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segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Sully Prudhomme: Première solitude

 
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[traduzido por Valentim Magalhães]

No colégio

Há meninos nas escolas,
Sempre banhados em pranto;
Os outros às cabriolas,
Eles quietinhos num canto.

As blusas sempre decentes
As calças em bom estado.
Os sapatos reluzentes,
Um ar sério e delicado.

Os colegas mais idosos
Os chamam, rindo meninas!
E os perseguem, maliciosos
Com suas troças ferinas.

Se os seus brinquedos lhes pedem,
Aos seus pedidos instantes
Bolas, piões, tudo cedem:
Não hão de ser negociantes.

Se o mestre os olha estremecem:
Temem-lhe a sombra, assustados...
Melhor fôra não nascessem:
A infância os faz desgraçados.

Verdadeiro inferno a classe;
E a lição? duro inimigo!
E se o mestre lhes ralhasse?!
E a vergonha do castigo?!

Quantos martírios! De dia,
É o sino rouco, medonho!
E à noite a mudez sombria
Do dormitório tristonho.

Nos lençóis bate e esmorece
O baço clarão das lampas;
Todos ressonam: parece
O vento a gemer nas campas.

E todos dormem, afeitos
A esse dormir de caserna;
Porém eles, nos seus leitos,
Pensam na casa paterna.

E no domingo, coitados!
Lembram o tempo saudoso
Em que dormiam, deitados
Em fofo berço amoroso.

Sob os maternos carinhos,
E as mães, que o sono velavam,
Iam tirá-los dos ninhos:
Pra suas camas os passavam.

Oh! Mães, culpadas ausentes!
Em um desterro infinito
Lhes pareceis. A estes entes
Falta o vosso olhar bendito.

Ingratas! Eles, chorando,
Pensam em vós. E, de bruços,
O travesseiro abraçando,
Abafam nele os soluços.

(Esta tradução, datada de 188,. consta do livro Rimário,
Paris, 1900.), em Nota do tradutor Mello Nóbrega.

Sully Prudhomme

Première solitude

On voit dans les sombres écoles
Des petits qui pleurent toujours;
Les autres font leurs cabrioles,
Eux, ils restent au fond des cours.

Leurs blouses sont très bien tirées,
Leurs pantalons en bon état,
Leurs chaussures toujours cirées;
Ils ont l’air sage et délicat.

Les forts les appellent des filles,
Et les malins des innocents:
Ils sont doux, ils donnent leurs billes,
Ils ne seront pas commerçants.

Les plus poltrons leur font des niches,
Et les gourmands sont leurs copains;
Leurs camarades les croient riches,
Parce qu’ils se lavent les mains.

Ils frissonnent sous l’œil du maître,
Son ombre les rend malheureux.
Ces enfants n’auraient pas dû naître,
L’enfance est trop dure pour eux!

Oh! La leçon qui n’est pas sue,
Le devoir qui n’est pas fini!
Une réprimande reçue,
Le déshonneur d’être puni!

Tout leur est terreur et martyre:
Le jour, c’est la cloche, et, le soir,
Quand le maître enfin se retire,
C’est le désert du grand dortoir;

La lueur des lampes y tremble
Sur les linceuls des lits de fer;
Le sifflet des dormeurs ressemble
Au vent sur les tombes, l’hiver.

Pendant que les autres sommeillent,
Faits au coucher de la prison,
Ils pensent au dimanche, ils veillent
Pour se rappeler la maison;

Ils songent qu’ils dormaient naguères
Douillettement ensevelis
Dans les berceaux, et que les mères
Les prenaient parfois dans leurs lits.

Ô mères, coupables absentes,
Qu’alors vous leur paraissez loin!
À ces créatures naissantes
Il manque un indicible soin;

On leur a donné les chemises,
Les couvertures qu’il leur faut:
D’autres que vous les leur ont mises,
Elles ne leur tiennent pas chaud.

Mais, tout ingrates que vous êtes,
Ils ne peuvent vous oublier,
Et cachent leurs petites têtes,
En sanglotant, sous l’oreiller.

(Les Solitudes — 1869)
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Sully-Prudhomme: O Vaso Quebrado

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[traduzido por Valentim Magalhães]

O vaso desta flor, que morre breve,
Feriu-o um dia um leque distraído,
E de um golpe tão rápido, tão leve,
Que nem se ouviu o mínimo estalido.

Mas a tênue ferida traiçoeira,
No límpido cristal rasgando a traça,
Lentamente cresceu, de tal maneira,
Que, invisível, o vaso todo abraça.

Gota a gota, fugiu-lhe a água do seio,
Que seiva, às flores, o perfume amado;
Ninguém, por ora, o caso a saber veio...
Não lhe toqueis, porém: está quebrado!

Tal, às vezes, da linda mão querida
Tocado, o coração chora e padece;
E, enfim, cedendo à pérfida ferida,
Parte-se, e a flor do seu amor fenece.

Perfeito e alegre ele parece ao mundo;
Porém, sem a denúncia de um gemido,
Sente o golpe crescendo-lhe profundo...
Não lhe toqueis: é um coração partido!

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Sully-Prudhomme

Le vase brisé

Le vase où meurt cette vervaine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut l’effleurer à peine,
Aucun bruit ne l’a révélé.

Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.

Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.

Souvent aussi la main qu’on aime
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;

Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.

Stances et poèmes — 1865
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês de Paris, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito e foi poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação da revista Parnasse contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor a receber o Nobel de Literatura (1901); obra poética: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros.