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(Livro XIV, 581—608)
[traduzido por Manuel Maria Barbosa du Bocage]
Já do piedoso Enéias a virtude
Enternecera os deuses, extinguira
Da própria Juno a malquerença idosa;
E, firme a herança do crescente Ascânio,
Repouso ao pai cabia, era já tempo
De ir lograr-se dos Céus o herói troiano.
Vênus por ele interessara os numes,
E de Jove abraçando o colo augusto:
“Pai, nunca repugnante a meus desejos,
De teu amor (lhe diz) o extremo apura,
Clementíssimo atende às preces minhas.
Meu caro Enéias, que é por mim teu neto,
Grau de nume inferior alcance ao menos,
De algum modo nos Céus meu filho admite.
Bem lhe basta uma vez entrar no reino
Onde é tudo aversão, tristeza tudo,
E haver passado por estígias ondas”.
Soou a aprovação dos deuses todos,
Nem Satúrnia ficou de aspecto imóvel,
Antes afável anuiu ao rogo.
Então lhe disse o pai: “Sois dignos ambos
Tu, e teu filho da celeste graça.
Cumpre o desejo enfim”. — Calou-se Jove.
Com vozes gratas a exultante deusa
A mercê retribui e, conduzida,
Nas auras leves pelas níveas pombas,
Desce à margem Laurente, onde serpeia
O Numício, de canas assombrado,
Levando ao mar vizinho as vítreas águas.
A linda Citeréia ordena ao rio
Que tudo o que é da morte a Enéias lave,
E em silêncio no mar depois esconda.
As ordens o deus úmido executa;
Tudo quanto é mortal extrai de Enéias,
E coa pura corrente o volve puro:
A parte só que é ótima lhe deixa.
Eis a amorosa mãe o aromatiza,
Unge de óleo divino e corpo amado,
Honra-lhe os lábios de ambrosia, e néctar,
Deus o faz, que dos povos de Quirino*
Indígete é chamado, e sobe às aras.
Aeneas’ Apotheose (XIV, 581—608)
Iamque deos omnes ipsamque
Aeneia virtus
Iunonem veteres finire coegerat iras,
cum, bene fundatis opibus crescentis Iuli,
tempestivus erat caelo Cythereius heros.
ambieratque Venus superos colloque parentis
circumfusa sui ’numquam mihi‘ dixerat ‘ullo
tempore dure pater, nunc sis mitissimus, opto,
Aeneaeque meo, qui te de
sanguine nostro
fecit avum, quamvis parvum des, optime, numen,
dummodo des aliquod! satis est inamabile regnum
adspexisse semel, Stygios semel isse per amnes.‘
adsensere dei, nec coniunx regia vultus
inmotos tenuit placatoque adnuit ore;
tum pater ‘estis’ ait ‘caelesti munere digni,
quaeque petis pro quoque
petis: cape, nata, quod optas!’
fatus erat: gaudet gratesque agit illa parenti
perque leves auras iunctis invecta columbis
litus adit Laurens, ubi tectus harundine serpit
in freta flumineis vicina Numicius undis.
hunc iubet Aeneae, quaecumque obnoxia morti,
abluere et tacito deferre sub aequora cursu;
corniger exsequitur Veneris mandata suisque,
quicquid in Aenea fuerat mortale, repurgat
et respersit aquis; pars optima restitit illi.
lustratum genetrix divino corpus odore
unxit et ambrosia cum dulci nectare mixta
contigit os fecitque deum, quem turba Quirini
nuncupat Indigetem temploque arisque recepit.
* Nota do tradutor Bocage: Quirino: deus do país.
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Ovídio: Metamorfoses, excertos traduzidos por Manuel Marie Barbosa du Bocage,
Coleção A Obra Prima de Cada Autor nº 129, 2ª edição, 2013, Editora Martin Claret,
São Paulo — SP; Publius Ovidius Naso ou Públio Ovídio Naso, ou simplesmente
Ovídio (43 a.C. — 17 ou 18 d.C.), romano nascido em Sulmo, Império Romano (atual
Sulmona, município italiano), educou-se em Retórica e foi poeta; ainda bem jovem
mudou-se para Roma; obras: Heroides, Amores, Ars Amatoria, Metamorfoses (Metamorphoseon
libri XV), Fastos (Fasti), Tristia, Epistulae exPonto e outros textos; consta de
sua biografia que a poesia de Ovídio influenciou largamente a arte e a literatura
europeias, particularmente em Dante, Shakespeare e Milton, e é considerada uma das
fontes mais importantes da mitologia clássica; em 8 d.C., por ordem do
imperador Augusto, o poeta foi desterrado sob acusação de imoralidade, passou a
viver em Tomos (atual Constança, na Romênia), vindo a morrer no exílio.












