Mostrando postagens com marcador Décio Pignatari. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Décio Pignatari. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Mallarmé: O Sineiro

 
____________________
[traduzido por Augusto de Campos]

Embora o sino acorde uma voz que ressoa
Clara no ar puro e limpo e fundo da manhã
E desperta, infantil, uma outra voz que entoa
Um angelus por entre a alfazema e a hortelã,

O sineiro evocado à clave da ave, irmão
Sinistro cavalgando, a gemer sua loa,
A pedra que distende a corda em sua mão,
Só ouve retinir um vago som que ecoa.

Esse homem sou eu. Dentro da noite louca
Agrada-me puxar a corda do Ideal,
De pecados se alegra a plumagem leal

E a minha voz me vem aos pedaços e oca!
Mas um dia, cansado deste afã obscuro,
Ó Satã, eu roubo esta pedra e me penduro.

Mallarmé

Le sonneur

Cependant que la cloche éveille sa voix claire
A l'air pur et limpide et profond du matin
Et passe sur l'enfant qui jette pour lui plaire
Un angélus parmi la lavande et le thym,

Le sonneur effleuré par l'oiseau qu'il éclaire,
Chevauchant tristement en geignant du latin
Sur la pierre qui tend la corde séculaire,
N'entend descendre à lui qu'un tintement lointain.

Je suis cet homme. Hélas! de la nuit désireuse,
J'ai beau tirer le câble à sonner l'Idéal,
De froids péchés s'ébat un plumage féal,

Et la voix ne me vient que par bribes et creuse!
Mais, un jour, fatigué d'avoir enfin tiré,
Ô Satan, j'ôterai la pierre et me pendrai.

1862-1866
____________________
Mallarmé [poemas: edição bilíngue], Coleção Signos — Tradução e textos/estudos de Augusto de Campos, Décio Pignatari & Haroldo de Campos e Nota Introdutória de Augusto de Campos, 4ª edição, 2010, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês e parisiense, fez seus primeiros estudos em um internato, foi expulso, decidiu aprender Inglês, viajou para Londres, fez um ano de curso e, de volta à França, foi aprovado e designado a lecionar inglês, iniciando sua carreira vitalícia como professor, primeiro em escolas provinciais e depois em Paris; foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário e de arte e, claro, professor de inglês; de sua biografia, consta ter sido um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta; seus poemas iniciais surgiram na década de 1860 e, assim como boa parte dos poetas de sua geração, ele também foi influenciado pela poesia de Charles Baudelaire; à época, Mallarmé tornou-se figura central de um grupo de escritores com os quais discutia poesia e arte, entre eles Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou seus textos poéticos e/ou ensaios nas revistas Artiste (revue l’Artiste, 1862), Renaissance Artistique (1874), Independent Review (Revue Indépendante, 1885 e 1888), Cosmopolis (1897); traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler; Stéphane Mallarmé também recriou, dirigiu e editou a revista Última Moda (revue La Dernière Mode, 1874), criada “no verão de 1873”, por seu amigo e editor Charles Wendelen, composta apenas de gravuras e litografias; Mallarmé inovou-a e revitalizou-a preenchendo com ensaios sobre estética literária e, de início, fazendo uso dos pseudônimos Marguerite de Ponty, Miss Satin, Zizy, Olympe la nègresse, Ix, Le Chef de bouche chez Brébant ...; sob sua direção a revista La Dernière Mode resistiu por mais 8 edições, e Mallarmé, sozinho, escreveu sobre moda, culinária e educação de crianças; suas obras: Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Vers et Prose (antologia, 1892), Divagations (coleção de ensaios, 1897), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897), Poésies (Poesias, publicação póstuma, 1899) e outros textos, parte dos quais inacabados, como Igitur (Igitur, conto poético-filosófico iniciado em 1869), postumamente publicado inacabado em 1925.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Safo: A Átis [fragmento 94]

____________________
[traduzido por Décio Pignatari]

[...]
Não minto: eu me queria morta.
Deixava-me, desfeita em lágrimas:

“Mas, ah, que triste a nossa sina!
Eu vou contra a vontade, juro,
Safo”. “Seja feliz”, eu disse,

“E lembre-se de quanto a quero.
Ou já esqueceu? Pois vou lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor.

