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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Vinicius de Moraes: Desaparição de Tenório Júnior

 
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Sei que agora estás só. Não ouço nada
Do som do teu piano.
Sei que estás só, apenas respirando
O branco pó da madrugada
E indefinidamente caminhando
Caminhando sem fim por uma estrada
Ninguém sabe por quê, como nem quando.

Sei somente que vieram e te levaram
Para um grande vazio
O céu te pareceu desmesurado
Cheio de estrelas que faziam frio.
Tinhas os olhos brancos das estátuas
e os zigomas contraídos
Havia pó e sangue em tua barba
E o tempo de um sorriso.

Sei que estás muito só, muito em silêncio
Como dentro de um túnel.
Mas caminhas, no branco trip imenso
Do princípio e do fim que se confundem.
Do pó vieste, ao pó voltaste enfim
Amigo terno e puro...
Dize-me agora, apenas para mim:
A morte é branca assim, Tenório Júnior?

Buenos Aires, 25 de março de 1976: uma semana depois de sua misteriosa e total desaparição

[Poema inédito — extraído de documentos do Arquivo-Museu
de Literatura Brasileira (AMLB) da Fundação Casa de Rui Barbosa]

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50 poemas macabros [inclui poemas inéditos]: Vinicius de Moraes, Organização e Posfácio de Daniel Gil, Ilustrações de Alex Cerveny, 2023, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Vinicius de Moraes (1913 1980), carioca, estudou no Colégio Santo Inácio, na Faculdade Nacional de Direito (atual UFRJ) e língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford Inglaterra; foi poeta, crítico de cinema, autor teatral (escreveu Orfeu da Conceição, que serviu de roteiro para o filme Orfeu Negro, que se tornaria premiado), letrista concorrido da Música Popular Brasileira e diplomata; seus principais parceiros na música: Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque, Carlos Lyra ...; como crítico de cinema, trabalhou no jornal A Manhã; foi colaborador da revista Clima e dirigiu o suplemento literário de O Jornal; obras poéticas: O caminho para a distância (1933), Forma e exegese (1935), Ariana, a mulher (1936), Novos Poemas (1938), Poemas, Sonetos e Baladas (1946), Novos Poemas II (1959), Para viver um grande amor (1964) etc.; produção musical, discografia: Orfeu da Conceição (1956), Vinicius e Odette Lara (1963), Vinicius e Caymmi (1965), Os Afro-Sambas: Baden e Vinicius (1966), Vinicius: poesia e canção (volumes I e II, 1966), Vinicius em Portugal (1969), Como dizia o poeta: Vinicius, Marilia Medalha e Toquinho (1971), Vinicius, Bethânia e Toquinho: En La Fusa — Mar del Plata (1971), Poeta, moça e violão: Vinicius, Clara Nunes e Toquinho (1973), O Poeta e o Violão: Toquinho e Vinicius (1975), A Arca de Noé (músicas para crianças, 1980), Um pouco de ilusão: Toquinho e Vinicius (1980) ...; como diplomata, atuou em Los Angeles Estados Unidos, Paris França, Roma Itália e Montevidéu Uruguai; em 1968, período de ditadura militar, foi afastado da carreira diplomática e aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional nº 5, com a alegação de ter comportamento boêmio, e que isso o impedia de cumprir funções diplomáticas; em 1998, o poeta foi anistiado (post-mortem) pela Justiça brasileira.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Carlos Drummond de Andrade: O PTT

