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terça-feira, 12 de abril de 2022

Ovídio: A apoteose de Enéias

 
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(Livro XIV, 581608)

[traduzido por Manuel Maria Barbosa du Bocage]

Já do piedoso Enéias a virtude
      Enternecera os deuses, extinguira
      Da própria Juno a malquerença idosa;
      E, firme a herança do crescente Ascânio,
      Repouso ao pai cabia, era já tempo
      De ir lograr-se dos Céus o herói troiano.

Vênus por ele interessara os numes,
      E de Jove abraçando o colo augusto:
      “Pai, nunca repugnante a meus desejos,
      De teu amor (lhe diz) o extremo apura,
      Clementíssimo atende às preces minhas.
      Meu caro Enéias, que é por mim teu neto,
      Grau de nume inferior alcance ao menos,
      De algum modo nos Céus meu filho admite.
      Bem lhe basta uma vez entrar no reino
      Onde é tudo aversão, tristeza tudo,
      E haver passado por estígias ondas”.

Soou a aprovação dos deuses todos,
      Nem Satúrnia ficou de aspecto imóvel,
      Antes afável anuiu ao rogo.
      Então lhe disse o pai: “Sois dignos ambos
      Tu, e teu filho da celeste graça.
      Cumpre o desejo enfim”. Calou-se Jove.
      Com vozes gratas a exultante deusa
      A mercê retribui e, conduzida,
      Nas auras leves pelas níveas pombas,
      Desce à margem Laurente, onde serpeia
      O Numício, de canas assombrado,
      Levando ao mar vizinho as vítreas águas.

A linda Citeréia ordena ao rio
      Que tudo o que é da morte a Enéias lave,
      E em silêncio no mar depois esconda.
      As ordens o deus úmido executa;
      Tudo quanto é mortal extrai de Enéias,
      E coa pura corrente o volve puro:
      A parte só que é ótima lhe deixa.
      Eis a amorosa mãe o aromatiza,
      Unge de óleo divino e corpo amado,
      Honra-lhe os lábios de ambrosia, e néctar,
      Deus o faz, que dos povos de Quirino*
      Indígete é chamado, e sobe às aras.

Ovídio

Aeneas’ Apotheose (XIV, 581608)

Iamque deos omnes ipsamque Aeneia virtus
Iunonem veteres finire coegerat iras,
cum, bene fundatis opibus crescentis Iuli,
tempestivus erat caelo Cythereius heros.
ambieratque Venus superos colloque parentis
circumfusa sui ’numquam mihi‘ dixerat ‘ullo
tempore dure pater, nunc sis mitissimus, opto,
Aeneaeque meo, qui te de sanguine nostro
fecit avum, quamvis parvum des, optime, numen,
dummodo des aliquod! satis est inamabile regnum
adspexisse semel, Stygios semel isse per amnes.‘
adsensere dei, nec coniunx regia vultus
inmotos tenuit placatoque adnuit ore;
tum pater ‘estis’ ait ‘caelesti munere digni,
quaeque petis pro quoque petis: cape, nata, quod optas!’
fatus erat: gaudet gratesque agit illa parenti
perque leves auras iunctis invecta columbis
litus adit Laurens, ubi tectus harundine serpit
in freta flumineis vicina Numicius undis.
hunc iubet Aeneae, quaecumque obnoxia morti,
abluere et tacito deferre sub aequora cursu;
corniger exsequitur Veneris mandata suisque,
quicquid in Aenea fuerat mortale, repurgat
et respersit aquis; pars optima restitit illi.
lustratum genetrix divino corpus odore
unxit et ambrosia cum dulci nectare mixta
contigit os fecitque deum, quem turba Quirini
nuncupat Indigetem temploque arisque recepit.

