terça-feira, 31 de maio de 2022

Tristan Corbière: Rondel

 
____________________
[traduzido por Renata Cordeiro]

Que breu, rapaz, ladrão dos esplendores!
Noites, dias se foram para sempre,
Dorme... na atenta espera dos rumores
Das que diziam: Nunca! Eternamente!

Ouves seus passos? Pisam levemente:
Oh! Pés leves!  Têm asas os Amores…
Que breu, rapaz, ladrão dos esplendores!

E as vozes?... Mas as covas são silentes.
Dorme: sob leves e perpétuas flores:
Amigos-ursos não estão presentes
Para prestar-te, às moças, maus favores:
Que breu, rapaz, ladrão dos esplendores!

Tristan Corbière

Rondel

Il fait noir, enfant, voleur d'étincelles!
Il n'est plus de nuits, il n'est plus de jours,
Dors... en attendant venir toutes celles
Qui disaient: Jamais! Qui disaient: Toujours!

Entends-tu leurs pas?... Ils ne sont pas lourds:
Oh! les pieds légers! l'Amour a des ailes...
Il fait noir, enfant, voleur d'étincelles!

Entends-tu leurs voix?... Les caveaux sont sourds.
Dors: il pèse peu, ton faix d'immortelles;
Ils ne viendront pas, tes amis les ours,
Jeter leur pavé sur tes demoiselles:
Il fait noir, enfant, voleur d'étincelles!
____________________
Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845  1875), francês de Morlaix Finisterre, foi poeta simbolista; teve seu trabalho reconhecido após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; escreveu e publicou um único livro em vida, Les amours jaunes (1873); morreu aos 29 anos de idade, de tuberculose.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Charles Baudelaire: Os favores da Lua

____________________
[traduzido por Alessandro Zir]

XXXVII

          A Lua, que é o próprio capricho, olhou pela janela você dormindo no berço e disse:
           Gosto dessa criança.
          E ela desceu languidamente a sua escadaria de nuvens e, sem fazer barulho, atravessou a vidraça. Depois ela se inclinou sobre você com a agilidade afetuosa de uma mãe, e lhe deixou sobre a face as cores dela. Desde então você tem as pupilas verdes e as bochechas muito pálidas. O tamanho bizarro alcançado pelos seus olhos vem de contemplar essa visitante; e ela lhe apertou a garganta com tanta ternura que você guarda para sempre a vontade de chorar.
          Ao mesmo tempo, se expandindo em sua alegria, a Lua tomava conta do quarto, como uma atmosfera fosfórica, como um peixe luminoso; e toda essa luz, viva, pensava e dizia:
           Você sofrerá para sempre a influência do meu beijo. Você será bela à minha maneira. Você vai amar o que eu amo e o que me ama: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o oceano imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar em que você não vai estar; o amante que você não vai conhecer; as flores monstruosas; os perfumes que fazem delirar; os gatos que desfalecem sobre os pianos e que gemem como mulheres, numa voz rouca e doce!
          “E você será amada por meus amantes; cortejada pelos meus admiradores. Você será a rainha dos homens de olhos verdes cuja garganta também apertei em minhas carícias noturnas; daqueles que amam o oceano, o oceano imenso, tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar em que eles não estão, a mulher que eles não conhecem, as flores sinistras que parecem incensórios de uma religião desconhecida, os perfumes que perturbam a vontade e os animais selvagens e voluptuosos que são os emblemas da loucura deles.”
          E é por isso, maldita criança mimada, que agora estou aqui deitado aos seus pés, buscando em você, em sua pessoa, o reflexo da temível divindade, da madrinha fatídica, da ama intoxicante de todos os lunáticos.

