terça-feira, 31 de outubro de 2017

Manuel Bandeira: Visita noturna

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Bateram à minha porta,
Fui abrir, não vi ninguém.
Seria a alma da morta?

Não vi ninguém, mas alguém
Entrou no quarto deserto
E o quarto logo mudou.
Deitei-me na cama, e perto
Da cama alguém se sentou.

Seria a sombra da morta?
Que morta? A inocência? A infância?
O que foi concebido, abortou,
Ou o que foi e hoje é só distância?

Pois bendita a que voltou!
Três vezes bendita a morta,
Quem quer que ela seja, a morta
Que bateu à minha porta.

Rio, dezembro de 1947
 Belo Belo — 1948

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Estrela da Vida Inteira — Manuel Bandeira, nova edição, 2008, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Bandeira (1886  1968), pernambucano de Recife, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversas autores e épocas; obra poética: A Cinza das Horas (Edição do Autor, 1917, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro — RJ), Carnaval (Edição do Autor, 1919, Rio de Janeiro), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924, Rio de Janeiro), Libertinagem (Edição do Autor, 1930, Rio de Janeiro), Estrela da Manhã (Edição do Autor, 1936, Rio de Janeiro), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos (Edição do Autor, Rio de Janeiro), Poemas Traduzidos (1945, Rio de Janeiro), Opus 10 (1952, Niterói  RJ), Alumbramentos (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Tarde (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Vida Inteira (1966, Rio de Janeiro) e outros; obra em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936, Rio de Janeiro), Guia de Ouro Preto (1938, Rio de Janeiro), Noções de História das Literaturas (1940, Rio de Janeiro), Autoria das Cartas Chilenas (1940, Rio de Janeiro), Apresentação da Poesia Brasileira (1946, Rio de Janeiro), Literatura Hispano-Americana (1949, Rio de Janeiro), Gonçalves Dias, Biografia (1952, Rio de Janeiro), De Poetas e de Poesia (1954, Rio de Janeiro), A Flauta de Papel (1957, Rio de Janeiro), Andorinha, Andorinha (José Olympio, 1966, Rio de Janeiro), Itinerário de Pasárgada (Editora do Autor, 1966, Rio de Janeiro), Colóquio Unilateralmente Sentimental (Editora Record, 1968, Rio de Janeiro), Berimbau e Outros Poemas (Nova Fronteira, Rio de Janeiro) e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, da Fase Parnasiana, da Fase Moderna — Volume 1, da Fase Moderna — Volume 2 (todas editadas pela Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros  Poesia Simbolista (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia Poética (1961, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Poesia do Brasil (Editora do Autor, 1963, Rio de Janeiro) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiler, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford e outros.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Carlos Queiroz Telles: Manequim

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Uma é grande
Outra é pequena.
Uma aperta na cintura.
Outra amassa o bumbum.
Uma está larga.
Outra não fecha.

Vamos tentar de novo...

Com essa eu pareço um balaio.
Com essa eu me sinto um palito.
Com essa eu não posso comer.
Com essa não dá pra sentar.
Com essa... nem pensar,
vou ficar nua na rua!

É inútil insistir...

A culpa não é da marca,
nem da loja.
O erro é desse corpo
desproporcional,
fora do esquadro,
esquisito e torto,
fabricado sem número de série
nem controle de qualidade!

Ai que raiva... ai que ódio!

Carlos Queiroz Telles
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Sementes de sol — Carlos Queiroz Telles, Capa e Ilustrações de May Shuravel, 1996, 6ª edição, Editora Moderna — São Paulo — SP; José  Carlos Botelho de Queiroz Telles (1936 — 1993), paulista e paulistano, formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP  Largo São Francisco), foi dramaturgo, escritor e poeta; trabalhou em jornalismo e publicidade, tendo sido também professor universitário; teve participação ativa na fundação do Teatro Oficina, em cuja inauguração, 1958, estreou a peça A Ponte, de sua autoria; como dramaturgo, foi autor de obras para o teatro e televisão (novela e seriados), adaptou textos de Shakespeare, Camões e Calderón de La Barca; recebeu dois prêmios Moliére (1972 e 1976); além deste  Sementes de sol  (poesias), escreveu Sonhos, grilos e paixões (poesias), Tirando de letraAsas brancasQuase Cachorro e Quase MeninoMulher Manual do ProprietárioHomem Manual da ProprietáriaOs Amantes da chuvaO Pirilampo TelegrafistaO Rock das Estrelas, e tantos outros títulos da literatura infanto-juvenil.

