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sexta-feira, 28 de junho de 2024

Rimbaud: Fome


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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

Se tenho gosto, é quase só
Pela terra e pelas pedras.
Meu almoço é sempre o ar,
A rocha, o carvão, o ferro.

Minhas fomes, girem, girem,
Atravessem os trigais,
Atraiam o alegre veneno
Da flor-de-pau.

Comam os seixos quebráveis,
As velhas pedras das igrejas,
Os biscoitos dos naufrágios,
Os pães jogados nas cinzas.

O lobo uiva entre a folhagem
Cuspindo as bonitas penas
Da sua comida de aves:
Como ele me consumo.

As saladas ou os frutos
Só esperam a colheita;
Mas a aranha do valado
Não come senão violetas.

Que eu durma! Que eu ferva
Nos altares de Salomão.
O caldo escorre na ferrugem
E se mistura ao Cedrão. *

Rimbaud

Faim

Si j’ai du goût, ce n’est guère
Que pour la terre et les pierres.
Je déjeune toujours d’air,
De roc, de charbons, de fer.

Mes faims, tournez. Paissez, faims,
Le pré des sons.
Attirez le gai venin
Des liserons.

Mangez les cailloux qu’on brise,
Les vieilles pierres d’églises;
Les galets des vieux déluges,
Pains semés dans les vallées grises.

Le loup criait sous les feuilles
En crachant les belles plumes
De son repas de volailles:
Comme lui je me consume.

Les salades, les fruits
N’attendent que la cueillette;
Mais l’araignée de la haie
Ne mange que des violettes.

Que je dorme! que je bouille
Aux autels de Salomon.
Le bouillon court sur la rouille,
Et se mêle au Cédron.

* Nota da edição: Rimbaud A. “Fome”. In: Uma temporada no inferno, op. cit., p. 73-75, [Tradução de Paulo Hecker Filho, edição bilíngue, 2008, L&PM, Porto Alegre — RS].
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Rimbaud — biografia: Jean Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, biografias L&PM POCKET Volume 975, 1ª edição, 2011, L&PM, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Rimbaud: Saldo *


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[traduzido por Joana Canêdo]

          [ . . . ]

          À venda a anarquia para as massas; a satisfação irreprimível para os amadores superiores; a morte atroz para os fiéis e os amantes!
          À venda, as habitações e as migrações, os esportes, encantamentos e confortos perfeitos, e o barulho, o movimento e o futuro que eles fazem!
          À venda, as aplicações de cálculo e os saltos de harmonia extraordinários. Os achados e os termos inesperados, possessão imediata,
          Impulso insensato e infinito aos esplendores invisíveis, às delícias insensíveis, e seus segredos aterrorizantes para cada vício e sua alegria aterrorizante pela multidão.
          À venda, os Corpos, as vozes, a imensa opulência inquestionável, o que nunca se venderá. Os vendedores não ficarão de mãos abanando! Os caixeiros-viajantes não terão de entregar a comissão tão cedo.

Rimbaud

Solde

          [À vendre ce que les Juifs n'ont pas vendu, ce que noblesse ni crime n'ont goûté, ce qu'ignorent l'amour maudit et la probité infernale des masses: ce que le temps ni la science n'ont pas à reconnaître:
          Les Voix reconstituées; l'éveil fraternel de toutes les énergies chorales et orchestrales et leurs applications instantanées; l'occasion, unique, de dégager nos sens!
          À vendre les Corps sans prix, hors de toute race, de tout monde, de tout sexe, de toute descendance! Les richesses jaillissant à chaque démarche! Solde de diamants sans contrôle!]
          À vendre l'anarchie pour les masses; la satisfaction irrépressible pour les amateurs supérieurs; la mort atroce pour les fidèles et les amants!
          À vendre les habitations et les migrations, sports, féeries et comforts parfaits, et le bruit, le mouvement et l'avenir qu'ils font!
          À vendre les applications de calcul et les sauts d'harmonie inouïs. Les trouvailles et les termes non soupçonnés, possession immédiate,
          Élan insensé et infini aux splendeurs invisibles, aux délices insensibles,  et ses secrets affolants pour chaque vice  et sa gaîté effrayante pour la foule 
           À vendre les Corps, les voix, l'immense opulence inquestionable, ce qu'on ne vendra jamais. Les vendeurs ne sont pas à bout de solde! Les voyageurs n'ont pas à rendre leur commission de si tôt!

