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domingo, 19 de junho de 2016

Mário Pederneiras: Desolação

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Pela Estrada da Vida ampla  coberta
De um longo velo pesaroso e baço,
Hás de encontrá-la muita vez alerta
Na longa rota do teu longo passo.

Por caminhos de pedras e sargaço
Há de levar-te pela mão incerta,
Até que, exausto em Mágoas e Cansaço,
Te seja a Vida intérmina e deserta.

Verás em tudo Solidão e Escolhos
E da Tristeza a tétrica figura
Estampada trarás nos próprios olhos.

E então, em Mágoas e Pavor clamando,
Hás de vê-la passar na Noite escura
A mortalha dos sonhos arrastando.


Rondas Noturnas (1901)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Simbolismo, Seleção e Prefácio de Lauro Junkes, 2006, Global Editora e Distribuidora, São Paulo — SP; Mário Veloso Paranhos Pederneiras (1868 1915), carioca do Rio de Janeiro, foi poeta fortemente influenciado pela poesia da escola simbolista francesa e também pelos grandes nomes do Simbolismo da língua portuguesa naquele período Cruz e Sousa, Antonio Nobre e Cesário Verde; estreou na imprensa por volta de 1878 ao tornar-se colaborador do jornal O Imparcial, do Grêmio Literário Artur de Oliveira, no Rio de Janeiro; entre 1895 e 1908, foi co-fundador, diretor e redator das revistas Rio Revista, Galáxia e Mercúrio, e da revista Fon-Fon, que foi responsável pela segunda fase do movimento simbolista; colaborou ainda com os periódicos A Gazeta de Notícias, Sans Dessous, O Tagarela e Novidades; escreveu e publicou Agonias (1900), Rondas Noturnas (1901), Histórias do meu Casal (1906), Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida (1912) Outono (1921, obra póstuma, com poemas de 1914 e ilustrações de Calixto e João Carlos).

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Mário Pederneiras: A Cigarra e a Formiga

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Dona Formiga
Pertence à classe das senhoras sérias,
Tem cuidado da casa e de alimento;
Não fala muito, muito pouco briga,
Tudo o que faz é com discernimento
E, enfim, não gosta de passar misérias.

Além de tudo, é de ambições modestas,
Todo o seu bem, no seu labor converte
E faz da vida idéias esquisitas…
Não faz visitas
E não se diverte…
Nunca se viu Dona Formiga, em festas.

De tanto se ocupar da vida e do futuro
E tornar o labor mais sério e duro,
Chega a ficar grotesca e cômica;
Pois, mesmo assim, nos amplos e maçudos
Livros morais, de exemplos e de estudos,
Com que, da infância, o estímulo se apura,
Ela figura
Como um sólido exemplo de econômica.

Trabalha muito no pesado Estio,
Porque receia
Que o Inverno venha achá-la desprovida.
Por isso, quando chega o Frio
E cessa a lida,
Já ela está com a dispensa cheia.

Dona Cigarra  esta, coitada!
Não vale nada
Entre as pessoas sérias!
É a pobre infeliz que dá lições de canto
E que o Verão inunda
Da sua Alma de estroina e vagabunda…
Entretanto,
Dona Cigarra, eu sei, passa misérias. 

Não tem a mínima noção exata
De arranjos econômicos de casas,
A própria fama, às vezes, malbarata...
A fartura que aumenta ou diminua,
Que a considere, o mundo, inepta, incapaz,
Diga que a vida que ela segue é torta,
Pouco se importa.
O que ela quer é o Sol e a Rua,
Porque ela não é mais
Do que um garoto de asas.

É da boêmia a mais perfeita imagem,
Adora a luz e mora na folhagem…
E tal a vida é e tal a aceita,
Sempre de sonhos e ilusões repleta…
Dona Cigarra até parece feita
Da própria massa de que é feito o Poeta!