* Nota do tradutor Bocage: Quirino: deus do país.
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Ovídio: Metamorfoses, excertos traduzidos por Manuel Marie Barbosa du Bocage, Coleção A Obra Prima de Cada Autor nº 129, 2ª edição, 2013, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Publius Ovidius Naso ou Públio Ovídio Naso, ou simplesmente Ovídio (43 a.C. 17 ou 18 d.C.), romano nascido em Sulmo, Império Romano (atual Sulmona, município italiano), educou-se em Retórica e foi poeta; ainda bem jovem mudou-se para Roma; obras: Heroides, Amores, Ars Amatoria, Metamorfoses (Metamorphoseon libri XV), Fastos (Fasti), Tristia, Epistulae exPonto e outros textos; consta de sua biografia que a poesia de Ovídio influenciou largamente a arte e a literatura europeias, particularmente em Dante, Shakespeare e Milton, e é considerada uma das fontes mais importantes da mitologia clássica; em 8 d.C., por ordem do imperador Augusto, o poeta foi desterrado sob acusação de imoralidade, passou a viver em Tomos (atual Constança, na Romênia), vindo a morrer no exílio.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Ovídio: Cênis/Ceneu [Metamorfoses XII, 168—209]

 
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[traduzido por Raimundo Carvalho]

Metamorfoses XII, 168209: Cênis/Ceneu

O próprio Eácide1 e os Aques maravilharam-se,
quando disse Nestor2: “em vosso tempo, o único
a desdenhar o ferro, impenetrável, foi
Cigno3; porém, outrora, mil golpes sofrendo
em corpo ileso, Ceneu da Perrébia4, eu vi,
pois Ceneu da Perrébia, ilustre em feitos, Ótris5
habitava; também, mais admirável nele
é que mulher nascera”. O prodígio comove;
e rogam todos narração; até Aquiles:
“Vamos, nos conta, pois queremos te escutar,
eloquente ancião, ciência desta era,
quem foi o tal Ceneu, porque mudou de sexo,
em que guerras e em que campo de batalha, tu
o conhecestes, quem o venceu, se o venceram”.
Então, o ancião: “embora me obste a tarda idade,
e muito do que quando jovem vi me escape,
e mais me lembro ainda; e nada marcou tanto
meu peito, entre casos de guerra e de paz;
mas se alguém pôde uma longa senectude
tornar espectador de tanto, já vivi
duzentos anos e entro no terceiro século.
     De insigne graça era Cênis, filha de Élato,
da Tessália a mais bela virgem; em vizinhas
urbes e em tuas (patrícia tua era, Aquiles)
em vão a desejavam muitos pretendentes.
Talvez também Peleu6 tentasse aquele tálamo,
se já não lhe coubera o enlace com tua mãe
ou a promessa; Cênis com ninguém o tálamo
partilhara, e enquanto em praia oculta estava,
diz a fama que o deus do mar a violou;
e após Netuno gozos fruir de nova Vênus,
disse: ‘ qualquer desejo teu será cumprido,
exprime-o’; isto á fama também replicou.
Cênis diz: ‘Esta afronta torna grande o voto,
jamais eu sofra nada igual; não ser mulher,
concede-me, isso é tudo’. E em tom mais grave disse
as últimas palavras, igual a voz de homem
e assim era, pois já o deus do mar profundo
enuiu, mais lhe dando: que possa jamais
ser ferido por golpe ou por ferro morrer.
Contente com o dom, viris ações fazendo
o Atrácide7, através dos campos pêneos erra.”