Charles Baudelaire

Les bienfaits de la lune

          La Lune, qui est le caprice même, regarda par la fenêtre pendant que tu dormais dans ton berceau, et se dit: «Cette enfant me plaît.»
          Et elle descendit moelleusement son escalier de nuages et passa sans bruit à travers les vitres. Puis elle s’étendit sur toi avec la tendresse souple d’une mère, et elle déposa ses couleurs sur ta face. Tes prunelles en sont restées vertes, et tes joues extraordinairement pâles. C’est en contemplant cette visiteuse que tes yeux se sont si bizarrement agrandis; et elle t’a si tendrement serrée à la gorge que tu en as gardé pour toujours l’envie de pleurer.
          Cependant, dans l’expansion de sa joie, la Lune remplissait toute la chambre comme une atmosphère phosphorique, comme un poison lumineux; et toute cette lumière vivante pensait et disait: «Tu subiras éternellement l’influence de mon baiser. Tu seras belle à ma manière. Tu aimeras ce que j’aime et ce qui m’aime: l’eau, les nuages, le silence et la nuit; la mer immense et verte; l’eau informe et multiforme; le lieu où tu ne seras pas; l’amant que tu ne connaîtras pas; les fleurs monstrueuses; les parfums qui font délirer; les chats qui se pâment sur les pianos et qui gémissent comme les femmes, d’une voix rauque et douce!
          «Et tu seras aimée de mes amants, courtisée par mes courtisans. Tu seras la reine des hommes aux yeux verts dont j’ai serré aussi la gorge dans mes caresses nocturnes; de ceux-là qui aiment la mer, la mer immense, tumultueuse et verte, l’eau informe et multiforme, le lieu où ils ne sont pas, la femme qu’ils ne connaissent pas, les fleurs sinistres qui ressemblent aux encensoirs d’une religion inconnue, les parfums qui troublent la volonté, et les animaux sauvages et voluptueux qui sont les emblèmes de leur folie.»
          Et c’est pour cela, maudite chère enfant gâtée, que je suis maintenant couché à tes pieds, cherchant dans toute ta personne le reflet de la redoutable Divinité, de la fatidique marraine, de la nourrice empoisonneuse de tous les lunatiques.
____________________
O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

domingo, 29 de maio de 2022

Ana Crescêncio: Flor de Loi*

 
____________________
          Sempre que passava pela casa da vizinha parava extasiada a admirar uma flor roxa pendurada na parede da casa.
          Ela sempre teve muitas flores, dentro de casa também.
          Mas a minha preferida era aquela roxa, plantada num galão de produtos de limpeza.
          Era o sol da manhã a chegar e a combinação explodia numa beleza inexplicável, coisa de artistas, pensava eu.
          Ocorre que até hoje nunca soube com certeza por que aquela flor num galão de plástico trancava em mim.
          Duas semanas atrás a vizinha me deu a flor.
          Feliz da vida, pendurei no canto do beija-flor.
          Hoje a vizinha partiu.
          Finalmente entendi tamanha delicadeza.
          Aquela flor no galão de limpeza tem melodia, uma melodia tanta e tão gentil de histórias que encontrou eco e garantiu as memórias que nos colocam de pé.
          A mim e ao povo todo da rua.

          Certeza que segue em paz.
          Gracias, Loi.

25 de maio de 2022


* Nota deste Verso e Conversa: O título desta crônica está sendo acrescentado e é de total responsabilidade do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página.
____________________
Ana Crescêncio fotografa, faz crônicas, estudou Violência Social e Segurança Pública na UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mora em Taquara RS, é filha de dona Nesta e o seu João, tem cães e gatos...; e mais não sei, ela não me disse e eu não perguntei; foi o pesquisado.

haroldo de campos: para sacilotto/operário da luz

____________________
o quadrado áureo
de sacilotto 
concreção seis mil
trezentos e cinqüenta e um
mil novecentos e cinqüenta
e três 
latão tridimensional polido
sabiamente
pelo escultor-operário
de esquadrias metálicas 
deixa que se abram
à superfície
pequenas ventanas triangulares
em relevo
que vazam em fendas
escuras:
o deslumbre da luz aurificada
rebate-se nessas seteiras como em
buracos negros:
ao trânsito do expectador
tudo vibra
tudo entrevibra numa
(pré-op)
cinese dourada


