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[traduzido por José Lino Grünewald]
Ver grande
esfera ao céu, rubro cobre a brilhar,
Caçarola
imensa onde Deus faz cozinhar
Restos de
refeição, maná, úmido em suor —
Sempre o
prato do dia — e úmido de amor.
Os
cachorros em círculo aguardam lá ao forno,
Ouve-se
ao leve a carne rançosa a soar,
Os bêbados
também, canecas a virar;
O mísero
tirita esperando seu turno.
Crês
assim que o sol frita para todo mundo
Gordas
férvidas sobras que o ouro em cheio inunda?
Não, o
caldo do cão em nós cai lá do céu.
Eles sob
o luzir e nós sob a goteira,
Para nós,
desventura sem a lumeeira.
Nossa
própria substância é o saco de fel.
Paris diurne
Vois aux
cieux le grand rond de cuivre rouge luire,
Immense
casserole où le bon Dieu fait cuire
La manne,
l'arlequin, l'éternel plat du jour:
C'est
trempé de sueur et c'est trempé d'amour.
Les laridons
en cercle attendent près du four,
On entend
vaguement la chair rance bruire,
Et les
soiffards aussi sont là, tendant leur buire;
Le
marmiteux grelotte en attendant son tour.
Crois-tu
que le soleil frit donc pour tout le monde
Ces gras
graillons grouillants qu'un torrent d'or inonde?
Non, le
bouillon de chien tombe sur nous du ciel.
Eux sont
sous le rayon et nous sous la gouttière.
A nous le
pot au noir qui froidit sans lumière.
Notre
substance à nous, c'est notre poche à fiel.
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Poetas Franceses
do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino
Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Tristan Corbière,
ou Édouard-Joachim Corbière (1845 — 1875), francês de Morlaix — Finistère-Bretagne,
estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha
[região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo],
abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista;
desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta
que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi
aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor
de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores
amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a
obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido
valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits
(1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan
Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres
reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo;
em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores
amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram
outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874, Corbière ainda vivo,
haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados)
e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue,
e já no século 20, Ezra Pound (1885 — 1972) consagrou
Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa],
mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos
de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald];
debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.