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[traduzido por Alberto Ramos]
Quando ainda obscuro e
desconhecido
Nosso Senhor andava na terra
muitos discípulos o seguiam
— Que raras vezes o compreendiam;
amava doutrinar as massas
nas ruas amplas e nas praças,
pois à face dos céus a gente
fala melhor e mais livremente.
Ali, dos seus divinos lábios
fluíam os ensinamentos mais
sábios;
pela parábola e pelo exemplo
faziam de cada mercado um
templo.
Certa vez quando, em paz e
santidade,
chegava com os seus a uma
cidade,
viu qualquer coisa luzir na
estrada:
era uma ferradura quebrada.
Disse a São Pedro com brandura
— “Pedro, apanha essa
ferradura!”
Porém São Pedro, no momento,
tinha ocupado o pensamento
e absorto em êxtase profundo
sonhava-se o dominador do
mundo,
rei, papa, ou tal que se
pareça.
Aquilo enchia-lhe a cabeça;
e havia de dobrar a espinha
por uma coisa tão mesquinha?
Se fosse um cetro, uma coroa,
mas uma ferradura à toa…
E foi seguindo, distraído,
como se não tivesse ouvido.
Curvou-se o Cristo, com doçura
celeste, angélica e humilde,
e ergueu do chão a ferradura;
e quando entraram na cidade
vendeu-a em casa de um
ferreiro.
Comprou cerejas com o
dinheiro,
guardando-as, à sua maneira,
na manga — em falta de
algibeira.
Dali saíram por outra porta.
Fora a campanha estava morta;
nem flor nem sombra; ao longe,
ao perto,
era o silêncio, era o deserto,
era a desolação; ardia,
torrava, o sol do meio-dia.
Que não valia em tal secura
um simples gole de água pura!
Nosso Senhor caminha à frente.
Deixa cair discretamente,
furtivamente, uma cereja
que Pedro apanha, salvo seja,
com cabriolas de maluco.
A frutinha era mesmo o suco.
Outra cereja no caminho
atira o Mestre de mansinho,
que Pedro apanha vorazmente.
E assim por diante, não uma
vez somente,
fê-lo o Senhor dobrar a
espinha
tantas vezes quantas cerejas
tinha.
Durou a cena um bom pedaço.
Por fim, disse o Senhor com ar
prazenteiro:
Pedro, se fosses mais ligeiro
não tinhas tido este cansaço.
Quem cedo e a tempo ao pouco
não se obriga,
tarde por muito menos se
fadiga.
Legende [vom Hufeisen]
Als noch, verkannt und sehr gering,
Unser Herr auf der Erde ging,
Und viele Jünger sich zu ihm fanden,
Die sehr selten sein Wort verstanden,
Liebt‘ er sich gar über die Massen,
Seinen Hof zu halten auf der Strassen,
Weil unter des Himmels Angesicht
Man immer besser und freier spricht.
Er liess sie da die höchsten Lehren
Aus seinem heiligen Munde hören;
Besonders durch Gleichnis und Exempel
Macht‘ er einen jeden Markt zum Tempel.
So schlendert‘ er in Geistes Ruh‘
Mit ihnen einst einem Städtchen zu,
Sah etwas blinken auf der Strass‘,
Das ein zerbrochen Hufeisen was.
Er sagte zu Sankt Peter drauf:
“Heb doch einmal das Eisen auf!”
Sankt Peter war nicht aufgeräumt,
Er hatte soeben im Gehen geträumt,
So was vom Regiment der Welt,
Was einem jeden wohlgefällt:
Denn im Kopf hat das keine Schranken;
Das waren so seine liebsten Gedanken.
Nun war der Fund ihm viel zu klein,
Hätte müssen Kron‘ und Zepter sein;
Aber wie sollt‘ er seinen Rücken
Nach einem halben Hufeisen bücken?
Er also sich zur Seite kehrt
Und tut, als hätt‘ er ’s nicht gehört.
Der Herr nach seiner Langmut drauf
Hebt selber das Hufeisen auf
Und tut auch weiter nicht dergleichen.
Als sie nun bald die Stadt erreichen,
Geht er vor eines Schmiedes Tür,
Nimmt von dem Mann drei Pfenning dafür.
Und als sie über den Markt nun gehen,
Sieht er daselbst schöne Kirschen stehen,
Kauft ihrer, so wenig oder so viel,
Als man für einen Dreier geben will,
Die er sodann nach seiner Art
Ruhig im Ärmel aufbewahrt.
Nun ging’s zum andern Tor hinaus,
Durch Wies‘ und Felder ohne Haus;
Auch war der Weg von Bäumen bloss,
Die Sonne schien, die Hitz‘ war gross,
So dass man viel an solcher Stätt‘
Für einen Trunk Wasser gegeben hätt‘.
Der Herr geht immer voraus vor allen,
Lässt unversehens eine Kirsche fallen.
Sankt Peter war gleich dahinter her,
Als wenn es ein goldner Apfel wär‘;
Das Beerlein schmeckte seinem Gaum.
Der Herr nach einem kleinen Raum
Ein ander Kirschlein zur Erde schickt,
Wonach Sankt Peter schnell sich bückt.
So lässt der Herr ihn seinen Rücken
Gar vielmal nach den Kirschen bücken.
Das dauert eine ganze Zeit.
Dann sprach der Herr mit Heiterkeit:
“Tätst du zur rechten Zeit dich regen,
Hättst du’s bequemer haben mögen.
Wer geringe Ding‘ wenig acht’t,
Sich um geringere Mühe macht.“
[1797]
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã
— Antologia de Poetas da Língua Alemã (diversos autores e tradutores), Apresentação
e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985[?], Ediouro,
Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt
am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de
múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo,
diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo;
Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras:
Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus
(1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo
(drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides
(Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien
(em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann
e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os
anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810),
Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia,
1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher
Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte
II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para
dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha,
o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe
teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven,
Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes
Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl
Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi,
Richard Wagner...