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terça-feira, 4 de março de 2025

Lima Barreto: Mais uma vez


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          Este recente crime da Rua da Lapa traz de novo à tona essa questão do adultério da mulher e seu assassinato pelo marido.
          Na nossa hipócrita sociedade, parece estabelecido como direito, e mesmo dever do marido, o perpretá-lo1.
          Não se dá isto nesta ou naquela camada, mas de alto a baixo.
          Eu me lembro ainda hoje que, numa tarde de vadiação, há muitos anos, fui parar com o meu amigo, já falecido, Ari Toom, no necrotério, no Largo do Moura por aquela época.
          Uma rapariga nós sabíamos isso pelos jornais , creio que espanhola, de nome Combra, havia sido assassinada pelo amante e, suspeitava-se, ao mesmo tempo maquereau2 dela, numa casa da Rua de Sant’Ana.
          O crime teve a repercussão que os jornais lhe deram, e os arredores do necrotério estavam povoados da população daquelas paragens e das adjacências do Beco da Música e da Rua da Misericórdia, que o Rio de Janeiro bem conhece.
          No interior da morgue3, era a frequência algo diferente sem deixar de ser um pouco semelhante à do exterior, e, talvez mesmo, em substância igual, mas muito bem vestida. Isto enquanto às mulheres bem entendido!
          Ari ficou mais tempo a contemplar os cadáveres. Eu saí logo. Lembro-me só do da mulher que estava vestida com um corpete e tinha só a saia de baixo. Não garanto que estivesse calçada com as chinelas, mas me parece hoje que estava. Pouco sangue e um furo bem circular no lado esquerdo, com bordas escuras, na altura do coração.
          Escrevi cadáveres pois ­o amante-cáften4 se havia suicidado após matar a Combra — o que me havia esquecido de dizer.
          Como ia contando, vim para o lado de fora e pus-me a ouvir os comentários daquelas pobres pierreuses5 de todas as cores sobre o fato.
          Não havia uma que tivesse compaixão da sua colega da aristocrática classe. Todas elas tinham objurgatórias6 terríveis, condenando-a, julgando o seu assassínio coisa bem feita; e, se fosse homens, diziam, fariam o mesmo tudo isso entremeado de palavras do calão obsceno7 próprias para injuriar uma mulher. Admirei-me e continuei a ouvir o que diziam com mais atenção. Sabem por que eram assim tão severas com a morta?
          Porque a supunham casada com o matador, e ser adúltera.
          Documentos tão fortes como este não tenho sobre as outras camadas da sociedade; mas, quando fui jurado e tive por colegas os médicos da nossa terra, funcionários e doutos de mais de três contos e seiscentos mil réis de renda anual, como manda a lei sejam os juízes de fato escolhidos, verifiquei que todos pensavam da mesma forma que aquelas maltrapilhas rôdeuses8 do Largo do Moura.
          Mesmo eu já contei alhures9 servi num conselho de sentença que tinha de julgar um uxoricida, e o absolvi. Fui fraco, pois a minha opinião, se não era fazer-lhe comer alguns anos de cadeia, era manifestar que havia, e no meu caso completamente incapaz de qualquer conquista, um homem que lhe desaprovava a barbaridade do ato. Cedi a rogos e, até, alguns partidos dos meus colegas de sala secreta.
          No caso atual, nesse caso da Rua da Lapa, vê-se bem como os defensores do criminoso querem explorar essa estúpida opinião de nosso povo que desculpa o uxoricídio quando há adultério, e parece até impor ao marido ultrajado (sic) o dever de matar a sua ex-cara-metade.
          Que um outro qualquer advogado explorasse essa abusão bárbara da nossa gente, vá lá; mas que o senhor Evaristo de Morais, cuja ilustração, cujo talento e cujo esforço na vida me causam tanta admiração, endosse10, mesmo profissionalmente, semelhante doutrina é que me entristece.
          O liberal, o socialista Evaristo, quase anarquista, está me parecendo uma dessas engraçadas feministas do Brasil, gênero professora Daltro, que querem a emancipação da mulher unicamente para exercer sinecuras11 do governo e rendosos cargos políticos; mas que, quando se trata desse absurdo costume nosso de perdoar os maridos assassinos de suas mulheres, por isto ou aquilo, nada dizem e ficam na moita12.
          A meu ver, não há degradação maior para a mulher do que semelhante opinião quase geral; nada a degrada mais do que isso, penso eu. Entretanto...
          Às vezes mesmo, o adultério é o que se vê, e o que não se vê são outros interesses e despeitos13 que só uma análise mais sutil podia revelar nesses lagos.
          No crime da Rua da Lapa, o criminoso, o marido, o interessado no caso, portanto, não alegou quando depôs sozinho que a sua mulher fosse adúltera; entretanto, a defesa, lemos nos jornais, está procurando “justificar” que ela o era.
          O crime em si não me interessa, se não no que toca à minha piedade por ambos; mas se tivesse de escrever um romance, e não é o caso, explicaria, ainda me louvando14 nos jornais, a coisa de modo talvez satisfatório.
          Não quero, porém, escrever romances e estou disposto a não escrevê-los mais, se algum dia escrevi um, de acordo com os cânones15 da nossa crítica; por isso guardo as minhas observações e ilusões para o meu gasto e para o julgamento da nossa atroz sociedade burguesa, cujo espírito, cujos imperativos da nossa ação na vida animaram o que parece absurdo, mas de que estou absolutamente certo o protagonista do lamentável drama da Rua da Lapa.
          Afastei-me do meu objetivo, que era mostrar a grosseria, a barbaridade desse nosso costume de achar justo que o marido mate a mulher adúltera ou que a crê tal.
          Toda a campanha para mostrar a iniquidade16 de semelhante julgamento não será perdida; e não deixo passar vaza17 que não diga algumas toscas palavras, condenando-o.
          Se a coisa continuar assim, em breve, de lei costumeira18 passará a lei escrita, e retrogradamos19 às usanças selvagens que queimavam e enterrava vivas as adúlteras.
          Convém, entretanto, lembrar que nas velhas legislações havia casos de adultério legal. Creio que Sólon e Licurgo os admitia; creio mesmo ambos. Não tenho aqui o meu Plutarco. Seja, porém, como for, não digo que todos os adultérios são perdoáveis. Pior do que o adultério é o assassinato; e nós queremos criar uma espécie dele baseado na lei.

[revista] A. B. C., 1920


Notas da edição:
1. Perpetrá-lo: praticá-lo
2. Maquereau (fr.): cafetão
3. Morgue: necrotério
4. Amante-cáften: amante e, ao mesmo tempo, explorador de mulheres
5. Pierreuses (fr.): prostitutas de rua
6. Objurgatórias: censuras
7. Calão obsceno: xingamentos
8. Rôdeuses (fr.): prostitutas
9. Alhures: em outro lugar
10. Endosse: aprove
11. Sinecuras: emprego de favor, bem pago e sem obrigações
12. Ficam na moita: ficam escondidas, ocultas
13. Despeitos: ressentimentos, invejas
14. Louvando: com base em
15. Cânones: conjunto de regras
16. Iniquidade: injustiça
17. Vaza: oportunidade
18. Lei costumeira: legislação baseada nos usos e costumes
19. Retrogradamos: voltamos atrás
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Lima Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas e Edição sob os cuidados de Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como assinaturas de suas crônicas nos periódicos jornais e revistas nos quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Lima Barreto: Os médicos e o espírita


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          O caso de ter a Saúde Pública multado um médium espírita muito estimado em Botafogo, pelo fato de receitar remédios homeopáticos a clientes que o procuravam, fazendo isto de forma mais amplamente desinteressada, provoca um exame que sinto tê-lo de fazer muito perfunctoriamente1 sobre a mentalidade geral dos nossos médicos.
          De todos os nossos doutores, o médico, com muitas exceções, é o mais estreito em descortino2 intelectual e o é tanto mais quanto mais famoso é. Fora do campo de sua atividade mental, ele não enxerga nada que possa merecer consideração e muito menos que possa reagir sobre as suas teorias particulares, senão para tirar delas o valor absoluto que a limitação intelectual dos nossos grandes esculápios3 lhes empresta.
          Objetivos à outrance4, eles como que recebem o fato bruto e não o preparam pela análise, pela abstração e por outros processos lógicos para se incorporar ao pensamento abstrato, à ciência, enfim.
          Se fossem físicos, diriam que a vara em parte mergulhada n’água está quebrada, se astrônomos, que o sol gira em torno da terra; etc. etc.
          Não admitem, já não direi uma crítica do conhecimento, mas uma simples crítica do poder e da verdade do que nos dizem os nossos sentidos.
          Além dessa lamentável miopia mental, juntam a vaidade dos medíocres, que podem ser celebridades e ocupar altos cargos oficiais, e enchem-se de uma presunção profissional e uma vaidade pessoal que os levam a tomar atitudes de grão-sacerdotes e de infalibilidade papal.
          Por vaidade, não querem que se diga que a medicina propriamente é uma “arte”. Como, sendo como ela o é, os diminuísse de alguma forma; e, por presunção, para não se nivelarem com toda a gente que escreve, inventaram uma geringonça5 pseudoclássica, com a qual redigem os seus laboriosos tratados. Duros e desdenhosos com os seus subalternos não formados, eles levam esse espírito de superioridade sobre o resto dos homens, a sua presunção de inerrância6, o sentimento do direito divino que lhes dá a carta, para as leis que elaboram ou projetam, favorecendo-os em tudo e outorgando-lhes todos poderes e autoridades, deixando para os demais não formados migalhas e deveres humilhantes.
          Preferia ser subordinado ao oficial do Exército, bem entendido mais truculento que houvesse do que ao médico mais melífluo7 nas salas de Botafogo ou nos desvãos8 do Municipal, que se conheça.
          A medicina é importante atividade intelectual, mas não é a única importante e não chegou a tal ponto de perfeição que os médicos tenham na cabeça ou nos livros as leis que regem as moléstias e a sua cura e a organização do Universo.
          Se eles fossem verdadeiramente cientistas haviam de ter dúvidas e nunca tentariam estabelecer na Terra a ditadura dos médicos, porque esta só seria válida se a medicina fosse uma verdade perfeitamente e completamente estabelecida.
          Entretanto, aqui e acolá, as suas doutrinas estão sujeitas à caução9 ou se baseiam em outros dados científicos que, por uma pequena descoberta de amanhã, em disciplina muito afastada da arte de Hipócrates10, podem ser deitadas por terra.
          Os médicos, os nossos, porém, não querem ver isso e arrotam a infalibilidade do laboratório, como se este não fosse, em última análise, ótica, física, cujas leis amanhã podem ser derrogadas11 ou mesmo revogadas.
          Demais, essas odiosas medidas, consignadas12 no tal Código Negro, que a Saúde Pública ultimamente expediu, só visam os pobres, os desgraçados e os sem proteção...
          Esse código é bem uma demonstração da limitação intelectual e sentimental do geral dos nossos médicos. Posto em prática, com todo o rigor e honestidade, ele poria o presidente da república, os congressistas e os juízes sob o guante13 do mais modesto funcionário da Saúde Pública. Ele cria em teoria a medicocracia ou o que outro nome tenha.
          O governo, o único de uma classe que é lógico consigo mesmo, é a teocracia, porque é de supor que os sacerdotes conheçam os secretos desígnios de Deus sobre os homens e os seus destinos; mas os de outra qualquer que não possuem semelhante sabedoria é ilógica14 e sem sentido.
          Os médicos não querem saber disso e se arrogam ou se quiseram arrogar o direito de dirigir os engenheiros encarregados das obras de saneamento, de dirigir os políticos no governo dos povos, de substituir as mães no acalentar os filhos, de vestir o amor dos sexos com o auxílio da duvidosa reação de Wasserman15 etc. etc.
          Como todos os iniciados, eles se julgam acima dos defeitos, vícios ou o que quer que seja que atribuem aos outros...
          Quando foi por ocasião da morte do doutor Francisco de Castro, houve quem dissesse que o notável professor havia morrido de peste bubônica16.
          A Saúde Pública de então suspeitou isso, tanto que mandou verificar o óbito. O Senhor Azevedo Sodré e outros médicos de sua roda ficaram indignados com a coisa, impediram a entrada do médico da higiene federal e houve um começo de “bate-boca” científico, como dizem eles.
          Consta isto dos jornais do tempo. Pode ser verificado.
          De forma que, para o doutíssimo Sodré e seus amigos, o doutor Francisco de Castro era um mestre excepcional que não podia ser vitimado por uma moléstia que atinge o comum dos mortais. Curiosa sabedoria!
          Com mais paciência e tempo aos médicos que tanto gostam de gritar: são fatos! Podia apresentar mais fatos para demonstrar a contradição que eles revelam nas aplicações de suas severas e infalíveis teorias. Para os demais, principalmente os miseráveis, todo o rigor é pouco, é preciso mesmo o vexame e a brutalidade; mas, para os fartos, especialmente os médicos notáveis, não há necessidade energias despóticas, porque, a esses, os morbus17 terríveis não atingem. A moléstia é como a fome: só alcança os pobres, os sem dinheiro. Concordo em parte.
          Se assim é, o que o bom senso, embora eu não seja dele grande adepto, está a mostrar é que nós nos devemos preocupar principalmente em acabar com a miséria, com a pobreza, e não aumentá-las com impostos e com ostentações munificentes18 de sultões, de vizires e de paxás19, para depois transformar a miséria e a epidemia, criarmos luxuosas repartições encarregadas de espalhar paliativos20, com apoio de medidas tirânicas e vexatórias21.
          Essas ligeiras considerações, porém, levaram-me longe e abandonei o caso do médium espírita.
          De que acusam esse homem? De indicar remédios homeopáticos que lhe são indicados pelos espíritos dos mortos, cujas comunicações ele pode receber, devido a isto ou àquilo.
          Há nisto, em primeiro lugar, o fato acessível ao exame de todos nós, que é o dos medicamentos homeopáticos. A doutrina vigente entre os magnatas médicos é que a homeopatia não cura, não tem nenhum poder terapêutico; os seus medicamentos são água pura, água de pote.
          Não me trato pela homeopatia, mas noto que os médicos que assim se fazem, depois de severos estudos e em idade de madureza intelectual, adotam a homeopatia. Haja em vista o doutor Licínio Cardoso, os falecidos Meireles, Murtinho e Nerval de Gouveia. Tais exemplos, se não me fazem mudar da minha habitual medicina, dão-me direito em não aceitar sobre a doutrina médica de Hahnemann22 o julgamento desdenhoso da quase totalidade dos nossos médicos.
          Há, além, no caso do Senhor Inácio Bittencourt, um fato de fé, de crença, sobre o qual os médicos da Saúde Pública não podem possuir nenhuma competência oficial para discutir, para negar ou aceitar.
          Se os medicamentos que o Senhor Bittencourt indica são inócuos e ele os indica em virtude de uma certa crença religiosa, não se pode encontrar em semelhante ato matéria para multa, por infração, ou processo por crime.
          Isto tudo só pode existir no procedimento do médium para quem o julgar através da vaidade e da presunção dos nossos profissionais da medicina.
          Eles se esquecem que nós vivemos, no dizer de Renan, de velhas crenças que estão sendo abaladas, entre as quais está o poder a certeza certa da ciência.
          Ela talvez possa ser assim considerada, enquanto Ciência; mas, deixando o seu campo abstrato para aplicações práticas, periclita23 muito o seu império; e quem sabe disto não pode querer dominar os outros ou excomungá-los, em nome de Deus tão vacilante.

[revista] A. B. C., 19/03/1921

Lima Barreto

Notas da edição:
1. Perfunctoriamente: superficialmente
2. Descortino: perspicácia
3. Esculápios: médicos
4. À entrance (fr.): exagerados
5. Geringonça: linguagem vulgar
6. Inerrância: que não pode errar
7. Melífluo: suave, doce
8. Desvãos: recantos escondidos
9. Caução: cautela, precaução
10. Arte de Hipócrates: referência à medicina
11. Derrogadas: alteradas
12. Consignadas: estabelecidas
13. Guante: mão de ferro, autoridade despótica
14. É ilógica: deveria ser “são ilógicos”
15. Wassermann: referência ao teste de Wassermann, exame de sangue para diagnosticar a sífilis
16. Peste bubônica: doença transmitida pelo rato preto
17. Morbus: moléstias
18. Munificentes: generosas
19. Sultões, vizires e paxás: nobres da antiga Pérsia
20. Paliativos: tratamentos que fornecem alívio, de duração variável
21. Vexatórias: que envergonham
22. Hahnemann: médico alemão (1755 — 1843), criador do método homeopático para tratamento das doenças
23. Periclita: corre perigo
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Lima Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas e Edição sob os cuidados de Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como assinaturas de suas crônicas nos periódicos jornais e revistas nos quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Lima Barreto: A origem do homem

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          Excelentíssimo Senhor Doutor Charles Hill-Tout. Los Angeles, Califórnia, M. E. A. Presente.
          Li num jornal daqui, um telegrama, naturalmente mandado expedir por uma das agências poderosas da nação de que Vossa Excelência é filho, que Vossa Excelência havia feito maravilhosas descobertas sobre a origem desta nossa pobre humanidade.
          Diz o citado telegrama que Vossa Excelência vai comunicar à Sociedade Real do Canadá essa sua extraordinária descoberta. Tenho como grande coisa essa sociedade real desde que ela asseverou a existência do Eozoon canadensis1 e também a de trilobitas2 em todos os terrenos devonianos3. Vossa Excelência sabe que, no Brasil, há terrenos devonianos sem haver trilobitas; mas o Instituto Americano de Investigações assevera que isso não é possível e vai decretar, por intermédio de Vossa Excelência, que existiu um tal fóssil chamado Eoanthropus4 ou o “homem do amanhecer”, cujos vestígios Vossa Excelência tem na mão e com os quais Vossa Excelência pretende acabar com a teoria absurda de que nós todos temos a mesma origem.
          Eu não me abalo a contestar o telegrama de uma agência dos Estados Unidos; mas pondero que as maiores descobertas deste mundo, mesmo hoje, nunca foram transmitidas pelo telégrafo, com a pressa que mereceu a de Vossa Excelência.
          Se fosse negócio de câmbio, de jogo da bolsa, ou até as memórias sensacionalistas de Lady Asquith5, eu via bem o interesse do telégrafo em transmitir a notícia. Entretanto não se trata de semelhante coisa, mas de monogenismo e poligenismo6 cousas a que o próprio Assis Chateaubriand e o Leão Veloso, qualquer deles, estão pouco habituados a tratar.
          Como é então que a United Press ou o que for se apressara a transmitir a notícia de que Vossa Excelência havia descoberto antes do Pithecanthropus erectus7; antes do homem da caverna de Neandertal8, da do Cro-Magnon9, um homem quase perfeito, nas dunas da Inglaterra?
          Nós estamos em época de guerra. Não há dia em que não nos cheguem telegramas, dizendo que, em tal ou qual cidade dos Estados Unidos, se massacraram tantos ou quantos negros.
          Eu leio e fico pasmo; agora, porém, não fico, pois li o aviso telegráfico de Vossa Excelência e retive este trecho que aí vai, para edificação dos povos:
          “De acordo com o grande princípio singenético10 mais comumente conhecido como lei de Baer11, sabemos que os crânios dos jovens da raça Neandertal e os jovens dos antropomorfos12 ou monos13 semelhantes ao homem, são diferentes dos de seus progenitores. O princípio demonstrado pela lei referida significa que a ontogenia14 do indivíduo, ou história da evolução dos espécimes recapitula a filogenia15 da raça ou história da evolução das espécies é nisto que a lei de Baer faz luz sobre o problema que os jovens de qualquer espécie representam, mais verdadeira e intimamente que os adultos da espécie, o verdadeiro tipo ancestral de que provêm.”
          Toda esta embrulhada de Baer, antropomorfos etc. etc., quer dizer que Vossa Excelência admite como justas as execuções em massa de negros e mulatos que se fazem comumente nos Estados Unidos.
          Fique porém, Vossa Excelência, certo que isso é uma coisa que lá se faz, mas há de haver lugares no mundo em que, apesar do seu problemático homem das dunas da Inglaterra do tempo do plioceno16, elas não se farão assim tão facilmente.
          Criado etc.