Ovídio

Metamorphoseon Liber XII, 168209

Hoc ipse Aeacides, hoc mirabantur Achiui,
cum sic Nestor ait: ‘uestro fuit unicus aeuo
contemptor ferri nulloque forabilis ictu
Cygnus. At ipse olim patientem uulnera mille
corpore non laeso Perrhaebum Caenea uidi,
Caenea Perrhaebum, qui factis inclitus Othryn
Incoluit, quoque id mirum magis esset in illo,
femina natus erat. ‘Monstri nouitate mouentur
quisquis adest, narretque rogant: quos inter Achilles:
‘dic age! Nam cunctis eadem est audire voluntas,
o facunde senex, aeui prudentia nostri,
quis fuerit Caeneus, cur in contraria uersus,
qua tibi militia, cuius certamine pugnae
cognitus, a quo sit uictus, si uictus ab ullo est.’
Tum senior: ‘quamuis obstet mihi tarda vetustas,
multaque me fugiant primis spectata sub annis,
plura tamen memini. Nec quae magis haereat ulla
pectore res nostro est inter bellique domique
acta tot, ac si quem potuit spatiosa senectus
spectatorem operum multorum reddere, uixi
annos bis centum; nunc tertia uiuitur aetas.
     Clara decore fuit proles Elateia Caenis,
Thessalidum uirgo pulcherrima, perque propínquas
perque tuas urbes (tibi enim popularis, Achille),
multorum frustra uotis optata procorum.
Temptasset Peleus thalamos quoque forsitan illos:
sed iam aut contigerant illi conubia matris
aut fuerant promissa, tuae; nec Caenis in ulos
denupsit thalamos secretaque litora carpens
aequorei uim passa dei est (ita fama ferebat),
utque nouae Veneris Neptunus gaudia cepit,
“sint tua uota licet” dixit “secura repulsae:
elige, quid uoueas!” (eadem hoc quoque fama ferebat)
“Magnum” Caenis ait “facit haec iniuria uotum,
tale pati iam posse nihil; da, femina ne sim:
omnia praestiteris.” Grauiore nouissima dixit
uerba sono, poteratque uiri uox illa uideri,
sicut erat; nam iam uoto deus aequoris alti
adnuerat dederatque super, nec saucius ullis
uulneribus fieri ferroue occumbere posset.
Munere laetus abit studiisque uirilibus aeuum
exigit Atracides Peneiaque arua pererrat.’

Notas do tradutor Raimundo Carvalho:
1. Eácide: Aquiles, neto de Éaco. Aques: habitantes da Acaia, gregos em geral;
2. Nestor: rei de Pilos, célebre pela sabedoria, eloquência e longevidade;
3. Cigno: Filho de Netuno e Cânace, guerreiro de corpo invulnerável, transformado em cisne;
4. Perrébia: região da Tessália;
5. Ótris: monte da Perrébia;
6. Peleu: amante de Tétis e pai de Aquiles;
7. Atrácide: Ceneu, habitante de Átrax, cidade da Tessália.
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Por que calar nossos amores? — Poesia homoerótica latina, edição bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização de Raimundo Carvalho [e outros], Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Publius Ovidius Naso ou Públio Ovídio Naso, ou simplesmente Ovídio (43 a.C. 17 ou 18 d.C.), romano nascido em Sulmo, Império Romano (atual Sulmona, município italiano), educou-se em Retórica e foi poeta; ainda bem jovem mudou-se para Roma; obras: Heroides, Amores, Ars Amatoria, Metamorfoses (Metamorphoseon libri XV), Fastos (Fasti), Tristia, Epistulae exPonto e outros textos; consta de sua biografia que a poesia de Ovídio influenciou largamente a arte e a literatura europeias, particularmente em Dante, Shakespeare e Milton, e é considerada uma das fontes mais importantes da mitologia clássica; em 8 d.C., por ordem do imperador Augusto, o poeta foi desterrado sob acusação de imoralidade, passou a viver em Tomos (atual Constança, na Romênia), vindo a morrer no exílio.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Ovídio: A apoteose de Rômulo e Hercília

 
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([Metamorfoses] Livro XIV, 805851)

[traduzido por Manuel Maria Barbosa du Bocage]

Tácio morrera, e Rômulo aos dois povos
      Equilibrava as leis, quando Mavorte*
      Dos mortais, e imortais ao rei supremo
      (Deposto o morrião) falou destarte:

“O tempo é vindo, ó pai (por quanto Roma
      Em robusto alicerce está segura,
      E um só braço a modera), é vindo o tempo
      Em que alto galardão, promessa antiga
      A mim, teu filho, a Rômulo, teu neto,
      Credor de grande prêmio, se efetue,
      E o destinado ao Céu se roube à Terra.
      No conselho dos deuses tu outrora
      Me disseste, senhor (e o pio anúncio
      Gravei no coração, gravei na mente):
      — Erguido aos Céus por ti será teu filho:
      Ratifica a palavra sacrossanta”.