____________________
Entremilênios Haroldo de Campos, Organização e Nota de Carmen de P. Arruda Campos, 2009. 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Haroldo Eurico Browne de Campos (1929 2003), paulista e paulistano, fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco) e com doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, foi professor universitário, ensaísta, crítico literário, poeta e tradutor; ainda no Colégio São Bento, aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros (latim, inglês, espanhol e francês); em 1952 foi coinventor da revista literária Noigandres em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e passou a ser reconhecido como um dos criadores do Concretismo e um dos representantes e difundidores do movimento internacional da Poesia Concreta; em 1972, no doutorado pela FFLCH USP e sob a orientação de Antonio Candido, apresentou a tese Para uma teoria da prosa modernista brasileira: morfologia do Macunaíma, transformada em livro no ano seguinte; como professor universitário, lecionou na PUC SP e na Universidade do Texas, em Austin USA; obras: Auto do Possesso (1950), O Âmago do Ômega (1956), Fome de Forma (1959), Re-Visão de Sousândrade (crítica literária, em conjunto com Augusto de Campos, 1962), Morfologia do Macunaíma (crítica literária, 1973), Xadrez de Estrelas: Percurso Textual, 19491974 (antologia, 1976), Signantia: Quase Coelum Signância: quase céu (1979), Galáxias (1986), Metalinguagem & outras metas (crítica literária, 1992), O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos (crítica literária, 2000), etc. etc.; Haroldo de Campos também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu autores (Ezra Pound, Mallarmé, Homero, Dante, Poesia Russa Moderna, Eclesiastes [livro bíblico], Octavio Paz, Kaváfis, Maiakóvski), em voo solo ou em co-autoria com estudiosos da literatura, inclusos Augusto de Campos, Décio Pignatari e Boris Schnaiderman; o poeta e ensaísta teve obras premiadas, 5 Prêmios Jabuti inclusos.

sábado, 28 de maio de 2022

Antônio Patrício: A neve

 
____________________
Feeria nupcial! A neve, a neve,
alegrissimamente vai caindo.
A nossa dor é um elfo que nos segue:
tudo cristalizou num riso lindo.

Lembra um conto de fadas a paisagem:
Jardins e parques, casas, estão dormindo;
e no seu sonho, pueril miragem,
a neve vai caindo, vai caindo.

Mas que jardins se esfolham pela altura?…
É a espuma dum mar pr’além das nuvens
ou um Outono místico de alvura?…

É um Abril de pureza: é lindo, lindo!
Sinto-me estonteado de brancura:
os mortos mesmo devem estar sorrindo.

Poesias 1942

____________________
Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biobibliográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Antônio Patrício (1876 1930), português do Porto, estudou Matemática, cursou a Escola Naval, formou-se em Medicina sem nunca exercer a profissão, dedicou-se à carreira diplomática e foi escritor, poeta, contista e dramaturgo; foi colaborador das revistas Águia, Arte & Vida, Atlântida e Contemporânea; obras: Oceano (poesias, 1905), Serão Inquieto (contos, 1910) e Poesias (edição póstuma, 1942); para o teatro, produziu O Fim (1909), Pedro o Cru (1918), Dinis e Isabel (1919) e D. João e a Máscara (1924); deixou várias obras inéditas.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Dalton Trevisan: picos na veia [nanocontos IV]

 
____________________
Conto 132:

O marido para o melhor amigo e amante da mulher:
Nunca se case, meu velho. Olha pra mim. Já viu alguém mais infeliz?
E o amante, ressabiado: Epa, será que ele sabe?

Conto 141:

A mulher do velho poeta:
 Em vez de ganhar dinheiro, você fica aí sentado cantando o mesmo versinho!

Conto 147:

Melhora muito o convívio de Sócrates e Xantipa assim que um deles bebe cicuta.

____________________
Pico na Veia, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

William Shakeapeare: Meu amor é uma febre, que ainda anseia . . . [soneto]

 
____________________
[traduzido por Ivo Barroso]

147

Meu amor é uma febre que ainda anseia
Por tudo o que prolonga minha doença,
Nutrindo-se do quanto o mal ateia
Para aplacar a sua fome intensa.
Minha razão, o médico do amor,
Reclama que as receitas não lhe acato
E me deixa de vez; sinto no horror
Que desejo é mortal, se falta o trato.
Fico sem cura, se a Razão tão cara
Se vai, e um louco frenesi me invade;
Penso e falo qual louco que declara
Coisas ao léu, ausentes da verdade:
    Jurei que eras brilhante e achei-te pura
    E és negra como o inferno e a noite escura.

