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sábado, 4 de fevereiro de 2023

Luiza Romão: Na camiseta da garota estava escrito “Todo preso é um preso político”

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quarenta por cento dos
presos são provisórios
quarenta por cento dos
presos são provisórios
trezentos tantos mil que
dentro apodrecem
sem processo culpa
jurisdição

parado-parado mãos pro alto
camburão

do capitão da rota ao capitão do mato
eu mato
sem ultimato
último corpo caído na avenida
cabral disparou caiu aqui bala perdida
percorre quinhentos anos de história

O QUE É A GUERRA DO
PARAGUAI
COMPARADO À
GUERRAS ÀS DROGAS

condena mata explora
porque plantar não pode
mas implantar
(que paródia)

a justiça vendada
os direitos vendidos
rende os meninos
rende
rende muito
enche o bolso a carteira o helicóptero
de pasta
em pasta
chega até em ministério
qual o mistério
preso o rafael solto o aécio

é final mais batido
que enredo de novela
pra alguns dá-lhe terra
pra outros cova ou cela

sério
não tem remédio
muito menos restauro
pra quem fabrica labirintos
e inventa minotauros

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Antifa — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde e Prefácio de Cynthia Agra de Brito Neves, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Luiza Romão, nascida em 1992, paulista de Ribeirão Preto, formada em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo e pela Escola de Arte Dramática EAD ECA-USP e mestranda da FFLCH-USP, com pesquisa sobre o SLAM no Brasil, é atriz, diretora de teatro, poeta e slammer*; através de seus traços biográficos ficamos sabendo que a poeta “pesquisa as fricções entre a palavra e o cinema, dirigindo e atuando nos projetos Revide (em 2016) e Sangria (em 2017); suas obras: Koketel Motolove (2014), Sangria, edição bilíngue português-espanhol (2017), Também guardamos pedras aqui (poesia, 2021); a poeta participa e é referência nos SLAMs da Guilhermina, apresentações poético-performáticas realizadas na ZL em sampa, junto à estação do metrô Guilhermina Esperança; foi laureada com o Prêmio Jabuti para poesia, versão 2022, pela obra Também guardamos pedras aqui.

* Nota do aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora deste Antifa; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Akiri Conakri: Mãos ao alto


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não usarei eufemismo
não sou brando
sou de lavoura
e minha foice
arrancará tua alma

SUBSTITUIREI SEU CORAÇÃO
VICIADO POR AMOR E LUTA

já nasci com acúmulos de derrotas,
meus avós nunca desistiram
o campo é mais que um emaranhado verde,
meu martelo não
pregará apenas cercas, mas destruirá seus muros capitais
contaminados de ódio
isso não é um poema
são palavras engatilhadas para sua rendição.

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Akiri Conakri, ou Jhon Conceito, ou Jonatas Santos de Almeida, de Vila Velha ES, um “canela verde” nascido em 1985, estudou Comunicação Social na Faculdade Novo Milênio, em Vila Velha, e História na Faculdade Saberes, em Vitória, é ator-MC, diretor de eventos, diretor musical, historiador, articulador cultural, compositor, orientador social, apresentador, escritor, poeta e slammer*; escreve desde os dez anos de idade, é fundador do SLAM Botocudos, organizador do SLAM ES e um dos formadores do coletivo Literatura Marginal ES; suas obras: Meus Versos — zine (2013), Só quero viver — O CD: resumo de 14 anos de caminhada no movimento hip hop (rap, samba e poesia falada, 2015), Palavras Mortas (livro/zine, 2016), Depois do Nada (poesia de papelão, 2016), Poesia dá Cadeia (2020), além de projetos literário-poéticos e culturais em escolas, faculdades e outros espaços capixabas.

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa coleção SLAM; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Nelson Maca: Ao Mestre Moa com carinho

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Para Moa do Katendê

Quebra a tranca,
destranca a rua
troca as demandas,
liberta a mente
Exu é a chave

Abra os caminhos da gente
A ti, Mestre Moa, com carinho
na lembrança de te ver dançando
não te esquece quem te ouviu cantando
não te esqueço, pois, te vi sorrindo
Retorno, reconstrução
renascimento

VAI SE A MATÉRIA, FICA O EXEMPLO
CIMENTO NO TEMPLO DO TEMPO
ESSA LUTA BERIMBAU PODE SER
ESSA DANÇA AFOXÉ BADAUÊ
ESSE CANTO IJEXÁ KATENDÊ
ESSE MOÇO LINDO É VOCÊ.