Ao guerreiro anuiu o onipotente:
      Os ares condensou de opacas nuvens,
      No raio, no trovão pôs medo à Terra.
      O impávido Gradívio, à luz, e estrondo,
      Vê que é dado o sinal do rapto augusto,
      E, firmado na lança, ao carro salta.
      Brutos, opressos de tempo sanguënto,
      O sonoro flagelo açouta, esperta.
      Dirigindo-se o deus por entre os ares.

      Pára no Palatino, umbroso cume,
      E ao filho, que ali julga os seus Quirites,
      Arrebata dali coa mão nervosa.
      Nas auras se lhe vai quanto é da morte,
      Qual a plúmbea porção que sai da funda
      Seu ressumante humor perde voando.
      Toma o romano herói radiosa face,
      Face mais digna da morada eterna,
      Tal como a que se vê na purpurada
      Imagem de Quirino, imagem sua.

Por morto o claro esposo Hercília chora:
      Eis dos Céus a rainha ordena a Íris
      Que baixe ao mundo, e que à viúva excelsa
      Estas benignas vozes pronuncie:
      “Oh da gente sabina, e lácia gente
      Honra primária, singular matrona,
      Já digna esposa dum varão sublime,
      Do deus Quirino agora esposa digna!
      Não chores: se teu ínclito consorte
      Morrendo estás por ver, segue-me os passos,
      Comigo ao bosque vem, que lá verdeja
      No cimo Quirinal, e assombra os lares
      Do monarca romano”. Íris submissa
      Pelo arco imenso de vistosas cores
      Desce rapidamente: ei-la na Terra,
      E o que ela a Juno ouviu lhe escuta Hercília.

“Oh deusa! (proferiu a alta matrona,
      De pejo os olhos elevando apenas)
      Qual delas és não sei, mas sei que é deusa:
      Não cabe esse esplendor a um ente humano.
      Guia, ah! Guia-me a ver o ausente esposo:
      Se olhá-lo inda uma vez me dais, ó fados,
      A presença dos Céus terei na sua.”
      Nisto ao Romúleo monte se encaminha,
      E leda o sobe coa Taumântia virgem.

Súbito, das estrelas despegado,
      Vem direito à montanha etéreo lume;
      Os cabelos de Hercília toca, inflama,
      E com ela após si revoa aos astros.

De Roma o fundador nos céus a acolhe;
      Muda-lhe o corpo antigo, antigo nome
      Ora lhe chama, e de Quirino ao lado
      Goza com ele dos romanos cultos.

Ovídio

Metamorphosen Liber quattuordecim, 805851

Occiderat Tatius, populisque aequata duobus,
Romule, iura dabas: posita cum casside Mavors
talibus adfatur divumque hominumque parentem:
'tempus adest, genitor, quoniam fundamine magno
res Romana valet nec praeside pendet ab uno,
praemia, (sunt promissa mihi dignoque nepoti)
solvere et ablatum terris inponere caelo.
tu mihi concilio quondam praesente deorum
(nam memoro memorique animo pia verba notavi)
"unus erit, quem tu tolles in caerula caeli"
dixisti: rata sit verborum summa tuorum!'
adnuit omnipotens et nubibus aera caecis
occuluit tonitruque et fulgure terruit orbem.
quae sibi promissae sensit rata signa rapinae,
innixusque hastae pressos temone cruento
inpavidus conscendit equos Gradivus et ictu
verberis increpuit pronusque per aera lapsus
constitit in summo nemorosi colle Palati
reddentemque suo iam regia iura Quiriti
abstulit Iliaden: corpus mortale per auras
dilapsum tenues, ceu lata plumbea funda
missa solet medio glans intabescere caelo;
pulchra subit facies et pulvinaribus altis
dignior, est qualis trabeati forma Quirini.

