____________________
[traduzido por Emilio Carrera Guerra]
Aos marinheiros russos
Em frente, marche! Basta de falar!
O tempo dos oradores já passou.
Hoje tem a palavra
o Camarada Mauser!
Não há outra lei senão a da natureza.
Somente Adão e Eva estão com a verdade.
Abaixo as leis, abaixo as cadeias!
Fustiguemos a carroça da história
À esquerda, à esquerda, à esquerda!
Em frente, à conquista
dos Oceanos!
Tendes canhões em vossos navios de aço.
Já esquecestes como os fazer falar?
Que a coroa abra uma goela
quadrangular,
que o leão britânico ruja
que importa?
A comuna está em marcha
e manterá a vitória!
À esquerda, à esquerda, à esquerda!
Aqui é a sombra e a morte, mas lá longe
do outro lado das montanhas
o sol se levantou sobre um mundo novo.
Lá, além das planícies,
o solo estremece sob os passos inumeráveis
de homens impávidos e livres.
Camaradas, nós somos um rochedo de granito.
Os bandidos da Entente se arremessam contra ele.
Mas nada abaterá a Rússia Soviética.
À esquerda, à esquerda, à esquerda!
Eles não puderam furar os olhos atilados da águia
que olha e compreende as lições do passado.
Avante, pois, meu povo, e já que o pegaste
estrangula teu carrasco!
A trombeta dos bravos já soou o alarme.
Nossos estandartes aos milhares avermelham o céu.
Só a rota dos traidores é que conduz à direita.
À esquerda, à esquerda, à esquerda!
(1918)
Левый марш
Разворачивайтесь в марше!
Словесной не место кляузе.
Тише, ораторы!
Ваше
слово,
товарищ маузер.
Довольно жить законом,
данным Адамом и Евой.
Клячу истории загоним.
Левой!
Левой!
Левой!
Эй, синеблузые!
Рейте!
За океаны!
Или
у броненосцев на рейде
ступлены острые кили?!
Пусть,
оскалясь короной,
вздымает британский лев вой.
Коммуне не быть покоренной.
Левой!
Левой!
Левой!
Там
за горами горя
солнечный край непочатый.
За голод
за мора море
шаг миллионный печатай!
Пусть бандой окружат нанятой,
стальной изливаются леевой,-
России не быть под Антантой.
Левой!
Левой!
Левой!
Глаз ли померкнет орлий?
В старое станем ли пялиться?
Крепи
у мира на горле
пролетариата пальцы!
Грудью вперед бравой!
Флагами небо оклеивай!
Кто там шагает правой?
Левой!
Левой!
Левой!
1918
____________________
Maiakóvski — Vida e Poesia:
Tradução dos poemas por Emilio Carrera Guerra e Daniel Fresnot, Introdução de
Francis Combes (traduzida do francês por Sebastião Paz) e Autobiografia ‘Eu
mesmo’ traduzida do francês por Nicole A. Vilhena, Coleção “A Obra-Prima
de Cada Autor”, volume 248, 2ª reimpressão, 2013, Editora Martin Claret, São
Paulo — SP; Vladímir
Vladimirovitch Maiakóvski (1893 — 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império
Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta,
dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique e
teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; em Moscou,
ingressou na Escola de Belas Artes e fez parte do grupo artístico fundador do
então chamado cubo-futurismo russo; ao serem expulsos da Escola, ele e outros
alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções
artísticas; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e
legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou
campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou
ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais
Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em
jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de
Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a
forma revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas e na defesa de suas
concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos de intelectuais e
também com a burocracia do governo que se iniciava; obras: livros de poesia, de
viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O
Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), A propósito
disto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), À Plena Voz (1930), longos
poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o
teatro, publica Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho
(1929), e tantos outros textos, para circo, argumentos para cinema e mais de mil
páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.