Shakespeare

CXLVII

My love is as a fever, longing still
For that which longer nurseth the disease;
Feeding on that which doth preserve the ill,
The uncertain sickly appetite to please.
My reason, the physician to my love,
Angry that his prescriptions are not kept,
Hath left me, and I desperate now approve
Desire is death, which physic did except.
Past cure I am, now Reason is past care,
And frantic-mad with evermore unrest;
My thoughts and my discourse as madmen’s are,
At random from the truth vainly express’d;
    For I have sworn thee fair, and thought thee bright,
    Who art as black as hell, as dark as night.
____________________
50 Sonetos — William Shakespeare, Tradução e Apresentação de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss e Posfácio/Estudo de Nehemias Gueiros, edição bilíngue, 2015, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; William Shakespeare (1564 1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

terça-feira, 24 de maio de 2022

Percy Bysshe Shelley: A filosofia do amor

 
____________________
[traduzido por José Lino Grünewald]

I

As fontes mesclam-se com o rio
    E os rios com o Mar,
Ventos do Céu em mútuo rodopio
    Em doce emocionar;
Nada no mundo é singular;
    Tudo, da lei divina sob abrigo,
Num espírito se acha no mesclar,
    Por que não eu contigo?

II

Mirem montanhas a beijar o Céu
    E as ondas a se abraçar;
Qualquer flor-irmã estaria ao léu
    Se seu irmão fosse desprezar;
E a luz do sol vem a terra abraçar
    E os raios de luar osculam o mar:
De que vale esse puro laborar
    Se você não me beijar?

Percy B. Shelley

Love’s Philosophy

I

The fountains mingle with the river
    And the rivers with the Ocean,
The winds of Heaven mix for ever
    With a sweet emotion;
Nothing in the world is single;
    All things by a law divine
In one spirit meet and mingle.
    Why not I with thine?

II

See the mountains kiss high Heaven
    And the waves clasp one another;
No sister-flower would be forgiven
    If it disdained its brother;
And the sunlight clasps the earth
    And the moonbeams kiss the sea:
What is all this sweet work worth
    If thou kiss not me?
____________________
Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Percy Bysshe Shelley (1792 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; obras: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821), e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.

Múcio Teixeira: A lei suprema

 
____________________
Foder é lei humana, e lei divina;
E por divina ser, é lei eterna!
Fode o homem no lar, ou na campina,
Fode o bruto no ermo, ou na caverna.

Fodem no ar os pássaros, voando,
Fodem no mar os peixes flutuantes...
Fode o leão feroz, rendido e brando
Às carícias das fêmeas palpitantes!

Fodem também as árvores e as flores,
Os próprios minerais: cristal ou aço;
A terra é um grande tálamo de amores,
Cada raio do sol tira um cabaço!

Numa fornicação de labaredas
Esporram-se os vulcões, pelas crateras;
As próprias deusas dos sombrios Vedas
Fodiam, a rosnar, como panteras.

Mas nem vulcões, nem deusas, nem aquilo
Que mais tenha fodido a toda hora,
Sabem foder melhor que o crocodilo,
Segundo a opinião de uma senhora.

Aquilo é só zás-trás, nó cego, e pronto,
“Veio-se” na primeira espetadela;
E é mais outra, outra mais... qual! Nem eu conto
O número de tanta esporradela...

Pode mais que qualquer moça solteira
Quando nos mete em casa, às escondidas,
Para passar metendo a noite inteira,
Mais assanhadas, quanto mais fodidas!

Nem Safo, com as moças mais safadas
De Lesbos, se esfalfando em roçadinhos,
Para melhor sentir as caralhadas
De Faon, um Martinho entre os Murtinhos!

Ninguém, a não ser tu, minha inocente
E casta diva, ó quente bela dona!
Ninguém é no foder mais excelente,
Para quem cono e cu é tudo cona!...

Para quem cono e cu, e peito e boca,
Dedos de pé e mão, coxa e sovaco.
Tudo serve de vulva, quando louca
Lambes as minhas bolas e o meu taco...

O taco empunhas, sacudindo as bolas,
No bilhar de teu corpo, que estremece
Nesse carambolar em que tu rolas,
Enquanto meu caralho engorda e cresce!

Nessas partidas, que tão bem jogamos,
Ninguém sabe tirar melhor partido;
Vão lá saber quem perde, se ganhamos
Nem perde-ganha por ninguém perdido...

