sábado, 30 de junho de 2012

Fabio Weintraub: Barrabás


Vocês não podem velar
o corpo do meu marido
ao lado desse aí
que a polícia acertou

Vocês me desculpem
imagino o sofrimento
perder um filho assim moço

Meu Cícero
morreu trabalhando
Um tiro pelas costas
às duas da manhã
Ao lado do desse aí
o corpo dele não vai gelar

Não adianta insistir
ao lado de bandido
meu marido não fica
Novo Endereço (2002)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo SP; Fabio Weintraub, paulista e paulistano nascido em 1967, psicólogo e poeta, é autor dos seguintes livros de poesia: Sistema de Erros (Pau-Brasil, 1996), ganhador do prêmio Nascente 1994, Novo Endereço (Nankin/Funalfa, 2002), ganhador dos prêmios Cidade de Juiz de Fora 2001 e Casa de Las Américas 2003, e Baque (Editora 34, 2007); trabalha como editor e é doutorando em Teoria Literária na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo  FFLCHUSP). 

Amadeu Amaral: Versos nevoentos

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Luta penosa e vã, esta em que vivo, imerso
Na ambição de alcançar a frase que me exprima,
Onde o meu pensamento esplenda claro e terso,
Como o bago reluz pronto para a vindima.

Como cristalizar tanta emoção no verso?
Como o sonho encerrar nos limites da rima?
Bruma ondulante e azul, fumo que erra disperso,
Não se pode plasmar, não há mão que o comprima.

Não, eu não te darei a expressão que rebrilha
Na rija nitidez de áurea moeda sem uso,
Acabado lavor de cunho e de serrilha:

Só te posso ofertar estes versos nevoentos,
Conchas em que ouvirás, indistinto e confuso,
Um remoto fragor de vagas e de ventos.
Espumas (1917)*



conforme Alexei Bueno, que registra este poema no Prefácio do Roteiro da Poesia Brasileira — Pré-Modernismo, o soneto "Versos nevoentos" representa a indecisão característica do período "pré-modernista", titubeante entre as duas escolas da época, o parnasianismo e o simbolismo: "Nos quartetos, o poeta se queixa, bem parnasianamente, da dificuldade de encontrar a expressão exata, a forma fechada para a emoção e a idéia. E é com certo ar de derrota que ele simbolicamente confessa, nos dois tercetos, só conseguir alcançar o vago, o indefinível, parecendo tender definitivamente para esta escola."
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Roteiro da Poesia Brasileira — Pré-Modernismo, Seleção e Prefácio de Alexei Bueno, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; escreveu e publicou os seguintes livros: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

domingo, 24 de junho de 2012

Frederico Barbosa: DESEXISTIR

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QUANDO EU DESISTI
DE ME MATAR
JÁ ERA TARDE.

DESEXISTIR
JÁ ERA UM HÁBITO.

JÁ DISPARARA
A AUTOBALA:
COBRA CEGA SE COMENDO
COMO QUEM CAVA
A PRÓPRIA VALA.

JÁ ME QUEIMARA.

PONTES, ESTRADAS,
MEMÓRIAS, CARTAS,
TODA SAÍDA DINAMITADA.

QUANDO EU DESISTI
NÃO TINHA VOLTA.

PASSARA DO PONTO.
JÁ NÃO ERA MAIS
A HORA EXATA.

Contracorrente (2000)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo  SP; Frederico Barbosa, pernambucano de Recife, nascido em 1961, é poeta e crítico literário; publicou Rarefato (Iluminuras, 1990), Nada feito nada (ganhador do Prêmio Jabuti, Perspectiva, 1993), Contracorrente (Iluminuras, 2000), Louco no oco sem beiras (Ateliê Editorial, 2001), Cantar de amor entre os escombros (Landy, 2002), A construção do zero (Lamparina, 2004) e, em parceria com Antonio Risério, Brasibraseiro (ganhador, pela segunda vez, do Prêmio Jabuti, 2004); tem poemas traduzidos e publicados em diversas coletâneas de em Portugal, Estados Unidos, Austrália, México, Espanha e Colômbia; participante de organismos ligados à literatura, hoje é supervisor de Ações Culturais da Casa das Rosas Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo SP.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Nhô Bentico (Abílio Víctor): Noite de São Juão

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Bem pértico da portêra,
estrala forte a foguêra,
as brasa pula pro chão.
O mastro tão bem pintado,
de branco, preto, incarnado
c'o retrato de São Juão...