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                    Ao saber que o Ato Institucional nº 2* extinguira os partidos políticos, a proprietária do prédio alugado ao PTT (Partido Tradicionalista Transistorizado) botou as mãos na cabeça:  E agora, José?
                    Se o Partido estava proibido de existir, quem lhe pagaria o aluguel? Um partido tão bom, tão pontual: pagava sempre dia 1º, salvo se caísse em domingo ou feriado; aí, pagava de véspera. Nunca tivera o menor aborrecimento com o inquilino. O próprio tesoureiro vinha trazer o dinheiro no envelope. Educado, de pouca conversa, esperava no corredor; convidado a sentar-se na sala, agradecia: estava bem assim; “Nem cafezinho o senhor aceita?” Obrigado, acabei de tomar no Diretório, aliás preciso voltar logo, estamos em sessão permanente, o momento político é muito melindroso”.
                    Dona Melisa não insistia, porém não deixava de renovar o convite todo mês. Simpatizava com o tesoureiro, senhor mais para 60 anos do que para 50, aliança no dedo, circunspecto, fisionomia de quem guarda altos segredos políticos e não irá revelá-los a troco de gentilezas. De resto, Dona Melisa queria lá saber de nenhum segredo nacional, estadual ou municipal. Orgulhava-se, é certo, de ser senhoria de um partido político  e que partido: tradicionalista, como convém à nossa formação cristã; e transistorizado, isto é, moderno, atual. Não a convidaram para inscrever-se nele, nem Dona Melisa aceitaria: é dos que votam com a consciência, e a sua lhe recomendava: “Confia nos homens, não nos partidos”.
                    Confiava no tesoureiro, tanto que não exigia contrato de locação. Ele se apresentara com a ata da fundação do Partido e com o dinheiro na mão, disposto a pagar seis meses adiantados; ela aceitou três, e no fim do prazo dispensou o pagamento por antecipação. O partido funcionava lá há bem cinco anos, sem dor de cabeça para ela. Agora cerra as portas, vai-se o inquilino ideal. Arranjará outro, mas quem garante que será tão sério quanto esse?
                    Dia 1º o tesoureiro apareceu na forma do costume, e disse-lhe que não se preocupasse. O Partido continuaria a ocupar a casa. Como, se o AI-2 acaba com os partidos?  O nosso é diferente  explicou-lhe o tesoureiro, – O Ministro da Justiça reconheceu que temos organização especial, por assim dizer apartidária, ou superpartidária; nosso principal objetivo é manter e cultivar as tradições morais, adaptando-as à era tecnológica; a senhora não conhece nossos estatutos; se conhecesse, havia de gostar. —  Então continua meu inquilino?  Continuamos; o PTT não pode parar.
                    Dona Melisa ficou tão satisfeita que contou a novidade às amigas. Não era apenas senhoria de um partido, mas do único partido sobrevivente à chacina do AI-2. O único? Uma das amigas contou para o marido, este duvidou: gostaria de saber que partido era esse, onde, como funcionava, etc. A dúvida foi transmitida a Dona Melisa, que não gostou nada do cepticismo do marido de sua amiga. Ela própria não sabia muito a respeito do PTT, mas, uma vez que duvidavam de sua palavra, iria à sede, pediria os estatutos, era capaz até de inscrever-se, por que não?
                    Pegou o ônibus para o bairro distante, desceu em frente à sede do PTT. Não tinha tabuleta, porta e janelas estavam fechadas. Tocou longamente a campainha. Ia desistir, pensando em voltar outro dia, quando ouviu sair lá de dentro um fio de musiquinha pré-carnavalesca: “Ui, ui, ui! roubaram a mulher do Rui”. Decerto o zelador ouvia rádio, não escutara a campainha. Bateu com força na porta. Bateu tanto que ela se entreabriu e ia fechar–se rapidamente, mas Dona Melisa empurrou-a, enérgica, a tempo de ver o tesoureiro e uma loira, ambos de short, correrem desabaladamente em direção ao quintal, onde se extinguiu para sempre o Partido Tradicionalista Transistorizado.

