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quinta-feira, 6 de abril de 2023

Johann Wolfgang von Goethe: Ganimedes

____________________
[tradução/transcriação de Haroldo de Campos]

Como no rubor-manhã
Circunda-me teu ardor,
Primavera, Dileta!
Como no amor mil-doçuras
Empolga-me o coração
Teu calor sempiterno,
Sacrossanto sentir,
Intérmina beleza!
Quem me dera estreitar-te
Neste abraço!
No teu colo ah!
Descanso e me confundo,
E tuas flores, tua relva,
O coração me empolgam.
Amainas a fremente
Sede do meu seio,
Amável brisa matinal!
Chama-me amoroso o rouxinol,
De lá, do vale das brumas.

Vou indo! Vou indo!
Aonde? Para onde?
Acima, céu-acima,
Altas nuvens pairando,
Declinam, céu abaixo,
Pendem para o amor desejante,
Para mim! Para mim!
No seu regaço,
Céu acima,
Envolto, circunvolto,
Para cima, a teu seio,
Pai oniamoroso!

Goethe

Ganymed

Wie im Morgenglanze
Du rings mich anglühst,
Frühling, Geliebter!
Mit tausendfacher Liebeswonne
Sich an mein Herz drängt
Deiner ewigen Wärme
Heilig Gefühl,
Unendliche Schöne!
Daß ich dich fassen möcht
In diesen Arm!

Ach, an deinem Busen
Lieg ich, schmachte,
Und deine Blumen, dein Gras
Drängen sich an mein Herz.
Du kühlst den brennenden
Durst meines Busens,
Lieblicher Morgenwind!
Ruft drein die Nachtigall
Liebend nach mir aus dem Nebeltal.
Ich komm, ich komme!
Wohin? Ach, wohin?

Hinauf! Hinauf strebts.
Es schweben die Wolken
Abwärts, die Wolken
Neigen sich der sehnenden Liebe.
Mir! Mir!
In euerm Schoße
Aufwärts!
Umfangend umfangen!
Aufwärts an deinen Busen,
Alliebender Vater!
____________________
Entremilênios Haroldo de Campos, Organização e Nota de Carmen de P. Arruda Campos, 2009. 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), Clavigo (1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (1779), Torquato Tasso (1780), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Haroldo de Campos: ganimedes

 
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[tradução/transcriação do poema Ganymed,
de Johann Wolfgang von Goethe]

Como no rubor-manhã
Circunda-me teu ardor,
Primavera, Dileta!
Como no amor mil-doçuras
Empolga-me o coração
Teu calor sempiterno,
Sacrossanto sentir,
Intérmina beleza!
Quem me dera estreitar-te
Neste abraço!
No teu colo ah!
Descanso e me confundo,
E tuas flores, tua relva,
O coração me empolgam.
Amainas a fremente
Sede do meu seio,
Amável brisa matinal!
Chama-me amoroso o rouxinol,
De lá, do vale das brumas.

Vou indo! Vou indo!
Aonde? Para onde?
Acima, céu-acima,
Altas nuvens pairando,
Declinam, céu abaixo,
Pendem para o amor desejante,
Para mim! Para mim!
No seu regaço,
Céu acima,
Envolto, circunvolto,
Para cima, a teu seio,
Pai oniamoroso!

 

Ganymed (Johann Wolfgang von Goethe)

Wie im Morgenglanze
Du rings mich anglühst,
Frühling, Geliebter!
Mit tausendfacher Liebeswonne
Sich an mein Herz drängt
Deiner ewigen Wärme
Heilig Gefühl,
Unendliche Schöne!
Daß ich dich fassen möcht
In diesen Arm!

Ach, an deinem Busen
Lieg ich, schmachte,
Und deine Blumen, dein Gras
Drängen sich an mein Herz.
Du kühlst den brennenden
Durst meines Busens,
Lieblicher Morgenwind!
Ruft drein die Nachtigall
Liebend nach mir aus dem Nebeltal.
Ich komm, ich komme!
Wohin? Ach, wohin?