domingo, 29 de outubro de 2017

Dante Gabriel Rossetti: Soneto é um monumento do momento

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[traduzido por José Lino Grünewald]

Soneto é um monumento do momento, 
Da Alma, memorial da eternidade 
Ao morto, hora imortal. Na integridade, 
Que seja rito em luz ou só portento, 
Dessa árdua plenitude reverente: 
No mármore ou no ébano, cinzele-o, 
Ditam a Noite e o Dia; e o Tempo a vê-lo: 
Pérolas, crista em flor e o oriente. 
O soneto é a moeda: a cara dela 
Mostra a alma,  e a coroa a que Senhor 
Deve:  ou por taxa ou quem augusto apela 
À Vida, ou dom na corte alta do Amor, 
Serve: ou, no arfar poroso em cais sem norte,
Paga à mão de Caronte o som da Morte.

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Dante Gabriel Rossetti

A Sonnet is a moment's monument, 
Memorial from the Soul's eternity
To one dead deathless hour. Look that it be,
Whether for lustral rite or dire portent,
Of its own arduous fullness reverent:
Carve it in ivory or in ebony,
As Night or Day may rule; and let Time see
Its flowering crest impearled and orient.
A Sonnet is a coin: its face reveals
The soul,  its converse, to what Power 'tis due: 
Whether for tribute to the august appeals
Of Life, or dower in Love's high retinue,
It serve; or, mid the dark wharf's cavernous breath,
In Charon's palm it pay the toll to Death.
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Dante Gabriel Rossetti (1828 1882), ou Gabriel Charles Dante Rossetti, inglês e londrino, foi pintor, ilustrador e poeta, principal representante da poesia pré-rafaelita; de origem italiana, sua família veio exilada de Nápoles, iniciou seus estudos no King’s College, em Londres, e depois, na escola de antiguidades da Royal Academy britânica; considerado um dos grandes sonetistas do século, na Inglaterra, sua primeira obra, editada em 1861, foram traduções de Dante Alighieri e outros poetas antigos italianos; depois veio Baladas e Sonetos (1881), sua obra de poesia mais importante; escreveu poemas para seus quadros e por toda a vida dividiu sua atenção entre a poesia, a pintura e a ilustração.

sábado, 28 de outubro de 2017

Manuel Bandeira: Peregrinação *

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Quando olhada de face, era um abril. 
Quando olhada de lado, era um agosto. 
Duas mulheres numa: tinha o rosto 
Gordo de frente, magro de perfil. 

Fazia as sobrancelhas como um til; 
A boca, como um o (quase). Isto posto, 
Não vou dizer o quanto a amei. Nem gosto 
De me lembrar, que são tristezas mil. 

Eis senão quando um dia... Mas, caluda! 
Não me vai bem fazer uma canção 
Desesperada, como fez Neruda. 

Amor total e falho... Puro e impuro... 
Amor de velho adolescente... E tão 
Sabendo a cinza e a pêssego maduro... 

