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[traduzido
por Paulo Hecker Filho]
Se tenho
gosto, é quase só
Pela terra
e pelas pedras.
Meu almoço
é sempre o ar,
A rocha,
o carvão, o ferro.
Minhas fomes,
girem, girem,
Atravessem
os trigais,
Atraiam o
alegre veneno
Da flor-de-pau.
Comam os
seixos quebráveis,
As velhas
pedras das igrejas,
Os biscoitos
dos naufrágios,
Os pães
jogados nas cinzas.
O lobo
uiva entre a folhagem
Cuspindo as
bonitas penas
Da sua
comida de aves:
Como ele
me consumo.
As saladas
ou os frutos
Só esperam
a colheita;
Mas a
aranha do valado
Não come
senão violetas.
Que eu
durma! Que eu ferva
Nos altares
de Salomão.
O caldo
escorre na ferrugem
E se
mistura ao Cedrão. *
Faim
Si j’ai du goût, ce n’est guère
Que pour la terre et les pierres.
Je déjeune toujours d’air,
De roc, de charbons, de fer.
Mes faims, tournez. Paissez, faims,
Le pré des sons.
Attirez le gai venin
Des liserons.
Mangez les cailloux qu’on brise,
Les vieilles pierres d’églises;
Les galets des vieux déluges,
Pains semés dans les vallées
grises.
Le loup criait sous les feuilles
En crachant les belles plumes
De son repas de volailles:
Comme lui je me consume.
Les salades, les fruits
N’attendent que la cueillette;
Mais l’araignée de la haie
Ne mange que des violettes.
Que je dorme! que je bouille
Aux autels de Salomon.
Le bouillon court sur la rouille,
Et se mêle au Cédron.
* Nota
da edição: Rimbaud A. “Fome”. In: Uma temporada no inferno, op. cit., p. 73-75,
[Tradução de Paulo Hecker Filho, edição bilíngue, 2008, L&PM, Porto Alegre — RS].
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Rimbaud —
biografia: Jean Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, biografias L&PM
POCKET Volume 975, 1ª edição, 2011, L&PM, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur
Rimbaud (1854 — 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e
foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard
— seu professor de retórica —, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman
entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia
ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a
vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras
primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une
saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations,
1873—1875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua
própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas,
tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen
Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente
Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando
expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas
e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations,
com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud
morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha
e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.