Nem Romeu na janela de Julieta,
Que lhe passava a mão no pendrucalho,
Fazendo-lhe medrosa uma punheta,
Com vergonha de olhar para o caralho...

Nem Fausto, no jardim de Margarida,
Que por sinal era o jardim de Marta,
Aquela alcoviteira mais fodida
Que das mais velhas putas a mais farta;

Que Mefistófeles encontrou a dedo
Para vencer o seu rival eterno,
Lançando a alma do doutor, mais cedo,
Graças a ela, nos fogões do inferno...

Nem Peri, com Ceci, quando lhe disse
Que era capaz de ir-lhe buscar a lua,
Quando, por fim de contas, tal pieguice
Era um pretexto para vê-la nua,

Ou só de tanga, como a que ele usava,
Para em seguida desatar-lhe a tanga;
Que o galo, no terreiro onde cantava,
Bem via nela apetitosa franga...

Nem Ofélia, boiando na corrente,
Mais livre assim que dentro do convento
Onde quis ver o príncipe demente,
Que andava a dar na fina, ao sol e ao vento...

Nem Desdêmona, aos golpes do cutelo
Estrebuchando mais que numa foda,
Vítima imbele do tesão de Otelo,
Cujo ciúme já passou de moda...

Nem Susana, a viúva inconsolável
Do velho Pedro Álvares Cabral.
Ninguém resiste à lei incomparável,
Que é lei eterna e lei universal!

____________________
Antologia pornográfica: de Gregório de Mattos a Glauco Mattoso [diversos poetas] — Organização, Introdução, Glossário e Notas de Alexei Bueno, 2011, Saraiva de Bolso, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Múcio Scévola Lopes Teixeira (1857 1926), gaúcho de Porto Alegre, estudou no Colégio Gomes, foi escritor, jornalista, teatrólogo, biógrafo, diplomata, tradutor e poeta; ainda aos 15 anos, publicou seu primeiro livro de poesias, Vozes trêmulas (1873); na capital gaúcha, fez parte da Sociedade Partenon Literário, falava e escrevia em francês, inglês, alemão, italiano, castelhano e conhecia latim, grego e hebraico; em sua vida literária fez uso de vários pseudônimos: Barão de Ergonte, Boêmio, Muciano Tebas, Manfredo, Felício Fortuna & Cia; obras: Violetas (poesias, 1875), Hugonianas (coletânea de poemas traduzidos de Victor Hugo, 1875), Curso de Literatura Brasileira (1876), Sombras e Clarões (poesias, 1877), Novos Ideais (1880), Cantos do Equador (poesias, 1881), Prismas e Vibrações (poesias, 1882), Pátria selvagem (1884), Cancioneiro Cigano (1885), Parnaso Brasileiro (antologia, 1885), Festas Populares no Brasil (1886), Terra Incógnita (poesia, 1916) e outros títulos; escreveu para vários jornais e revistas de cidades nas quais residiu e, em Caracas Venezuela, quando exerceu a função de cônsul geral do Brasil, publicou volumes em castelhano: Poesías e Poemas, Celajez, Semblanzas Venezolanas, Brasileñas y Lusitanas, Poesías de Don Mucio Teixeira, Poesías escolhidas, 2 volumes, Brazas e Cinzas; traduziu, além de Victor Hugo: Heine, Shiller, Byron, Goethe, Teócrito...

segunda-feira, 23 de maio de 2022

José Paulo Paes: Inutilidades

 
____________________
Ninguém coça as costas da cadeira.
Ninguém chupa a manga da camisa.
O piano jamais abana a cauda.
Tem asa, porém não voa, a xícara.

De que serve o pé da mesa se não anda?
E a boca da calça se não fala nunca?
Nem sempre o botão está em sua casa.
O dente de alho não morde coisa alguma.

Ah! Se trotassem os cavalos do motor...
Ah! Se fosse de circo o macaco do carro...
Então a menina dos olhos comeria
Até bolo esportivo e bala de revólver.