24/12/1965
Caminhos de João Brandão, crônicas  1970

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Notas deste aprendiz de blogueiro:
1. O AI-2, ou Ato Institucional nº 2, foi instituído em 27 de outubro de 1965, durante a ditadura militar, no governo do general Castello Branco; tal ato, além de outras determinações restritivas social e politicamente, decretou o fim das eleições diretas para presidente e o fim do pluripartidarismo, tornou extintos todos os partidos políticos existentes até então, cancelando seus registros; a partir daquela data, os partidos que legalmente passaram a existir foram dois: a Arena (partido do governo militar) e o MDB (partido de oposição), sendo que este era visto por boa parte dos opositores, como de oposição consentida;
2. À época, dezembro de 1965, o poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade escrevia suas crônicas para o jornal carioca Correio da Manhã;
3. Clicando no título 'O PTT' lá em cima, o abusado leitor/leitora irá ouvir (com saudosismo?!) a marchinha carnavalesca que fala da mulher do Rui.
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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia”, de Emanuel de Moraes, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902  1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Carlos Heitor Cony: A Herança

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Correio da Manhã, 07.05.1964

Do dia 1º de abril até ontem, foram presas milhares de pessoas. Não sabemos os nomes, as profissões e os pensamentos dessas pessoas. Sabemos apenas que estão presas em algum lugar  ou em qualquer lugar. Pelas cartas que nos chegam, pelas informações que subitamente colhemos numa entrelinha de noticiário, sabemos que a maioria desses presos nem sequer foi interrogada ainda. Estão presos há mais de 30 dias e nem sequer sabem porque estão presos.

O drama dessa gente  infelizmente  é um assunto à parte. Tão perplexos quanto os presos, estão alguns cidadãos que tiveram seus direitos e mandatos cassados: não lhes foi pedido um esclarecimento, uma declaração. Muitos deles  tal como os presos  perderam tudo e não sabem que perderam tudo. Para citar alguns nomes: o prof. Anísio Teixeira, o economista Celso Furtado, o jornalista Edmar Morel. Exagero quando digo que perderam tudo. Muitos deles já receberam propostas do estrangeiro para cargos altamente honrosos.

Mas voltemos aos presos. João de Tal, pardo, 35 anos, metalúrgico, na manhã do dia 10 de abril chegou a seu local de trabalho e foi preso. Levado no tintureiro que ele viu lá no morro onde mora: no dia em que prenderam Tião Medonho e o retiraram, ferido do barraco-fortaleza. Pois no mesmo tintureiro destinado aos criminosos, João de Tal é carregado pelas ruas da cidade e, de repente, jogado num pátio onde duzentos ou trezentos Joões de Tal estão vivendo a mesma tragédia.

João de Tal é homem. Suporta estoicamente o cimento frio do pátio, o fedor das secreções em volta, a comida incerta e deteriorada. Suporta até mesmo o espancamento esporádico que os policiais ou os militares promovem para "baixar a moral da rapaziada". João de Tal não sofre por isso nem com isso.

Sofre mais, porém. Deixou em algum lugar a família. Mulher, sei lá quantos filhos, talvez um agregado, que tanto pode ser um amigo tuberculoso, um papagaio, um cachorro ou um parente afastado de sua mulher. Na tarde do dia 10, toda essa gente esperou inutilmente pelo chefe da casa  daquilo que com algum esforço se pode chamar de casa. A noite caiu e caíram também a incerteza e a impotência: desastre do trem, acidente no trabalho, ou simplesmente a emboscada estúpida em qualquer biboca por aí.

Talvez alguém tenha mencionado a polícia ou Exército. João de Tal gostava do PTB: vira um candidato a vereador, há tempos, distribuir flâmulas do Partido. Havia duas cores fatais: vermelho e negro. João de Tal entregou a alma e o corpo àquela flâmula rubronegra. Pendurou-a em sua sala, ao lado da outra flâmula  flâmula não, pavilhão rubronegro. Era a decoração e o orgulho da casa.

João de Tal não poderia ser preso por isso. Muita gente no morro também era PTB, era até comunista, e continuava solta, saía para o trabalho todos os dias e todos os dias inexoravelmente voltava.