Hinauf! Hinauf strebts.
Es schweben die Wolken
Abwärts, die Wolken
Neigen sich der sehnenden Liebe.
Mir! Mir!
In euerm Schoße
Aufwärts!
Umfangend umfangen!
Aufwärts an deinen Busen,
Alliebender Vater!
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Entremilênios Haroldo de Campos, Organização e Nota de Carmen de P. Arruda Campos, 2009. 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Haroldo Eurico Browne de Campos (1929 2003), paulista e paulistano, fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco) e com doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, foi professor universitário, ensaísta, crítico literário, poeta e tradutor; ainda no Colégio São Bento, aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros (latim, inglês, espanhol e francês); em 1952 foi coinventor da revista literária Noigandres em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e passou a ser reconhecido como um dos criadores do Concretismo e um dos representantes e difundidores do movimento internacional da Poesia Concreta; em 1972, no doutorado pela FFLCH USP e sob a orientação de Antonio Candido, apresentou a tese Para uma teoria da prosa modernista brasileira: morfologia do Macunaíma, transformada em livro no ano seguinte; como professor universitário, lecionou na PUC SP e na Universidade do Texas, em Austin USA; suas obras: Auto do Possesso (1950), O Âmago do Ômega (1956), Fome de Forma (1959), Re-Visão de Sousândrade (crítica literária, em conjunto com Augusto de Campos, 1962), Morfologia do Macunaíma (crítica literária, 1973), Xadrez de Estrelas: Percurso Textual, 19491974 (antologia, 1976), Signantia: Quase Coelum Signância: quase céu (1979), Galáxias (1986), Metalinguagem & outras metas (crítica literária, 1992), O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos (crítica literária, 2000), etc. etc.; Haroldo de Campos também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu autores (Ezra Pound, Mallarmé, Homero, Dante, Poesia Russa Moderna, Eclesiastes [livro bíblico], Octavio Paz, Kaváfis, Maiakóvski, ...), em voo solo ou em co-autoria com estudiosos da literatura, inclusos Augusto de Campos, Décio Pignatari e Boris Schnaiderman; o poeta e ensaísta teve obras premiadas, 5 Prêmios Jabuti inclusos.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

haroldo de campos: iole de freitas

 
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asas invasoras assaltam o museu
asas com tentáculos de arame cobre latão
asas que se transformam em velários
em chapas de escarlate
em redes para invisíveis borboletas
e avançam
seus tegumentos perfuram paredes
dardejam pontas iridescentes
atravessam janelas
farfalham ao redor da
fiação elétrica penduram-se
como cipós-ectoplasmas dos
postes de luz:
iole passou por aqui
com seu séquito de
retículas platinadas
e imprimiu em tudo
seu toque talismânico


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Entremilênios Haroldo de Campos, Organização e Nota de Carmen de P. Arruda Campos, 2009, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Haroldo Eurico Browne de Campos (1929 2003), paulista e paulistano, fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco) e com doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, foi professor universitário, ensaísta, crítico literário, poeta e tradutor; ainda no Colégio São Bento, aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros (latim, inglês, espanhol e francês); em 1952 foi coinventor da revista literária Noigandres em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e passou a ser reconhecido como um dos criadores do Concretismo e um dos representantes e difundidores do movimento internacional da Poesia Concreta; em 1972, no doutorado pela FFLCH USP e sob a orientação de Antonio Candido, apresentou a tese Para uma teoria da prosa modernista brasileira: morfologia do Macunaíma, transformada em livro no ano seguinte; como professor universitário, lecionou na PUC SP e na Universidade do Texas, em Austin USA; suas obras: Auto do Possesso (1950), O Âmago do Ômega (1956), Fome de Forma (1959), Re-Visão de Sousândrade (crítica literária, em conjunto com Augusto de Campos, 1962), Morfologia do Macunaíma (crítica literária, 1973), Xadrez de Estrelas: Percurso Textual, 19491974 (antologia, 1976), Signantia: Quase Coelum Signância: quase céu (1979), Galáxias (1986), Metalinguagem & outras metas (crítica literária, 1992), O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos (crítica literária, 2000), etc. etc.; Haroldo de Campos também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu autores (Ezra Pound, Mallarmé, Homero, Dante, Poesia Russa Moderna, Eclesiastes [livro bíblico], Octavio Paz, Kaváfis, Maiakóvski), em voo solo ou em co-autoria com estudiosos da literatura, inclusos Augusto de Campos, Décio Pignatari e Boris Schnaiderman; o poeta e ensaísta teve obras premiadas, 5 Prêmios Jabuti inclusos.

