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terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Salvador de Mendonça: Último porto


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(Consagrado à cidadezinha natal]

I

Barca dos sonhos, minha companheira
Dos dias de tormenta e de bonança,
Em seu seio o mar calmo te balança;
Vamos longe vogar, barca veleira.

Atrás fica o passado em nossa esteira,
Vai-nos à proa o lume da esperança,
Do passado a saudade nos alcança,
Mas a esperança como vai ligeira!

Na vasta solidão do mar, enquanto
Rememoro a existência dolorosa,
Surgem dias de gozo puro e santo.

Cresce a luz da esperança radiosa,
Vamos dormir dos astros sob o manto.
Barca dos sonhos, pétala de rosa.

II

Barca dos sonhos, pétala de rosa,
Vamos dormir das ondas nos arminhos,
E por baixo de nós monstros marinhos
Cortam do abismo a senda tenebrosa.

Ao longe, em negra linha temerosa,
Outros monstros de ferro amplos caminhos
Fecham nos mares amplos, e sozinhos
Ditam a lei da força imperiosa.

Dá-me a cota de malha, o meu montante,
O rijo elmo encantado de mambrino
E o meu leal e heróico rocinante.

Se monstros combater é meu destino,
Tenho p’ra luta o braço meu possante,
Para a vitória um protetor divino.

III

Desta vitória o protetor divino
Vem do oriente como a luz do dia,
E do sol ao fulgor que se irradia
Entoa o mundo redimido o hino.

Ouves acaso esse tanger de sino
Que vem de longe, além da penedia?
É o triste tocar da Ave-Maria
Na velha torre que me viu menino.

Vês como o sol se esconde no poente
E doura apenas o perfil da serra,
Barca dos sonhos a vagar silente?

Aproa à costa que meu lar encerra,
Pois quero agora repousar contente
No seio amado e bom da minha terra.

[Julho de 1912]
[Revista da Academia Brasileira de Letras, ano III, nº 7, 1912.]

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Salvador de Menezes Drummond Furtado de Mendonça (1841 1913), fluminense de Itaboraí, recebeu seus primeiros ensinamentos da mãe, com quem aprendeu línguas, música e desenho; depois, já no Rio de Janeiro, então capital do Império estudou no Colégio Marinho e no Curiácio, e, em São Paulo, formou-se em Direito na Faculdade do Largo São Francisco (atual USP); foi advogado, professor, jornalista, diplomata, teatrólogo, tradutor, escritor e poeta; colaborou como redator no Diário do Rio de Janeiro, além de publicar seus textos e críticas, manter colunas em outros periódicos: Jornal do Commércio, Correio Mercantil, Jornal da República, Actualidade, Tribuna Liberal, O Ipiranga e outros, em alguns deles ocupando funções as mais variadas; foi tradutor da Casa Garnier, livraria e editora; suas obras: Singairu (poesia, 1859), O Romance de um Moço Rico (teatro, 1860), A Herança (teatro, 1861), Joana de Flandres, ou A Volta do Cruzado (ópera, 1863), Marabá (romance, prefaciado por José de Alencar, 1875), Lendas da Serra e da Baixada (poesia, 1910) etc.; foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criador e ocupante da cadeira nº 20, sendo patrono o escritor Joaquim Manuel de Macedo; o poeta, assim como Lúcio de Mendonça, seu irmão mais velho, também sofreu com cada vez mais acentuados problemas na visão, ambos morreram cegos.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Salvador de Mendonça: Versos a Lúcio

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                              I

Há no espaço infinito do Universo,
Além da Via Láctea, uns pequeninos
Vestígios de matéria e notas de hinos
Com que da Criação se plasma o verso.

Forjam-se, ali, dos seres os destinos,
E o Supremo Fator em luz imerso
Marca a derrota aos astros e o diverso
Curso a tantos milhões de peregrinos.

Passam os sóis e levam no seu bando
Novos corpos no vácuo flutuando,
Vergéis de Paraíso, antros de Inferno

Saltam da forja as chispas coruscantes.
Homens, estrelas, monstros ululantes,
No infindo desdobrar do plano eterno.

                             II

Forjaram-te ao clarão da luz intensa
Que se chama a Verdade. De armadura
Revestiram-te o corpo. E a destra pura
Ergueu bem alto o lábaro a crença.

Tu passaste entre nós qual a figura
De algum novo Jesus. Tua alma imensa
Foi a própria Justiça. E uma sentença
Era o verbo da Lei feito escritura.

Tinhas na voz a cólera sagrada
Para a opressão e para a vil manada
Que se rojava aos pés dos opressores

Tinhas no coração a caridade,
O amor do bem de toda a humanidade
Dos fracos, das crianças e das flores.

                              III

Quando surgiste acima da montanha
De algum mundo de luz e liberdade,
Tinhas no triste olhar funda saudade,
Mensageiro do céu em terra estranha.

Quando espalhaste a viva claridade
De todo esse teu ser, fulgiu tamanha
A branca luz que sempre te acompanha
Que te ocultar não pôde a Imensidade.

Hoje, por sobre as rosas do Oriente,
Por sobre a curva argêntea do crescente,
Tu da Pátria entrevês o vulto escuro.

Estrela d’alva, protetora estrela,
Rasga o véu que procura inda escondê-la,
Torna a guiá-la, estrela do futuro!

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* Nota de Cecilia Costa Junqueira, com acréscimo deste aprendiz de blogueiro: Poema lido por Salvador de Mendonça para seu irmão em 12 de junho de 1912, quando da inauguração de seu busto na ABL; este aprendiz de blogueiro acrescenta: o irmão, Lúcio de Mendonça (1854 — 1909), advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta, foi o idealizador e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, a quem coube a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.
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Salvador de Mendonça, Série essencial 80, Academia Brasileira de Letras, Organização de Cecilia Costa Junqueira, 2014, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Salvador de Menezes Drummond Furtado de Mendonça (1841 1913), fluminense de Itaboraí, recebeu seus primeiros ensinamentos da mãe, com quem aprendeu línguas, música e desenho; depois, já no Rio de Janeiro, então capital do Império estudou no Colégio Marinho e no Curiácio, e, em São Paulo, formou-se em Direito na Faculdade do Largo São Francisco (atual USP); foi advogado, professor, jornalista, diplomata, teatrólogo, tradutor, escritor e poeta; colaborou como redator no Diário do Rio de Janeiro, além de publicar seus textos e críticas, manter colunas em outros periódicos: Jornal do Commércio, Correio Mercantil, Jornal da República, Actualidade, Tribuna Liberal, O Ipiranga e outros, em alguns deles ocupando funções as mais variadas; foi tradutor da Casa Garnier, livraria e editora; bibliografia: Singairu (poesia, 1859), O Romance de um Moço Rico (teatro, 1860), A Herança (teatro, 1861), Joana de Flandres, ou A Volta do Cruzado (ópera, 1863), Marabá (romance, prefaciado por José de Alencar, 1875), Lendas da Serra e da Baixada (poesia, 1910) etc.; foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criador e ocupante da cadeira nº 20, sendo patrono o escritor Joaquim Manuel de Macedo.