos estavam em um escritório de advogado, fazendo consultas.
          Consultas variadas, sobre fatos diversos.
          Dentre os indivíduos presentes estava um que parecia não ter pressa.
          Contemplava, em pé, os livros espalhados pela estante.
          Parecia ter de idade vinte anos.
          Estava tão preocupado que não percebeu que o advogado havia ficado só, tendo por isso chegado a sua vez.
          O advogado observou-o por algum tempo e, depois, fez-lhe a seguinte pergunta:
           O que pretende o senhor?
           Eu quero um conselho.
           Nesse caso  sente-se e fale.
          O moço obedeceu, chegou-se para junto do advogado, tomou uma cadeira e disse:
           Quero que o senhor me dê uma lista daqueles livros, para eu mandar comprar.
           Pretende advogar?  perguntou rindo, o advogado.
           Não senhor. Eu quero aprender mais do que sei.
           Aprender o quê?
           Aprender, preciso saber.
           Sabe ler?
           Sei um pouco.
           Nesse caso, comece por aprender a sua língua; compre antes de qualquer livro, uma gramática.
          Deu o nome do autor cuja gramática devia o cliente original comprar.
          Ao sair, o moço lhe perguntou:  Quanto lhe devo pelo conselho?
           Nada.
          — Obrigado, senhor.
          O moço saiu. Passou ao advogado, o fato desapercebido, julgando ao moço falta de bom senso.
          Passado algum tempo, o mesmo cliente apareceu e narrou-lhe o seguinte:
           Comprei a gramática, e lendo-a, logo nas primeiras páginas, encontrei: para se aprender o português, precisa-se de prática e de dicionário. Mandei comprar o dicionário, abri e reabri os dois grandes livros e fiquei mais confundido; não entendi nada. Quero que o senhor dê-me algumas lições, pode?
           Não posso, meus afazeres não permitem; há aí uma escola noturna onde o senhor pode tomar lições.
          O moço alegou que não podia frequentar as escolas, morava no sítio e por isso só podia aprender, consultando.
          Justou com o advogado que o ensinasse, permitindo pagar-lhe.
          O advogado deu-lhe algumas explicações. O moço ficou contente e, ao retirar-se, perguntou-lhe: — Quanto lhe devo?
           Nada.
           Assim não virei mais. Quero aprender e pago-lhe. Se o senhor nada quiser pelo seu trabalho, como hei de vir aqui mais?
          O advogado notou-lhe que tinha satisfação de ensiná-lo, e jamais julgaria importuno. Não queria e não devia perceber nada desse trabalho.
          O moço insistiu a ponto do advogado dizer-lhe: — No fim o sr. pagará.
          Mais de uma lição tem sido dada ao distinto moço, que faz um esforço sobrehumano para aprender.
          O fato é verdadeiro. O moço chama-se José Rodrigues de Oliveira e mora no bairro do Guarapó, deste município.
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Itapetininga e sua história — Antonio Galvão Júnior, Prefácio: Antonio Antunes Alves, Graco da Silveira Santos, Juvenal Paiva Pereira e Plinio Ribeiro, 1956, Gráfica Biblos Ltda., São Paulo — SP; Galvãozinho, ou Antonio Galvão Júnior, itapetiningano, foi jornalista, tido como “um dos maiores repórteres surgidos na cidade”; trabalhou inicialmente na oficina do pai, como tipógrafo, e atuou nos periódicos itapetininganos Tribuna Popular e Diário de Itapetininga, e no Semanário, de Sorocaba.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Zalina Rolim: Olhar de Mãe

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Ela me disse:  "Vai, querido filho...
E, os olhos tristes, mergulham nos meus.
 "Segue do bem o luminoso trilho,
Nunca te afastes do dever  adeus..."

Parti, contendo a minha dor penosa...
E, nunca mais, um riso de ternura
Vi despontar na vastidão escura
Da minha noite fria e silenciosa.