terça-feira, 26 de julho de 2022

haroldo de campos: enigma

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a rainha nefertiti
lábios de desenho perfeito
perfeita a linha do nariz
cútis bronzeada pelos raios
ultra-violeta de aton-ra o sol
jubilante do egito
uma elegante tiara trapezóide
azul-grafite
encimando-lhe a testa
sobre uma faixa de ouro
(e deixando-se ainda listar
por uma outra banda áurea
com engastes de vermelho e safira
e o símbolo dourado sempre
do poder real: o cetro
verticalmente inscrito
de alça dupla)

seu
pescoço delgado de modelo de dior
orna-o tripla fileira de colares de cor
as sobrancelhas e pálpebras
delineadas com meticuloso
traço rímel-negro
por hábil mão maquiladora
e nos olha
a rainha nos olha
(que a olhamos)
impassível:
quase-sorriso na carnação
túmida dos lábios
fixa-nos a pupila
castanho-verde
do olho esquerdo

o direito
o tempo milenar cegou-o:
esbranca-se no gesso
fitando em alvo o nada
de dentro da moldura
oval-amêndoa
do rímel

seu enigma está aí
nesse branco esgazeado
que turba há (quantos?)
séculos o semblante
irretocável da rainha

berlim 14 out. 1998


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Entremilênios Haroldo de Campos, Organização e Nota de Carmen de P. Arruda Campos, 2009. 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Haroldo Eurico Browne de Campos (1929 2003), paulista e paulistano, fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco) e com doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, foi professor universitário, ensaísta, crítico literário, poeta e tradutor; ainda no Colégio São Bento, aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros (latim, inglês, espanhol e francês); em 1952 foi coinventor da revista literária Noigandres em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e passou a ser reconhecido como um dos criadores do Concretismo e um dos representantes e difundidores do movimento internacional da Poesia Concreta; em 1972, no doutorado pela FFLCH USP e sob a orientação de Antonio Candido, apresentou a tese Para uma teoria da prosa modernista brasileira: morfologia do Macunaíma, transformada em livro no ano seguinte; como professor universitário, lecionou na PUC SP e na Universidade do Texas, em Austin USA; obras: Auto do Possesso (1950), O Âmago do Ômega (1956), Fome de Forma (1959), Re-Visão de Sousândrade (crítica literária, em conjunto com Augusto de Campos, 1962), Morfologia do Macunaíma (crítica literária, 1973), Xadrez de Estrelas: Percurso Textual, 19491974 (antologia, 1976), Signantia: Quase Coelum Signância: quase céu (1979), Galáxias (1986), Metalinguagem & outras metas (crítica literária, 1992), O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos (crítica literária, 2000), etc. etc.; Haroldo de Campos também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu autores (Ezra Pound, Mallarmé, Homero, Dante, Poesia Russa Moderna, Eclesiastes [livro bíblico], Octavio Paz, Kaváfis, Maiakóvski), em voo solo ou em co-autoria com estudiosos da literatura, inclusos Augusto de Campos, Décio Pignatari e Boris Schnaiderman; o poeta e ensaísta teve obras premiadas, 5 Prêmios Jabuti inclusos.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

haroldo de campos: o contra-senso de washington

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os portenhos sob as patas do cavalo
os brasileiros nas “mãos limpas” dos tucanos
os “states” no jecanato do bush
o fmi metendo a mão na burra
o jader bandalhando no senatus
incitatus relinchando no curul
assim vive sob a “pax amerdicana”
o consulado infeliz do merco-sul
capital do brasil é buenos aires
são paulo é na bolívia ou no peru?
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Entremilênios Haroldo de Campos, Organização e Nota de Carmen de P. Arruda Campos, 2009. 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Haroldo Eurico Browne de Campos (1929 2003), paulista e paulistano, fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco) e com doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, foi professor universitário, ensaísta, crítico literário, poeta e tradutor; ainda no Colégio São Bento, aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros (latim, inglês, espanhol e francês); em 1952 foi coinventor da revista literária Noigandres em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e passou a ser reconhecido como um dos criadores do Concretismo e um dos representantes e difundidores do movimento internacional da Poesia Concreta; em 1972, no doutorado pela FFLCH USP e sob a orientação de Antonio Candido, apresentou a tese Para uma teoria da prosa modernista brasileira: morfologia do Macunaíma, transformada em livro no ano seguinte; como professor universitário, lecionou na PUC SP e na Universidade do Texas, em Austin USA; obras: Auto do Possesso (1950), O Âmago do Ômega (1956), Fome de Forma (1959), Re-Visão de Sousândrade (crítica literária, em conjunto com Augusto de Campos, 1962), Morfologia do Macunaíma (crítica literária, 1973), Xadrez de Estrelas: Percurso Textual, 19491974 (antologia, 1976), Signantia: Quase Coelum Signância: quase céu (1979), Galáxias (1986), Metalinguagem & outras metas (crítica literária, 1992), O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos (crítica literária, 2000), etc. etc.; Haroldo de Campos também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu autores (Ezra Pound, Mallarmé, Homero, Dante, Poesia Russa Moderna, Eclesiastes [livro bíblico], Octavio Paz, Kaváfis, Maiakóvski), em voo solo ou em co-autoria com estudiosos da literatura, inclusos Augusto de Campos, Décio Pignatari e Boris Schnaiderman; o poeta e ensaísta teve obras premiadas, 5 Prêmios Jabuti inclusos.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Giosuè Carducci: Ideal