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* Nota do aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Manuel Bandeira escreveu um outro poema com o título ‘Peregrinação’: O córrego é o mesmo, / Mesma, aquela árvore, A casa, o jardim. // Meus passos a esmo / (Os passos e o espírito) / Vão pelo passado, / Ai tão devastado, / Recolhendo triste / Tudo quanto existe / Ainda ali de mim / — Mim daqueles tempos! [Petrópolis, 12.3.1943, Lira dos Cinquent’Anos]
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Estrela da Vida Inteira — Manuel Bandeira, nova edição, 2008, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Bandeira (1886  1968),  pernambucano de Recife, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversas autores e épocas; obra poética: A Cinza das Horas  (Edição do Autor, 1917, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro  RJ), Carnaval (Edição do Autor, 1919, Rio de Janeiro), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924, Rio de Janeiro), Libertinagem (Edição do Autor, 1930, Rio de Janeiro),  Estrela da Manhã (Edição do Autor, 1936, Rio de Janeiro), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos  (Edição do Autor, Rio de Janeiro), Poemas Traduzidos (1945, Rio de Janeiro), Opus 10  (1952, Niterói  RJ), Alumbramentos (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Tarde (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Vida Inteira (1966, Rio de Janeiro) e outros; obra em prosa: Crônicas da Província do Brasil  (1936, Rio de Janeiro), Guia de Ouro Preto (1938, Rio de Janeiro),  Noções de História das Literaturas (1940, Rio de Janeiro), Autoria das Cartas Chilenas  (1940, Rio de Janeiro), Apresentação da Poesia Brasileira (1946, Rio de Janeiro), Literatura Hispano-Americana (1949, Rio de Janeiro),  Gonçalves Dias, Biografia (1952, Rio de Janeiro), De Poetas e de Poesia  (1954, Rio de Janeiro), A Flauta de Papel (1957, Rio de Janeiro),  Andorinha, Andorinha (José Olympio, 1966, Rio de Janeiro), Itinerário de Pasárgada (Editora do Autor, 1966, Rio de Janeiro), Colóquio Unilateralmente Sentimental (Editora Record, 1968, Rio de Janeiro),  Berimbau e Outros Poemas (Nova Fronteira, Rio de Janeiro) e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Românticada Fase Parnasianada Fase Moderna — Volume 1da Fase Moderna — Volume 2 (todas editadas pela Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos  (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia Simbolista (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia Poética  (1961, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Poesia do Brasil (Editora do Autor, 1963, Rio de Janeiro) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiler, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford e outros.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Carlos Queiroz Telles: Aviso

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Chega uma hora na vida
em que tudo o que mais quero
é poder ficar sozinho.

Sozinho para pensar.
Sozinho para entender.
Sozinho para sonhar.
Sozinho para tentar
me encontrar ou me perder.

Índia não tem filho no mato?
Elefante não morre sozinho?

Por que será
que eu não posso
ficar quieto no meu canto?

Vou pendurar um cartaz
bem em cima da minha cama:

Silêncio! Jovem crescendo!


Carlos Queiroz Telles
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Sementes de sol — Carlos Queiroz Telles, Capa e Ilustrações de May Shuravel, 1996, 6ª edição, Editora Moderna — São Paulo — SP; José  Carlos Botelho de Queiroz Telles (1936 — 1993), paulista e paulistano, formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP  Largo São Francisco), foi dramaturgo, escritor e poeta; trabalhou em jornalismo e publicidade, tendo sido também professor universitário; teve participação ativa na fundação do Teatro Oficina, em cuja inauguração, 1958, estreou a peça A Ponte, de sua autoria; como dramaturgo, foi autor de obras para o teatro e televisão (novela e seriados), adaptou textos de Shakespeare, Camões e Calderón de La Barca; recebeu dois prêmios Moliére (1972 e 1976); além deste  Sementes de sol  (poesias), escreveu Sonhos, grilos e paixões (poesias), Tirando de letra,  Asas brancas, Quase Cachorro e Quase Menino, Mulher Manual do Proprietário, Homem Manual da Proprietária, Os Amantes da chuva, O Pirilampo Telegrafista, O Rock das Estrelas, e tantos outros títulos da literatura infanto-juvenil.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Luís Carlos: Poço


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(A meu irmão Ernesto)

Guardavas a poesia estranha de uma lenda:
Diziam-me que, em ti, alguém chorara tanto
Que te tornaras urna eterna desse pranto!
E eu cria... Nem há dor que um poeta não entenda.

