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sábado, 29 de agosto de 2026

Johann Wolfgang von Goethe: Lenda da ferradura

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[traduzido por Alberto Ramos]

Quando ainda obscuro e desconhecido
Nosso Senhor andava na terra
muitos discípulos o seguiam
— Que raras vezes o compreendiam;
amava doutrinar as massas
nas ruas amplas e nas praças,
pois à face dos céus a gente
fala melhor e mais livremente.
Ali, dos seus divinos lábios
fluíam os ensinamentos mais sábios;
pela parábola e pelo exemplo
faziam de cada mercado um templo.
Certa vez quando, em paz e santidade,
chegava com os seus a uma cidade,
viu qualquer coisa luzir na estrada:
era uma ferradura quebrada.
Disse a São Pedro com brandura
— “Pedro, apanha essa ferradura!”
Porém São Pedro, no momento,
tinha ocupado o pensamento
e absorto em êxtase profundo
sonhava-se o dominador do mundo,
rei, papa, ou tal que se pareça.
Aquilo enchia-lhe a cabeça;
e havia de dobrar a espinha
por uma coisa tão mesquinha?
Se fosse um cetro, uma coroa,
mas uma ferradura à toa…
E foi seguindo, distraído,
como se não tivesse ouvido.
Curvou-se o Cristo, com doçura
celeste, angélica e humilde,
e ergueu do chão a ferradura;
e quando entraram na cidade
vendeu-a em casa de um ferreiro.
Comprou cerejas com o dinheiro,
guardando-as, à sua maneira,
na manga — em falta de algibeira.
Dali saíram por outra porta.
Fora a campanha estava morta;
nem flor nem sombra; ao longe, ao perto,
era o silêncio, era o deserto,
era a desolação; ardia,
torrava, o sol do meio-dia.
Que não valia em tal secura
um simples gole de água pura!
Nosso Senhor caminha à frente.
Deixa cair discretamente,
furtivamente, uma cereja
que Pedro apanha, salvo seja,
com cabriolas de maluco.
A frutinha era mesmo o suco.
Outra cereja no caminho
atira o Mestre de mansinho,
que Pedro apanha vorazmente.
E assim por diante, não uma vez somente,
fê-lo o Senhor dobrar a espinha
tantas vezes quantas cerejas tinha.
Durou a cena um bom pedaço.
Por fim, disse o Senhor com ar prazenteiro:
Pedro, se fosses mais ligeiro
não tinhas tido este cansaço.
Quem cedo e a tempo ao pouco não se obriga,
tarde por muito menos se fadiga.

Goethe

Legende [vom Hufeisen]

Als noch, verkannt und sehr gering,
Unser Herr auf der Erde ging,
Und viele Jünger sich zu ihm fanden,
Die sehr selten sein Wort verstanden,
Liebt‘ er sich gar über die Massen,
Seinen Hof zu halten auf der Strassen,
Weil unter des Himmels Angesicht
Man immer besser und freier spricht.
Er liess sie da die höchsten Lehren
Aus seinem heiligen Munde hören;
Besonders durch Gleichnis und Exempel
Macht‘ er einen jeden Markt zum Tempel.

So schlendert‘ er in Geistes Ruh‘
Mit ihnen einst einem Städtchen zu,
Sah etwas blinken auf der Strass‘,
Das ein zerbrochen Hufeisen was.
Er sagte zu Sankt Peter drauf:
“Heb doch einmal das Eisen auf!”
Sankt Peter war nicht aufgeräumt,
Er hatte soeben im Gehen geträumt,
So was vom Regiment der Welt,
Was einem jeden wohlgefällt:
Denn im Kopf hat das keine Schranken;
Das waren so seine liebsten Gedanken.
Nun war der Fund ihm viel zu klein,
Hätte müssen Kron‘ und Zepter sein;
Aber wie sollt‘ er seinen Rücken
Nach einem halben Hufeisen bücken?
Er also sich zur Seite kehrt
Und tut, als hätt‘ er ’s nicht gehört.

Der Herr nach seiner Langmut drauf
Hebt selber das Hufeisen auf
Und tut auch weiter nicht dergleichen.
Als sie nun bald die Stadt erreichen,
Geht er vor eines Schmiedes Tür,
Nimmt von dem Mann drei Pfenning dafür.
Und als sie über den Markt nun gehen,
Sieht er daselbst schöne Kirschen stehen,
Kauft ihrer, so wenig oder so viel,
Als man für einen Dreier geben will,
Die er sodann nach seiner Art
Ruhig im Ärmel aufbewahrt.