Flebat ut amissum coniunx, cum regia Iuno
Irin ad Hersilien descendere limite curvo
imperat et vacuae sua sic mandata referre:
'o et de Latia, o et de gente Sabina
praecipuum, matrona, decus, dignissima tanti
ante fuisse viri coniunx, nunc esse Quirini,
siste tuos fletus, et, si tibi cura videndi
coniugis est, duce me lucum pete, colle Quirini
qui viret et templum Romani regis obumbrat';
paret et in terram pictos delapsa per arcus,
Hersilien iussis conpellat vocibus Iris;
illa verecundo vix tollens lumina vultu
'o dea (namque mihi nec, quae sis, dicere promptum est,
et liquet esse deam) duc, o duc' inquit 'et offer
coniugis ora mihi, quae si modo posse videre
fata semel dederint, caelum accepisse fatebor!'
nec mora, Romuleos cum virgine Thaumantea
ingreditur colles: ibi sidus ab aethere lapsum
decidit in terras; a cuius lumine flagrans
Hersilie crinis cum sidere cessit in auras:
hanc manibus notis Romanae conditor urbis
excipit et priscum pariter cum corpore nomen
mutat Horamque vocat, quae nunc dea iuncta Quirino est.

* Nota da Edição: Mavorte: Marte.
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Ovídio: Metamorfoses, excertos traduzidos por Manuel Marie Barbosa du Bocage, Coleção A Obra Prima de Cada Autor nº 129, 2ª edição, 2013, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Publius Ovidius Naso ou Públio Ovídio Naso, ou simplesmente Ovídio (43 a.C. 17 ou 18 d.C.), romano nascido em Sulmo, Império Romano (atual Sulmona, município italiano), educou-se em Retórica e foi poeta; ainda bem jovem mudou-se para Roma; obras: Heroides, Amores, Ars Amatoria, Metamorfoses (Metamorphoseon libri XV), Fastos (Fasti), Tristia, Epistulae exPonto e outros textos; consta de sua biografia que a poesia de Ovídio influenciou largamente a arte e a literatura europeias, particularmente em Dante, Shakespeare e Milton, e é considerada uma das fontes mais importantes da mitologia clássica; em 8 d.C., por ordem do imperador Augusto, o poeta foi desterrado sob acusação de  imoralidade, passou a viver em Tomos (atual Constança, na Romênia), vindo a morrer no exílio.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Ovídio: Átis e Licabas [Metamorfoses V, 46—73]

 
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[traduzido por Raimundo Carvalho]

Metamorfoses V, 4673: Átis e Licabas

Bélica Palas1 vem, protege o irmão com a égide,
e o encoraja. Havia o hindu Átis, que Limnae,
filha do Ganges deu à luz sob vítrea água,
crê-se; de rara formosura, e rica veste
realçando-a, tinha só dezesseis anos;
e vestia uma clâmide tíria, bordada
de ouro; ornavam-lhe o colo colares dourados
e o cabelo de mirra untado um curvo pente.
Destro em fixar o dardo, de qualquer distância,
era-o mais ainda em retesar o arco.
E enquanto retesava o arco maleável,
Perseu o atinge com tição que ardia em ara,
e, aos ossos fraturados, fundiu sua face.
      Quando a louvada face embebida ao sangue
viu o assírio Licabas, seu parceiro íntimo,
que não dissimulava um amor verdadeiro,
depois que lhe exalou a vida acerba chaga,
pranteou Átis e agarrou o arco que este
retesara, dizendo: “vem lutar comigo,
e não te ufanes pela morte dele, e mais
ódio que glória colhes”. Nem dissera ainda
tudo isso, dispara a penetrante seta,
que, evitada, adentrou a sinuosa veste.
Volve-lhe o alfanje usado em morte de Medusa2
O Acrisioníade3, e lhe enfia ao peito. E ele,
morrendo, com os olhos sob a noite escura,
Procura em torno Átis, encosta-se nele,
e aos Manes4 vão, juntos na morte, consolados.

