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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Pablo Neruda: Teu riso

Neruda para Jovens - Pablo Neruda
____________________
[traduzido por José Eduardo Degrazia]

Tira-me o pão, se queres.
Tira-me o ar, porém,
não me tires teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que debulhas,
nem a água que de súbito
estala em tua alegria,
a repentina  onda
de prata que te nasce.

A luta é dura e volto
com os olhos cansados
às vezes por ter visto
a terra que não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu me buscando,
e abre para mim todas
as comportas da vida.

Amor meu, mesmo na hora
mais escura debulha
teu riso, e se tão logo
vês que meu sangue mancha
as pedras da avenida,
ri, porque teu riso
será nas minhas mãos
como uma espada úmida.

Junto do mar, no outono,
teu riso vai levantar
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria que soa.

Quero que rias da noite,
rias do dia e da lua,
e rias das avenidas
retorcidas desta ilha,
podes rir deste rude
rapaz que muito te quer,
mas quando eu abro os olhos
para ir logo fechando,
quando meus passos vão,
quando meus passos voltam,
nega-me o pão, e o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque assim morreria.

(As uvas e o vento — 1954)

Pablo Neruda

Tu risa

Quítame el pan, si quieres.
Quítame el aire, pero
no me quites tu risa.

No me quites la rosa,
la lanza que desgranas,
el agua que de pronto
estalla en tu alegría,
la repentina ola
de plata que te nace

Mi lucha es dura y vuelvo
con los ojos cansados
a veces de haber visto
la tierra que no cambia,
pero al entrar tu risa
sube al cielo buscándome
y abre para mí todas
las puertas de la vida.

Amor mío, en la hora
más oscura desgrana
tu risa, y si de pronto
ves que mi sangre mancha
las piedras de la calle,
ríe, porque tu risa
será para mis manos
como una espada fresca.

Junto al mar en otoño,
tu risa debe alzar
su cascada de espuma,
y en primavera, amor,
quiero tu risa como
la flor que yo esperaba,
la flor azul, la rosa
de mi patria sonora.

Ríete de la noche,
del día, de la luna,
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de este torpe
muchacho que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
porque me moriría.

(Las uvas y el viento — 1954)
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Neruda para jovens — Antologia poética, Edição bilíngüe, Organização de Isabel Córdova Rosas e Tradução de José Eduardo Degrazia, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y uma canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Las uvas y el viento (1954), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), Las piedras de Chile (1961), La Barcarola (1967), Las manos del dia (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido (1974) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Pablo Neruda: Testamento

Neruda para Jovens - Pablo Neruda
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[traduzido por José Eduardo Degrazia]

Deixo meus velhos livros, recolhidos
pelos rincões do mundo, venerados
na sua tipografia majestosa,
para os novos poetas da América,
para aqueles que um dia
fiarão no rouco tear interrompido
e que serão os signos do amanhã.

Eles terão nascido quando o agreste punho
de lenhadores mortos e mineiros,
tiver dado uma vida inumerável
pra limpar a catedral distorcida,
o grão desengonçado, o filamento
que enredou nossas ávidas planícies.
Toquem eles infernos, o passado
que esmagou os diamantes,e defendam
os mundos cereais do seu próprio canto,
o que nasceu na árvore do martírio.

Sobre os ossuários dos caciques, longe
da nossa herança traída, em pleno
ar dos povos que caminham sozinhos,
eles vão povoar a constituição
de um grande sofrimento vitorioso.

Que amem como eu amei meu Manrique, meu Góngora,
meu Garcilaso, meu Quevedo:
foram titânicos guardiães, com armaduras
de platina e nevada transparência,
que me ensinaram o rigor, e busquem
no meu Lautréamont velhos lamentos
por entre as pestilências da agonia.
Em Maiakóvski vejam como se ergueu a estrela
e como de seus raios nasceram espigas.

(Canto Geral — 1950)

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Pablo Neruda

Testamento

Dejo mis viejos libros, recogidos
en rincones del mundo, venerados
en su tipografía majestuosa,
a los nuevos poetas de América,
a los que un día
hilarán en el ronco telar interrumpido
las significaciones de mañana.