Nun ging’s zum andern Tor hinaus,
Durch Wies‘ und Felder ohne Haus;
Auch war der Weg von Bäumen bloss,
Die Sonne schien, die Hitz‘ war gross,
So dass man viel an solcher Stätt‘
Für einen Trunk Wasser gegeben hätt‘.
Der Herr geht immer voraus vor allen,
Lässt unversehens eine Kirsche fallen.
Sankt Peter war gleich dahinter her,
Als wenn es ein goldner Apfel wär‘;
Das Beerlein schmeckte seinem Gaum.
Der Herr nach einem kleinen Raum
Ein ander Kirschlein zur Erde schickt,
Wonach Sankt Peter schnell sich bückt.
So lässt der Herr ihn seinen Rücken
Gar vielmal nach den Kirschen bücken.
Das dauert eine ganze Zeit.
Dann sprach der Herr mit Heiterkeit:
“Tätst du zur rechten Zeit dich regen,
Hättst du’s bequemer haben mögen.
Wer geringe Ding‘ wenig acht’t,
Sich um geringere Mühe macht.“

[1797]
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Goethe: A violeta

 
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[traduzido por Pedro de Almeida Moura]

Era uma vez uma violeta
Nascida numa campina,
Curvada sobre si mesma, ignorada,
Uma violeta sem par!
Veio vindo uma pastora
Linda, meiga, jovial,
De airoso passo e bom coração,
Veio vindo, veio vindo,
Contente, cantarolando...

— Ai, geme a flor, pobre de mim,
Pudesse eu ser,
A mais formosa flor do mundo,
Por um momento só!
Até que viesse o meu amor
E me colhesse e, assim colhida,
Junto ao seu peito me apertasse,
Por um momento apenas,
Por um momento só!

Veio a pastore e, desastrosa,
Não percebendo a humilde flor,
Aos pés calcou a pobrezinha.
Tombou, coitada, agonizante,
Mas, assim mesmo, se alegrava:
— Porque se morro espezinhada
Ainda assim vale morrer,
Ainda assim feliz sou eu
Calcada aos pés da bem amada.

Goethe

Das Veilchen

Ein Veilchen auf der Wiese stand,
Gebückt in sich und unbekannt,
Es war ein herzig’s Veilchen.
Da kam eine junge Schäferin
Mit leichtem Schritt und munterm Sinn
Daher, daher,
Die Wiese her, und sang.

Ach! denkt das Veilchen, wär’ ich nur
Die schönste Blume der Natur,
Ach! nur ein kleines Weilchen,
Bis mich das Liebchen abgepflückt
Und an dem Busen matt gedrückt!
Ach nur, ach nur
Ein Viertelstündchen lang!

Ach! aber ach! das Mädchen kam
Und nicht in acht das Veilchen nahm,
Ertrat’s das arme Veilchen.
Es sank und starb und freut sich noch:
Und sterb’ ich denn, so sterb ich doch
Durch sie, durch sie.
Zu ihren Füssen doch.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã [diversos autores e tradutores], Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, coleção Clássicos de Bolso nº 82128, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

domingo, 21 de junho de 2026

Geir Campos: Desamante

 
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Um pouco por fastio, um pouco por
vanglória de excelências masculinas,
abres teu galhardete nas esquinas
da Avenida ou da rua do Ouvidor...

E há sempre uma mulher em desamor
a quem as tristes frases que ruminas
parecem deleitar quanto as mais finas
trovagens do mais fino trovador.

Também de parte dela um estandarte
içado a meio, a fim de provocar-te,
chama ao torneio que ambos fingem bem

— pois do engodo, em que primas e ela prima,
o amor sai feito uma lição de esgrima
onde ninguém toca a alma de ninguém.

(Canto Provisório [Meta Lírica], 1960)