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[tradução/transcriação de Haroldo de Campos]

Depois que um vapor de ambrosia, sereno,
difuso de tua copa derramaste-me,
ó Hebe com passo de deusa
transvoando sorridente te avias;

não mais do tempo a sombra e dos cuidados
álgidos, sinto pesar-me à fronte, sinto,
ó Hebe, que a helênica vida
tranquila por minhas veias flui.

E declive-abaixo, os arruinados
da idade lúgubre dias retornam,
ó Hebe, em teu dulçor de luz,
agônicos de revivescência;

e os vindouros anos da caligem
voluntariosos alçam a testa,
ó Hebe, ao teu raio que, trêmulo,
aponta e roseando já os saúda.

A uns e outros tu sorris, estrela
nítida, lá de cima. Assim nos góticos
delubros, entre negras e cândidas
cúspides precípites irrompendo

com dúplice ao céu escolta marmórea
plácida no último pinác’lo está
a doce menina de Jesse
toda-envolta em pontiúnculos de ouro.

Vilas, campos verdes de argentinos
rios irrigados, aérea ela contempla
as ondejantes searas nos plainos,
as irradiantes sobre os alpes neves;

em torno dela nuvens circum-voam;
fora das nuvens, ela ri, fulgente,
às albas de maio, estação florida,
aos de novembro fúnebres ocasos.

Giosuè Carducci

Ideale

Poi che un sereno vapor d'ambrosia
da la tua coppa diffuso avvolsemi,
o Ebe con passo di dea
trasvolata sorridendo via;

non piú del tempo l'ombra o de l'algide
cure su 'l capo mi sento; sentomi,
o Ebe, l'ellenica vita
tranquilla ne le vene fluire.

E i ruinati giú pe 'l declivio
de l'età mesta giorni risursero,
o Ebe, nel tuo dolce lume
agognanti di rinnovellare;

e i novelli anni da la caligine
volenterosi la fronte adergono,
o Ebe, al tuo raggio che sale
tremolando e roseo li saluta.

A gli uni e gli altri tu ridi, nitida
stella, da l'alto. Tale ne i gotici
delúbri, tra candide e nere
cuspidi rapide salienti

con doppia al cielo fila marmorea,
sta su l'estremo pinnacol placida
la dolce fanciulla di Jesse
tutta avvolta di faville d'oro.

Le ville e il verde piano d'argentei
fiumi rigato contempla aerea,
le messi ondeggianti ne' campi,
le raggianti sopra l'alpe nevi:

a lei d'intorno le nubi volano;
fuor de le nubi ride ella fulgida
a l'albe di maggio fiorenti,
a gli occasi di novembre mesti.
____________________
Entremilênios — Haroldo de Campos, Organização e Nota de Carmen de P. Arruda Campos, 2009, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Valdicastello di Pietrasanta, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, lecionou Literatura italiana na Universidade de Bolonha, foi poeta e crítico; obras: Rime (poesias, 1857), Levia Gravia (1868), Poesie (1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873), Odi barbare (1877), Juvenilia (1880), e tantas outras edições e re-edições; em 1906 foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

