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domingo, 13 de outubro de 2024

genésio dos santos: poesia com os pés no chão

 
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Isso não é poesia que se escreva!
Glauco Mattoso, em Manifesto obsoneto.

não precisava ter vindo
com os pés no chão
sem causar tumulto

antes viesse
de ponta-cabeça
e mantivesse
as nuvens nos pés

sp, maio/outubro de 2024

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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

domingo, 15 de setembro de 2024

Casimiro de Brito: Ofício de poeta

 
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"a construção de uma linguagem
na linguagem"
Paul Valéry

"a linguagem de uma pessoa
que se dirige a outra"
T. S. Eliot

1. A palavra

Mordo a palavra e dispo-a
de pó. Sorvo seus rios de sangue
e nela me reclino, e nela se demora
o azul do sol, os dedos submissos
da lama, a luz, o perfil silencioso
de um pequeno animal
parindo, na relva, quase desfeito.

A palavra bebo, a palavra equilibro
no vinho dos olhos, na húmida
cadência da noite. E outras cores
se abrem. E outros sons amanhecem.
E o poema se desprende, vivo e aberto.
Inviolado.

2. O poema

Poemas, sim, mas de fogo
devorador. Redondos como punhos
diante do perigo. Barcos decididos
na tempestade. Cruéis. Mas de uma
crueldade pura: a do nascimento,
a do sono, a da morte.

Poemas, sim, mas rebeldes.
Inteiros como se de água, e,
como ela, abertos à geometria
de todos os corpos. Inteiros
apesar do barro e da ternura
do seu perfil de astros.

Poemas, sim, mas de sangue.
Que esses poemas brotem do
oculto. Que libertem o seu pus
na praça pública. Altos, vibrantes
como um sismo, um exorcismo
ou a morte de um filho.

3. A leitura

De como este convívio se processa
e falo e silencio no espaço breve
em que o sol de palavras se constrói,
convém não saber, convém libertar somente
a brancura dos sons, a forma insubmissa
dos silvos do vento, a certa linguagem
do amor e da morte, animais pastando
nas campinas do sangue. Convém ouvir
o barro das cores. E nada simular. E nada
pedir à neve da noite, ao brilho das
estrelas. E assim receber a música
como se fosse uma noiva. O deus que
se eleva de coisa nenhuma e de todas
as coisas um deus alegre, um suicídio
de serpentes enfim desfeitas, multi-
plicadas; centopeias de sombra
em seu casulo. Mas vivas
na voz do sangue. Vivas. Assim eu canto
e amo. E respiro a morte do corpo, a voz
terrosa. O nascimento da liberdade.

4. O ofício

Escrevo para sentir nas veias
o voo da pedra.

Antecipação da paz
neste país de granadas
moldadas
no silêncio dos frutos.

Escrevo como quem escava
no bojo da sombra
um mar de claridade.

Pedras vivas de possibilidade,
as palavras levantam
o crime, os pássaros do pântano.

Escrevo
no grande espaço obscuro
que somos e nos inunda.