Não foi preciso sindicar muito. Um vizinho trabalhava no Ministério da Educação. Não era doutor, era simplesmente ascensorista. Pois o ascensorista recebeu um papel para declarar o nome dos conhecidos que eram subversivos. O ascensorista perguntou a uma funcionária da biblioteca o que era subversivo, a funcionária respondeu firme: "É ser do PTB!" *

A delação foi feita e o ascensorista não sabe que ao lado de sua casa, por culpa na qual ele não chega a ter culpa, uma família inteira, mais o agregado  talvez apenas um papagaio  esperam inutilmente que João de Tal volte com seus braços fortes para o sustento de todos. Com seus dentes brancos para o sorriso de todos.

Para atender a essa gente, a todos os Joões de Tal que não voltaram ou não voltarão um dia, espero merecer a atenção e o respeito de todos. É preciso que alguém faça alguma coisa. E já que não se pode pedir mais justiça, peço caridade.


* Nota: Em outra crônica, de 14.05.1964, Cony publica duas notas no rodapé. Uma é esta: “... em crônica passada... citei uma bibliotecária como delatora. Foi um exemplo apenas, sem que com isso pretendesse ferir a classe. Afinal, poderia citar, para o exemplo, uma telefonista, um ascensorista, um dentista ou uma escriturária. Foi coisa impessoal, genérica, hipotética.”
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O Ato e o Fato — crônicas políticas, 3ª edição, 1964, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro  RJ; Carlos Heitor Cony, carioca, nascido em 1926, cursou humanidades e filosofia no Seminário São José, do Rio de Janeiro; escritor e jornalista, trabalhou em jornais e revistas cariocas (Rádio Jornal do Brasil, Correio da Manhã, revistas do Grupo Manchete), atualmente colunista da Folha de São Paulo, é autor de extensa obra, ganhador de diversos prêmios literários, e pertence à Academia Brasileira de Letras; entre outros títulos, escreveu O Ventre (romance, 1962), A verdade de cada dia (romance, 1959), Matéria de memória (romance, 1962), Da arte de falar mal (crônicas, 1963), O Ato e o Fato (crônicas políticas, 1964), Antes, o Verão (romance, 1964), Posto Seis (crônicas, 1965), Pesssach: a travessia (romance, 1967), Sobre todas as coisas (contos, 1968), Pilatos (romance, 1973), Quase memória (romance, 1995), A Casa do Poeta Trágico (romance, 1999), O Tudo ou o Nada (crônicas, 2004), além de adaptações de textos clássicos da literatura universal, traduções, textos para teatro e televisão (novela) e participação de coletâneas com outros autores; durante a ditadura civil-militar foi preso diversas vezes por sua atuação na imprensa.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Carlos Drummond de Andrade: 1964 (Queda de Jango)

Em tempos de Comissão Nacional da Verdade, que objetiva investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 no Brasil e praticadas por agentes do estado, transcrevo abaixo registro do poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade, acerca dos primeiros dias após o golpe civil-militar no país, aqueles dias que, no fio da história, acabaram perdurando por longos vinte e um anos de antidemocracia, rasteiras e perseguições políticas, usurpações de poder, cassações, torturas e mortes. O poeta registra aqueles momentos inquietantes em um diário de anotações de “fatos políticos e literários que o interessaram”, anotações tais, parte delas, reunidas no livro O Observador no Escritório: páginas de diário, editado em 1985 – antes, uma seleção desses registros foi publicada no Jornal do Brasil, entre 1980 e 1981.
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1964 - Queda de Jango

Abril, 1 – E, de repente, foi-se o Governo Goulart, levando consigo o Comando Geral dos Trabalhadores. Em menos de dois dias, tudo se esfarelou. O Presidente da República, tão seguro de si ao falar aos “senhores sargentos”, fugiu de avião para lugar ainda não sabido. Não tinha a força que pensava – e que outros pensavam que ele tivesse.