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Nelson Maca, ou Nelson Gonçalves, paranaense de Telêmaco Borba, nascido em 1965, em Curitiba fez o curso técnico de Mecânica no CEFET-PR e iniciou Letras na UFPR Universidade Federal do Paraná, mudando-se para Salvador BA transferiu o curso para a UFBA Universidade Federal da Bahia, concluiu licenciatura, bacharelado e especialização em literatura, é poeta, professor e agitador cultural; sua iniciação na poesia deu-se ainda em Curitiba, após conclusão do ensino médio; em terra baiana criou o Coletivo Blackitude: Vozes Negras da Bahia, reunindo poetas, artistas e ativistas de Hip Hop, tornou-se um dos membros do Conselho Estadual de Cultura da Bahia; escreveu e publicou Gramática da Ira (poesia, 2015), Relatos da Guerra Preta ou Bahia Baixa Estação (conto, 2020), Ani: todos os Felas do mundo (romance, 2021) e outros textos.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Ingrid Martins: faz um tempo que quero escrever sobre o amor . . .


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faz um tempo que quero escrever
sobre o amor que carrego no peito
amor esse que nasceu comigo
amor esse que me pegou de jeito

quero falar também
sobre as festas em família
que fui com minha namorada
sobre os dias que andamos de mãos dadas
e não aconteceu nada
nada que nos causasse medo
nada que nos fizesse voltar pra casa mais cedo
não aconteceu nada
não aconteceu de nos xingar
não aconteceu de nos expulsarem
de um local porque estávamos nos beijando
não vi olhares de quem estivesse nos julgando
não ouvi boatos

aliás, ouvi sim:
e dizia que nós formávamos um belo casal
concordei.
mas há dias
há meses que não escuto:
“AQUI NÃO É LUGAR PRA ISSO”
“OLHA AS CRIANÇAS”
“QUE DESPERDÍCIO”
há tempos que não vejo meu corpo marcado de preconceito
há tempos que não me reinvento
porque meu sapatão natural
não causa mais tanto nojo
tanto ódio
mau efeito
há tempos que não preciso me esconder
já faz um tempo que não tenho motivos para temer
e esse texto até parece ser algo bom
algo que só fale de amor
mas não
não se confunda
eu tô falando de dor
da dor que já senti.
da dor dos que vão nascer viados também vão sentir.
da dor que você não sentiu
mas meus amigos viados sentiram.
mas, a gente só queria amar e ser amado
nos beijar sem precisar ficar olhando para o lado
sem medo de sair bem viado
e ser espancado
há tempos
que só queremos viver sem ser notado
mas não sermos invisíveis
há tempos queremos viver dias menos difíceis
há tempos queremos ter voz

JÁ FAZ UM LONGO TEMPO
QUE SÓ QUEREMOS VIVER
VIVER SEM MEDO
VIVER SEM DOR
VIVER SEM TRAUMA
SIMPLESMENTE
VIVER AMOR.

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LGBTQIA+ — [10 poetas & mais de 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Ingrid Martins, de São Paulo SP, é cabeleireira, designer, produtora cultural, escritora e poeta; participa da Coletiva Batalha Dominação e do Slam do Norte; A Coletiva Dominação se apresenta em espaços públicos (área do metrô São Bento e outros locais), realizando batalhas poéticas só pras minas e LGBTQIA+, reunindo uma variedade de artistas, MCs, poetas e gerando audiovisuais dos eventos; Ingrid Martins é autora dos zines Poesia e Vertical.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Mamba Negro: Rainha pandêmica