(Jardins de guerra — 1966)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Casimiro Cavaco Correia de Brito (1938 2024), português de Loulé, distrito de Faro, Algarve, fez seus estudos iniciais na região onde nasceu, ali também completou o Curso Geral do Comércio, na Escola Industrial e Comercial de Faro, tempos depois frequentou, em Londres, o Westfield College, foi poeta, romancista, contista, ensaísta e tradutor; criou a página literária Prisma de Cristal do jornal A Voz de Loulé, na qual recebeu colaborações de literatos da época, dirigiu a coleção de poesia A Palavra, também com publicações de literatos poetas, fundou e dirigiu, em coparticipação, os Cadernos do Meio-Dia, aí revelando poetas do movimento literário Poesia 61, do qual também foi participante; após ter passado um período em Londres Inglaterra e na Alemanha, estabeleceu-se em Lisboa e desempenhou funções no setor financeiro, como gerente de instituição bancária; Casimiro de Brito é considerado, no seu tempo, um intenso ativista literário e divulgador da poesia nacional portuguesa e estrangeira; o poeta foi nomeado consultor para a Europa da World Haiku Association, sediada em Tóquio, e teve outras representações em instituições literárias; suas obras: em poesia: Poemas da solidão imperfeita (1957), Sete poemas rebeldes e carta a Pablo Picasso (1958), Telegramas (1959), Canto Adolescente (movimento literário Poesia 61, 1961), Poemas orientais (Hai-kais japoneses, 1963), Jardins de Guerra (1966), Musa do Amor (1970), Corpo Sitiado (1976) ..., em prosa: Um certo país ao Sul (contos, 1975), Imitação do Prazer (romance, 1977), Prática da Escrita (ensaio, 1977), Nós, Outros (romance, em parceria com Teresa Salema, 1979), Pátria Sensível (romance, 1983), Contos da Morte Eufórica (1984), Vagabundagem na Poética de António Ramos Rosa (ensaio, 2001) e outros títulos em verso e prosa; traduziu poesias de vários idiomas, particularmente os hai-kais japoneses, e também teve suas obras traduzidas para inúmeras línguas, entre as quais a italiana, francesa, japonesa, alemã, polaca, grega, chinesa, russa, árabe ...; além da extensa obra publicada, participou ainda de mais de uma centena de antologias e coletâneas poéticas em vários países; recebeu premiações por suas obras.

sábado, 7 de setembro de 2024

Miguel Torga: A Poesia

 
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Vou de comboio...
Vou
Mecanizado e duro como sou
Neste dia;
E mesmo assim tu vens, tu me visitas!
Tu ranges nestes ferros e palpitas
Dentro de mim, Poesia!

Vão homens a meu lado distraídos
Da sua condição de almas penadas;
Vão outros à janela, diluídos
Nas paisagens passadas...
E porque hei-de ter eu nos meus sentidos
As tuas formas brancas e aladas?

Os campos, imprecisos, nos meus olhos,
Vão de braços abertos às montanhas;
O mar protesta contra não sei quê;
E eu, movido por ti, por tuas manhas,
A sonhar um painel que se não vê!

Porque me tocas? Porque me destinas
Este cilício vivo de cantar?
Porque hei-de eu padecer e ter matinas
Sem querer acordar?

Porque há-de a tua voz chamar a estrela
Onde descansa e dorme a minha lira?
Que razão te dei eu
Para que a um gesto teu
A harmonia me fira?

Poeta sou e a ti me escravizei,
Incapaz de fugir ao meu destino.
Mas, se todo me dei,
Porque não há-de haver na tua lei
O lugar do menino
Que a fazer versos e a crescer fiquei?

Tanto me apetecia agora ser
Alguém que não cantasse nem sentisse!
Alguém que visse padecer,
E não visse...

Alguém que fosse pelo dia fora
Neutro como um rapaz
Que come e bebe a cada hora
Sem saber o que faz...

Alguém que não tivesse sentimentos,
Pressentimentos,
E coisas de escrever e de exprimir...
Alguém que se deitasse
No banco mais comprido que vagasse,
E pudesse dormir...

Mas eu sei que não posso.
Sei que sou todo vosso,
Ritmos, imagens, emoções!
Sei que serve quem ama,
E que eu jurei amor à minha dama,
Á mágica senhora das paixões.

Musa bela, terrível e sagrada,
Imaculada Deusa do condão:
Aqui vou de longada;
Mas aqui estou, e aqui serás louvada,
Se aqui mesmo me obriga a tua mão!