[revista] Careta, 25/06/1921

Lima Barreto

Notas da edição:
1. Eozoon canadensis: nome dado pelo descobridor, Dr. Dawson, a um suposto fóssil de uma espécie de concha marinha, os foraminíferos
2. Trilobitas: trilobitas ou trilobites, espécie de baratas-d’água pré-históricas
3. Devonianos: do período da era paleozóica, que compreende o período de 540 milhões de anos a 250 milhões de anos atrás
4. Eoanthropus (downsoni): ou o Homem de Piltdown, fóssil humano encontrado em Piltdown, Inglaterra, por Charle Dawson (1864 — 1916). Mais tarde, em 1953, descobriu-se que se tratava de uma montagem fraudulenta
5. Lady Asquith: provavelmente Margot Tennant Asquith, dama da alta sociedade inglesa
6. Poligenismo: teoria que sustenta que a humanidade não tem uma origem comum e descende de espécies distintas (poligenismo), ao contrário da que afirma uma origem única (monogenismo)
7. Pithecanthropus erectus: (homem-macaco ereto), homem de Java descoberto em 1891, considerado um dos primeiros espécimes do homo erectus
8. Neandertal: espécie extinta, fóssil, do gênero Homo, que habitou a Europa e partes do Oeste da Ásia desde cerca de 350 mil anos até aproximadamente 29 mil anos atrás, tendo coexistido com os Homo sapiens
9. Cro-Magnon: restos mais antigos conhecidos na Europa do Homo sapiens, a espécie à qual pertencem todos os humanos modernos. Há restos mais antigos de Homo sapiens na África
10. Singenético: relativo à hipótese que admite que todos os seres vivos foram criados simultaneamente
11. Lei de Baer: referência à afirmação de Karl Ernst von Baer (1792 — 1876), fundador da embriologia, de que “o embrião dos vertebrados é o início de um vertebrado”, ou seja, um feto humano se desenvolve por estágios, sendo que inicialmente toma a forma geral de vertebrado, depois mamífero, a seguir primata e, finalmente, ser humano. O feto humano não assume a forma de invertebrado ou peixe
12. Antropomorfos: que têm forma humana
13. Monos: macacos
14. Ontogenia: processo evolutivo acerca das alterações biológicas sofridas pelo indivíduo, desde o seu nascimento até a maturidade
15. Filogenia: evolução das espécies
16. Plioceno: última época do antigo período Terciário da era Cenozóica. Está compreendido entre cerca de 5 e 2 milhões de anos atrás
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Lima Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas e Edição sob os cuidados de Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como assinaturas de suas crônicas nos periódicos jornais e revistas nos quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Lima Barreto: Bendito futebol