Era-lhe hábito vir, sob a frondosa tenda
D´árvore, que te abriga, interrogar-te o encanto.
Tinhas, mesmo, o esplendor do orvalho sacrossanto,
Que a alma, no íntimo, estila e, à flor do olhar, desvenda.

Mas, pouco a pouco, o Sol te foi sugando a vida,
Que era a tua água e — triste antigamente — agora,
Mais triste és, na expressão da vida já vivida!

E quem assim te vê, morrendo, de hora em hora,
Tão vazio! Porém, cheio de unção sentida,
Bem vê como nem só com lágrimas se chora.

(Colunas, 1920, Jacinto Ribeiro dos Santos
 — Editor, Rio de Janeiro, pág. 195)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume V — Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880  1932), nascido  no Rio de Janeiro  RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; exerceu a profissão de engenheiro na Estrada de Ferro Central do Brasil e foi nomeado consultor técnico do Ministério da Viação, sem nunca ter deixado de escrever; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas  (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Péricles Eugênio da Silva Ramos: futuro 11

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A tarde era uma noite de ar sonâmbulo:

fácil armazenar palavras e estruturas,
azar roaz e raso, a rosa a soar um riso,

já mais difícil compreender as coisas e pessoas,
quando a matéria se resolve em fúria elétrica,
o tempo soa e se desfazem as noções antigas
como tecidos a esvair-se em poeira.

Está crescendo um novo tempo,
Um tempo mais humano, m ais perfeito,
Já dono da matéria e suas técnicas,
Já bem distante do proveito e seu comércio;
Asas que se emplumam, Leben Nebel,
Anjos revoam no horizonte.

Amargo é este presente,
amargo como um fim de tempo,
mas nele medra a árvore na qual gorjeiam
todas as aves do futuro:
futuro em que o homem já não seja escravo
de suas próprias obras nem idéias,
mas seja livre, a descobrir perpetuamente,
ébrio de luz, de cor, de liberdade
que o mundo não tem fim
e nele cabem todos
entre florestas, pelos campos, nas cidades.

Estão nascendo os tempos em que os homens
vivam para o espírito,
não para o urgência de ganhar o pão de cada dia:
os tempos em que possam frequentar,
quanto desejem,
as páginas da vida,
as telas do horizonte, a música dos ventos,
ou mesmo os frutos que ardem pelas copas,
as rosas ao cair da tarde
serenas, eloquentes, persuasivas,
a contemplar-nos com o olhar puro das irmãs.

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Péricles Eugênio da Silva Ramos — Futuro, 1968, Edições Orfeu, Rio de Janeiro — RJ; Péricles Eugênio da Silva Ramos (1919 — 1992),  paulista de Lorena, formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP), foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário  e professor; fundou, em 1947, junto com outros escritores e poetas, a  Revista Brasileira de Poesia, para divulgação dos trabalhos da chamada Geração de 45, criou o Clube da Poesia de São Paulo e, por vários anos, escreveu sobre crítica literária nos periódicos Jornal de São PauloCorreio Paulistano e Folha da Manhã e lecionou Literatura Portuguesa e Técnica Redatorial na Faculdade Cásper Libero, em São Paulo; traduziu Byron, François Villon, Gôngora, Mallarmé, Shakespeare, John Keats etc. e organizou antologias de diversos poetas e períodos poéticos; escreveu e publicou Lamentação Floral (poemas, 1946), Sol sem Tempo (poemas, 1953), O Amador de Poemas (ensaios, 1956), O Verso Romântico e Outros Ensaios (ensaios, 1959), Lua de Ontem  (poemas, 1960), Do Barroco ao Modernismo: estudos da poesia brasileira (ensaios, 1967)  Futuro (poemas, 1968), Poesia quase Completa (1972), A Noite da Memória  (prêmio Poesia da Associação Paulista de Críticos de Arte, 1988), e outros; por sua obra, foi laureado com o Prêmio Jabuti (1969 e 1972) e o Prêmio Machado de Assis (1986).