O dia de ontem foi de tensão e boataria, até que se positivou, entre tarde e noite, a notícia de sublevação da tropa federal em Minas, com o Governador Magalhães Pinto chefiando o movimento. A adesão de São Paulo só foi conhecida pela madrugada. Passei quase toda a noite colado ao radinho transistor, e pedindo e recebendo algumas vezes notícias telefônicas, fornecidas pelo bem informado Otto Lara Resende. Preocupava a situação no Palácio Guanabara: Carlos Lacerda entrincheirado mas também encurralado ali.

Hoje, depois da fala de Lacerda pela Rádio Roquette Pinto, acabaram as notícias, salvo a propaganda contínua, enfadonha, do Governo Jango em sua “cadeia nacional da legalidade”. À tarde, informado de que alguma coisa se passava no Forte de Copacabana, fui conferir na praia. Carlos Heitor Cony, meu colega no Correio da Manhã, me pôs a par dos acontecimentos. O Forte estava ocupado por um grupo militar contrário a Jango. Soldados e civis (estes, oficiais da Marinha à paisana, segundo Cony) foram afastando os curiosos que se aglomeravam junto ao Forte. Há poucas dúvidas sobre a derrota de Jango.

Eu voltava para casa quando se ouviram estampidos, ouve um corre-corre, e eis que das janelas dos edifícios gente sacode lenços, panos de prato, até lençóis, enquanto outra chuva, esta de papel picado, cai sobre o asfalto. O rádio espalhara a notícia, transmitida por Lacerda: Jango deu o fora. Volto à praia. Gente cantando o Hino Nacional, xingando Brizola em slogan improvisado. Sensação geral de alívio.

Abril, 13 – Baixado Ato Institucional, que atenta rudemente contra o sistema democrático. O Congresso, já tão inexpressivo, passa a ser uma pobre coisa tutelada. Vamos ver o que será das liberdades públicas.

Maio, 3 – Incrível. Prisão de Carlos Ribeiro, o “bom mercador de livros”, amigo de todos, sob suspeita de quê? de tramar a derrubada do marechal Castelo Branco? Encontro-o na Travessa do Ouvidor, levado por um tira jovem, que mais parece poeta debutante, e por Ascendino Leite, que o iria acompanhar ao DOPS como amigo e pessoa insuspeita ao Governo.

Junho, 22 – Desagradável chamada para depor no inquérito administrativo da Rádio Ministério da Educação, em torno de alegadas “atividades subversivas” da antiga diretora, Maria Ieda Linhares. Queriam saber o motivo do meu afastamento da Rádio, naturalmente para fazer carga contra ela, que de tão atacada chegou ao quase desespero. Respondi que meu afastamento resultou de solicitação de Simeão Leal, Diretor do Serviço de Documentação do MEC, desejoso de contar comigo no seu trabalho. Os inquéritos desse tipo traduzem mais o espírito de vingança do que o de justiça.

Julho, 21 – Pela segunda vez na sede do Ministério da Educação, para depor no inquérito sobre a Rádio MEC. Às mesmas perguntas dou as mesmas respostas. Não sei de atividades subversivas da ex-editora; nunca tive com ela o menor incidente; pelo contrário, sempre me distinguia em serviço.

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O Observador no Escritório: páginas de diário, 1985, Editora Record, Rio de Janeiro  RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); O Observador no Escritório: páginas de diário (1985); e tantos outros...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Carlos Heitor Cony: Da Salvação da Pátria