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          Não há dúvida alguma que o futebol é uma instituição benemérita cujo rol de serviço ao país vem sendo imenso e parece não querer ter fim.
          Com a citação deles podíamos encher colunas e colunas desta revista, se tanto quiséssemos e para isso nos sobrasse paciência.
          Não é preciso. É bastante elucidativa a enumeração de alguns principais. Um deles, se não o primordial, é ter trazido, para notoriedade das páginas jornalísticas e das festanças e rega-bofes1 dos Césares2 destas bandas, nomes de obscuros cavalheiros, doutores ou não, sequiosos de glória, que, sem ele, não teriam um destaque qualquer, fosse de que natureza fosse.
          Um outro é ter permitido que os trabalhadores de ofícios em que se exige grande força muscular nas pernas e nos pés, tais como: o de caixeiro de bancos, o de empregado em lojas comerciais e em escritórios, o de funcionário público, o de estudante e o de profissional do “desvio”, realizassem as suas respectivas profissões com perfeição e segurança de quem dispõe de poderosos “extensores”3, “pediosos”4, “perônios”5, “tíbias”6 etc. etc.
          Não falemos da gesticulação e falatório dos “torcedores” e “torcedoras”, nem dos soberbos rolos que coroam partidas magistrais.
          Além daqueles ótimos serviços, que citamos, prestados, pelo futebol, à Pátria e à mocidade brasileira de mais de quarenta anos, falemos de um terceiro mais geral de que todos nós brasileiros lhe somos devedores: ele tem conseguido, graças a apostas belicosas7 e rancorosas, estabelecer não só a rivalidade entre vários bairros da cidade, mas também o dissídio8 entre as divisões políticas do Brasil. Haja vista o que se tem passado entre São Paulo e Rio de Janeiro e vice-versa, por causa do jogo de pontapés9 na bola.
          O futebol é eminentemente um fator de dissensão10. Agora mesmo, ele acaba de dar provas disso com a organização das turmas de jogadores que vão à Argentina atirar bolas com os pés, de cá para lá, em disputa internacional. O Correio da Manhã, no seu primeiro suelto11 de 17 de setembro, aludiu ao caso. Ei-lo:
          0 Sacro Colégio do Futebol reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam ser levados a Buenos Aires, campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro homens de cor, enfim.
          A Igreja fazia, fez ou faz uma indagação semelhante que tinha o nome, se a minha ignorância não me trai, de processo de puritate sanguinis12. Isto, porém, ela fazia para os candidatos a seu sacerdócio coisa extraordinariamente diversa de um simples habilidoso que sabe, com mestria e brutalidade, servir-se dos pés, como normalmente os homens fazem com as mãos, para jogar bolas de cá para lá, da esquerda para adiante, de trás para frente e vice-versa. O sacerdote é o intermediário entre Deus e os homens; um futebolesco, o que é? Não sei.
          O conchavo13 não chegou a um acordo e consultou o papa, no caso, o eminente senhor presidente da República. Sua Excelência, que está habituada a resolver questões mais difíceis como sejam a cor das calças com que os convidados devem comparecer às recepções de palácios; as regras de precedência, que convém sejam observadas nos cumprimentos a pessoas reais e principescas, não teve dúvida em solucionar a grave questão. Foi sua resolução de que gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora, acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco humano. É verdade, aduziu14 ainda, que os estrangeiros possuem os retratos dos nossos senadores, dos nossos deputados, dos nossos lentes e estudantes, dos nossos acadêmicos etc. etc., mas são fatos domésticos com os quais nata têm a ver os estranhos; porém, fez Sua Excelência com ênfase, numa representação nacional, não é decente que tal gente figure. É verdade que o Senado, a Câmara são, mas... não vem ao caso.
          Concordaram todos aqueles esforçados cavalheiros que trabalham “pedestremente”15 pela prosperidade intelectual e pela grandeza material do Brasil; e, como complemento da medida, decidiram nomear uma comissão de antropólogos para examinar os “Enviados Extraordinários e Ministros Plenipotenciários da Pátria”, ao certame de junta-pés, na República Argentina. Sabemos que de tal comissão fazem parte as grandes inteligências arianas16 e ilustres desconhecidos: Senhores Anastácio, Zebedeu Palhano e Juliano Qualquer, doutos todos em várias coisas e também deputados federais.
          A providência, conquanto perspicazmente eugênica17 e científica, traz no seu bojo ofensa a uma fração muito importante, quase a metade, da população do Brasil; deve naturalmente causar desgosto, mágoa e revolta; mas o que se há de fazer? O papel do futebol, repito, é causar dissensões no seio da nossa vida nacional. É a sua alta função social.
          O que me admira é que os impostos, de cujo produto se tiram as gordas subvenções com que são aquinhoadas as sociedades futebolescas e seus tesoureiros infiéis, não tragam também a tisna18, o estigma de origem, pois uma grande parte deles é paga pela gente de cor. Os futeboleiros não deviam aceitar dinheiro que tivesse tão malsinada19 origem. Aceitam-no, entretanto, cheios de satisfação.
          Não foi à toa que Vespasiano disse a seu filho Tito que o dinheiro não tem cheiro. Havia um remédio para resolver esse congesto20 estado de coisas: o governo retirava do doutor Belisário Pena as verbas com que ele socorre as pobres populações rurais, flageladas por avarias endêmicas21 que as dizimam ou as degradam; e punha-as à disposição do futebol.
          Dava-se o seguinte: o futebol ficava mais rico e mais branco; e a gente de cor, de que se compõe, em geral, os socorridos por aquele doutor, acabava desaparecendo pela ação da malária, da opilação22 e outras moléstias de nomes complicados que não sei pronunciar e muito menos escrever.
          O governo, procedendo assim, seria lógico consigo mesmo. Lógico é querer conservar essa gente tão indecente e vexatória, dando-lhes médico e botica23, para depois humilhá-la, como agora, em honra do futebol regenerador da raça brasileira, a começar pelos pés. “Ab Jove principium...”24
            Os maiores déspotas e os mais cruéis selvagens martirizam, torturam as suas vítimas; mas as matam afinal. Matem logo os de cor; e viva o futebol, que tem dado tantos homens eminentes ao Brasil! Viva!