haroldo de campos: explicatio vitae

 
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forma
“fogo i-
manente
verdade íg-
nea da
matéria”
(avicena) “minha
propriedade é a
forma: ela
é minha in-
dividualidade
espiritual”
(marx
le jeune)
“viver é
defender uma
forma”
(hoelderlin il
signore scardanelli
soando o piano sem cordas
via webern
via augusto)
“melhor ser for-
malista
do que for-
molista” (voz-
niessiênski andrei)
“o social é a
forma” (lu-
kács retrato de um quando
jovem: a alma  e
as formas)
tudo isso
para dizer que
a vida  esta
sublevação
de enzimas meta-
estáveis sus-
(ten)tação pro-
visória do
acaso
le hasard (mal-
larmé) tý-
khe (carlos sanders
peirce) este en-
clave de cosmos (ordem)
 efêmero ainda
que  no
caos na
semprecrescente
mortentropia
milagre! (bandeira)
ou filáucia: rasgo
do
mediurno termo-
dinâmico demônio de
maxvell 
é
(ahimè
hélas ai
de mim/nós)
formalista:
cristal famélico
de forma
(falei)

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Entremilênios Haroldo de Campos, Organização e Nota de Carmen de P. Arruda Campos, 2009. 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Haroldo Eurico Browne de Campos (1929 2003), paulista e paulistano, fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco) e com doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, foi professor universitário, ensaísta, crítico literário, poeta e tradutor; ainda no Colégio São Bento, aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros (latim, inglês, espanhol e francês); em 1952 foi coinventor da revista literária Noigandres em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e passou a ser reconhecido como um dos criadores do Concretismo e um dos representantes e difundidores do movimento internacional da Poesia Concreta; em 1972, no doutorado pela FFLCH USP e sob a orientação de Antonio Candido, apresentou a tese Para uma teoria da prosa modernista brasileira: morfologia do Macunaíma, transformada em livro no ano seguinte; como professor universitário, lecionou na PUC SP e na Universidade do Texas, em Austin USA; obras: Auto do Possesso (1950), O Âmago do Ômega (1956), Fome de Forma (1959), Re-Visão de Sousândrade (crítica literária, em conjunto com Augusto de Campos, 1962), Morfologia do Macunaíma (crítica literária, 1973), Xadrez de Estrelas: Percurso Textual, 19491974 (antologia, 1976), Signantia: Quase Coelum Signância: quase céu (1979), Galáxias (1986), Metalinguagem & outras metas (crítica literária, 1992), O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos (crítica literária, 2000), etc. etc.; Haroldo de Campos também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu autores (Ezra Pound, Mallarmé, Homero, Dante, Poesia Russa Moderna, Eclesiastes [livro bíblico], Octavio Paz, Kaváfis, Maiakóvski, ...), em voo solo ou em co-autoria com estudiosos da literatura, inclusos Augusto de Campos, Décio Pignatari e Boris Schnaiderman; o poeta e ensaísta teve obras premiadas, 5 Prêmios Jabuti inclusos.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Giosuè Carducci: Prelúdio

 
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[tradução/transcriação de Haroldo de Campos]

Odeio a usada poesia, concedendo
cômoda ao vulgo os frouxos flancos, ela, sem
frêmito, sob o abraço consueto,
se estende e dorme

A mim, a estrofe alerta, ágil:
aplauso de mãos e ritmo de pés nos coros!
Que eu da asa a colha em vôo, ela
que se retrai e se recusa.

Tal entre os braços de amador silvano
Mênade se estorce sobre o nervoso Edon,
os pomos do florente peito mais formosos
saltando sob o amplexo.

Beijos, gemidos sobre a acesa boca
misturam-se: ri a marmórea fronte
ao sol, difusa em onda longa a coma
estremece no vento.

Giosuè Carducci

Preludio

Odio l'usata poesia: concede
comoda al vulgo i flosci fianchi e senza
palpiti sotto i consueti amplessi
stendesi e dorme.

A me la strofe vigile, balzante
co 'l plauso e 'l piede ritmico ne' cori:
per l'ala a volo io còlgola, si volge
ella e repugna.