Odes — 1946

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Miguel Torga (1907 1995), pseudônimo literário de Adolfo Correia da Rocha, português da freguesia de São Martinho de Anta Sabrosa (Trás-os-Montes), fez seus estudos iniciais na escola de sua cidade natal, ingressou no seminário de Lamego, estudou Português, Geografia e História, aprendeu Latim e familiarizou-se com os textos sagrados, desistiu de ser padre e emigrou para o Brasil em 1920; permaneceu no país até 1925, estudou no Ginásio Leopoldinense,  Leopoldina MG, por esta ocasião escreveu seus primeiros versos, regressou a Portugal, concluiu o colégio, cursou Medicina na Universidade de Coimbra; em 1929, deu início à participação em tertúlias literárias, e à colaboração na revista Presença, consolidando, assim, sua “formação estético-literária”; em 1930, foi um dos cofundadores da revista Sinal, de “vida efêmera”; em 1933, já com quatro livros de poesia publicados, concluiu o curso de Medicina, retornou à terra natal e, ali, deu início ao exercício da clínica médica; a partir de 1934, com a publicação da novela A Terceira Voz, adotou o pseudônimo literário Miguel Torga, e assim permaneceu conhecido e reconhecido; em 1936, fundou, com o crítico Albano Nogueira, a revista Manifesto; em 1937, viajou pela França, Itália, Suiça e Bélgica; em 1938, tendo dificuldades com a censura salazarista, lançou o quinto e último número da revista Manifesto; problemas com a censura continuaram, sua obra O Quarto Dia da Criação do Mundo foi recolhida das livrarias, entre 1939 e 1940 Torga foi preso por alguns meses, publicou Bichos (contos), tido como seu maior êxito literário, seu livro Contos da Montanha foi censurado e apreendido, mas continuou em circulação clandestina até 1968; desde 1941, passou a viver em Coimbra, onde também abriu consultório médico; suas obras: em poesia: Ansiedade (1928), Rampa (1930), Tributo (1931), Abismo (1932), O Outro Livro de Job (1936), Lamentação (1943), Libertação (1944), Odes (1946), Nihil Sibi (1948), Cântico do Homem (1950), Orfeu Rebelde (1958), Câmara Ardente (1962), Poemas Ibéricos (1965), publicações em prosa: A Terceira Voz (novela, 1934), Bichos (contos, 1940), Contos da Montanha (1941), Novos Contos da Montanha (1944), Pedras Lavradas (1951), Vindima (romance, 1945), A Criação do Mundo (romance autobiográfico, vários volumes) e Diário (vários volumes), peças teatrais: Mar e Terra Firme (ambas em 1941), Sinfonia (poema dramático, 1947), Paraíso (1949), Traço de União (1956), Fogo Preso (1976) ...; recebeu premiações por suas obras, tendo recusado algumas.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

genésio dos santos: bula-poema

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          não bula com o poema
          deixe-o fluir sem contraindicação
          tanto faz se são versos livres ou metrificados e rimados, não os recuse.
          fora do poema metrificar o quê?
          se poesia não existir, rimar a vida com quê?
          e não esqueça que dança é poesia

          se dança é poesia, dance.
          se canto é poesia, cante.
          se mímica é poesia, gesticule. mas com ritmo, e intercale respiração pausada.
          o ritmo é você quem faz, a pausa também.
          se escultura é poesia, entalhe.

          burile a vida. não a rasgue de qualquer jeito ou a qualquer propósito, mas na medida certa,
          pois só assim pode ser (ou parecer) prazeroso.
          se gerar sofrimento, que seja tão somente o necessário para que ela (a vida) continue.
          é você quem decide sobre a dose do sofrer.

          se silêncio é poesia, cale-se.
          se pintura é poesia, pinte.
          misturar dança e versos metrificados, canto e versos compassados, mímica e versos silenciados, tudo isso é permitido.
          para a poesia não há contraindicação.

          se viver é sofrimento, alivie o sofrimento, não a vida;
          e se não houver remédio, experimente placebo.
          quem sabe funcione. isso não sei.
          só sei que poesia não traz contraindicação.

