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Bateram à minha porta,Fui abrir, não vi ninguém.
Seria a alma da morta?
Não vi ninguém, mas alguém
Entrou no quarto deserto
E o quarto logo mudou.
Deitei-me na cama, e perto
Da cama alguém se sentou.
Seria a sombra da morta?
Que morta? A inocência? A infância?
O que foi concebido, abortou,
Ou o que foi e hoje é só distância?
Pois bendita a que voltou!
Três vezes bendita a morta,
Quem quer que ela seja, a morta
Que bateu à minha porta.
Rio, dezembro de 1947

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Estrela da Vida Inteira — Manuel Bandeira, nova edição, 2008, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Bandeira (1886 — 1968), pernambucano de Recife, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversas autores e épocas; obra poética: A Cinza das Horas (Edição do Autor, 1917, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro — RJ), Carnaval (Edição do Autor, 1919, Rio de Janeiro), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924, Rio de Janeiro), Libertinagem (Edição do Autor, 1930, Rio de Janeiro), Estrela da Manhã (Edição do Autor, 1936, Rio de Janeiro), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos (Edição do Autor, Rio de Janeiro), Poemas Traduzidos (1945, Rio de Janeiro), Opus 10 (1952, Niterói — RJ), Alumbramentos (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Tarde (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Vida Inteira (1966, Rio de Janeiro) e outros; obra em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936, Rio de Janeiro), Guia de Ouro Preto (1938, Rio de Janeiro), Noções de História das Literaturas (1940, Rio de Janeiro), Autoria das Cartas Chilenas (1940, Rio de Janeiro), Apresentação da Poesia Brasileira (1946, Rio de Janeiro), Literatura Hispano-Americana (1949, Rio de Janeiro), Gonçalves Dias, Biografia (1952, Rio de Janeiro), De Poetas e de Poesia (1954, Rio de Janeiro), A Flauta de Papel (1957, Rio de Janeiro), Andorinha, Andorinha (José Olympio, 1966, Rio de Janeiro), Itinerário de Pasárgada (Editora do Autor, 1966, Rio de Janeiro), Colóquio Unilateralmente Sentimental (Editora Record, 1968, Rio de Janeiro), Berimbau e Outros Poemas (Nova Fronteira, Rio de Janeiro) e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, da Fase Parnasiana, da Fase Moderna — Volume 1, da Fase Moderna — Volume 2 (todas editadas pela Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia Simbolista (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia Poética (1961, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Poesia do Brasil (Editora do Autor, 1963, Rio de Janeiro) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiler, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford e outros.