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Manuel Bandeira: Carlos Drummond de Andrade

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Louvo o Padre, louvo o Filho,
O Espírito Santo louvo.
Isto feito, louvo aquele
Que ora chega aos sessent'anos
E no meio de seus pares
Prima pela qualidade:
O poeta lúcido e límpido
Que é Carlos Drummond de Andrade.

Prima em Alguma Poesia,
Prima no Brejo das Almas
Prima em Rosa do Povo,
No Sentimento do Mundo.
(Lírico ou participante,
Sempre é poeta de verdade
Esse homem lépido e limpo
Que é Carlos Drummond de Andrade).

Como é o fazendeiro do ar,
O obscuro enigma dos astros
Intui, capta em claro enigma.
Claro, alto e raro. De resto
Ponteia em viola de bolso
Inteiramente à vontade
O poeta diverso e múltiplo
Que é Carlos Drummond de Andrade.

Louvo o Padre, o Filho, o Espírito
Santo, e após outra Trindade
Louvo: o homem, o poeta, o amigo
Que é Carlos Drummond de Andrade.


Manuel Bandeira
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Estrela da Vida Inteira — Manuel Bandeira, nova edição, 2008, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Bandeira (1886 — 1968),  pernambucano de Recife, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversas autores e épocas; obra poética: A Cinza das Horas  (Edição do Autor, 1917, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro — RJ), Carnaval (Edição do Autor, 1919, Rio de Janeiro), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924, Rio de Janeiro), Libertinagem (Edição do Autor, 1930, Rio de Janeiro),  Estrela da Manhã (Edição do Autor, 1936, Rio de Janeiro), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos  (Edição do Autor, Rio de Janeiro), Poemas Traduzidos (1945, Rio de Janeiro), Opus 10  (1952, Niterói — RJ), Alumbramentos (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Tarde  (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Vida Inteira (1966, Rio de Janeiro) e outros; obra em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936, Rio de Janeiro), Guia de Ouro Preto (1938, Rio de Janeiro),  Noções de História das Literaturas (1940, Rio de Janeiro), Autoria das Cartas Chilenas  (1940, Rio de Janeiro), Apresentação da Poesia Brasileira (1946, Rio de Janeiro), Literatura Hispano-Americana (1949, Rio de Janeiro),  Gonçalves Dias, Biografia (1952, Rio de Janeiro), De Poetas e de Poesia  (1954, Rio de Janeiro), A Flauta de Papel (1957, Rio de Janeiro),  Andorinha, Andorinha (José Olympio, 1966, Rio de Janeiro), Itinerário de Pasárgada (Editora do Autor, 1966, Rio de Janeiro), Colóquio Unilateralmente Sentimental (Editora Record, 1968, Rio de Janeiro),  Berimbau e Outros Poemas (Nova Fronteira, Rio de Janeiro) e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Românticada Fase Parnasianada Fase Moderna — Volume 1da Fase Moderna — Volume 2 (todas editadas pela Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia Simbolista (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia Poética (1961, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Poesia do Brasil (Editora do Autor, 1963, Rio de Janeiro) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiler, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford e outros.

domingo, 22 de outubro de 2017

Langston Hughes: Aspiração

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[traduzido por Manuel Bandeira]

Estirar os braços
Ao sol de algum lugar,
E até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
Quando já entardeceu,
Enquanto a noite vem
— Negra como eu 

Descansar... É o que quero!

Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
Cantar, pular, dançar
Até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
— Este o desejo meu 

Quando a noite baixar
Negra como eu.

(Clique no título lá em cima e ouça o poema no original, em voz feminina não identificada.)

Langston Hughes
Langston Hughes

Dream variations

To fling my arms wide
In some place of the sun,
To whirl and to dance
Till the white day is done.
Then rest at cool evening
Beneath a tall tree
While night comes on gently,
Dark like me 
That is my dream!