          (março/abril de 2023, são paulo sp)

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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal O Espelho — SP, Folha Bancária, participou do jornal Brinque (do coletivo cultural do Seeb-SP, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

genésio dos santos: procedimento II


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Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
[Drummond, em Procura da poesia]

não faça versos com a palavra voo
se não souber flanar sobre o poema
frases dormidas deixe pra mais tarde
não há razão pra interromper-lhes o sono

pra cada peixe use o anzol preciso
há uma peneira pra cada fonema
não busque rimas, não insista nisso
se não quiser escalavrar o texto

palavras soltas, há que decantá-las
pince-as depois, ou não as pince nunca
palavras tortas não as endireite,
não há segredo para a sua arte

não utilize martelo e cinzel,
o verso pode perder o equilíbrio
se uma palavra persegue o poeta
jamais a esconda, deve haver motivo...

evite as flores que se apresentarem
e enrubescerem ao nascer do sol
remova as pedras que bloqueiam a estrofe
quer cabralinas quer drummondianas

elas, as flores, só emolduram o texto
estas, as pedras, só o enrijecem
esqueça os cânones, não há que segui-los
só os ausculte em caso de emergência

quem sabe o sonho de parir poemas
o faça grávido mais de uma vez

(2020—2023, são paulo — sp)

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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal O Espelho — SP, Folha Bancária, participou do jornal Brinque (do coletivo cultural do Seeb-SP, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

genésio dos santos: poemanifesto ou o desespero do poeta


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Ah, o que escrevi na mesa e no muro
Com coração de tolo e mão de tolo
Não deveria me ornar a mesa e o muro?...

Mas vocês dizem: “Mãos de tolo sujam —
E deve se limpar a mesa e o muro
Até que o último traço desapareça!”

Tolo em desespero [Narr in Verzweiflung,
Nietzschetraduzido por Paulo César de Souza]

          1.
          calem a poesia!
          ignorem-na, ela de nada serve.
          inútil poesia.

          tal qual uma gravura de magritte
          isto não é uma muleta.

          2.
          poetas de todo mundo, uni-vos! uma onda avassaladora percorre os rincões da terra.
          de que adiantaram odes, epigramas, epitalâmios e epístolas que bardos e aedos de antanho recitaram nos ajuntamentos das ágoras e das tribunas para seus ouvintes e degustadores de ocasião? acalmaram angústias pelo menos? reposicionaram desejos?
          ainda agorinha, aqui mesmo na modernidade dos anos vinte do último século do segundo milênio d.c., a já centenaríssima semana de vinte e dois a que veio? o que trouxe com seus saraus e sua exposição em teatro municipal? o que consolidou como benefício? marcava-se ali a criação prioritária de uma arte nacional, mas a mando de quem e de qual elite?
          e hoje, nesta cataléptica pós-modernidade de dois mil e vinte e dois d.c., a que se prestam páginas e páginas internéticas ora ocupadas e visitadas por versos livres ou mesmo sonetos? ou até mesmo por cordéis, repentes e outras canções, tudo devidamente monitorado e chancelado pelos zuquerbérgues nativos e/ou alienígenas... como escapar desta terrível bolharmadilha?

          3.
          “a poesia está morta, mas juro que não fui eu”, manifestou o poeta.
          não, josé paulo paes, nenhuma poesia morreu!
          é certo, contudo, que à luz de vela os versos bruxuleiam cambaleantes, vítimas que são do apagão que nos coloca em atroz escuridão.
          sem novidade no campo literário, protegido pela solidão e em penumbra forçada, o poeta se concentra com uma taça de vinho à mão. e lê, e escreve, e declama.
          quem sabe ele careça da escuridão pra declamar e louvar a réstia de luz, assim como o médico se dedica ao doente e o pastor ao seu rebanho.
          sem doente, pra quê médico? sem rebanho, pra quê pastor?
          e há doente e há rebanho e há escuridão.

          4.
          do mundo real do hoje a poesia não tem nada a dizer ou não quer dizer nada? nem falo do silêncio da pintura, da escultura, da dança, da mímica...
          no entanto, se a poesia, aquela exclusiva que se utiliza da palavra escrita ou falada, não cuidar de tais temas nem deles enviar notícias, então pra que ela serve?
          pra aliviar as dores do narcísico poeta? pra acarinhar alguém ressentido pela ausência de bens materiais?
          quem sabe, ao contrário do que possa afirmar nossa vã suposição, sirva a alguém empanturrado de tantos bens materiais... sei lá! talvez sirva a algum bajulador dos donos do dinheiro.