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Ei, presta atenção, não adianta falar que o que faço é abominação ou coisa de bandido, quando tudo que eu crio é copiado pelo seu padrão boy, branco, elitista, higienista e rico, você vai torcer o nariz? Cuidado pra eu não quebrar, quero ver me chamar de macaco, de piranha, de cachorra, de viado, são animais demais pra eu prender dentro de um armário e eu também não vou pra sua cama ou fazer de zoológico o seu quarto, mas eu quero te ver me chamar de macaco com a cara quebrada, quando me vê passar na rua sente nojo, sente medo, mas quando bate a abstinência tu sobe a quebrada, sou bicha pre TRA TRA TRA, tipo Linn da Quebrada, desde navio negreiro afiando navalha, se tu bater de frente do vai cair de cara e para, para, para, parça, escancara essa farsa, você entende de mal com L e mau com U, Malcolm X, essa sua cara mal lavada combina com o pozinho branco embaixo do seu nariz. “E eu não sou pennywise, mas tu vai flutuar, com esse teu ego inflado, então é melhor parar” não sou de tirar o chapéu, sou de arrancar a cabeça, respeita a revolução vinda com as bicha preta, respeita os manos, minas, mona preta da quebrada, cobiço a casa grande e recuso senzala, me respeita na cama, me respeita na vida, cansei, não quero novamente ser mercadoria, na sua festa burguesa incorporo Queen Latifah, como uma globeleza, sambo na cara racista, e calma senhora não pira, e calma senhor não pire, teu filhos esquece de tudo quando quica na minha... RAM, vou lhe descer o “pau” é o preço do revide, dentro de um navio negreiro “chegay” terra brasilis, mas eu sinto o seu cheiro, farejo sua hemoglobina, as vozes da minha mente querem ver uma chacina de racista,
IREI LHE DEVOLVER
O SEU EXÉRCITO NAZISTA,
vou lhe caçar e com o couro das suas costas vou fazer um louboutin, vou recrutar todos os pretos que eu conheço e desbancar a klu klux klan, pois eu já estou cansado, da minha capacidade tu dúvida, mas carrego nos dentes navalha, cortando garganta dos “muleke paia” seguidos de Malafaia, eu te destruo pique calendário Maia, tu acha que é melhor que eu só porque carrego melanina, mas se lembra que eu estou tipo Rasputia, te esmago nas rimas, então sente impacto, tô fodendo com o caos tipo Baco, eu te odeio pra caralho não tem como evitar, meu ódio está mais alto que a Pablo Vittar... UKE, tô mais perigoso que o Pablo Escobar, estou tipo mar, então vem brincar com as minhas marés, mas relaxa, porque se meu tsunami não te mata, cuidado pra não te afogar nas minhas ressacas.

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LGBTQIA+ — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Eric Cardoso, ou Mamba Negro, nascido em 2000 [?] na zona leste paulistana, é multiartista, performer, slammer*, escritor e poeta; lida com seus textos desde os treze anos; em seus traços biográficos, o poeta-performer-slammer relata que “começou na arte ainda cedo em igrejas e após perceber que o cristianismo abominava tudo que ele era”, que “abraçou seus demônios internos” e que hoje “tem a arte como escudo em uma guerra contra si mesmo, tentando resistir aos próprios medos e limitações impostas”; Mamba Negro [é só dar um gúgol no iutube!] já fez presença em múltiplas apresentações “na parte mais extrema da zona leste” e região (Slam Interuni, Slam Sujeira, Slam da Guilhermina, Slam Resistência, Movimento Aliança da Praça  M.A.P., ...).

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa coleção SLAM; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