To fling my arms wide
In the face of the sun,
Dance! Whirl! Whirl!
Till the quick day is done.
Rest at pale evening...
A tall, slim tree...
Night coming tenderly
Black like me.
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Estrela da Vida Inteira — poesias, Manuel Bandeira, nova edição, 1993, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; James Mercer Langston Hughes (1902  1967), nascido em Joplin  — Missouri, USA, foi poeta, novelista, contista, dramaturgo, colunista e um dos expoentes do movimento cultural afro-americano Harlem Renaissance (Renascença do Harlem) dos anos 1920; sua formação universitária se deu na Universidade de Columbia, em Nova York, e na Universidade de Lincoln, na Pensilvânia; transportou para a poesia os ritmos e a cadência da música do seu povo, notadamente o blues; além de escrever poesias, contos e artigos para revistas e jornais, também fez documentários, peças teatrais e programas de rádio e tevê; bibliografia: The Weary Blues (poesia, 1926), Not Without Laughter (romance, 1930), Dear Lovely Death (poesia, 1931), The Negro Mother and Other Dramatic Recitations (1931), The Dream Keeper and Other Poems (1932), Let America Be America Again (1938), The Big Sea (autobiografia, 1940), Shakespeare in Harlem (poesia, 1942), Simple Speaks His Mind (prosa, 1950), Simple Stakes a Wife (prosa, 1950), Tambourines to Glory (prosa, 1958), Five Plays by Langston Hughes (drama, 1963), Mule Bone (drama), e outros títulos em verso, prosa e para dramatização; Langston Hughes traduziu textos do cubano Nicolás Guillén, Cuba Libre (poemas, 1948) e da chilena Gabriela Mistral, Selected Poems of Gabriela Mistral (poemas, 1957); antes de se firmar como literato, teve os ofícios de assistente de cozinheiro, lavador e busboy, além de, trabalhando como marinheiro, ter viajado à África e à Europa.

sábado, 21 de outubro de 2017

H. W. Longfellow: A Flecha e o Canto

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[traduzido por Lucindo Filho]

Lancei ao ar uma flecha,
Não sei onde foi cair;
Partiu veloz, que a vista
Não pode o voo seguir.

Ao ar desferi um canto,
Não sei onde foi cair;
Que vista aguda há que possa
Do canto o voo seguir?

Tempos depois, num carvalho
A flecha perfeita achei;
E guardado em peito amigo
Inteiro o canto encontrei.

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H. W. Longfellow

The Arrow and the Song

I shot an arrow into the air,
It fell to earth, I knew not where;
For, so swiftly it flew, the sight
Could not follow it in its flight.

I breathed a song into the air,
It fell to earth, I knew not where;
For who has sight so keen and strong,
That it can follow the flight of song?

Long, long afterward, in an oak
I found the arrow, still unbroke;
And the song, from beginning to end,
I found again in the heart of a friend.
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Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; H. W. Longfellow, ou Henry Wadsworth Longfellow (1807 1882), nascido em Portland, Maine Estados Unidos, formou-se no Bowdoin College, passou três anos na Europa onde estudou letras modernas e, de volta ao Maine, lecionou no colégio onde se formara; foi professor, tradutor e poeta; sua bibliografia: em versos, Voices of the Night (Vozes da Noite, 1839), Baladas e outros poemas (1841), Poems on Slavery (Poemas sobre escravidão, 1842), Evangeline (1847), The Golden Legend (1851), The Song of Hiawatha (1854), The Courthship of Miles Standish e outros poemas (O cortejo de Miles Standish, 1858), Christus: a Mistery (Cristo: um mistério, 1872), Consequências (1873) e outros; em prosa, Outre-Mer: uma peregrinação além do mar (ensaios, 1835), O estudante de espanhol (drama, 1843), As tragédias da Nova Inglaterra (1868) etc.; traduziu, de Dante Aligheri, A Divina Comédia.