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Antologia Poética — Geir Campos, Organização e Projeto gráfico de Israel Pedrosa, + Textos ‘Cantigas de acordar mulher’, por Moacyr Félix, e ‘Geir Campos — autêntica voz poética’, por Antônio Houaiss, 2003, Léo Christiano Editorial Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Geir Nuffer Campos (1924 — 1999), nascido em São José do Calçado — ES, formado em Direção Teatral (FEFIERJ—MEC, Rio de Janeiro), mestre e doutor em Comunicação Social (UFRJ), foi piloto da marinha mercante, professor universitário, poeta, jornalista, radialista, tradutor e ativista cultural; colaborou nos periódicos cariocas O Semanário, Paratodos, Jornal de Letras, Diário Carioca, Diário de Notícias e A Noite; foi co-fundador, junto com o poeta Thiago de Mello, das Edições Hipocampo, em 1951, que revolucionaram as artes gráficas no Brasil; deixou-nos extensa obra e de grande valor; escreveu e publicou Rosa dos Rumos (poesia, 1950), Arquipélago (poesia, 1952), Coroa de Sonetos (1953), Da Profissão do Poeta (1956), Canto Claro e Poemas anteriores (1957), Operário do Canto (1959), O Gato Ladrão (teatro infantil, 1959), O Sonho de Calabar (teatro, 1959), A Verdadeira História da Cigarra e da Formiga (teatro infantil, 1960), Canto Provisório (1960), Carta aos Livreiros do Brasil (ensaio, 1960), Cantigas de acordar mulher (1964), Rúben Dário, Poeta Participante (ensaio, 1967), Édipo-Rei, de Sófocles (teatro, 1967), Metanáutica (poesia, 1970), Castro Alves ou o Canto da Esperança (teatro, 1972), Diz que sim & Diz que não, de Brecht (teatro, 1977), Canto de Peixe e Outros Cantos (1977), O Vestíbulo (conto, 1979), Tradução e Ruído na Comunicação Teatral (ensaio, 1981), Conto & Vírgula (1982), Pequeno Dicionário de Arte Poética (dicionário, 1960 e diversas outras edições), O que é Tradução (1986) e outros títulos, além de participação em antologias poético-literárias; traduziu textos de Rilke, Kafka, Daniel Defoe, Brecht, Walt Whitman etc.; recebeu premiações por sua obra.

domingo, 12 de abril de 2026

Geir Campos: Pluriamante

 
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Teu coração aberto é como um poço
— quanto mais dele tiram, mais aumenta:
se no de outros só cabe uma pessoa,
no seu cabe sete vezes setenta.

Multiplicas a vida, que se escoa,
pela aversão a qualquer morte lenta,
e assim te fazes muitas vezes moço
com tudo o que isso em flama representa.

Alto, contra a rotina rabugenta
que o padre e o juiz de paz, a lápis grosso,
riscam cercando a sorte da pessoa,

declaras o amor breve coisa boa
e provas: cada prova traz o endosso
de uma nova mulher que o experimenta.

(Canto Provisório [Meta Lírica], 1960)

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Antologia Poética — Geir Campos, Organização e Projeto gráfico de Israel Pedrosa, + Textos ‘Cantigas de acordar mulher’, por Moacyr Félix, e ‘Geir Campos — autêntica voz poética’, por Antônio Houaiss, 2003, Léo Christiano Editorial Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Geir Nuffer Campos (1924 — 1999), nascido em São José do Calçado — ES, formado em Direção Teatral (FEFIERJ—MEC, Rio de Janeiro), mestre e doutor em Comunicação Social (UFRJ), foi piloto da marinha mercante, professor universitário, poeta, jornalista, radialista, tradutor e ativista cultural; colaborou nos periódicos cariocas O Semanário, Paratodos, Jornal de Letras, Diário Carioca, Diário de Notícias e A Noite; foi co-fundador, junto com o poeta Thiago de Mello, das Edições Hipocampo, em 1951, que revolucionaram as artes gráficas no Brasil; deixou-nos extensa obra e de grande valor; escreveu e publicou Rosa dos Rumos (poesia, 1950), Arquipélago (poesia, 1952), Coroa de Sonetos (1953), Da Profissão do Poeta (1956), Canto Claro e Poemas anteriores (1957), Operário do Canto (1959), O Gato Ladrão (teatro infantil, 1959), O Sonho de Calabar (teatro, 1959), A Verdadeira História da Cigarra e da Formiga (teatro infantil, 1960), Canto Provisório (1960), Carta aos Livreiros do Brasil (ensaio, 1960), Cantigas de acordar mulher (1964), Rúben Dário, Poeta Participante (ensaio, 1967), Édipo-Rei, de Sófocles (teatro, 1967), Metanáutica (poesia, 1970), Castro Alves ou o Canto da Esperança (teatro, 1972), Diz que sim & Diz que não, de Brecht (teatro, 1977), Canto de Peixe e Outros Cantos (1977), O Vestíbulo (conto, 1979), Tradução e Ruído na Comunicação Teatral (ensaio, 1981), Conto & Vírgula (1982), Pequeno Dicionário de Arte Poética (dicionário, 1960 e diversas outras edições), O que é Tradução (1986) e outros títulos, além de participação em antologias poético-literárias; traduziu textos de Rilke, Kafka, Daniel Defoe, Brecht, Walt Whitman etc.; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Goethe: A rosinha do campo

 
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[traduzido por ‘frei’ Pedro Sinzig]

O rapaz viu florescer
No campo a rosinha,
Nova e galante a valer;
Correu, p'ra de perto a ver;
Viu-a tão lindinha.
Rosa, minha flor gentil!
Rosa mimosinha!