Quantas grinaldas, no seu colo,
Rosas, violetas, açafrão
Trançamos juntas! Multiflores

Colares atei para o tenro
Pescoço de Átis; os perfumes
Nos cabelos, os óleos raros

Da sua pele em minha pele!
[…]
Cama macia, o amor nascia1
De sua beleza, e eu matava
A sua sede” […]

Safo

. . . . . . . . .
τεθνάκην ἀδόλως, θέλω·
ἀ με ψισδομένα κατελίμπανεν

πόλλα καὶ τόδ’ ἔειπέ μοι·
ὤιμ’ ὠς δεῖνα πεπόνθαμεν,
Ψάπφ’, ἦ μάν σ’ ἀέκοισ’ ἀπυλιμπάνω.

τὰν δ’ ἔγω τάδ’ ἀμειβόμαν·
χαίροισ’ ἔρχεο κἄμεθεν
μέμναισ’, οἶσθα γὰρ ὤς σε πεδήπομεν·

αἰ δὲ μή, ἀλλά σ’ ἔγω θέλω
ὄμναισαι . . .
ὄσα μάλθακα καὶ κάλ’ ἐπάσχομεν·

πόλλοις γὰρ στεφάνοις ἴων
καὶ βρόδων πλοκίων τε ὔμοι
κἀνήτω πὰρ ἔμοι παρεθήκαο

καὶ πόλλαις ὐπαθύμιδας
πλέκταις ἀμφ’ ἀπάλαι δέραι
ἀνθέων ἐρατῶν πεποημέναις.

καὶ πολλῷ λιπαρῶς μύρῳ
βρενθείῳ τε κάλον χρόα
ἀξαλείψαο καὶ βασιληίῳ

καὶ στρώμναν ἐπὶ μολθάκαν
ἀπάλαν παρ ὀπαυόνοων
ἐξίης πόθον αἶψα νεανίδων

κωὔτε τις οὔ τε τι
ἶρον οὐδ’ ὐ. . . .
ἔπλετ’ ὄπποθεν ἄμμες ἀπέσκομεν,

οὐκ ἄλσος . . . . . . ρος
. . . . . . . . . ψοφος

. . . . . . . . . οιδιαι

1. Nota do tradutor Décio Pignatari: O amor nasci Não pude resistir à beleza da tradução de Salvatore Quasimodo, no verso “nasceva amore dela tua bellezza”. Entre o poético e o erudito, Quasimodo é um marco saneador na tradução dos clássicos greco-latinos.
____________________
31 Poetas 214 Poemas — do Rig-Veda e Safo a Apollinaire: Antologia de poemas traduzidos, Seleção, Apresentação, Notas e Comentários de Décio Pignatari, 1996 — Companhia das Letras, São Paulo — SP; acerca de Safo de Lesbos (nascida entre 630 a.C. e 604 a.C. com morte em data incerta), grega de Mitilene, ilha de Lesbos, muito pouco ou quase nada se sabe; foi poetisa, tecelã e sacerdotisa, sendo considerada a primeira poeta mulher de quem se tem registro na história do nosso mundo ocidental; dela, chegaram até nós, da modernidade, apenas 650 versos (fragmentos de poesias diversas) e tão somente um poema registrado em sua integralidade, a Ode a Afrodite, preservado que fora em obra de Dionisio de Halicarnasso (grego da Ásia Menor, viveu em Roma por volta de 30 a.C.); além da poesia lírica, os antigos comentadores registraram que Safo também escrevia poesia elegíaca e iâmbica; além também dos tais fragmentos poéticos e do único poema integral, uma fonte sobre a vida da poetisa são os relatos biográficos e literários de comentadores da antiguidade, historiadores que tiveram muito mais acesso à poesia de Safo do que nós temos hoje em dia, no entanto não podemos saber até que ponto tais relatos estão corretos; é tido que Safo criou uma confraria para preparar moças nobres para o casamento, ocasião em que estudavam música, liam poesia e aprendiam a dançar, sempre com a proteção da deusa Afrodite e das musas; a poetisa, chamada de ‘décima musa’ por Platão (428/427 a.C. 348/347 a.C.), influenciou os poetas Horácio (65 a.C. 8 a.C.) e Catulo (87 a.C.? 57 a.C.?), que a traduziram e imitaram seus textos e, em época muito mais contemporânea a nós, influenciou também os italianos Ugo Foscolo (1778 1827) e Giacomo Leopardi (1798 1837); são vários os poetas que, em suas criações, se referem a Safo e a sua poesia, dentre os quais Baudelaire e Paul Verlaine.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Safo: fragmentos 168B & 114

____________________
[traduzidos por Décio Pignatari]

Fragmento 168B

Cai a lua, caem as Plêiades e
É meia-noite, o tempo passa e
Eu só, aqui deitada, desejante1.