P.S. A nossa vingança é que os argentinos não distinguem, em nós, as cores: todos nós, para eles, somos macaquitos. A fim de que tal não continue seria hábil arrendar, por qualquer preço, alguns ingleses que nos representassem nos encontros internacionais de futebol.
          Há toda a conveniência em experimentar. Dessa maneira, sim, deixávamos todos de ser macaquitos, aos olhos dos estranhos.

[revista] Careta, 01/10/1921


Notas da edição:
1. Rega-bofes: festas com farturas de comidas e bebidas
2. Césares: governantes
3. Extensores: músculos que estiram um membro
4. Pediosos: músculos do pé
5. Perônios: ossos da perna que ficam ao lado da tíbia, hoje conhecidos como fíbulas
6. Tíbias: ossos longos da perna
7. Belicosas: dispostas para a guerra
8. Dissídio: conflito de interesses ou opiniões, divergência
9. Jogo de pontapés: futebol
10. Dissensão: desentendimento
11. Suelto (esp.): pequeno artigo em que se apresenta o ponto de vista do jornal sobre o assunto de menor importância
12. Puritate sanguinis: pureza de sangue
13. Conchavo: acordo secreto
14: Aduziu: expôs
15. Pedestremente: modestamente
16. Arianas: relativas ao arianismo, teoria popularizada pelo nazismo que afirma a superioridade dos homens brancos e, entre estes, do antigo povo ariano (que se estabeleceram no Industão e iniciaram a civilização indo-europeia)
17. Eugênica: atenta ao melhoramento genético da espécie humana
18. Tisna: mancha
19. Malsinada: infeliz
20. Congesto: congestionado, circulação impedida pelo acúmulo de coisas
21. Endêmicas: doenças que se alastram num povo ou numa região
22. Opilação: denominação dada, no Brasil, à ancilostomíase
23. Botica: farmácia
24. Ab Jove principium (lat.); desde o início
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Lima Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas, Glossário 'Elenco de nomes, títulos e lugares' e Edição sob os cuidados de Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como assinaturas de suas crônicas nos periódicos jornais e revistas nos quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Jorge de Lima: Democracia

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Punhos de redes embalaram o meu canto
para adoçar o meu país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
carumã me alimentou quando criança,
Mãe-negra me contou histórias de bicho,
moleque me ensinou safadezas,
massoca, tapioca, pipoca, tudo comi,
bebi cachaça com caju para limpar-me,
tive maleita, catapora e ínguas,
bicho-de-pé, saudade, poesia;
fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,
dizendo coisas, brincando com as crioulas,
vendo espíritos, abusões, mães-d’água,
conversando com os malucos, conversando sozinho,
emprenhando tudo que encontrava,
abraçando as cobras pelos matos,
me misturando, me sumindo, me acabando,
para salvar a minha alma benzida
e meu corpo pintado de urucu,
tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas,
de nome de amor em todas as línguas de branco, de mouro ou de
[pagão.
                                                                                                        
Poemas Negros —  1947

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Roteiro da Poesia Brasileira — Modernismo, Seleção e Prefácio de Walnice Nogueira Galvão, Direção de Edla Van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo SP; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Ascenso Ferreira: Gaúcho

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Riscando os cavalos!
Tinindo as esporas!
Través das coxilhas!
Saí de meus pagos em louca arrancada!

 Para quê?
 Para nada.

Xenhenhém  1951

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Roteiro da Poesia Brasileira — Modernismo, Seleção e Prefácio de Walnice Nogueira Galvão, Direção de Edla Van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo — SP; Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895 — 1965), pernambucano de Palmares, Zona da Mata, foi poeta, letrista-compositor e funcionário público; em 1911, publicou seu primeiro poema ‘Flor fenecida’ no jornal A Notícia, de Palmares e, depois, passa a colaborar com o Diário de Pernambuco, Revista do Norte e outros jornais; participou do Movimento Modernista de Pernambuco; sua bibliografia: Catimbó (1927), Cana Caiana (1939), Poemas 1922 1951 (1951), Xenhenhém (1951), O Maracatu (publicação póstuma, 1986), e outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Heitor Villa-Lobos (O Trem de Alagoas) Alceu Valença (Vou danado pra Catende, refrão de ‘O trem de Alagoas')), Hekel Tavares (Chove chuva!), Capiba (Onde o sol descamba) e outros.