As mocinha, as criançada,

levanta u'a vóis cantada
in róda do foguerão.
De vêis-in-quano, a roquêra
estremece as perovêra
c'os éco lá do grotão.

Na salinha, lá dum lado,
um artá bem infeitado.
I nas estêra do chão,
a muierada ajueiado
rezano o Sinhor amado,
cumpanhano o capelão...

O samba ferve lá fora,
as viola, saluça i chora...

Risada, grito, alegria!
Noite cheia de fulia,
noite cheia de ilusão.
Dos cabelo das minina,
os chêro das briantina
se mistura c'os quentão.

Os galo, lá nas baixada,
anuncia a madrugada...
Já se percebe o crarão.

É hora de se acarmá,
de tudo mundo rezá,
formano na prucissão: 
no riuzinho priguiçoso
vai o povo riligioso
pramórde lavá São Juão.

I in saluços di sodade,
dano o fim da craridade
dessa noite de São Juão,
no terreno sulitário,
as brasa forma um rosário
esparramado pro chão.
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Folhas do Mato  versos caipiras, Prefácio de Manoel Cerqueira Leite, 2ª edição aumentada, 1940, Gráfica Sorocabana, Sorocaba — SP; Nhô Bentico e Abílio Soares Víctor (1899  1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato, Versos Humorísticos, Favas de Ingá e Poemas Sertanejos.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Carlos Drummond de Andrade: Entre Palavras

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ENTRE COISAS E PALAVRAS  principalmente entre palavras circulamos. A maioria delas não figura nos dicionários de há 30 anos, ou figura com outras acepções. A todo momento impõe-se tomar conhecimento de novas palavras e combinações de.

     Você que me lê, preste atenção. Não deixe passar nenhuma palavra ou locução atual, pelo seu ouvido, sem registrá-la. Amanhã pode precisar dela. E cuidado ao conversar com seu avô; talvez ele não entenda o que você diz.

     O malote, o cassete, o spray, o fuscão, o copião, a Vemaguet, a chacrete, o linóleo, o nylon, o nycron, o ditafone, a Informática, a dublagem, o sinteco, o telex... existiam em 1940?


     Ponha ai o computador, os anticoncepcionais, os mísseis, a motoneta, a Velo-Solex, o biquini, o módulo lunar, o antibiótico, o enfarte, a acupuntura, a biônica, o acrílico, o tá legal, o apharteid, o som pop, a arteop, as estruturas e a infra-estrutura.

     Não esqueça também (seria imperdoável) o Terceiro Mundo, a descapitalização, o desenvolvimento, o unissex, o bandeirinha, o mass media, o Ibope, a renda per capita, a mixagem.

     De passagem, anote a reunião de cúpula, a minicopa, a conjuntura, o Porcão, a Reflexologia, a ioga, o iogurte, os alucinógenos, o morfema, o semantema, o estocástico, o ergódigo e o markoviano.


     Só? Não. Têm seu lugar ao sol a metalinguagem, o servo-mecanismo, as algias, a coca-cola, o superego, a Futurologia, a homeostasia, a Adecif, a Transamazônica, a Sudene, o Incra, a Unesco, o Isop, a Oea e a Onu.


     Estão reclamando porque não citei a conotação, o conglomerado, a diagramação, o ideologema, o ideoleto; o Iem, a Ibm, o falou, as operações triangulares, o zoom e a guitarra elétrica.


     Mas por sua vez se esqueceram de lembrar chuchu-beleza, ecumenismo, tremendo barato, monema, parâmetro, gerontologia, genocídio, cronograma, Pib, política habitacional, gol de letra, mercado fracionário de balcão.


     Olhe aí na fila  quem? Embreagem, defasagem, barra tensora, vela de ignição, engarrafamento, Detran, poliéster, parafernália, filhotes de bonificação, letra imobiliária, conservacionismo, carnet de girafa, poluição.