* Nota da edição, complementada pelo blogue Verso e Conversa: Rimbaud A. “Solde”. In: Oeuvres complètes, op. cit., p.145-146, [Paris: Gallimard, 1972 e 2007. Col. Bibliothèque de la Pléiade]; [Illuminations, 1873—1875]; complementarmente, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa exposto que o poema-prosa Saldo, no original, é composto por mais três parágrafos-estrofes iniciais e que não constam traduzidos neste Rimbaud — biografia: Jean Baptiste Baronian.
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Rimbaud — biografia: Jean Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, biografias L&PM POCKET Volume 975, 1ª edição, 2011, L&PM, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

sexta-feira, 22 de março de 2024

Paul Verlaine: As mãos


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[traduzido por Guilherme de Almeida]

As doces mãos que foram minhas,
Tão bonitas e tão pequenas
Depois de enganos e de penas
E de tantas coisas mesquinhas,

Depois de portos tão risonhos,
Províncias, cantos pitorescos,
Reais como em tempos principescos,
As doces mãos abrem-me os sonhos.

Mãos em sonho sobre a minha alma,
Que sei eu o que vos dignastes,
Entre tão pérfidos contrastes,
Dizer a esta alma pasma e calma?

Mentirá minha visão casta
De espiritual afinidade,
De maternal cumplicidade
E de afeição estreita e vasta?

Remorso bom, mágoa tão boa,
Sonhos santos, mãos consagradas,
Oh! Essas mãos, mãos veneradas,
Fazei o gesto que perdoa! *

Paul Verlaine

Les chères mains qui furent miennes, . . .

Les chères mains qui furent miennes,
Toutes petites, toutes belles,
Après ces méprises mortelles
Et toutes ces choses païennes,

Après les rades et les grèves,
Et les pays et les provinces,
Royales mieux qu'au temps des princes,
Les chères mains m'ouvrent les rêves.

Mains en songe, mains sur mon âme,
Sais-je, moi, ce que vous daignâtes,
Parmi ces rumeurs scélérates,
Dire à cette âme qui se pâme?

Ment-elle, ma vision chaste
D'affinité spirituelle,
De complicité maternelle,
D'affection étroite et vaste?

Remords si cher, peine très bonne,
Rêves bénis, mains consacrées,
Ô ces mains, ces mains vénérées,
Faites le geste qui pardonne!

* Nota da edição: Verlaine P. “As mãos”. In: A voz dos botequins e outros poemas, Trad. Guilherme de Almeida, São Paulo: Hedra, 2009, p.71, [Sagesse, 1880].
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Rimbaud — biografia: Jean-Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, biografias L&PM POCKET Volume 975, 1ª edição, 2011, L&PM, Porto Alegre — RS; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

segunda-feira, 4 de março de 2024

Rimbaud: Canto de guerra parisiense


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[traduzido por Joana Canêdo]

A Primavera é evidente, pois
Do coração das Propriedades verdes,
O voo de Thiers e de Picard
Revela seus esplendores abertos.

Ó Maio! delirantes sem culotes!
Sèvres, Meudon, Bagneux, Asnières,
Escutai os visitantes bem-vindos
Semeando as coisas primaveris!

Vêm de quepe, sabre, tam-tam,
Não com a velha caixa de velas
E os ioles que ja... ja... jamais
Fendem o lago de águas vermelhas!

Mais do que nunca farreamos
Quando chegam a nossas malocas
Os terríveis capacetes amarelos
Em particulares auroras!

Thiers e Picard são como Eros,
Sequestradores de girassóis,
Com fogo eles pintam Corots:
Enquanto as tropas catam besouros...

São familiares do Grão Truco!...
E, em meio aos gladíolos, Favre
Faz de uma lágrima um aqueduto,
Pondo o nariz na pimenta!

O pavimento da cidade é quente
Apesar das bombas de petróleo,
Nós precisamos certamente,
Liberá-los de vosso papel.

