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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Augusto Frederico Schmidt: Ouço uma fonte

 
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Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.

É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.

É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.

É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.

É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.

É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!

(Fonte Invisível — 1949)

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Seleta em Prosa e Verso de Augusto Frederico Schmidt, Organização, estudo e notas do Professor Sílvio Elia, 1975, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Augusto Frederico Schmidt (1906 1965), carioca, fez seus estudos no Colégio Champs-Soleil (Lausanne Suiça), nos colégios São José, São Bento e Liceu Francês (todos do Rio de Janeiro) e no Colégio Americano Granbery, de Juiz de Fora MG, foi poeta, editor e livreiro, além de empresário de sucesso; teve seus primeiros textos divulgados n'O Beira Mar, um jornalzinho de Copacabana, e na revista Souza Cruz; depois, colaborou assiduamente na imprensa diária (jornais Correio da Manhã e O Globo, entre outros periódicos); em 1928, escreveu e publicou seus primeiros poemas, Canto do Brasileiro e, logo após, vieram os três Cantos do Liberto; suas obras: Navio Perdido (livro considerado de estréia, 1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Canto da Noite (1934), Estrela Solitária (1940), Mar Desconhecido (1942), O Galo Branco (prosa: memórias, diários, confissões, 1948 e 2ª edição, 1957); Fonte Invisível (1949), Os Reis (1953), Poesias Completas (1956), Caminho do Frio (1964) e outros títulos em verso e prosa; como editor e livreiro, dono da Livraria Schmidt Editora, lançou autores de maior relevância na época: Graciliano Ramos, Gilberto Freyre, Jorge Amado, José Geraldo Vieira, Lúcio Cardoso e outros; em São Paulo, participou do Movimento Modernista.

domingo, 24 de agosto de 2025

Augusto Frederico Schmidt: Visita ao túmulo materno

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Este homem parecendo distraído
Que está ao pé de teu leito de pedra,
Este ser usado, batido e contraditório,
É a mesma criatura que trouxeste a este mundo
E foi ferida e feriu e foi injustiçada
E praticou injustiças nesta inglória existência.
Este homem inconsciente e incerto,
Discutido e incompreendido,
Este homem no seu outono,
Cujos olhos perderam o brilho e o calor
E se tornaram apagados e tristes,
Este desconhecido que aqui está
E que, por um breve momento, procurou um abrigo junto à tua
ausência,
E que, para disfarçar o seu medo
Procura apoiar-se nos seus pobres e terrestres interesses,
Este homem inqualificável, insaciável e insatisfeito
É aquele mesmo filho teu, aquele tonto filho a quem embalaste quando
saiu da materna sepultura,
É o mesmo ser a quem deixaste na adolescência
Só o poeta o que vale dizer duas vezes só.
É o teu filho, o teu filho
A quem não reconhecerias, tão mudado ficou
Desde que o viste pela última vez;
É a tua caixa de ressonância, Mãe, que aqui está,
Convencional e estúpido, com o ar de quem cumpre um dever.
A fronte que se curva, num gesto comum,
Diante de tua lousa, é a mesma fronte
Em que pousaram as tuas inquietas mãos
Para medir as febres da infância.
É o teu filho que desejaria que o embalasses nos teus braços de
morta,
Mas não ousa pedir-te, porque é um homem,
Um homem acabado, mas um homem assim mesmo.

(O Caminho do Frio — 1964)

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Seleta em Prosa e Verso de Augusto Frederico Schmidt, Organização, estudo e notas do Professor Sílvio Elia, 1975, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Augusto Frederico Schmidt (1906 1965), carioca, fez seus estudos no Colégio Champs-Soleil (Lausanne Suiça), nos colégios São José, São Bento e Liceu Francês (todos do Rio de Janeiro) e no Colégio Americano Granbery, de Juiz de Fora MG, foi poeta, editor e livreiro, além de empresário de sucesso; teve seus primeiros textos divulgados n'O Beira Mar, um jornalzinho de Copacabana, e na revista Souza Cruz; depois, colaborou assiduamente na imprensa diária (jornais Correio da Manhã e O Globo, entre outros periódicos); em 1928, escreveu e publicou seus primeiros poemas, Canto do Brasileiro e, logo após, vieram os três Cantos do Liberto; suas obras: Navio Perdido (livro considerado de estréia, 1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Canto da Noite (1934), Estrela Solitária (1940), Mar Desconhecido (1942), O Galo Branco (prosa: memórias, diários, confissões, 1948 e 2ª edição, 1957); Fonte Invisível (1949), Os Reis (1953), Poesias Completas (1956), O Caminho do Frio (1964) e outros títulos em verso e prosa; como editor e livreiro, dono da Livraria Schmidt Editora, lançou autores de maior relevância na época: Graciliano Ramos, Gilberto Freyre, Jorge Amado, José Geraldo Vieira, Lúcio Cardoso e outros; em São Paulo, participou do Movimento Modernista.

terça-feira, 29 de julho de 2025

Augusto Frederico Schmidt: Poema — Fixa o teu olhar sobre as águas . . .