Ellos habrán nacido cuando el agreste puño
de leñadores muertos y mineros
haya dado una vida innumerable
para limpiar la catedral torcida,
el grano desquiciado, el filamento
que enredó nuestras ávidas llanuras.
Toquen ellos infiernos, este pasado
que aplastó los diamantes, y defiendan
los mundos cereales de su canto,
lo que nació en el árbol del martirio.

Sobre los huesos de caciques, lejos
de nuestra herencia traicionada, en pleno
aire de pueblos que caminan solos,
ellos van a poblar el estatuto
de un largo sufrimiento victorioso.

Que amen como yo amé mi Manrique, mi Góngora,
mi Garcilaso, mi Quevedo:
fueron titánicos guardianes, armaduras
de platino y nevada transparencia,
que me enseñaron el rigor, y busquen
en mi Lautréamont viejos lamentos
entre pestilenciales agonías.
Que en Maiakovsky vean cómo ascendió la estrella
y cómo de sus rayos nacieron las espigas.

(Canto general — 1950)
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Neruda para jovens — Antologia poética, Edição bilíngüe, Organização de Isabel Córdova Rosas e Tradução de José Eduardo Degrazia, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y uma canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), Las piedras de Chile (1961), La Barcarola (1967), Las manos del dia (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido (1974) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Pablo Neruda: Esta igreja não tem

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[traduzido por José Eduardo Degrazia]

Esta igreja não tem as lâmpadas votivas,
não tem candelabros nem velas amarelas,
não necessita a alma de vitrais e ogivas
para beijar as hóstias e ajoelhar por elas.

O sermão sem incenso é como uma semente
de carne e luz que cai tremendo ao sulco vivo:
o Pai-Nosso, reza do viver simplesmente,
tem sabor de pão frutífero e primitivo...

Tem um sabor de pão. Perfumado pão preto
que lá na infância branca entregou seu segredo
para toda alma fragrante que o quis escutar...

E o Pai-Nosso no meio da noite se perde,
corre desnudo sobre as herdades tão verdes
e todo estremecido submerge no mar.

Crepusculario — 1923

Pablo Neruda

Esta iglesia no tiene

Esta iglesia no tiene lampadarios votivos,
no tiene candelabros ni ceras amarillas,
no necesita el alma de vitrales ojivos
para besar las hostias y rezar de rodillas.

El sermón sin inciensos es como una semilla
de carne y luz que cae temblando al surco vivo:
el Padre-Nuestro, rezo de la vida sencilla,
tiene un sabor de pan frutal y primitivo...

Tiene un sabor de pan. Oloroso pan prieto
que allá en la infancia blanca entregó su secreto
a toda alma fragante que lo quiso escuchar...

Y el Padre-Nuestro en medio de la noche se pierde,
corre desnudo sobre las heredades verdes
y todo estremecido se sumerge en el mar...

Crepusculario — 1923
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Neruda para jovens — Antologia poética, Edição bilíngüe, Organização de Isabel Córdova Rosas e Tradução de José Eduardo Degrazia, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Las uvas y el viento (1954), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), Las piedras de Chile (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970), Libro de las preguntas (1974), Confieso que he vivido (1974) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

domingo, 13 de setembro de 2020

Pablo Neruda: Posso escrever os versos mais tristes esta noite . . . [poema 20]

Neruda para Jovens - Saraiva
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[traduzido por José Eduardo Degrazia]

20

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, em sua distância.”

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me queria.

Em noites como esta eu a tive nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela me quis, às vezes também eu a queria.
Como não ter amado seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentindo que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como o campo o rocio.

E que importa se meu amor não pôde guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Na distância.
Minha alma não se contenta por tê-la perdido.

Como para aproximar-se o meu olhar a procura.
Meu coração a busca, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os daquele tempo, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é certo, mas quanto eu a queria.
Minha voz buscava o vento pra tocar seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como era antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, mas talvez ainda a queira.
É tão breve o amor, para a imensidão do olvido.

Porque em noites como esta eu a tive entre meus braços,
não se contenta minha alma com a ter perdido.

Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes os últimos versos que eu lhe tenha escrito.