          5.
          qual o lado da poesia neste ambiente a nós apresentado? nesta pátria dinheiril de arenga democrática, o que a poesia pensa e diz sobre os algoritmos e outros ritmos que nos regem? isso é questão nanúscula ou questão nenhuma para o fazer e o refazer de nossos textos?
          o que palavras pensam e dizem acerca do aquecimento global, do derretimento das cada vez menores calotas polares a cada dia que passa? e sobre o uso dos combustíveis fósseis? o que elas, as palavras, nos revelam sobre o capitalismo selvagem ou vá lá!? , domesticado e bem longe de ser tão somente ocidental e muito menos acidental? já são fatos consumados e irreversíveis?
          com mais acuidade ainda, neste nanocosmo, o que a palavra doce palavra! tem a dizer sobre desgovernos? e o que já se disse sobre governos e desgovernos de ontem ou de antanho? poemas não deram jeito nisso. há poesia que a isso dê jeito?
          aliás, o que é desgoverno? e governo?

          hoje agorinha, e já encaminhado para um qualquercosmo, que ruídos sonantes e/ou dissonantes são ouvidos acerca deste novíssimo e contaminante momento de vento pandêmico que infesta esta bolhaterra? com uma conta na casa de vários milhões de mortos e sequelados, a que veio tal pandemia?
          mas e acerca de todas as mortes de todas as guerras de todos os tempos? só cabe o silêncio?
          o que a poesia declama sobre a china e a cochinchina? e sobre a américa latina?
          ah! o que dizer sobre os que vestem fardas, todas as fardas de todas as cores e para todo propósito? nada há a ser dito?

          6.
          inútil poesia
          não uive para o lado escuro da lua
          não há mais lua
          esqueça a lua

          7.
          o poeta tem algo a dizer sobre a utopia?
          descendo do pedestal para onde foi catapultado e onde ora se posiciona, o que ele nos informa acerca das muletas quaisquer muletas! , a religião, a arte, a bebedeira, o socialismo utópico?
          existe socialismo utópico? não sendo utópico, pode-se arguir sobre algum socialismo real? há magia que dê jeito a isso?

          8.
          a morte ronda perversa. e se a vida for tão somente um paliativo para em vão tentar driblá-la no que há devir, há placebo que nos alivie e nos conforme?
          não, não é preciso calar a poesia. ela já anda calada. por inútil, já não serve pra nada mesmo.

          [ou, sem pretensão alguma e tampouco movidos por intenções terceiras, a cultivemos e a deixemos funcionar, talvez!, mesmo que sem função definida...]

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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal O Espelho — SP, Folha Bancária, participou do jornal Brinque (do coletivo cultural do Seeb-SP, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

José Oiticica: Os Oratórios

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Cada soneto meu é um oratório aceso
Onde queimam quatorze archotes eu em luz
Eu, ardendo de amor e ante o escárnio e o desprezo
Concitando os sem fé à escalada de Elbruz.

Eu ardendo, eu amando, eu, súdito indefeso,
Ofertando-te dons que o meu labor produz,
Projetando halos de ouro em cada réu repeso
E auras de salvação nos paus de cada cruz.

E tu rezando, absorta em mim; e eu a clarear-te
As pupilas, entrando em tua alma, a fulgir,
Remodelando em ti os condões de minha arte...

Antevendo na sombra as criações do porvir
E elevando ao meu deus, como emblema e estandarte,
Os meus braços em chama, a adorar e a servir.

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José Oiticica: Da anarquia à anarcopoesia — Maria Aparecida Munhoz de Omena, Apresentação de Diva Cardoso de Camargo, 2010, Annablume Editora, São Paulo — SP; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882 1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió — AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os jornais Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa, e colaborou com a imprensa operária libertária, através de A Lanterna, Spartacus, A Plebe, Livre Pensador, e da revista A Vida; suas obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Fonte Perene (sonetos, 1954), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955) e outros títulos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Boris Pasternak: Definição de Poesia


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[traduzido por Haroldo de Campos]

Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.