Δέδυκε μὲν ἀ σελάννα
καὶ Πληίαδες· μέσαι δὲ
νύκτες, παρὰ δ᾽ ἔρχετ᾽ ὤρα·
ἔγω δὲ μόνα κατεύδω.

 o  

Fragmento 114

Adolescência, adolescência2,
Você se vai, aonde vai?
Não volto mais para você,
Para você volto mais não.

(νύμφη). παρθενἰα, παρθενία, ποῖ με λίποισα †οἴχηι;
(παρθενία). †οὐκέτι ἤξω πρὸς σέ, οὐκέτι ἤξω†

Safo de Lesbos

Notas do tradutor Décio Pignatari:
1. Desejante Não está explicitado no poema; mas: chateúdo = “jazo, fico deitado”, chatéo = “desejo, anseio”” (esse ch indica som semelhante ao j castelhano). Explicitei ainda mais a idéia com palavras de sílabas e letras crescentes e um certo e desejante...
2. Adolescência Em sentido estrito, parthenía significa “virgindade”, em grego; implica, mais amplamente, a idéia de inocência, mas ligada ao frescor da idade candura juvenil, ou infanto-juvenil, portanto. Daí, a minha escolha.
____________________
31 Poetas 214 Poemas — do Rig-Veda e Safo a Apollinaire: Antologia de poemas traduzidos, Seleção, Apresentação, Notas e Comentários de Décio Pignatari, 1996 — Companhia das Letras, São Paulo — SP; acerca de Safo de Lesbos (nascida entre 630 a.C. e 604a.C. com morte em data incerta), grega de Mitilene, ilha de Lesbos, muito pouco ou quase nada, se sabe; foi poetisa, tecelã e sacerdotisa, sendo considerada a primeira poeta mulher de quem se tem registro na história do nosso mundo ocidental; dela, chegaram até nós, da modernidade, apenas 650 versos (fragmentos de poesias diversas) e tão somente um poema registrado em sua integralidade, a Ode a Afrodite, preservado que fora em obra de Dionisio de Halicarnasso (grego da Ásia Menor, viveu em Roma por volta de 30 a.C.); além da poesia lírica, os antigos comentadores registraram que Safo também escrevia poesia elegíaca e iâmbica; além de tais fragmentos poéticos e do único poema integral, uma fonte sobre a vida da poetisa são os relatos biográficos e literários de comentadores da antiguidade, historiadores que tiveram muito mais acesso à poesia de Safo do que nós temos hoje em dia, no entanto não podemos saber até que ponto tais relatos estão corretos; é tido que Safo criou uma confraria para preparar moças nobres para o casamento, ocasião em que estudavam música, liam poesia e aprendiam a dançar, sempre com a proteção da deusa Afrodite e das musas; a poetisa foi chamada de ‘décima musa’ por Platão (428/427 a.C. 348/347 a.C.), influenciou os poetas Horácio (65 a.C. 8 a.C.) e Catulo (87 a.C.? 57 a.C.?), que a traduziram e imitaram seus textos e, em época muito mais contemporânea a nós, influenciou também os italianos Ugo Foscolo (1778 1827) e Giacomo Leopardi (1798 1837); são vários os poetas que, em suas criações, se referem a Safo e a sua poesia, dentre os quais Baudelaire e Paul Verlaine.

domingo, 10 de setembro de 2023

Charles Baudelaire: A giganta


____________________
[traduzido por Décio Pignatari]

Pois quando a Natureza, em seu capricho exato,
Gerava estranhos seres raros, dia a dia,
Uma giganta moça eis do eu gostaria,
Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato.

Ver seu corpo florir com a flor de sua alma
E crescer livremente em seus terríveis jogos;
Ver se não teria no peito alguma oculta chama,
Com as chispas molhadas que mostra nos olhos.

Percorrer à vontade a realeza das formas,
Escalar a vertente dos joelhos enormes
E, quando os sóis do estio, à complacência alheios,

Estendem-na, cansada, ao longo da campina,
Dormir descontraído à sombra dos seus seios,
Como abrigo tranqüilo ao pé de uma colina.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 03.06.85]

Charles Baudelaire

La géante

Du temps que la Nature en sa verve puissante
Concevait chaque jour des enfants monstrueux,
J’eusse aimé vivre auprès d’une jeune géante,
Comme aux pieds d’une reine un chat voluptueux.