Disse-lhe: "Vou te apanhar,
Ó fragrante rosa!"
Ela disse: "Eu sei picar,
Que em mim sempre hás de pensar,
Na flor espinhosa!"
Rosa, minha flor gentil!
Rosa mimosinha!

E o selvagem a arrancou,
A débil rosinha!
Destemida ele o picou,
Mas, mais forte, ele a levou,
A pobre florzinha!
Rosa, minha flor gentil!
Rosa mimosinha!

Goethe

Heidenröslein

Sah ein Knab ein Röslein stehn,
Röslein auf der Heiden,
War so jung und morgenschön,
Lief er schnell, es nah zu sehn,
Sah’s mit vielen Freuden.
Röslein, Röslein, Röslein rot,
Röslein auf der Heiden.

Knabe sprach: Ich breche dich,
Röslein af der Heiden!
Röslein sprach: Ich steche dich,
Dass du ewig denkst an mich,
Und ich will’s nicht leiden.
Röslein, Röslein, Röslein rot,
Röslein auf der Heiden.

Und der wilde Knabe brach
’s Röslein auf der Heiden;
Röslein wehrte sich und stach,
Half ihm doch kein Weh und Ach,
Musst es eben Leiden.
Röslein, Röslein, Röslein rot,
Röslein auf der Heiden.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã [diversos autores e tradutores], Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, coleção Clássicos de Bolso nº 82128, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Rainer Maria Rilke: Relembrando

 
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[traduzido por Abgar Renault]

E esperas, tu esperas a só cousa
que aumentará sem fim a tua vida;
o poderoso, o raro,
o despertar das pedras,
pegos a ti voltados.

Na estante brilham fracamente
os livros pardos e dourados;
pensas em terras já viajadas,
quadros, vestes de mulheres
novamente perdidas.

Subitamente sabes: Foi assim.
Ergues-te, e à tua frente estão
de um ano extinto
a angústia e a forma e a prece.

Rainer Maria Rilke

Erinnerung

Und du wartest, erwartest das Eine
das dein Leben unendlich vermehrt;
das Mächtige, Ungemeine,
das Erwachen der Steine,
Tiefen, dir zugekehrt.

Es dämmern im Bücherständer
die Bände in Gold und Braun;
und du denkst an durchfahrene Länder,
an Bilder, an die Gewänder
wiederverloren Fraun.

Und da weisst du auf einmal: Das war es.
Du erhebst dich, und vor dir steht
eines vergangenen Jahres
Angst und Gestalt und Gebet.

(Das Buch der Bilder — 1902)
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã [diversos autores e tradutores], Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, coleção Clássicos de Bolso nº 82128, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Rainer Maria Rilke (1875 — 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), poeta e novelista, fez seus estudos na Deutsche Universität, em Praga, na Ludwig-Maximilians-Universität, em Munique, e em Berlim; como estudante, deu início ao aprendizado de literatura, história da arte e filosofia, depois mudou para Direito; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 1907—1908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (romance, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (Cartas a um Jovem Poeta, publicação póstuma, 1929) etc.; Rilke também escreveu poemas em francês e textos para apresentação dramática.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Georg Trakl: Transfiguração

 
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[traduzido por João Accioli]

Quando cai a tarde,
vem de ti um meigo rosto azul.
Um passarinho canta no tamarindeiro.

Tranquilo monge
cruza as mãos mortas,
um branco anjo aparece a Maria.

Uma noturna coroa
de violetas, trigo e purpurinas uvas
é o ano do Contemplativo.

Ante teus pés
abrem-se as covas dos mortos
quando depões a fronte entre as mãos de prata.

Silente mora
em tua boca a lua outonal,
bêbeda da música misteriosa da papoula.

— Flor azul,
vago som de pedras antigas.

Georg Trakl

Verklärung

Wenn es Abend wird,
Verlässt dich leise ein blaues Antlitz.
Ein kleiner Vogel singt im Tamarindenbaum.

Ein sanfter Mönch
Faltet die erstorbenen Hände.
Ein weisser Engel sucht Marien heim.

Ein nächtiger Kranz
Von Veilchen, Korn und purpurnen Trauben
Ist das Jahr des Schauenden.

Zu deinen Füssen
Öffnen sich die Gräber der Toten,
Wenn du die Stirne in die silbernen Hände legst.