Um doce ervilhal abandonado.
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.

1917

Boris Pasternak

Определение поэзии

Это круто налившийся свист,
Это щелканье сдавленных льдинок,
Это ночь, леденящая лист,
Это двух соловьев поединок,

Это сладкий заглохший горох,
Это слезы вселенной в лопатках,
Это с пультов и флейт Фигаро
Низвергается градом на грядку.

Все, что ночи так важно сыскать
На глубоких купаленных доньях,
И звезду донести до садка
На трепещущих мокрых ладонях.

Площе досок в воде духота.
Небосвод завалился ольхою.
Этим звездам к лицу б хохотать,
Ан вселенная место глухое.

1917
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Boris Leonidovitch Pasternak (1890 1960), russo de Moscou, foi poeta, romancista, crítico e tradutor; estudou composição no Conservatório de Moscou, filologia na Universidade de Moscou e, mais tarde, cursou filosofia na Alemanha; escreveu e publicou, entre outros títulos em verso e prosa, Temas e Variações (poesia, 1917), Minha Irmã, Vida (poesia, 1922), Salvo-conduto (autobiografia romanceada, 1931), Nascer de Novo (prosa, 1932), Poemas Coligidos, Nos Trens Matinais (poesia), Doutor Jivago (romance, publicado inicialmente na Itália, 1957); Pasternak é considerado, por suas versões das tragédias de Shakespeare, do Fausto de Goethe, de Rainier Maria Rilke, de Petöffi e outros autores georgianos, um dos mais notáveis tradutores russos de poesia; no auge da Guerra Fria (Estados Unidos versus União Soviética), em 1958, com a publicação de Doutor Jivago no ocidente, o escritor e poeta foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, por intensas pressões políticas de autoridades e da imprensa russa, recusou-se a recebê-lo.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Alfred de Musset: Impromptu [improviso, versos repentinos]

 
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[traduzido por Renata Cordeiro]

(em resposta à pergunta: O que é a poesia?)

Fixar o pensamento, expulsando as lembranças,
Sobre um lindo eixo d’ouro, e o manter na balança,
Assim, incerto, inquieto, imóvel, não obstante;
Eternizar, quem sabe, o sonho de um instante;
Amar o vero e o belo, e buscar seu concento;
Ouvir no coração ecoar o talento;
Cantar, rir, chorar, só, assim sem nada mais;
Trabalhar o sorriso, o termo, o olhar e os ais
Com temor, excelência, e com extremo encanto;
Transformar em pérola o pranto;
Do poeta daqui de baixo, eis a paixão,
Eis seu bem, sua vida, enfim, sua ambição.

Alfred de Musset

Impromptu

(En réponse à la question: Qu'est-ce que la Poésie?)

Chasser tout souvenir et fixer sa pensée,
Sur un bel axe d'or la tenir balancée,
Incertaine, inquiète, immobile pourtant,
Peut-être éterniser le rêve d'un instant;
Aimer le vrai, le beau, chercher leur harmonie;
Écouter dans son coeur l'écho de son génie;
Chanter, rire, pleurer, seul, sans but, au hasard;
D'un sourire, d'un mot, d'un soupir, d'un regard
Faire un travail exquis, plein de crainte et de charme
Faire une perle d'une larme:
Du poète ici-bas voilà la passion,
Voilà son bien, sa vie et son ambition.
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês nascido em Paris, tido como "l'enfant terrible" do romantismo, foi poeta, novelista e dramaturgo; de sua biografia, consta que "estudou direito, medicina, música e desenho e, desde os 14 anos de idade, já fazia seus versos", 'A ma mére' (1824), 'A Mademoiselle Zoé le Douairin' (1826), 'un rêve', 'L’anglais mangeur d’opium' (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), La coupe et les lèvres, Namouna (1831), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro, 1834), Lorenzaccio (teatro), Fantasio (teatro, 1834), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836) Nuits (Noites, 1837), Lettres de Dupuis et Cotonet (Cartas de Dupuis e Cotonet, crítica), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros títulos; pertenceu à Académie Française.