Passa o Verão… E o véu do Estio,
O tempo, sobre o Céu e a Terra corre,
Torna-se a Vida mais penosa e séria…
Dona Cigarra não resiste ao frio
E, coitadinha, morre
E morre, quase sempre, na miséria. 

Contam, que um dia,
Morta, do Sol, a límpida alegria,
Sem luz para cantar,
Como fizera no Verão inteiro,
Fora à Formiga, em prantos, implorar,
Um pedaço de pão do seu celeiro…

Como a Formiga, então lhe perguntasse 
Onde se achava
E o que fizera na estação passada,
Honestamente, disse que cantava…
Pois a malvada,
Sem dó da mísera mendiga,
Quase morta de fome e já sem voz,
Numa ironia desumana e atroz,
Mandou que ela dançasse…

           Por isso, é que eu não gosto da Formiga
.

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Coleção Nossos Clássicos — Mário Pederneiras, poesia, Volume 29, Apresentação de Rodrigo Otávio Filho, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Mário Veloso Paranhos Pederneiras (1868 1915), carioca do Rio de Janeiro, foi poeta fortemente influenciado pela poesia da escola simbolista francesa e também pelos grandes nomes do Simbolismo da língua portuguesa naquele período  Cruz e Sousa, Antonio Nobre e Cesário Verde; estreou na imprensa por volta de 1878 ao tornar-se colaborador do jornal O Imparcial, do Grêmio Literário Artur de Oliveira, no Rio de Janeiro; entre 1895 e 1908, foi co-fundador, diretor e redator das revistas Rio Revista, Galáxia e Mercúrio, e da revista Fon-Fon, que foi responsável pela segunda fase do movimento simbolista; colaborou ainda com os periódicos A Gazeta de Notícias, Sans Dessous, O Tagarela e Novidades; escreveu e publicou Agonias (1900), Rondas Noturnas (1901), Histórias do meu Casal (1906), Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida (1912) e Outono (1921, obra póstuma, com poemas de 1914 e ilustrações de Calixto e João Carlos).

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Mário Pederneiras: Suave Caminho

Poesia da Fase Simbolista. Antologia dos Poetas Brasileiros | Amazon.com.br
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Assim… Ambos, assim, no mesmo passo,
Iremos, percorrendo a mesma estrada;
Tu 
 no meu braço trêmulo amparada,
Eu  amparado no teu lindo braço.

Ligados neste arrimo, embora escasso,
Venceremos as urzes da jornada...
E tu 
 te sentirás menos cansada
E eu  menos sentirei o meu cansaço.

E assim, ligados pelos bens supremos,
Que para mim o teu carinho trouxe,
Placidamente pela Vida iremos.

Calcando mágoas, afastando espinhos,
Como se a escarpa desta Vida fosse
O mais suave de todos os caminhos.

(Ao léo do sonho e à mercê da vida,
 1912, Rio de Janeiro  RJ)

Mário Veloso Paranhos Pederneiras (1867 - 1915) - Genealogy
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da Fase Simbolista, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Mário Veloso Paranhos Pederneiras (1868 1915), carioca do Rio de Janeiro, foi poeta fortemente influenciado pela poesia da escola simbolista francesa e também pelos grandes nomes do Simbolismo da língua portuguesa naquele período Cruz e Sousa, Antonio Nobre e Cesário Verde; estreou na imprensa por volta de 1878 ao tornar-se colaborador do jornal O Imparcial, do Grêmio Literário Artur de Oliveira, no Rio de Janeiro; entre 1895 e 1908, foi co-fundador, diretor e redator das revistas Rio Revista, Galáxia e Mercúrio, e da revista Fon-Fon, que foi responsável pela segunda fase do movimento simbolista; colaborou ainda com os periódicos A Gazeta de Notícias, Sans Dessous, O Tagarela e Novidades; escreveu e publicou Agonias (1900), Rondas Noturnas (1901), Histórias do meu Casal (1906), Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida (1912) e Outono (1921, obra póstuma, com poemas de 1914 e ilustrações de Calixto e João Carlos).