Stille wohnt
An deinem Mund der herbstliche Mond,
Trunken von Mohnsaft dunkler Gesang;

Blaue Blume,
Die leise tönt in vergilbtem Gestein.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã [diversos autores e tradutores], Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, coleção Clássicos de Bolso nº 82128, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Georg Trakl (1887 — 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Ludwig Uhland: A filha da albergueira

 
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[traduzido por Francisco Otaviano]

Passam o Reno três mancebos, entram
        No pouso da albergueira.
“Cerveja boa e vinho bom... Mas onde
        Está a feiticeira,
A tua filha que de nós se esconde”.
“Dou-vos cerveja fresca e vinho puro:
        Minha filha está morta
Aí dentro”. Que profunda comoção!
        Da alcova abrindo a porta
Viram, os três, a moça em seu caixão.
Erguendo o véu, e as faces contemplando
        Da pálida donzela,
Disse o primeiro: “Oh quanto, neste dia,
        Virgem cândida e bela,
Se pudesses viver eu te amaria!”
Deixando o véu cair e se afastando
        Dali, disse o segundo,
Em frase que o soluço entrecortava:
        “Por que deixaste o mundo?
Há tanto tempo, ó virgem, que eu te amava!”
Retirando-lhe o véu, disse o terceiro:
        “Não... Meu amor não finda...
Beijo-te os lábios frios, com saudade...
        Amei-te, amo-te ainda,
E hei de amar-te por toda a eternidade”.

Ludwig Uhland

Der Wirtin Töchterlein

Es zogen drei Burschen wohl über den Rhein,
Bei einer Frau Wirtin, da kehrten sie ein:

»Frau Wirtin, hat Sie gut Bier und Wein?
Wo hat Sie Ihr schönes Töchterlein?«

»Mein Bier und Wein ist frisch und klar,
Mein Töchterlein liegt auf der Totenbahr'.«

Und als sie traten zur Kammer hinein,
Da lag sie in einem schwarzen Schrein.

Der erste, der schlug den Schleier zurück
Und schaute sie an mit traurigem Blick:

»Ach, lebtest du noch, du schöne Maid!
Ich würde dich lieben von dieser Zeit!«

Der zweite deckte den Schleier zu
Und kehrte sich ab und weinte dazu:

»Ach! dass du liegst auf der Totenbahr'!
Ich hab dich geliebet so manches Jahr.«

Der dritte hub ihn wieder sogleich
Und küsste sie an den Mund so bleich:

»Dich liebt ich immer, dich lieb' ich noch heut'
Und werde dich lieben in Ewigkeit.«
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã [diversos autores e tradutores], Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, coleção Clássicos de Bolso nº 82128, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Ludwig Uhland (1787 — 1862), alemão de Tübingen, à época ducado de Württemberg, fez seus estudos iniciais na Schola Anatolica, escola latina de sua cidade natal, estudou jurisprudência e formou-se em Direito na universidade local, estudioso da literatura medieval, em especial da poesia alemã e francesa antigas, foi poeta, filólogo, professor, historiador literário, advogado e político; em viagem educacional a Paris, um mês após se formar, interessado nos escritos franceses e alemães antigos, concluiu seus estudos na Bibliotèque Nationale de France (Pariser Nationalbibliothek); data de 1812 seu poema Frühlingsglaube, “provavelmente o mais conhecido”; em 1829, foi nomeado professor da língua e literatura alemã na Universität Tübingen [Universidade de Tübingen]; como político, foi eleito membro do parlamento estadual de Württemberg e da Nationalversammlung, Assembléia Nacional, com sede em Frankfurt; suas obras: Vaterländische Gedichte (coleção de poemas, 1815, com várias outras edições nas quais se incluíam novos poemas), Ernst, Herzog von Schwaben — Trauerspiel in fünf Aufzügen (Ernesto, Duque da Suábia — peça fúnebre em 5 atos, 1817), Ludwig der Baier — Schauspiel in 5 Aufzügen (Ludwig, o Bávaro — peça em 5 atos, 1819), Der Mythus von Thôr nach nordischen Quellen — Studien zur nordischen Mythologie (O Mito de Thór de acordo com fontes nórdicas — Estudos em mitologia nórdica, 1836), Sagenforschungen (Pesquisa sobre lendas, 1836) ...; consta da biografia do poeta que suas baladas se tornaram amplamente populares e que várias delas se converteram em hinos nas composições de Johannes Brahms, Franz Liszt, Felix Mendelssohn Bartholdy, Franz Schubert, Richard Strauss e mais autores da música clássica e outros músicos.