Em tempos de Comissão Nacional da Verdade, que objetiva investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 no Brasil e praticadas por agentes do estado, transcrevo abaixo outra crônica política de Carlos Heitor Cony, esta, escrita no calor do primeiro momento do golpe civil-militar de 1964, foi publicada no jornal carioca Correio da Manhã, de 02.04.64, onde o jornalista trabalhava. As crônicas políticas do autor, relatando aquele início de ditadura que acabou perdurando por longos vinte e um anos, foram escritas e divulgadas entre 2 de abril e 9 de junho daquele ano e reunidas no livro O Ato e o Fato, crônicas políticas, cuja 3ª edição (a que trago em meu poder) foi impressa ainda em 1964.
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Da Salvação da Pátria

(Correio da Manhã, 02.04.1964)
Posto em sossego por uma cirurgia e suas complicações, eis que o sossego subitamente se transforma em desassossego: minha filha surge esbaforida dizendo que há revolução na rua.

Apesar da ordem médica, decido interromper o sossego e assuntar: ali no Posto Seis, segundo me afirmam, há briga e morte. Confiando estupidamente no patriotismo e nos sadios princípios que norteiam as nossas gloriosas Forças Armadas, lá vou eu, trôpego e atordoado, ver o povo e a história que ali, em minhas barbas, está sendo feita.

E vejo. Vejo um heróico general, à paisana, comandar alguns rapazes naquilo que mais tarde o repórter da TV-Rio chamou de “gloriosa barricada”. Os rapazes arrancam bancos e árvores. Impedem o cruzamento da Av. Atlântica com a rua Joaquim Nabuco. Mas o general destina-se à missão mais importante e gloriosa: apanha dois paralelepípedos e concentra-se na brava façanha de colocar um em cima do outro.

Estou impossibilitado de ajudar os gloriosos herdeiros de Caxias, mas vendo o general em tarefa aparentemente tão insignificante, chego-me a ele e, antes de oferecer meus préstimos patrióticos, pergunto para que servem aqueles paralelepípedos tão sabiamente colocados um sobre o outro.

– General para que é isto?

O intrépido soldado não se dignou olhar-me. Rosna, modestamente:

– Isso é para impedir os tanques do I Exército!

Apesar de oficial da Reserva – ou talvez por isso mesmo – sempre nutri profunda e inarredável ignorância em assuntos militares. Acreditava, até então, que dificilmente se deteria todo um Exército com dois paralelepípedos na esquina da rua onde moro. Não digo nem pergunto mais nada. Retiro-me à minha estúpida ignorância.

Qual não é meu pasmo quando, dali a pouco, em companhia do bardo Carlos Drummond de Andrade, que descera à rua para saber o que se passava, ouço pelo rádio que os dois paralelepípedos do general foram eficazes: o I Exército, em sabendo que havia tão sólida resistência, desistiu do vexame: aderiu aos que se chamavam de rebeldes.

Nessa altura, há confusão na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, pois ninguém sabe ao certo o que significa “aderir aos rebeldes”. A confusão é rápida. Não há rebeldes e todos, rebeldes ou não, aderem, que a natural tendência da humana espécie é aderir.

Os rapazes de Copacabana, belos espécimes de nossa sadia juventude, bem nutridos, bem fumados, bem motorizados, erguem o general em triunfo. Vejo o bravo cabo-de-guerra passar em glória sobre minha cabeça.

Olho o chão. Por acaso ou não, os dois paralelepípedos lá estão, intactos, invencidos, um em cima do outro. Vou lá perto, com a ponta do sapato tento derrubá-los. É coisa relativamente fácil.

Das janelas, cai papel picado. Senhoras pias exibem seus pios e alvacentos lençóis, em sinal de vitória. Um cadillac conversível pára perto do “Six” e surge uma bandeira nacional. Cantam o Hino também Nacional e declaram todos que a Pátria está salva.

Minha filha, ao meu lado, exige uma explicação para aquilo tudo.

– É carnaval papai?

– Não.

– É campeonato do mundo?

– Também não.

Ela fica sem saber o que é. E eu também fico. Recolho-me ao sossego e sinto na boca um gosto azedo de covardia.