 
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Fixa o teu olhar sobre as águas
Que estão correndo, lá embaixo.
Contempla a paisagem que o sol
Em despedida ainda ilumina.

Olha as fisionomias humanas
Que vão passando diante de ti.
Absorve, enfim, o mundo em que vives
Este instante de consciência e equilíbrio.

Recebe tudo o que está fora de ti:
Árvores, águas, perfumes, olhares de homens
E de bichos; recebe tudo o que puderes
Para que a natureza inteira anime e transborde

O teu mundo deserto e escuro,
Absorve tudo, atrai até mesmo
As asas deste crepúsculo e os ventos
Em que elas se agitam.

Dá cor ao que é em ti cinza e melancolia.
Procura fazer nascer do teu silêncio
A música, tão escondida no teu ser
Como o veio de água ao fundo da terra.

Enriquece a tua alma de alegria e de sons,
Porque tu podes morrer, porque é
Incerta a tua vida, e ficarás diminuído
E humilhado, se compareceres vazio e triste

Diante do Criador do universo e dos seres.
Alegra-te e vivifica o teu mundo,
Porque tua morte pode estar chegando
E não a deves receber com as mãos vazias,

Com os olhos vazios, na indiferença e no tédio de tudo
O que te foi dado conhecer e possuir.

(Mar Desconhecido — poemas, 1942)

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Seleta em Prosa e Verso de Augusto Frederico Schmidt, Organização, estudo e notas do Professor Sílvio Elia, 1975, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Augusto Frederico Schmidt (1906 1965), carioca, fez seus estudos no Colégio Champs-Soleil (Lausanne Suiça), nos colégios São José, São Bento e Liceu Francês (todos do Rio de Janeiro) e no Colégio Americano Granbery, de Juiz de Fora MG, foi poeta, editor e livreiro, além de empresário de sucesso; teve seus primeiros textos divulgados n'O Beira Mar, um jornalzinho de Copacabana, e na revista Souza Cruz; depois, colaborou assiduamente na imprensa diária (jornais Correio da Manhã e O Globo, entre outros periódicos); em 1928, escreveu e publicou seus primeiros poemas, Canto do Brasileiro e, logo após, vieram os três Cantos do Liberto; suas obras: Navio Perdido (livro considerado de estréia, 1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Canto da Noite (1934), Estrela Solitária (1940), Mar Desconhecido (1942), O Galo Branco (prosa: memórias, diários, confissões, 1948 e 2ª edição, 1957); Fonte Invisível (1949), Os Reis (1953), Poesias Completas (1956), Caminho do Frio (1964) e outros títulos em verso e prosa; como editor e livreiro, dono da Livraria Schmidt Editora, lançou autores de maior relevância na época: Graciliano Ramos, Gilberto Freyre, Jorge Amado, José Geraldo Vieira, Lúcio Cardoso e outros; em São Paulo, participou do Movimento Modernista.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Augusto Frederico Schmidt: Josefina no inverno

 
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Nestes dias lúcidos,
Nestes dias suaves,
Nestas noites fundas,
Nestas noites graves,
Nestas horas tristes
Que correndo vão,

Nestas horas vagas
De incerteza e tédio,
Nestas horas raras
De silêncio e exílio,
Josefina vive, Josefina vibra.

Josefina sente, Josefina sonha
Josefina é a rosa
Deste tempo longo, deste
Tempo frio, que passando vai.

Josefina é a aurora desta velha noite.
Josefina é um rio que o silêncio tange,
Com o seu canto doce
Na paisagem erma.

Josefina é a bruma,
Josefina é a imagem
Da manhã nascendo, da manhã nevoenta,
Da manhã de inverno
Nas cidades mansas, nas cidades vagas.

Josefina é o inverno:
Suas mãos são finas,
Suas mãos são frias,
Suas mãos são longas
Como as aves raras,
As pernaltas aves,
Nos beirais cinzentos.