(1993)

____________________
Poesia infantil e juvenil brasileira — Uma ciranda sem fim [ensaios/estudos de vários autores], Organização e Apresentação de Vera Teixeira de Aguiar e João Luís Ceccantini, 2012, Associação Núcleo Editorial Proleitura (ANEP), Cultura Acadêmica Editora, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; obras: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor e tradutor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

domingo, 22 de maio de 2022

Stefan George: Amante das campinas

 
____________________
[traduzido por Eduardo de Campos Valadares]

Ao amanhecer é visto no vau
Levando a foice afiada à mão
E abocar o espigal com zelo tal
Nos lábios provando o amarelo grão.

Depois no vinhedo é visto atar
Ramos soltos à estaca segura
Duras uvas tardias apertar
E romper numa gavinha a atadura.

Sacode ao antever forte temporal
A árvore nova e as nuvens estima
Sua favorita escora num varal
E com os primeiros frutos se anima.

Enche a cabaça e deixa a planta aguada
Ao arrancar ervas lhe escorre a fonte
E no chão florido fica a pegada
E os pomares se perdem no horizonte.

Stefan George

Der freund der fluren

Kurz vor dem frührot sieht man in den fähren
Ihn schreiten · in der hand die blanke hippe
Und wägend greifen in die vollen ähren
Die gelben körner prüfend mit der lippe.

Dann sieht man zwischen reben ihn mit basten
Die losen binden an die starken schäfte
Die harten grünen herlinge betasten
Und brechen einer ranke überkräfte.

Er schüttelt dann ob er dem wetter trutze
Den jungen baum und misst der wolken schieben
Er gibt dem liebling einen pfahl zum schutze
Und lächelt ihm dem erste früchte trieben.

Er schöpft und giesst mit einem kürbisnapfe
Er beugt sich oft die quecken auszuharken
Und üppig blühen unter seinem stapfe
Und reifend schwellen um ihn die gemarken.

(Der Teppich des Lebens und die Lieder von
Traum und Tod mit einem Vorspiel — 1899)
____________________
Crepúsculo — Stefan George, Seleção, Ensaio e Tradução de Eduardo de Campos Valadares, 2000, Iluminuras, São Paulo — SP; Stefan Anton George (1868 1933), alemão de Büdesheim, região do Reno, foi tradutor e poeta maior do Simbolismo; fez seus estudos secundários no Ludwig-Georgs-Gymnasium, em Darmstadt, e ali passou a se interessar por teatro e poesia; editou um jornalzinho escolar de literatura, o Rosen und Disteln (Rosas e Cardos); a partir daí, toma contato com o mundo exterior, viajando a Londres, Montreux, na Suiça, Milão, Turim e, depois, Paris, onde se encontra com o poeta Albert Saint-Paul, que o apresenta a Stéphane Mallarmé; dedicando-se ao Simbolismo, as portas são abertas para um mundo novo da experiência poética, a arte pela arte, o que o faz tomar impulso na produção de versos e na tradução de textos de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Mallarmé e outros tantos poetas contemporâneos; faz cursos de literatura e filosofia na Universidade de Berlim, cria a revista literária Blätter für die Kunst (Folhas de Arte), publicada de 1892 a 1919, isso fazendo com que o poeta passe mesmo a ser referência de um círculo literário e acadêmico denominado George-Kreis; neste período, sua roda de amigos inclui franceses, italianos e mexicanos, o que lhe possibilita falar francês e ouvir espanhol com mais assiduidade do que alemão; obras: Hymnen (Hinos, 17 poemas, 1890), Algabal (1892), Die Bücher der Hirten- und Preisgedichte, der Sagen und Sänge und der hängenden Gärten (Livros de Poemas Pastoris e de Louvor Sagas e Canções e dos Jardins Suspensos, 1895), Das Jahr des Seele (O ano da alma, 1897), Der Teppich des Lebens und die Lieder von Traum und Tod mit einem Vorspiel (Tapete da Vida e Canções de Sonho e Morte com um Prelúdio, 1899) Der siebente Ring (O sétimo Anel, 1907), Der Stern des Bundes (A estrela da Aliança, 1914), Das neue Reich (O novo Reino, 1928) e outros; Roger Bastide (1898 — 1974), estudioso francês, nos propõe uma "tríade sagrada do Simbolismo" e cita o poeta Stefan George ao lado de Stéphane Mallarmé e do nosso Cruz e Sousa.