Tal fra le strette d'amator silvano
torcesi un'evia su 'l nevoso Edone:
piú belli i vezzi del fiorente petto
saltan compressi,

e baci e strilli su l'accesa bocca
mesconsi: ride la marmorea fronte
al sole, effuse in lunga onda le chiome
fremono a' venti.
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Entremilênios — Haroldo de Campos, Organização e Nota de Carmen de P. Arruda Campos, 2009, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Valdicastello di Pietrasanta, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, lecionou Literatura italiana na Universidade de Bolonha, foi poeta e crítico; obras: Rime (poesias, 1857), Levia Gravia (1868), Poesie (1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873), Odi barbare (1877), Juvenilia (1880), e tantas outras edições e re-edições; em 1906 foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

haroldo de campos: apocalypse now

 
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the horror . . .

o megacowboy vestindo uma armadura
de carapaças de armadillo à
prova de tiro
divide o mundo em adeptos do
mal e cruzados do bem
(em sua caixa craniana
um vozerio de apostas ruge
em torno de uma briga de cascavéis)
o macrovaqueiro do bem
revestindo uma couraça de raios lazer
à prova de bazucas
não ouve o clamor dos pais da pátria
(“o jovem povo de vanguarda”, sousândrade)
ignora a biblioteca de jefferson
nas estantes lavradas de monticello: jefferson ele
próprio fora o arquiteto de sua mansão
enquanto se correspondia com humboldt e outros
notáveis da época  uma época
(dizem) em que se chegou a pensar em adotar o
grego clássico
(em vez do inglês) como idioma da nova república:
 que antecipou a revolução francesa]
 que inspirou os libertadores da hispano-américa
e os inconfidentes de minas

o megamacrosuperherói do bem
não está interessado em ouvir mais nada
nem repara quando martin luther king
apresenta afro-condolências a uma afro
-americana condoleezza verde-hirta
ferrúgeo-parda como a estátua da liberdade (vista
de perto)

o senador byrd
robert byrd
da virgínia do norte
um filho de mineiros de carvão
em seu terceiro mandato
(um membro do “establishment” porém
decente
fiel à memória dos patriarcas)
discursa
alertando o senado:
por três vezes apela aos pró-homens
da república
por três vezes o senado cala
(nem uma linha na grande imprensa americana
sobre o discurso do byrd)

o supermacromegacowboy vestido de “mariner”
chegou ao limite
seus olhos azuis são um frio risco de aço:
basta de onus onerosas e inoperosas!
basta de franceses amolecidos e decadentes
e de alemães desleais!
(vênias dadas ao trêfego blair e aos dois
porta-vozes da eurodireita: o asinino aznar
ostentando as medalhas do generalíssimo e o
mafioso berlusconi com bufos esgares de mussolini)

azuis os dois olhos são agora um único risco de aço

o dedo no comando
está prestes a apertar o botão

o ar tem um ataque cardíaco

a primeira bomba
como um ovo de assombro
tomba
(ali onde foi o zigurat
de babel ali onde
a rainha semíramis
passava tardes amenas
e odorantes
em seus jardins suspensos)

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Entremilênios Haroldo de Campos, Organização e Nota de Carmen de P. Arruda Campos, 2009. 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Haroldo Eurico Browne de Campos (1929 2003), paulista e paulistano, fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco) e com doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, foi professor universitário, ensaísta, crítico literário, poeta e tradutor; ainda no Colégio São Bento, aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros (latim, inglês, espanhol e francês); em 1952 foi coinventor da revista literária Noigandres em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e passou a ser reconhecido como um dos criadores do Concretismo e um dos representantes e difundidores do movimento internacional da Poesia Concreta; em 1972, no doutorado pela FFLCH USP e sob a orientação de Antonio Candido, apresentou a tese Para uma teoria da prosa modernista brasileira: morfologia do Macunaíma, transformada em livro no ano seguinte; como professor universitário, lecionou na PUC SP e na Universidade do Texas, em Austin USA; obras: Auto do Possesso (1950), O Âmago do Ômega (1956), Fome de Forma (1959), Re-Visão de Sousândrade (crítica literária, em conjunto com Augusto de Campos, 1962), Morfologia do Macunaíma (crítica literária, 1973), Xadrez de Estrelas: Percurso Textual, 19491974 (antologia, 1976), Signantia: Quase Coelum Signância: quase céu (1979), Galáxias (1986), Metalinguagem & outras metas (crítica literária, 1992), O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos (crítica literária, 2000), etc. etc.; Haroldo de Campos também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu autores (Ezra Pound, Mallarmé, Homero, Dante, Poesia Russa Moderna, Eclesiastes [livro bíblico], Octavio Paz, Kaváfis, Maiakóvski), em voo solo ou em co-autoria com estudiosos da literatura, inclusos Augusto de Campos, Décio Pignatari e Boris Schnaiderman; o poeta e ensaísta teve obras premiadas, 5 Prêmios Jabuti inclusos.