Ovídio

Metamorphoseon Liber V, 4673

Bellica Pallas adest et protegit aegide fratrem datque animos.
Erat Indus Athis, quem flumine Gange
edita Limnace uitreis peperisse sun undis
creditur, egregius forma, quam diuite cultu
augebat, bis adhuc octonis integer annis,
indutus chlamydem Tyriam, quam limbus obibat
aureus; ornabant aurata monilia collum
et madidos murra curuum crinale capillos;
ille quidem iaculo quamuis distantia misso
figere doctus erat, sed tendere doctior arcus.
tum quoque lenta manu flectentem  cornua Perseus
stipite, qui media positus fumabat in ara,
perculit et fractis confudit in ossibus ora.
      Hunc ubi laudatos iactantem in sanguine uultus
Assyrius uidir Lycabas. Iunctissimus illi
et comes et ueri non dissimulator amoris,
postquam exhalantem sub acerbo uulnere uitam
deplorauit Athin, quos ille tetenderat arcus
arripit et ‘mecum tibi sint certamina!’ dixit;
‘nec longum pueri fato laetabere, quo plus
inuidiae quam laudis habes.’ Haec omnia nondum
dixerat: emicuit neruo penetrabile telum
uitatumque tamen sinuosa ueste pependit.
Vertit in hunc harpen spectatam caede Medusae
Acriosiniades adigitque in pectus; at ille
iam moriens oculis sub nocte natantibus atra
circumspexit Athin seque adclinauit ad illum
et tulit ad manes iunctae solacia mortis.

Notas do tradutor Raimundo Carvalho:
1. Pallas: a deusa Palas Atena, Minerva. Perseu é seu irmão, por parte de pai, Júpiter;
2. Medusa: uma das Górgones, vencida por Perseu, cuja cabeça serviu como arma para este, pois quem a mirava era imediatamente petrificado;
3. Acrisioníade: Perseu, neto de Acrísio, pai de Danae;
4. Manes: espírito dos mortos.
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Por que calar nossos amores? — Poesia homoerótica latina, edição bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização de Raimundo Carvalho [e outros], Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Publius Ovidius Naso ou Públio Ovídio Naso, ou simplesmente Ovídio (43 a.C. 17 ou 18 d.C.), romano nascido em Sulmo, Império Romano (atual Sulmona, município italiano), educou-se em Retórica e foi poeta; ainda bem jovem mudou-se para Roma; obras: Heroides, Amores, Ars Amatoria, Metamorfoses (Metamorphoseon libri XV), Fastos (Fasti), Tristia, Epistulae exPonto e outros textos; consta de sua biografia que a poesia de Ovídio influenciou largamente a arte e a literatura europeias, particularmente em Dante, Shakespeare e Milton, e é considerada uma das fontes mais importantes da mitologia clássica; em 8 d.C., por ordem do imperador Augusto, o poeta foi desterrado sob acusação de imoralidade, passou a viver em Tomos (atual Constança, na Romênia), vindo a morrer no exílio.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Ovídio: A gruta da inveja *

 
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([Metamorfoses] Livro II, 761782)

[traduzido por Manuel Maria Barbosa du Bocage]

É a estância da Inveja em gruta enorme,
Lá nuns profundos vales escondida,
Aonde o Sol não vai, nem vai Favônio.
Reina ali rigoroso, eterno frio,
De úmidas, grossas névoas sempre abunda.
O monstro vive de vipéreas carnes,
Dos seus tartáreos vícios alimento.
Da morte a palidez lhe está no aspecto,
Magreza, e corrupção nos membros todos;
Olha sempre ao revés; ferrugem torpe
Nos asquerosos dentes lhe negreja;
Vê-se o fel verdejar no peito imundo,
Espumoso veneno a língua verte:
Longe o riso lhe jaz dos negros lábios,
Só se nos mais há pranto há nela riso,
Em não vendo chorar lhe acode o choro:
Não goza de repouso um só momento,
Os cuidados que a roem não sofrem sono:
Mirra-se de pesar, ao ver nos homens
Qualquer bem; rala, e rala-se a maligna,
É verdugo de si, ódio de todos.

Públio Ovídio Naso


De Invidiae Domo (II, 761782)

domus est imis in vallibus huius
abdita, sole carens, non ulli pervia vento,
tristis et ignavi plenissima frigoris et quae
igne vacet semper, caligine semper abundet.
huc ubi pervenit belli metuenda virago,
constitit ante domum (neque enim succedere tectis
fas habet) et postes extrema cúspide pulsat.
concussae patuere fores, videt intus edentem
vipereas carnes, vitiomm alimenta suorum,
Invidiam visaque oculos avertit; at illa
surgit humo pigre semesammque relinquit
corpora serpentum passuque incedit inerti.
utque deam vidit formaque armisque decoram,
ingemuit vultumque una ac suspiria duxit.
pallor in ore sedet, macies in corpore toto.
nusquam recta acies, livent robigine dentes,
pectora felle virent, lingua est suffusa veneno;
risus abest, nisi quem visi movere dolores;
nec fruitur somno, vigilantibus excita curis,
sed videt ingratos intabescitque videndo
successus hominum carpitque et carpitur una
suppliciumque suum est.

