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sábado, 28 de maio de 2022

Antônio Patrício: A neve

 
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Feeria nupcial! A neve, a neve,
alegrissimamente vai caindo.
A nossa dor é um elfo que nos segue:
tudo cristalizou num riso lindo.

Lembra um conto de fadas a paisagem:
Jardins e parques, casas, estão dormindo;
e no seu sonho, pueril miragem,
a neve vai caindo, vai caindo.

Mas que jardins se esfolham pela altura?…
É a espuma dum mar pr’além das nuvens
ou um Outono místico de alvura?…

É um Abril de pureza: é lindo, lindo!
Sinto-me estonteado de brancura:
os mortos mesmo devem estar sorrindo.

Poesias 1942

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biobibliográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Antônio Patrício (1876 1930), português do Porto, estudou Matemática, cursou a Escola Naval, formou-se em Medicina sem nunca exercer a profissão, dedicou-se à carreira diplomática e foi escritor, poeta, contista e dramaturgo; foi colaborador das revistas Águia, Arte & Vida, Atlântida e Contemporânea; obras: Oceano (poesias, 1905), Serão Inquieto (contos, 1910) e Poesias (edição póstuma, 1942); para o teatro, produziu O Fim (1909), Pedro o Cru (1918), Dinis e Isabel (1919) e D. João e a Máscara (1924); deixou várias obras inéditas.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Antônio Patrício: Fosforescência

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Há uma chama azul, azul e opala,
que cada onda aroladora exala.

É uma via-láctea que se irisa e
vem no ar em clâmide de brisa.

Almas de jóias pelo mar errando,
naufrágios de poente aflorando...

É o gênio do mar que se faz chama
e num acorde de onda se derrama.

É o olhar das plantas que ele embala
e que na noite, em êxtase nos fala.

É a fluidez, o choro dos vitrais
de místicas, submersas catedrais.

São os olhares das mortas, os olhares
das que dormem há séculos nos mares.

Nem sei o que é, nem sei... fosforescência,
luz que se fez sereia por demência.

Saudade dos marujos em viagem,
vinda de longe: lúcida romagem.

Puro sonho do mar que quer ser luz
e em lágrimas de íris se traduz.

Adeuses irisados, vagabundos,
de não sei quem, a quem, para que mundos...

Poesias. Lisboa. Edições Ática.

Resultado de imagem para antonio patrício
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Presença da Literatura Portuguesa IV — Simbolismo, por Antonio Soares Amora, 1969, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Antônio Patrício (1876 1930), português do Porto, foi escritor, poeta, contista, dramaturgo e diplomata; formou-se em Medicina mas nunca exerceu a profissão; foi colaborador das revistas Águia, Arte & Vida, Atlântida e Contemporânea; escreveu e publicou Oceano (1905), Serão Inquieto (contos, 1910) e Poesias (edição póstuma, 1942); para o teatro, produziu O Fim (1909), Pedro o Cru (1918), Dinis e Isabel (1919) e D. João e a Máscara (1924); deixou várias obras inéditas.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Antônio Patrício: As Mãos Cortadas

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Em 16 de novembro de 1915
 vi uma  criança  a quem os
 soldados cortaram  as mãos.

"Dorme, dorme, meu filhinho,
que eu estou sempre ao pé de ti:
está sossegado o caminho...

Já há paz pela cidade,
não voltam mais os soldados...
O Senhor teve piedade."

Mas a criança não dorme...
Nessa casa ao abandono,
os olhos azuis, maiores,
fitam-na sempre, sem sono.

Não tem mãos: foram cortadas
(roxeiam os horizontes)
por facas ou por espadas...?

"Não durmo sem que me contes
alguma história de fadas
ou de bruxas pelos montes..."

A mãe quer contar: em vão...
Sente os soluços que voltam:
"Não tiveram coração..."

E os olhos azuis, maiores,
a criança pede histórias
de lobos e de pastores...

Começa então: "Uma vez..."
Mas os soluços romperam,
quebram-lhe o peito em cachão,
em maré: endoideceram...

A criança tira os braços,
os seus bracinhos sem mãos,
dentre as roupas, muito lassos...

E diz assim consolando-a,
em sílabas de meiguice
que vão em beijos, beijando-a:

"Conta, conta: era uma vez...
Não chores que as minhas mãos
hão de crescer outra vez..."

Poesias  1942

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Presença da Literatura Portuguesa IV — Simbolismo, por Antonio Soares Amora, 1969, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Antônio Patrício (1876  1930), português do Porto, foi escritor, poeta, contista, dramaturgo e diplomata; formou-se em Medicina mas nunca exerceu a profissão; foi colaborador das revistas Águia, Arte & Vida, Atlântida e Contemporânea; escreveu e publicou Oceano (1905), Serão Inquieto (contos, 1910) e Poesias (edição póstuma, 1942); para o teatro, produziu O Fim (1909), Pedro o Cru (1918), Dinis e Isabel (1919) e D. João e a Máscara (1924); deixou várias obras inéditas.