domingo, 18 de dezembro de 2022

Patrícia Meira: Identidade

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Passei a vida inteira vivendo meias verdades
Sempre tive RG não tinha identidade,
Me olhava no espelho e tinha vergonha de mim mesma,
me disseram que eu era tudo,
Morena, mulata eu só não sabia que era preta.
Agora você aceita
depois de tanto negarem a minha história eu me descobri.
Eu não estou aqui para ser tua Barbie
porque nasci sendo abayomi.
Já sofri calada as tuas humilhações
hoje em silêncio eu não mais sofro.
Você só vai ter minha cabeça baixa
se conseguir arrancar ela de cima do meu pescoço.
Eu sou a intrepidez de Harriet Tubmam
sou a mulher preta, gorda, lésbica
e nordestina que você não reconhece a luta e insulta.
Mas, eu estou e não preciso ser igual a você pra Resistir.
No teu ouvido eu sou o garfo arranhando o prato
sou a mina que você tentou fazer de capacho
mas não conseguiu.
Você viu, que mina preta não é bagunça?
Assume o teu lugar de privilégio e escuta.
Eu sou aquela neguinha que meteu fuga
e te deixou passando mal
quando você planejou estuprar
como um senhorzinho fazia no canavial.
Eu sou o silêncio quebrado, sou a mosca no teu prato
e esse você vai ser obrigado a pagar.
Eu sou a praga
o feitiço que as bruxas antes de serem queimadas lançaram sobre ti.
EU SOU AQUELA QUE VOCÊ
SEMPRE SILENCIOU
MAS HOJE QUERENDO OU NÃO
VAI TER QUE OUVIR.
Eu sou aquela que quando você escreve uma história pra mim
Eu vou e apago
eu sou a princesa que se depender do meu beijo
você continua sendo sapo.
Eu sei bem que depois de tudo isso
você vai achar que entrou pra minha lista negra
Mas fique tranquilo e acredite
que na minha lista negra
só entra quem é vip
esse não é o teu caso.

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Patrícia Meira, nascida em 1988 [?], baiana de Itajuípe, é poeta, produtora cultural, slammer*, romancista, roteirista, compositora, oficineira e afroempreendora; mudou-se para São Paulo aos vinte anos de idade; escreve desde criança, aos 14 anos destruiu todos seus textos e só em 2014 retomou sua relação com a escrita; em São Paulo, frequentando o Sarau Movimento Aliança da Praça M.A.P., inicia sua participação em slams campeonatos de poesia falada; depois veio a presença e premiações no Slam da Guilhermina e, assim, foi escrevendo sua história nos slams; suas obras: Por amar outra mulher, Resisto, É amor que você quer? Então Toma! e Impressões (poesias, todos em 2018), Manual da Imoralidade (poesia, 2019), Emaranhado (romance, 2019); Patrícia Meira está enveredando na música sertaneja, com projetos em andamento, é integrante, compositora e poeta do espetáculo Samba Poética, combinando samba, poesia e ancestralidade . . .

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa coleção SLAM; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

Akiri Conakri: Trabalhar a dor

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um sentimento revolto
ruge dentro
de mim

vejo o mundo retroceder apagando as pegadas de minha mãe
minha bandeira foi tingida
com meu próprio sangue
dou meu sangue
por minha bandeira
não há guerra sem luta

VIVEMOS NUMA
ORDEM SEM
JUSTIÇA

VERMELHO
ENCARNADO
COM A VITÓRIA

RUBRO

ESCARLATE SEM
RECUO

RUTILANTE
COMO O OLHAR
DE NOSSOS
COMPANHEIROS.

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Akiri Conakri, ou Jhon Conceito, ou Jonatas Santos de Almeida, de Vila Velha ES, um “canela verde” nascido em 1985, estudou Comunicação Social na Faculdade Novo Milênio, em Vila Velha, e História na Faculdade Saberes, em Vitória, é ator-MC, diretor de eventos, diretor musical, historiador, articulador cultural, compositor, orientador social, apresentador, escritor, poeta e slammer*; escreve desde os dez anos de idade, é fundador do SLAM Botocudos, organizador do SLAM ES e um dos formadores do coletivo Literatura Marginal ES; suas obras: Meus Versos — zine (2013), Só quero viver — O CD: resumo de 14 anos de caminhada no movimento hip hop (rap, samba e poesia falada, 2015), Palavras Mortas (livro/zine, 2016), Depois do Nada (poesia de papelão, 2016), Poesia dá Cadeia (2020), além de projetos literário-poéticos e culturais em escolas, faculdades e outros espaços capixabas.