* Nota do tradutor Bocage: A versão é salteada porque é só do episódio.
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Ovídio: Metamorfoses, excertos traduzidos por Manuel Marie Barbosa du Bocage, Coleção A Obra Prima de Cada Autor nº 129, 2ª edição, 2013, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Publius Ovidius Naso ou Públio Ovídio Naso, ou simplesmente Ovídio (43 a.C. 17 ou 18 d.C.), romano nascido em Sulmo, Império Romano (atual Sulmona, município italiano), educou-se em Retórica e foi poeta; ainda bem jovem mudou-se para Roma: obras: Heroides, Amores, Ars Amatoria, Metamorfoses (Metamorphoseon libri XV), Fastos (Fasti), Tristia, Epistulae exPonto e outros textos; consta da biografia de Ovídio que sua poesia influenciou largamente a arte e a literatura europeias, particularmente em Dante, Shakespeare e Milton, e é considerada uma das fontes mais importantes da mitologia clássica; em 8 d.C., por ordem do imperador Augusto, o poeta foi desterrado sob acusação de imoralidade, passou a viver em Tomos (atual Constança, na Romênia), vindo a morrer no exílio.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Ovídio: Não fugirá o Vindimador: não tardará . . .

 
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[traduzido por Márcio Meirelles Gouvêa Júnior]

Fastos, 3, 407414:

Não fugirá o Vindimador: não tardará
     dessa constelação contar-se a causa.
Dizem que Baco amou, no Ísmaro, o jovem Âmpelo
     — que era o filho de um sátiro e u’a ninfa.
Deu-lhe u’a videira que pendia no alto olmeiro,
     e que hoje tem o nome do menino.
E, quando o temerário as uvas foi pegar,
     caiu, e Líber o levou p’r’o céu.

Ovídio

Fasti, 3, 407414:

At non effugiet Vindemitor: hoc quoque causam
     unde trahat sidus parua docere mora est.
Ampelon intonsum satyro nymphaque creatum
     fertur in Ismariis Bacchus amasse iugis.
Tradidit huic uitem pendentem frondibus ulmi,
     quae nunc de pueri domine nomen habet.
Dum legit in ramo pictas temerarius uuas,
     decidit: amissum Liber in astra tulit.

* Nota do tradutor Márcio Meirelles Gouvêa Júnior: “O homoerotismo nunca foi, propriamente, um tema central nas obras de Ovídio, cuja produção elegíaca amorosa, desenvolvida na virada do século I d.C., privilegiou o convívio entre os gêneros, a celebração feminina e a fruição dos prazeres heterossexuais. No entanto, nos Fastos [Fasti], o calendário poético ovidiano deixado incompleto depois do exílio do poeta, existe uma breve menção acerca do amor entre Baco e o jovem Âmpelo, cuja morte foi celebrada no catasterismo formador da constelação do Vindimador.”
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Por que calar nossos amores? — Poesia homoerótica latina, edição bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização de Raimundo Carvalho [e outros], Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Publius Ovidius Naso ou Públio Ovídio Naso, ou simplesmente Ovídio (43 a.C. 17 ou 18 d.C.), romano nascido em Sulmo, Império Romano (atual Sulmona, município italiano), educou-se em Retórica e foi poeta; ainda bem jovem mudou-se para Roma; obras: Heroides, Amores, Ars Amatoria, Metamorfoses (Metamorphoseon libri XV), Fastos (Fasti), Tristia, Epistulae exPonto e outros textos; consta de sua biografia que a poesia de Ovídio influenciou largamente a arte e a literatura europeias, particularmente em Dante, Shakespeare e Milton, e é considerada uma das fontes mais importantes da mitologia clássica; em 8 d.C., por ordem do imperador Augusto, o poeta foi desterrado sob acusação de imoralidade, passou a viver em Tomos (atual Constança, na Romênia), vindo a morrer no exílio.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Ovídio: Precipício de Faetonte

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[traduzido por Manuel Maria Barbosa du Bocage]

(livro II, 161183)

Porém leve era o peso, era diverso
Daquele, que os Etontes conheciam:
Quais sem lastro bastante os curvos lenhos
São das ferventes ondas sacudidos;
Tal, coa leveza insólita pulando,
Parece que vazio o carro foge.