E os Ruralistas que se repousam
Em longos alongamentos
Ouvirão ramos que se quebram
Entre os rubros atroamentos! *

Rimbaud

Chant de guerre parisien

Le Printemps est évident, car
Du cœur des Propriétés vertes,
Le vol de Thiers et de Picard
Tient ses splendeurs grandes ouvertes!

Ô Mai! quels délirants culs-nus!
Sèvres, Meudon, Bagneux, Asnières,
Écoutez donc les bienvenus
Semer les choses printanières!

Ils ont shako, sabre et tam-tam,
Non la vieille boîte à bougies,
Et des yoles qui n'ont jam, jam...
Fendent le lac aux eaux rougies!

Plus que jamais nous bambochons
Quand arrivent sur nos tanières
Crouler les jaunes cabochons
Dans des aubes particulières!

Thiers et Picard sont des Éros,
Des enleveurs d'héliotropes;
Au pétrole ils font des Corots:
Voici hannetonner leurs tropes...

Ils sont familiers du Grand Truc!...
Et couché dans les glaïeuls, Favre
Fait son cillement aqueduc,
Et ses reniflements à poivre!

La grand’ ville a le pavé chaud
Malgré vos douches de pétrole,
Et décidément, il nous faut
Vous secouer dans votre rôle...

Et les Ruraux qui se prélassent
Dans de longs accroupissements,
Entendront des rameaux qui cassent
Parmi les rouges froissements!

* Nota da edição: Rimbaud A. “Chant de guerre parisien”. In: Oeuvres complètes, op. cit., p.39-40, [Paris: Gallimard, 1972 e 2007. Col. Bibliothèque de la Pléiade]; [Poésies — 1871].
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Rimbaud — biografia: Jean Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, biografias L&PM POCKET Volume 975, 1ª edição, 2011, L&PM, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Rimbaud: Primeira tarde


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[traduzido por Joana Canêdo]

Ela estava quase despida
E um grande ramo indiscreto
Lançava folhas na janela,
Maliciosamente perto.

Sentada na minha poltrona,
Seminua, cruzava as mãos.
Tremelicando junto ao chão
Seus pezinhos, finos, finos.

Eu observava, pálido,
Um raiozinho gazeteiro
Borboletear em seu sorriso
E no seio, mosca no canteiro.

Beijei-lhe os finos tornozelos,
Deu um doce riso brutal
Que se desfez em claros trilos,
Um belo riso de cristal.

Os pezinhos sob a camisa
Escaparam: “Queres parar!”
Primeira audácia permitida,
E o riso fingindo castigar!

Palpitantes sob meus lábios,
Beijava docemente seus olhos:
Ela lança a cabela travessa
Para trás: “Ó! Está melhor!...

Senhor, tenho algo a dizer...”
No resto do seio eu lançava
Um beijo que a fez estremecer
Com um bom riso que aceitava...

Ela estava quase despida
E um grande ramo indiscreto
Lançava folhas na janela,
Maliciosamente perto.*

Arthur Rimbaud

Première soirée

Elle était fort déshabillée
Et de grands arbres indiscrets
Aux vitres jetaient leur feuillée
Malinement, tout près, tout près.

Assise sur ma grande chaise,
Mi-nue, elle joignait les mains.
Sur le plancher frissonnaient d’aise
Ses petits pieds si fins, si fins.

Je regardai, couleur de cire,
Un petit rayon buissonnier
Papillonner dans son sourire
Et sur son sein, mouche au rosier.

Je baisai ses fines chevilles.
Elle eut un doux rire brutal
Qui s’égrenait en claires trilles,
Un joli rire de cristal.

Les petits pieds sous la chemise
Se sauvèrent: “Veux-tu finir!”
La première audace permise,
Le rire feignait de punir!

Pauvrets palpitants sous ma lèvre,
Je baisai doucement ses yeux:
Elle jeta sa tête mièvre
En arrière: “Oh! C’est encor mieux!…

Monsieur, j´ai deux mots à te dire…”
Je lui jetai le reste au sein
Dans un baiser, qui la fit rire
D´un bon rire qui voulait bien…

Elle était fort déshabillée
Et de grands arbres indiscrets
Aux vitres jetaient leur feuillée
Malinement, tout près, tout près.