     Mas há de haver espaço para setorial, tônica, mafagafe (José Cândido de Carvalho descobriu um ninho deles, e diverte-nos com a descoberta, em delicioso livro), complexo de castração, inseminação artificial, napalm, ovos de codorna, teste de Cooper, sesquicentenário, didascália, passarela, gelo-baiano.


     E o vestibular para milhões? O cursinho e o cursilho? O mestrado? Ah, faltava a análise sinótica do mapa meteorológico. A custódia de títulos nominativos. O transplante, variadíssimo e nem sempre letal. A implantação e os implementos industriais. O audiovisual e seus flanelógrafos, para uso de aloglotas. A macrobiótica, pois não. E o offset.


     Fundos de investimento, e daí? Também os de incentivos fiscais. Know-how. Barbeador elétrico de 90 microrranhuras. Fenolite. Baquelite. LP e compacto. Alimentos supergelados. Viagens pelo crediário. Circuito fechado de TV na Rodoviária. Argh! Pow! Click!


     Não havia nada disso no jornal do tempo de Venceslau Brás, ou mesmo de Washington Luís. Algumas dessas coisas começam a aparecer sob Getúlio Vargas. Hoje estão ali na esquina, para consumo geral. A enumeração caótica não é invenção crítica de Leo Spitzer. Está aí, na vida de todos os dias. Entre palavras e combinações de palavras circulamos, vivemos, morremos, e palavras somos, finalmente, mas com que significado, que não sabemos ao certo?


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DRUMMOND — De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica, Livraria José Olympio Editora, 1974, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 
 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa: Alguma Poesia; Brejo das Almas; Sentimento do Mundo; José; A Rosa do Povo; Novos Poemas; Claro Enigma; Fazendeiro do Ar; A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas; A Falta que Ama; As Impurezas do Branco; Boitempo; Menino Antigo (Boitempo II); Versiprosa; Viola de Bolso; Discurso de Primavera, e algumas sombras; Contos de Aprendiz; Confissões de Minas; Passeios na Ilha; Fala, Amendoeira; A Bolsa e a Vida; Cadeira de Balanço; Caminhos de João Brandão; O Poder Ultrajovem; De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica; ...

terça-feira, 19 de junho de 2012

Cruz e Sousa: Triunfo Supremo

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Quem anda pelas lágrimas perdido,
Sonâmbulo dos trágicos flagelos,
É quem deixou para sempre esquecido
O mundo e os fúteis ouropéis mais belos!

É quem ficou do mundo redimido,
Expurgado dos vícios mais singelos
E disse a tudo o adeus indefinido
E desprendeu-se dos carnais anelos!

É quem entrou por todas as batalhas

As mãos e os pés e o flanco ensangüentando,
Amortalhado em todas as mortalhas.

Que florestas e mares foi rasgando
E entre raios, pedradas e metralhas,
Ficou gemendo, mas ficou sonhando!
(Obras Poéticas, edição do Instituto
 Nacional do Livro, organizada por 
Andrade Murici, Rio, 1945.)
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Apresentação da Poesia Brasileira seguida de uma pequena antologia — Manuel Bandeira — Prefácio de Otto Maria Carpeaux, Editora Casa do Estudante do Brasil, Rio de Janeiro — RJ, 1946; João da Cruz e Sousa (1861  1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); anteriormente, publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa, 1885), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Celina Ferreira: Finados


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Quem orça
a uma rosa
sua hora?


Quem paga
a uma abelha
sua cera?


Que importa
ao morto
seu corpo?
Hoje poemas (1967)
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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo SP; Celina Ferreira, mineira de Cataguases, nascida em 1928, jornalista e poeta, também dedicou-se à literatura infantil: A Princesa Flor-de-Lótus (1958), Papagaio gaio: poeminhas (1998); obra poética: Poesia de ninguém (1954), Poesia cúmplice (1959), Hoje poemas (1967) e Espelho convexo (1973).