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa coleção SLAM; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Nelson Maca: As lágrimas de Benedita


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Para Benedita da Silva

As lágrimas de Benedita
Escorrem sobre minha própria face

O sal na boca de quem acredita
A dor no peito de quem prova
A solidão do cárcere do amigo

A cor de Benedita
Espalha-se em minha própria pele

O preto de quem reivindica
A cor de quem comprova
Na multidão, liberdade vigiada

A história de Benedita
Alastra-se na minha própria família

O pai que enfrentou os batalhões
A mãe que não fugiu à luta
O desfazimento da diáspora

A FORÇA DE BENEDITA ENTRANHADA EM MEUS MÚSCULOS

Dá rigidez pra carne viva
Robustez pra memória afetiva
A CERTEZA DE QUE É TEMPO DE LUTA!

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Nelson Maca, ou Nelson Gonçalves, paranaense de Telêmaco Borba, nascido em 1965, em Curitiba fez o curso técnico de Mecânica no CEFET-PR e iniciou Letras na UFPR Universidade Federal do Paraná, mudando-se para Salvador BA transferiu o curso para a UFBA Universidade Federal da Bahia, concluiu licenciatura, bacharelado e especialização em literatura, é poeta, professor e agitador cultural; sua iniciação na poesia deu-se ainda em Curitiba, após conclusão do ensino médio; em terra baiana criou o Coletivo Blackitude: Vozes Negras da Bahia, reunindo poetas, artistas e ativistas de Hip Hop, tornou-se um dos membros do Conselho Estadual de Cultura da Bahia; escreveu e publicou Gramática da Ira (poesia, 2015), Relatos da Guerra Preta ou Bahia Baixa Estação (conto, 2020), Ani: todos os Felas do mundo (romance, 2021) e outros textos.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Akiri Conakri: Eu quero ser


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eu quero ser isso
que não te agrada
o insuportável que
te deixa dormir
tunado watts
ensurdecedor

pedra gigante que se desloca rolando em bairro nobre
incêndio provocado por revoltas contras suas “conquistas” falsas
o favelado que sabe ler
o que decifra sua estupidez
o que nunca mais te elege
o que te cobra com juros
o que vende pó pro seu filho
o que nunca te pediu nada
quero ser poema de Marcelino Freire
o que entendeu Nietzsche, que não vê TV,
que não mata e ressuscita
que não bate continência, resistente,
que não crê, que não é pecado
quero ser atípico num mundo comum
quero o que é meu
o que foi roubado
eu quero sua alma
eu quero é mais
retaliação pras minhas crises, meu universo, meus banhos quentes
se vai engolir sua lama
a lama da qual você criou para que eu me suje enquanto acumula fortuna
o diabo não é pobre
só eu sou pobre em acreditar em seu trabalho digno
nas suas privatizações, indenizações

SEU SORRISO BRANCO
SEU OLHAR BRANCO
SUA MÃO BRANCA
MEU OLHAR AMARELO
MEU SORRIO AMARELO
MINHA PELA AMARELA
DE SUA LAMA.

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Akiri Conakri, ou Jhon Conceito, ou Jonatas Santos de Almeida, de Vila Velha ES, um “canela verde” nascido em 1985, estudou Comunicação Social na Faculdade Novo Milênio, em Vila Velha, e História na Faculdade Saberes, em Vitória, é ator-MC, diretor de eventos, diretor musical, historiador, articulador cultural, compositor, orientador social, apresentador, escritor, poeta e slammer*; escreve desde os dez anos de idade, é fundador do SLAM Botocudos, organizador do SLAM ES e um dos formadores do coletivo Literatura Marginal ES; suas obras: Meus Versos — zine (2013), Só quero viver — O CD: resumo de 14 anos de caminhada no movimento hip hop (rap, samba e poesia falada, 2015), Palavras Mortas (livro/zine, 2016), Depois do Nada (poesia de papelão, 2016), Poesia dá Cadeia (2020), além de projetos literário-poéticos e culturais em escolas, faculdades e outros espaços capixabas.

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa coleção SLAM; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Ingrid Martins: Tudo bem que tenhamos terminado, ouvi dizer que é assim mesmo, . . .