* Nota da edição: Rimbaud A. “Première Soirée”. In: Oeuvres complètes, op. cit. [Paris: Gallimard, 1972 e 2007. Col. Bibliothèque de la Pléiade].
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Rimbaud — biografia: Jean Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, biografias L&PM POCKET Volume 975, 1ª edição, 2011, L&PM, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Paul Verlaine: O bom discípulo

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[traduzido por Joana Canêdo]

Estou salvo, estou condenado!
Um sopro ignoto me envolve.
Ó terror! Que Deus me salve!

Por que me ataca o Anjo danado,
Deixando meu ombro inciso
Enquanto subo ao Paraíso?

Febre amavelmente maligna,
Doce tormento, bom delírio,
Sou mártir, sou rei. Minha sina:
Nasci falcão, mas cisne expiro!

Ó Cioso, por quem aspiro,
Eis-me aqui, eis-me inteiro!
Rastejo a ti ainda torpe!
 Monte às minhas costas, galope!

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Paul Verlaine

Le bon disciple

Je suis élu, je suis damné!
Un grand souffle inconnu m'entoure.
Ô terreur! Parce, Domine!

Quel Ange dur ainsi me bourre
Entre les épaules tandis
Que je m'envole aux Paradis?

Fièvre adorablement maligne,
Bon délire, benoît effroi!
Je suis martyr et je suis roi,
Faucon je plane et je meurs cygne!

Toi le Jaloux qui m'as fait signe,
Oui me voici, voici tout moi!
Vers toi je rampe encore indigne!
 Monte sur mes reins, et trépigne!


* Nota deste aprendiz de blogueiro: O soneto invertido 'O bom discípulo', nos relata Jean Baptiste Baronian pela tradução de Joana Canêdo, está datado de maio de 1872 e foi encontrado nos bolsos de Rimbaud e recolhido pelo juiz de instrução Théodore t’Serstevens que intimara o poeta e também o autor Paul Verlaine após este ter atirado em Rimbaud em 10 de julho daquele ano.
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Rimbaud — Biografias L&PM POCKET Volume 975, por Jean Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, 2011, L&PM, Porto Alegre — RS; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio  Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valery, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Rimbaud: Minha Boêmia

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[traduzido por Joana Canêdo]

Lá ia eu, com as mãos nos bolsos furados;
Meu paletó também tornava-se ideal;
Caminhando sob o céu, Musa, eu era teu súdito leal,
Minha nossa! Sonhei com tantos amores elevados!

Um grande furo havia em meu único par de calças.
 Pequeno Polegar sonhador, pelo caminho desfiava
Rimas. E sob a Ursa Maior eu pernoitava.
 Minhas estrelas no céu soavam como uma valsa.

E eu escutava, sentado à beira do caminho,
As belas noites de setembro, sentindo as gotas
De orvalho no rosto, como um revigorante vinho;

E, rimando naquele escuro fantástico
Como se tocasse uma lira, eu tocava os elásticos
Dos sapatos apertados, com um pé junto ao coração.

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Arthur Rimbaud

Ma bohème

Je m'en allais, les poings dans mes poches crevées; 
Mon paletot aussi devenait idéal; 
J'allais sous le ciel, Muse! et j'étais ton féal; 
Oh! là! là! que d'amours splendides j'ai rêvées!

Mon unique culotte avait un large trou. 
 Petit-Poucet rêveur, j'égrenais dans ma course 
Des rimes. Mon auberge était à la Grande-Ourse. 
 Mes étoiles au ciel avaient un doux frou-frou

Et je les écoutais, assis au bord des routes, 
Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes 
De rosée à mon front, comme un vin de vigueur;

Où, rimant au milieu des ombres fantastiques, 
Comme des lyres, je tirais les élastiques 
De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur!

Poésies  1871
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Rimbaud  Biografias L&PM POCKET Volume 975, por Jean Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, 2011, L&PM, Porto Alegre  RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 —  1891), nascido em Charleville — França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873),  porém, escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.