E se alquebrado e vacilante, um dia,
 Medindo ao longe a tormentosa via 
Paro e indeciso, e o meu sofrer maldigo.

No santuário de luz de meu passado
Vejo elevar-se o vulto iluminado
De minha mãe que me contempla... e sigo.

Zalina Rolim
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Itapetininga e sua história  Antonio Galvão Júnior, Prefácio: Antonio Antunes Alves, Graco da Silveira Santos, Juvenal Paiva Pereira e Plinio Ribeiro, 1956, Gráfica Biblos Ltda., São Paulo SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; como educadora do Jardim da Infância de São Paulo, traduziu obras dos idiomas inglês e italiano e colaborou com a Revista do Jardim da Infância com traduções, adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo; são de sua autoria O Coração (1893), Livro das Crianças (1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); viveu em Itapetininga durante parte de sua vida, inicialmente acompanhando o pai, juiz de Direito que para ali fora nomeado; viveu também em São Paulo.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Abílio Víctor (Nhô Bentico): Eu vô chorá?

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Eu já fui in Mato Grosso,
fui dos lado do Ciará,
já fui no Riu de Janêro,
nas terra do Paraná,
fui do lado do Amazona
i fui nas Mina Gerá!

Namorei muitas mocinha
mais num pude me casá;
eu nem sei se sô tão feio
u sô mermo regulá,
u se tenho o quêxo torto
meio fóra do lugá;
só sei que já me chamaro
de feição de tamanduá,
por eu tê cabelo grande
i bigode de espetá...

Eu nem sei se tudo é sorte
u se passa dum azá;
mais a tár de urucubaca
nunca póde me dexá: 
arranjei u'a morena,
u'a frôr de bracujá!
fiquei lôco, apaxonado,
i tava pra mecasá;
a mãe dela, com cuidado,
os papé já foi tratá,
já tinha arranjado tudo
inté mermo os inxová,
cunvidô tudos visinho
só pramórde acumpanhá,
i, no dia do casório,
veja só o que foi se dá: 

Levantei de madrugada,
fui no riu pra me lavá;
vistí u'a camisa nova,
meu terno de diagoná,
um cularinho pertado
que quiria m'inforcá,
i vortei apilintrado
pisano c'o carcanhá...

A morena me esperava
sentadinha no sofá,
c'o vistido tudo branco
que nem fôsse um agorduá;
i eu fiquei disinxavido
num pudia nem falá...

O padrinho do casório
foi pegando os animá
i a madrinha cum geito
já feis a noiva muntá.
Era dois cavalo branco,
muito firme nos andá,
cum bão gosto apareiado
cum zarreio de metá!
Eu fiquei tudo orguioso
que nem fosse um generá
i toquei de-apar c'a noiva
que me oiava de vagá
cum zóinho tão mortêro
que fazia suspirá...

Quano foi lá no caminho,
o povo pegô gritá:
 Viva a noiva, viva o noivo
viva nóis, pra acumpanhá! 
i pegaro n'uns foguete
i começaro sortá.
O meu cavalo fogoso
começô-se veiaquiá
i saíu na desparada
que num pude segurá;
me jugô na bassoroca,
caí de perna pro zá;
fiquei tudo iscangaiado
que num pude levantá;
me levaro pra cidade
pramórde me cuncertá
i despois de cuncertado...
a noiva num quis casá!

Eu nem sei se tudo é sorte
u se passa dum azá;
mais a tar da urucubaca
nunca pôde me dexá.
Mais eu fico consolado
i tenho que consolá;
puis num é por causa disso
que dicerto, eu vô chorá...

Abílio Víctor
(Nhô Bentico)
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Poemas Sertanejos — Apresentação de Juvenal Paiva Pereira (reedição de Folhas do Mato Prefácio de Manoel Cerqueira Leite e Favas de Ingá), Gráfica Itapetininga, 1980, Itapetininga SP; este poema foi publicado originalmente em Folhas do Mato; Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato (1938, 2a. edição em 1940), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.