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O Ato e o Fato — crônicas políticas, 3ª edição, 1964, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Heitor Cony, carioca, nascido em 1926, cursou humanidades e filosofia no Seminário São José, do Rio de Janeiro; escritor e jornalista, trabalhou em jornais e revistas cariocas (Rádio Jornal do Brasil, Correio da Manhã, revistas do Grupo Manchete), atualmente colunista da Folha de São Paulo, é autor de extensa obra, ganhador de diversos prêmios literários, e pertence à Academia Brasileira de Letras; entre outros títulos, escreveu O Ventre (romance, 1958), A verdade de cada dia (romance, 1959), Matéria de memória (romance, 1962), Da arte de falar mal (crônicas, 1963), O Ato e o Fato, crônicas políticas (1964), Antes, o Verão (romance, 1964), Posto Seis (crônicas, 1965), Pesssach: a travessia (romance, 1967), Sobre todas as coisas (contos, 1968), Pilatos (romance, 1973), Quase memória (romance, 1995), A Casa do Poeta Trágico (romance, 1999), O Tudo ou o Nada (crônicas, 2004), além de adaptações de textos clássicos da literatura universal, traduções, textos para teatro e televisão (novela) e participação de coletâneas com outros autores; durante a ditadura civil-militar foi preso diversas vezes por sua atuação na imprensa.

Carlos Heitor Cony: A Natural História Natural

A instituição da Comissão Nacional da Verdade é uma das ações levadas a efeito neste governo PT/Dilma e aliados. Instalada em maio de 2012, objetiva investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 no Brasil e praticadas por agentes do estado. Já no assunto, vale a pena ler (ou reler!) as crônicas políticas de Carlos Heitor Cony, escritas nos primeiros dias e/ou semanas após o início do golpe político de 64  ditadura civil-militar iniciada em 31 de março daquele ano e que perdurou por longos vinte e um anos, até o início de 1985; tais crônicas, que retratam os primeiros dias e semanas daquele golpe civil-militar, foram escritas e divulgadas no jornal carioca Correio da Manhã, entre 2 de abril a 9 de junho daquele ano, e reunidas no livro O Ato e o Fato, crônicas políticas, cuja 3ª edição (a que trago em meu poder) foi impressa ainda em 64; abaixo, transcrevo uma delas.
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A Natural História Natural

(Correio da Manhã, 19-4-1964)

Encontro no livro escolar de minha filha (terceira série primária) algumas sábias classificações que vale a pena recordar ou aprender. Nas páginas 162 e seguintes, encontramos: “Invertebrados  Dividem-se em artrópodes, moluscos, vermes, equinodermos, celenterados e protozoários”.

Entre os artrópodes, destaquemos os moluscos: “têm o corpo mole, uns vivem dentro de uma concha, outros não. Exemplos: lesma, polvo, caracol. O caracol é célebre pela ausência de cérebro”. Mas são de moral ilibada, incorruptíveis, bem podiam participar do Alto Comando que nos rege e guia.

Mas há os protozoários. O livro da 3ª. Série assim explica: “São os protozoários os seres mais simples. São de tamanho minúsculo e apesar de infinitamente pequenos, constituem um sério perigo para a vida dos homens; referimo-nos aos micróbios de origem animal, que são protozoários causadores de muitas doenças. Só podem ser vistos através de microscópios”. Mas em horas de convulsões cívicas, os protozoários são facilmente vistos através da televisão.

Falando ainda sobre os animais, o manual de terceira série expõe algumas generalidades.

“Os animais não podem viver sem alimento, e, por isso, eles comem e bebem. Uns comem carne, como o gato e a onça. Outros alimentam-se de ervas ou grãos, como a galinha e o peru. Outros, os mais numerosos, comem de tudo.”

E há o capítulo das metamorfoses:

“Há animais que têm mais ou menos a mesma forma desde que nascem e outros que mudam de forma enquanto se desenvolvem”.