Josefina é esguia
Como as nuas árvores
Que os gelados ventos
Com suas mãos de sombra
Desgrenharam todas,
Desnudaram todas!

Josefina é Inverno,
Josefina é o sono
Numa noite fria!

(Mar Desconhecido — poemas, 1942)

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Seleta em Prosa e Verso de Augusto Frederico Schmidt, Organização, estudo e notas do Professor Sílvio Elia, 1975, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Augusto Frederico Schmidt (1906 1965), carioca, fez seus estudos no Colégio Champs-Soleil (Lausanne Suiça), nos colégios São José, São Bento e Liceu Francês (todos do Rio de Janeiro) e no Colégio Americano Granbery, de Juiz de Fora MG, foi poeta, editor e livreiro, além de empresário de sucesso; teve seus primeiros textos divulgados n'O Beira Mar, um jornalzinho de Copacabana, e na revista Souza Cruz; depois, colaborou assiduamente na imprensa diária (jornais Correio da Manhã e O Globo, entre outros periódicos); em 1928, escreveu e publicou seus primeiros poemas, Canto do Brasileiro e, logo após, vieram os três Cantos do Liberto; suas obras: Navio Perdido (livro considerado de estréia, 1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Canto da Noite (1934), Estrela Solitária (1940), Mar Desconhecido (1942), O Galo Branco (prosa: memórias, diários, confissões, 1948 e 2ª edição, 1957); Fonte Invisível (1949), Os Reis (1953), Poesias Completas (1956), O Caminho do Frio (1964) e outros títulos em verso e prosa; como editor e livreiro, dono da Livraria Schmidt Editora, lançou autores de maior relevância na época: Graciliano Ramos, Gilberto Freyre, Jorge Amado, José Geraldo Vieira, Lúcio Cardoso e outros; em São Paulo, participou do Movimento Modernista.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Augusto Frederico Schmidt: Mar desconhecido

 
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Sinto viver em mim um mar ignoto,
E ouço, nas horas calmas e serenas,
As águas que murmuram, como em prece,
Estranhas orações intraduzíveis.

Ouço também, do mar desconhecido,
Nos instantes inquietos e terríveis,
Dos ventos o guaiar desesperado
E os soluços das ondas agoniadas.

Sinto viver em mim um mar de sombras,
Mas tão rico de vida e de harmonias,
Que dele sei nascer a misteriosa

Música, que se espalha nos meus versos,
Essa música errante como os ventos,
Cujas asas no mar geram tormentas.

(Mar Desconhecido — poemas, 1942)

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Seleta em Prosa e Verso de Augusto Frederico Schmidt, Organização, estudo e notas do Professor Sílvio Elia, 1975, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Augusto Frederico Schmidt (1906 1965), carioca, fez seus estudos no Colégio Champs-Soleil (Lausanne Suiça), nos colégios São José, São Bento e Liceu Francês (todos do Rio de Janeiro) e no Colégio Americano Granbery, de Juiz de Fora MG, foi poeta, editor e livreiro, além de empresário de sucesso; teve seus primeiros textos divulgados n'O Beira Mar, um jornalzinho de Copacabana, e na revista Souza Cruz; depois, colaborou assiduamente na imprensa diária (jornais Correio da Manhã e O Globo, entre outros periódicos); em 1928, escreveu e publicou seus primeiros poemas, Canto do Brasileiro e, logo após, vieram os três Cantos do Liberto; suas obras: Navio Perdido (livro considerado de estréia, 1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Canto da Noite (1934), Estrela Solitária (1940), Mar Desconhecido (1942), O Galo Branco (prosa: memórias, diários, confissões, 1948 e 2ª edição, 1957); Fonte Invisível (1949), Os Reis (1953), Poesias Completas (1956), Caminho do Frio (1964) e outros títulos em verso e prosa; como editor e livreiro, dono da Livraria Schmidt Editora, lançou autores de maior relevância na época: Graciliano Ramos, Gilberto Freyre, Jorge Amado, José Geraldo Vieira, Lúcio Cardoso e outros; em São Paulo, participou do Movimento Modernista.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Augusto Frederico Schmidt: Cada vez mais na morte te aprofundas . . . [soneto]

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Soneto XXVI

Cada vez mais na morte te aprofundas.
Cresces na morte e nela te enraízas.
Dentro em pouco serás, na morte, antiga
E não mais jovem morta que choramos.

Em breve serás árvore na morte
E florirás distante e darás fruto
E a tua imagem sorrirá apenas
Integrada na ausência, eternamente.