domingo, 17 de junho de 2012

Carlos Drummond de Andrade: Outra barata


BOTO O PAPEL NA MÁQUINA, para alinhavar estas mal traçadas, e eis que na ponta da mesa surge silenciosa baratinha, e...
      Que nojo! exclama, em alguma parte do país, minha leitora.
      E, sabe? Fica me contemplando.
      Gostou de sua cara. Meus cumprimentos.
      Então decidi: vou escrever sobra a baratinha.
      Mas você não podia inventar assunto mais cronicável? Este é de morte.
      Sei que é de morte, e certamente vou matá-la antes de fazer a crônica. Narrarei a contemplação e morte da baratinha.
      O que você devia fazer, antes de mais nada, era dedetizar sua casa, viu?
      Pensa que não dedetizei? Este é o primeiro motivo de meu interesse pela baratinha. Não por todas, ou por qualquer. Por esta. Resistiu à dedetização, veio me olhar face a face. Tem alguma coisa a me dizer.
     — Veio desafiá-lo, é isso.
      É possível. Mas também é possível que tenha vindo em missão de paz. Quer talvez explicar-me que as baratas, pelo menos as baratinhas, não são aquilo que a gente está pensando delas há milênios.
      Você é um boboca.
      Obrigado. Mas Osvaldo Goeldi era um grande artista, e simpatizava com a barata sem uma perna, que todas as noites circulava no seu atelier, ceando restos de cola. Fazia companhia ao gravador, madrugada alta.
      Bem, o Goeldi...
      E Manuel Bandeira me contou, um dia, que Joanita Blank, flor de pessoa, absolutamente limpa de corpo e hábitos, chamava de amiga uma baratona freqüentadora de sua mesa de trabalho. Queriam que ela a esmagasse com uma chinelada. Eu, matar uma amiga?! protestou Joanita.
      Mas você disse que vai matar a sua.
      Disse que vou matar, mas não estou bem certo disto. Ela começou a me cativar, como se diz no Principezinho. Não é todos os dias que uma barata fica parada diante de um homem, tranqüila, tranqüila.
      Nem todos os dias que um homem fica parado diante de uma barata, tranqüilo, tranqüilo.
      Me encara com tanta confiança que seria uma sujeira matá-la.
      Sujeira é a própria barata, você não desconfia?
      Sei que eu e ela não vamos nos entender por palavras, como eu e você não estamos nos entendendo neste momento. A comunicação tem de ser de outro jeito. Estou me esforçando por entender a barata, você não vê logo?
      Francamente: se você começa por não se entender comigo, como é que vai se entender com uma porcaria dessas?
      De qualquer modo, tento. A iniciativa é dela. Você me garante que sou superior a esse bicho. Como então vou recusar o diálogo, tornando-me inferior a uma baratinha?
      Esse orgulho, essa falsa humildade...
      Ora,  você está cultivando preconceitos femininos em relação à barata. Joanita deve ser a única exceção. Todas as outras mulheres do planeta não admitem que se tente lançar uma ponte entre a barata e o homem, pelo menos para troca de pontos de vista.
      Não ataque as mulheres em bloco. É demagogia. Pensa que eu não tenho sensibilidade? Se alguém me provasse que barata sofre como a gente, e se ela não fosse tão repugnante...
      Aí está. Para você ter pena de barata, era preciso que ela não fosse barata. Fosse um inseto encantador como a borboleta.
      Talvez você tenha razão. Gostar do que é bonito não tem valor. O Goeldi...
      Viu? Você passou a compreender a primeira letra da barata. Não é i de imunda, é m de miséria. Pobre ser miserável, condenado a destruir e ser destruído. Criação triste da natureza.
      Começo a ter pena da baratinha.
      Mas agora é tarde. Ela está se movendo, não parece mais disposta a uma aliança comigo. Retomou o ar dissimulado.Vou matá-la.
      Não faça isso, espere...
      Pronto. Matei.
      Monstro!
     Ah, mulheres, mulheres!
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DRUMMOND  De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica, Livraria José Olympio Editora, 1974, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987),  poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa: Alguma Poesia; Brejo das Almas; Sentimento do Mundo; José; A Rosa do Povo; Novos Poemas; Claro Enigma; Fazendeiro do Ar; A vida Passada a Limpo; Lição de Coisas; A Falta que Ama; As Impurezas do Branco; Boitempo; Menino Antigo (Boitempo II); Versiprosa; Viola de Bolso; Discurso de Primavera, e algumas sombras; Contos de Aprendiz; Confissões de Minas; Passeios na Ilha; Fala, Amendoeira; A Bolsa e a Vida; Cadeira de Balanço; Caminhos de João Brandão; O Poder Ultrajovem; De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica; ...