E, finalmente, o curioso e atual capítulo intitulado: “Meios de defesa dos animais”. Vamos transcrevê-lo na íntegra:

“Os animais vivem em luta constante, uns contra os outros. Por isso, a natureza deu a todos eles meios de defesa com os quais se defendem. Há animais que se defendem com:
  1. os chifres (o touro, o veado, o carneiro, etc.);
  2. os dentes (a onça, o cão , o porco, etc.);
  3. as patas traseiras (o cavalo, o burro, a zebra, etc.);
  4. os pelos (o porco espinho);
  5. o casco (a tartaruga, o tatu, a ostra, etc.);
  6. a cauda (o jacaré, a baleia, etc.);
  7. a tromba (o elefante);
  8. o mau cheiro que exalam (o percevejo do mato, o gambá);
  9. a cor que tomam (a perereca, o camaleão, etc.);
  10. a atitude que tomam (fingindo-se mortos)”.
A lição termina com o parágrafo dedicado à expressão: “Certos animais entendem-se por meio de uivos e guinchos; o homem, por meio da linguagem articulada, isto é, por meio da palavra. O homem é o único elemento da natureza que tem o dom da palavra”.

Minha filha decorou esta sabedoria toda e pretende fazer boa prova. De tanto ouvi-la repetir isso tudo, quase que acabei decorando também. E aproveito a oportunidade para oferecer a gregos e troianos, reacionários e revolucionários, guardiões da ordem vigente e pilares da sociedade, esta modesta contribuição à análise de cada um.

De protozoários estamos cheios, transbordam pelas ruas, pelos quartéis, pelas repartições, caem do céu, sobem da terra: é uma invasão. De animais que se defendem com o mau cheiro que exalam  a prudência me aconselha o silêncio. Mas é arma eficaz, tanto na guerra como na paz. Sugeriria que os estrategistas bélicos incluíssem esse importante meio de defesa entre as nobres armas que velam pela Pátria.

Finalmente, há os animais que se comunicam através de guinchos e uivos. Tive o desprazer, em dias da semana passada, de receber alguns telefonemas desses animais.

Além dos animais que se comunicam com uivos e guinchos, há o homem. O livro, embora primário, é categórico ao afirmar: “só o homem tem o dom da palavra”.

E é através da palavra, é pronunciando-a clara e corajosamente, sem medo, que podemos unir todos os homens e a eles nos unir contra todos os animais que para sobreviverem exalam mau cheiro, mudam de feitio e cor, usam chifres e patas.

Animais que para sobreviverem precisam da força e da estéril tranqüilidade que só a imbecilidade dá e sustém.

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O Ato e o Fato crônicas políticas, 3ª edição, 1964, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Heitor Cony, carioca, nascido em 1926, cursou humanidades e filosofia no Seminário São José, do Rio de Janeiro; escritor e jornalista, trabalhou em jornais e revistas cariocas (Rádio Jornal do Brasil, Correio da Manhã, revistas do Grupo Manchete), atualmente colunista da Folha de São Paulo, é autor de extensa obra, ganhador de diversos prêmios literários, e pertence à Academia Brasileira de Letras; escreveu O Ventre (romance, 1958), A verdade de cada dia (romance, 1959), Matéria de memória (romance, 1962), Da arte de falar mal (crônicas, 1963), O Ato e o Fato, crônicas políticas (1964), Antes, o Verão (romance, 1964), Posto Seis (crônicas, 1965), Pesssach: a travessia (romance, 1967), Sobre todas as coisas (contos, 1968), Pilatos (romance, 1973), Quase memória (romance, 1995), A Casa do Poeta Trágico (romance, 1999), O Tudo ou o Nada (crônicas, 2004), e outros, além de adaptações de textos clássicos da literatura universal, traduções, textos para teatro e televisão (novela) e participação de coletâneas com outros autores; durante a ditadura civil-militar foi preso diversas vezes por sua atuação na imprensa.