Em breve, não doerás nos que te amaram
E os teus braços, tuas mãos, os teus cabelos,
Tudo o que foste neste triste mundo

Em lembrança se irá mudando, aos poucos,
E dormirás em nós teu sono eterno
Como se viva nunca fora dantes.

Fonte Invisível, Sonetos  1949

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Seleta em Prosa e Verso de Augusto Frederico Schmidt, Organização, estudo e notas do Professor Sílvio Elia, 1975, Livraria José Olympio Editora — Rio de Janeiro — RJ; Augusto Frederico Schmidt (1906  1965), carioca, foi poeta, editor e livreiro, além de empresário de sucesso; fez seus estudos no Colégio Champs-Soleil (Lausanne  Suiça) e nos colégios São José, São Bento e Liceu Francês (todos no Rio de Janeiro); teve seus primeiros textos divulgados n'O Beira Mar, um jornalzinho de Copacabana, e na revista Souza Cruz; depois, colaborou assiduamente na imprensa diária (jornais Correio da ManhãO Globo, entre outros periódicos); escreveu e publicou  Canto do Brasileiro (1928), Navio Perdido (1929), Cantos do Liberto A.F.S. (1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Canto da Noite (1934), Estrela Solitária (1940), Mar Desconhecido (1942), Fonte Invisível (1949), Os Reis (1953), Poesias Completas (1956), Caminho do Frio (1964) e outros títulos em verso e prosa; como editor e livreiro, dono da Livraria Schmidt Editora, lançou autores de maior relevância, como Graciliano Ramos, Gilberto Freyre e Jorge Amado, entre outros; em São Paulo, participou do Modernismo.

sábado, 5 de maio de 2018

Augusto Frederico Schmidt: Tanto desejo de ser puro sinto agora! . . . [soneto]

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Tanto desejo de ser puro sinto agora!
E tanta necessidade de ser feliz!
O luar lírico desce do céu como uma esmola.
E sinto que sou moço, pela primeira vez...

Sou moço! E que amargurada mocidade a minha!
Que estranha e rude mocidade!
Quantas horas perdidas, quantos instantes
Desperdiçados, que não voltam mais!

O luar lírico desce do céu como uma esmola
E há um perfume de jasmim na minha rua.
Uma vitrola chora na distância...

Pares se amam nos jardins discretos.
Só eu não vivo a minha mocidade...
Preciso amar também! Preciso amar também!

Navio Perdido  1929

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domingo, 15 de abril de 2018

Augusto Frederico Schmidt: Equilíbrio

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Há muito o meu coração estava seco.
Há muito a tristeza do abandono,
A desolação das coisas vagas e vazias,
Entrara em mim.

Porém foi de repente talvez a contemplação
De um céu noturno como mais belo nunca vi,
Com estrelas de um brilho intenso,
De uma pureza incalculável e incrível.

A poesia voltou de novo ao meu coração 
Como a chuva caindo na terra queimada,
Como o sol clareando a tristeza das cidades,
Das ruas, dos quintais, dos tristes e dos doentes...

A poesia voltou de novo, única solução para mim.
Única solução para o peso dos meus desenganos,
Depois de todas as outras soluções terem fugido:
O amor, o ódio, a fé, o abandono, a riqueza...

A poesia voltou, de novo consoladora e boa,
Com uma frescura de mãos santas e virgens,
Com uma bondade de heroísmos terríveis,
Com uma violência de convicções inabaláveis.

Vi fugirem todas as minhas amargas queixas, de repente
Tudo me pareceu sólido, exato, reto:
A poesia estabeleceu em mim um equilíbrio ignorado.
A poesia caiu de novo em mim, como um raio.

Pássaro Cego  1930

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segunda-feira, 2 de abril de 2018

Augusto Frederico Schmidt: Cantata em ando

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É uma voz cantando.
Sim, é uma voz cantando!
É uma fonte perdida
De águas lívidas chorando.
É a rosa matutina
Na agonia suspirando.

É uma voz úmida,
É um soluço no escuro,
É uma ferida sangrando,
É uma voz sussurrando,
É um pássaro tentando
Entrar na fechada sala
As suas asas machucando.

É uma voz me chamando!
A voz da inocência morta?
A voz que outrora cantava
O meu sono convidando?
É o infante, as mãos defuntas
Na vidraça me acenando.

É uma estrela brilhando,
São uns olhos me fitando,
Molhados de orvalho frio.

É a noite que vai partindo,
É a triste aurora que surge
E vem, de longe,
Cantando
Fonte Invisível  1949

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