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Tudo bem que tenhamos terminado, ouvi dizer que é assim mesmo, as coisas acabam. Assim como acaba o açúcar, e você  é obrigado a tomar café puro.
Acaba como acaba o bombom, e no final sobra só a embalagem suja, que você tenta passar a língua pra comer o resto, e vê que não sobrou nada. As coisas acabam mesmo.

Não foi diferente com a Joelma e o Chimbinha. Com a Fátima Bernardes e o William Bonner. Comigo. Você. Tudo tem fim, a gente já sabia disso. Minha mãe já dizia: tem coisas que vem, acontece e acaba. Menos as contas pra pagar, isso sempre vai existir. Mas sejamos realistas, nós terminamos e isso é natural, até a natureza acaba. Você viu, o tomate que eu plantei acabou, assim como acabou o pé de hortelã, o pé de cebolinha, e aquela rosa que te dei e você não cuidou muito bem. Cê vê, as coisas acabam. É assim, quando vê já foi, quando foi nem viu, e assim como esse texto ruim, que também terá final, assim foi com a gente, e não que tenha sido intencional, ninguém opta pelo fim, eu mesma se pudesse estaria com meu pé de tomate até hoje! Mas assim é a vida, comigo aconteceu muitas vezes, muitas coisas acabaram pra mim, muitas coisas chegaram no fim, e infelizmente não tem muito o que fazer, não tem pra onde correr.
ENFIM, O QUE EU QUERIA MESMO DIZER, É QUE TUDO ACABA, MENOS A MINHA VONTADE DE BEBER.

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LGBTQIA+ — [10 poetas & mais de 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Ingrid Martins, de São Paulo SP, é cabeleireira, designer, produtora cultural, escritora e poeta; participa da Coletiva Batalha Dominação e do Slam do Norte; A Coletiva Dominação se apresenta em espaços públicos (área do metrô São Bento e outros locais), realizando batalhas poéticas só pras minas e LGBTQIA+, reunindo uma variedade de artistas, MCs, poetas e gerando audiovisuais dos eventos; Ingrid Martins é autora dos zines Poesia e Vertical.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Luiza Romão: Fascismo self-service


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vocês que almoçam ao meu
lado
talvez não saibam
mas a alguns metros daqui
uma garota teve uma
suástica riscada na nuca

e dias atrás
um capoeirista foi morto a facadas
talvez saibam
e por isso
fingem satisfação
enquanto comem o canapé de damasco
eu
tenho comido pouco
invejo a destreza com que
manejam os talheres
e limpam a faca no guardanapo de pano
de que adianta descrever a violência
se tudo parece irrisório
se o anúncio da morte não causa calafrios
ou um fio de preocupação
vocês que almoçam ao meu lado
falam de corrupção e futuros melhores
enquanto o ar
pouco a pouco
se corrompe
eu
tenho respirado com dificuldade
talvez não esteja mais aqui
quando pedirem o cafezinho
e distraidamente passarem o cartão
“débito, por favor”
é preciso ter estômago

VOCÊS QUE ALMOÇAM AO MEU
LADO
TALVEZ NÃO SAIBAM
MAS O SANGUE QUE SUJA SEUS
PRATOS
NÃO É SÓ O DO BOI

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Antifa — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde e Prefácio de Cynthia Agra de Brito Neves, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Luiza Romão, nascida em 1992, paulista de Ribeirão Preto, formada em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo e pela Escola de Arte Dramática EAD ECA-USP e mestranda da FFLCH-USP, com pesquisa sobre o SLAM no Brasil, é atriz, diretora de teatro, poeta e slammer*; através de seus traços biográficos ficamos sabendo que a poeta “pesquisa as fricções entre a palavra e o cinema, dirigindo e atuando nos projetos Revide (em 2016) e Sangria (em 2017); suas obras: Koketel Motolove (2014), Sangria, edição bilíngue português-espanhol (2017), Também guardamos pedras aqui (poesia, 2021); a poeta participa e é referência nos SLAMs da Guilhermina, apresentações poético-performáticas realizadas na ZL em sampa, junto à estação do metrô Guilhermina  Esperança; foi laureada com o Prêmio Jabuti para poesia, versão 2022, pela obra Também guardamos pedras aqui.

* Nota do aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora deste Antifab) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.