(Vinte poemas de amor e uma canção desesperada — 1924)

Os últimos versos de Pablo Neruda - ÉPOCA | Vida
Pablo Neruda

20

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: “La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos.”

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el ultimo dolor que ella me causa,
y estos sean los últimos versos que yo le escribo.

(Veinte poemas de amor y una canción desesperada — 1924)
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Neruda para jovens — Antologia poética, Edição bilíngüe, Organização de Isabel Córdova Rosas e Tradução de José Eduardo Degrazia, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y uma canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Las uvas y el viento (1954), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), Las piedras de Chile (1961), La Barcarola (1967), Las manos del dia (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido (1974) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

domingo, 6 de setembro de 2020

Pablo Neruda: História

Neruda para Jovens - Pablo Neruda
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[traduzido por José Eduardo Degrazia]

Para a pedra foi o sangue,
para a pedra foi o pranto,
a oração foi o cortejo,
a pedra era o alvedrio.

Porque com suor e fogo fizeram
nascer os deuses da pedra,
e logo cresceu o Santo da chuva,
o São Senhor das batalhas,
para o milho, para a terra,
deuses pássaros, deuses serpentes,
os fecundantes infaustos,
todos nasceram da pedra:
a América os levantou
com mil pequenas mãos de ouro,
com olhos que se perderam
apagados em sangue e esquecimento.

Mas minha pátria era de luz,
o homem ia e vinha sozinho,
sem deuses além do trovão:

cresceu ali meu coração:
eu venho desde a Araucânia.
Era vegetal e marinha,
diurna como os beija-flores,
rubra como um caranguejo,
verde como a água em outubro,
prata como o peixe-rei,
silvestre como uma perdiz,
e mais fina que uma flecha:
era a terra austral, mordida
por grandes ventos do céu,
pelas estrelas do mar.

No Chile não nascem deuses,
o Chile é pátria dos cântaros.

Por isso na rocha cresceram
braços, bocas, pés e mãos,
fez-se monumento a pedra:
cortou-o o frio, o mês de junho
somou-lhe pétalas e plumas
depois o tempo veio vindo,
se foi, se foi, voltou, voltou,
até que o mais desabitado,
o reino sem sangue e deuses,
encheu-se com puras figuras:

a pedra iluminou minha pátria
com suas estátuas naturais.

(As pedras do Chile — 1961)

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Pablo Neruda

Historia

Para la piedra fue la sangre,
para la piedra el llanto,
la oración, el cortejo:
la piedra era el albedrío.

Porque a sudor y a fuego hicieron
nacer los dioses de la piedra,
y luego creció San de la lluvia,
San Señor de lãs batallas,
para el maíz, para la tierra,
dioses pájaros, dioses serpientes,
fecundadores aciagos,
todos nacieron de la piedra:
América los levantó
con mil pequeñas manos de oro,
con ojos que ya se perdieron
borrados por sangre y olvido.

Pero mi patria era de luz,
iba y vênia solo el hombre,
sin otros dioses que el trueno:

allí creció mi corazón:
yo vengo de la Araucanía.
Era vegetal y marina,
diurna como los colibríes,
colorada como un cangrejo,
verde como el agua en octubre,
plateada como el pejerrey,
montaraz como una perdiz,
y más delgada que una flecha:
era la tierra austral, mordida
por los grandes vientos del cielo,
por las estrellas del mar.

En Chile no nacen los dioses,
Chile es la pátria de los cántaros.

Por eso en las rocas crecieron
brazos y bocas, pies y manos,
la piedra se hizo monumento:
lo cortó el frío, el mes de junio
le agregó pétalos y plumas
y luego el tiempo vino y vino,
se fue y se fue, volvió y volvió,
hasta que el más deshabitado,
el reino sin sangre y sin dioses,
se llenó de puras figuras:

la piedra iluminó mi patria
con sus estatuas naturales.


(Las piedras de Chile — 1961)
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Neruda para jovens — Antologia poética, Edição bilíngüe, Organização de Isabel Córdova Rosas e Tradução de José Eduardo Degrazia, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y uma canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), Las piedras de Chile (1961), La Barcarola (1967), Las manos del dia (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido (publicação póstuma,1974) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.