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Ah, o que escrevi na mesa e no
muro
Com coração de tolo e mão de
tolo
Não deveria me ornar a mesa e
o muro?...
Mas vocês dizem: “Mãos de tolo
sujam —
E deve se limpar a mesa e o
muro
Até que o último traço
desapareça!”
Tolo em desespero [Narr in
Verzweiflung,
Nietzsche, traduzido por Paulo César de Souza]
1.
calem a poesia!
ignorem-na, ela de nada serve.
inútil poesia.
tal qual uma gravura de magritte
isto não é uma muleta.
2.
poetas de todo mundo, uni-vos! uma onda avassaladora percorre os rincões
da terra.
de que adiantaram odes, epigramas, epitalâmios e epístolas que bardos e aedos de
antanho recitaram nos ajuntamentos das ágoras e das tribunas para seus
ouvintes e degustadores de ocasião? acalmaram angústias pelo menos? reposicionaram
desejos?
ainda agorinha, aqui mesmo na modernidade dos anos vinte do último século do segundo milênio d.c., a já
centenaríssima semana de vinte e dois a que veio? o que trouxe com seus saraus
e sua exposição em teatro municipal? o que consolidou como benefício? marcava-se
ali a criação prioritária de uma arte nacional, mas a mando de quem e de qual elite?
e hoje, nesta cataléptica pós-modernidade de dois mil e vinte e dois d.c., a
que se prestam páginas e páginas internéticas ora ocupadas e visitadas por
versos livres ou mesmo sonetos? ou até mesmo por cordéis, repentes e outras
canções, tudo devidamente monitorado e chancelado pelos zuquerbérgues nativos e/ou
alienígenas... como escapar desta terrível
bolharmadilha?
3.
“a poesia está morta, mas juro que não fui eu”, manifestou o poeta.
não, josé paulo paes, nenhuma poesia morreu!
é certo, contudo, que à luz de vela os versos bruxuleiam cambaleantes,
vítimas que são do apagão que nos coloca em atroz escuridão.
sem novidade no campo literário, protegido pela solidão e em penumbra
forçada, o poeta se concentra com uma taça de vinho à mão. e lê, e escreve, e
declama.
quem sabe ele careça da escuridão pra declamar e louvar a réstia de
luz, assim como o médico se dedica ao doente e o pastor ao seu rebanho.
sem doente, pra quê médico? sem rebanho, pra
quê pastor?
e há doente e há rebanho e há escuridão.
4.
do mundo real do hoje a poesia não tem nada a dizer ou não quer dizer nada? nem falo do silêncio da pintura, da escultura, da dança, da mímica...
no entanto, se a poesia, aquela exclusiva que se utiliza da palavra escrita ou falada, não cuidar de tais temas nem deles enviar notícias, então pra que ela serve?
pra aliviar as dores do narcísico poeta? pra acarinhar alguém ressentido pela ausência de bens materiais?
quem sabe, ao contrário do que possa afirmar nossa vã suposição, sirva a alguém empanturrado de tantos bens materiais... sei lá! talvez sirva a algum bajulador dos donos do dinheiro.
5.
qual o lado da poesia neste ambiente a nós apresentado? nesta pátria dinheiril de
arenga democrática, o que a poesia pensa e diz sobre os algoritmos e outros ritmos que nos regem? isso é questão nanúscula ou questão nenhuma para o fazer e o refazer de nossos
textos?
o que palavras pensam e dizem acerca do aquecimento global, do
derretimento das cada vez menores calotas polares a cada dia que passa? e sobre o uso dos combustíveis fósseis? o que elas, as palavras, nos
revelam sobre o capitalismo selvagem ou — vá lá!? —, domesticado e bem longe de ser tão somente ocidental e muito menos acidental? já
são fatos consumados e irreversíveis?
com mais acuidade ainda, neste nanocosmo, o que a palavra — doce palavra! — tem a dizer sobre desgovernos? e o
que já se disse sobre governos e desgovernos de ontem ou de antanho? poemas não
deram jeito nisso. há poesia que a isso dê jeito?
aliás, o que é desgoverno? e governo?
hoje agorinha, e já encaminhado para um qualquercosmo, que ruídos
sonantes e/ou dissonantes são ouvidos acerca deste novíssimo e contaminante momento
de vento pandêmico que infesta esta bolhaterra? com uma conta na casa de vários milhões de
mortos e sequelados, a que veio tal pandemia?
mas e acerca de todas as mortes de todas as guerras de todos os tempos?
só cabe o silêncio?
o que a poesia declama sobre a china e a cochinchina? e sobre a américa
latina?
ah! o que dizer sobre os que vestem fardas, todas as fardas de todas as cores e para todo propósito? nada há a ser dito?
6.
inútil poesia
não uive para o lado escuro da lua
não há mais lua
esqueça a lua
7.
o poeta tem algo a dizer sobre a utopia?
descendo do pedestal para onde foi catapultado e onde ora se posiciona, o que ele nos informa acerca das muletas — quaisquer muletas! —, a religião, a arte, a bebedeira, o
socialismo utópico?
existe socialismo utópico? não sendo utópico, pode-se arguir sobre algum socialismo real? há magia que dê jeito a isso?
8.
a morte ronda perversa. e se a vida for tão somente um paliativo para em vão tentar driblá-la no que há devir, há placebo que
nos alivie e nos conforme?
não, não é preciso calar a poesia. ela já anda calada. por
inútil, já não serve pra nada mesmo.
[ou, sem pretensão alguma e tampouco movidos por intenções terceiras, a cultivemos e a deixemos funcionar, talvez!, mesmo que sem função definida...]
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Genésio dos Santos, nascido em
1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista
da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi
bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e,
ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo
foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou
Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante
sindical, escreveu crônicas para o jornal O Espelho — SP, Folha Bancária, participou
do jornal Brinque (do coletivo cultural do Seeb-SP, 1983 — 1985) e pilotou o devezenquandário
Na Moita (1991 — 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários
de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.