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Dez negrinhos numa celae um deles já não se move.
Fugiram de manhã cedo,
mas eram nove.
Nove negrinhos fugindo
e um deles, o mais afoito,
dançou, cruzou com uma bala...
Correram oito.
Oito negrinhos trabalham
de revólver e canivete:
roupa cáqui vem chegando,
fugiram sete.
Sete negrinhos passando
pela rua de vocês,
alguém chamou a polícia.
Correram seis.
Seis negrinhos dão o balanço:
Bolsa, anel, relógio, brinco...
Teve um erro na partilha,
sobraram cinco.
Cinco negrinhos de olho
na saída do teatro.
Um vacilou, deu bobeira...
Correram quatro.
Quatro negrinhos trombando,
todos quatro de uma vez,
Um deles a gente agarra,
mas fogem três.
Três negrinhos que batalham
feijão, farinha e arroz.
Um se deu mal: a comida
dava pra dois.
Dois negrinhos se embebedam
de pinga, cerveja e rum.
Discussão, briga, navalha...
E fica um.
E um negrinho vem surgindo
No meio da multidão.
Por trás desse derradeiro...
Vem um milhão.
O homem artificial — 1999,
págs. 60 — 61.

Os Cem Melhores Poetas
Brasileiros do Século — Seleção de José Nêumanne Pinto, Textos introdutórios
e Notas biobibliográficas de Rinaldo de Fernandes, 1a. edição, 2001, Geração
Editorial, São Paulo — SP; Braulio Tavares, nascido em 1950,
paraibano de Campina Grande, é escritor, poeta e compositor; escreveu e
publicou Os baladas de Trupizupe (1980), Balada do andarilho Ramon e outros
textos (1980), Cabeça elétrica, coração acústico (cordel, 1981), Sai do meio,
que lá vem o filósofo (1982), O que é ficção científica (ensaio, 1986), A espinha
dorsal da memória (contos, 1989), Mundo fantasmo (contos, 1994), A máquina
voadora (romance, 1997), O homem artificial (poemas, 1999), A invenção do
mundo pelo Deus curumim (literatura infantil, 2009) e outros títulos em verso e
prosa; foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura na categoria literatura
infantil, pela sua obra A invenção do mundo..., em 2009; é radicado no Rio de Janeiro e escreve uma coluna diária para o
Jornal da Paraíba (Campina Grande — PB).