Eis a quadriga rápida percebe
Que os passos lhe não rege a mão de um nume:
Eis salta impetuosa, e deixa o trilho,
E bate o campo azul por nova estrada:
Treme Faetonte*, e como as rédeas torça,
E qual seja o caminho ele não sabe,
E inda, sabendo, não domara os brutos.
Pela primeira vez se escandeceram
Os gélidos Triões coa etérea flama.
E banhar-se no pego em vão tentaram.
Do pólo glacial vizinha a serpe,
Dantes mole de frio, e não terrível,
Ganhou ao estranho ardor braveza estranha.
Diz-se ó Bootes, que a tremer fugiste,
Bem que és tardio, e te retenha o carro:

Vê jazer muito ao longe o mar, e as terras,
O mísero Faetonte*; amarelece,
E súbito pavor lhe agita os membros:
Seus olhos em luz tanta encontram noite:
Triste! Quisera já não ter tocado
O coche de seu pai: já se arrepende
De conhecer quem é: de haver podido
O efeito conseguir do rogo incauto.

Ovídio

De Phaetonte Cadente (II, 161183)

sed leve pondus erat nec quod cognoscere possent
Solis equi, solitaque iugum gravitate carebat;
utque labant curvae iusto sine pondere naves
perque mare instabiles nimia levitate feruntur,
sic onere adsueto vacuus dat in aera saltus
succutiturque alte similisque est currus inani.

Quod simulac sensere, ruunt tritumque relinquunt
quadriiugi spatium nec quo prius ordine currunt.
ipse pavet nec qua commissas flectat habenas
nec scit qua sit iter, nec, si sciat, imperet illis.
tum primum radiis gelidi caluere Triones
et vetito frustra temptarunt aequore tingui,
quaeque polo posita est glaciali próxima Serpens,
frigore pigra prius nec formidabilis ulli,
incaluit sumpsitque novas fervoribus iras;
te quoque turbatum memorant fugisse, Boote,
quamvis tardus eras et te tua plaustra tenebant.

Ut vero summo despexit ab aethere terras
infelix Phaethon penitus penitusque iacentes,
palluit et súbito genua intremuere timore
suntque oculis tenebrae per tantum lumen obortae,
et iam mallet equos numquam tetigisse paternos,
iam cognosse genus piget et valuisse rogando,

* Nota da Edição: Faetonte: filho do Sol; insistiu com o pai para guiar sua carruagem e quando ela se desgoverna, desconcertando o mundo, o pai se vê obrigado a fulminá-lo.
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Ovídio: Metamorfoses, excertos traduzidos por Manuel Marie Barbosa du Bocage, Coleção A Obra Prima de Cada Autor nº 129, 2ª edição, 2013, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Publius Ovidius Naso ou Públio Ovídio Naso, ou simplesmente Ovídio (43 a.C. 17 ou 18 d.C.), romano nascido em Sulmo, Império Romano (atual Sulmona, município italiano), educou-se em Retórica e foi poeta; ainda bem jovem mudou-se para Roma; obras: Heroides, Amores, Ars Amatoria, Metamorfoses (Metamorphoseon libri XV), Fastos (Fasti), Tristia, Epistulae exPonto e outros textos; consta da biografia de Ovídio que sua poesia influenciou largamente a arte e a literatura europeias, particularmente em Dante, Shakespeare e Milton, e é considerada uma das fontes mais importantes da mitologia clássica; em 8 d.C., por ordem do imperador Augusto, o poeta foi desterrado sob acusação de imoralidade, passou a viver em Tomos (atual Constança, na Romênia), vindo a morrer no exílio.