J’eusse aimé voir son corps fleurir avec son âme
Et grandir librement dans ses terribles jeux;
Deviner si son coeur couve une sombre flamme
Aux humides brouillards qui nagent dans ses yeux;

Parcourir à loisir ses magnifiques formes;
Ramper sur le versant de ses genoux énormes,
Et parfois en été, quand les soleils malsains,

Lasse, la font s’étendre à travers la campagne,
Dormir nonchalamment à l’ombre de ses seins,
Comme un hameau paisible au pied d’une montagne.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
____________________
Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Wallace Stevens: O rei do sorvete


____________________
[traduzido por Décio Pignatari]

Chame o enrolador de grandes charutos,
Aquele dobrado, e diga-lhe que bata
Os coalhos concupiscentes nas xícaras da cozinha.
Que as gurias zaranzem nos vestidos
Habituais, e os rapazes tragam flores
Em cartuchos de jornais do mês passado.
Que ser seja o final de parecer.
Só há um rei e esse é o rei do sorvete.

Tire da cômoda de pinho,
Que já perdeu três puxadores de vidro, aquele lençol
Que ela bordou um dia com caudas de pavão
E estenda-o de modo a cobrir-lhe o rosto.
Se um pé unhudo sair para fora, é
Para mostrar como ela está fria, como está muda.
Que a lâmpada afixe o seu filete.
Só há um rei e este é o rei do sorvete.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 24.06.84

Wallace Stevens

The emperor of ice-cream

Call the roller of big cigars,
The muscular one, and bid him whip
In kitchen cups concupiscent curds.
Let the wenches dawdle in such dress
As they are used to wear, and let the boys
Bring flowers in last month's newspapers.
Let be be finale of seem.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Take from the dresser of deal,
Lacking the three glass knobs, that sheet
On which she embroidered fantails once
And spread it so as to cover her face.
If her horny feet protrude, they come
To show how cold she is, and dumb.
Let the lamp affix its beam.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Harmonium (1923, 1931)

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
____________________
Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; suas obras: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), Transport to summer (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos Williams e Marianne Moore.

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Goethe: Pensamentos noturnos

____________________
[traduzido por Décio Pignatari]

Tão belas na rútila luz soberana,
Guia do navegante aflito, sem norte
(E sem recompensa, divina ou humana),
Tenho dó de vocês, estrelas sem sorte,
Sem jamais amar e sem saber do amor!
Tangendo, incansáveis, as horas eternas
Na ronda do tempo das vastas esferas,
Vocês vão cumprindo percursos sem conta.
Mas eu, se nos braços dela permaneço,
Da noite que passa e de vocês me esqueço.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 13.04.86

Goethe

Nachtgedanken

Euch bedaur’ ich, unglücksel’ge Sterne,
Die ihr schön seyd und so herrlich scheinet,
Dem bedrängten Schiffer gerne leuchtet,
Unbelohnt von Göttern und von Menschen:
Denn ihr liebt nicht, kanntet nie die Liebe!
Unaufhaltsam führen ew’ge Stunden
Eure Reihen durch den weiten Himmel.
Welche Reise habt ihr schon vollendet,
Seit ich weilend in dem Arm der Liebsten
Euer und der Mitternacht vergessen!

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
____________________
Folhetim: Poemas traduzidos vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), Clavigo (1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (1779), Torquato Tasso (1780), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo.

sábado, 21 de agosto de 2021

Robert Browning: Minha última duquesa

 
____________________
[traduzido por Décio Pignatari]

Ali está a minha última duquesa
Na parede. Parece viva. Que beleza
De obra! Fra Pandolfo não poupou esforço
E ei-la de corpo inteiro, não em busto ou torso.
Você não quer sentar-se para ver melhor?
Não por acaso mencionei o seu pintor,
Pois não costumo a estranhos olhos desvelar
A profundeza da paixão que há nesse olhar,
Que só a mim é dirigido (pois só eu
Abro a cortina), mas eu sinto, percebeu?,
Que quem a vê logo se indaga: de onde veio
Esse olhar? Com você, meu caro, não receio,
É a mesma coisa. Pois eu digo: simplesmente,
A presença do esposo é pouco para a mente
Que procura a razão daquela mancha rosa
De prazer no seu rosto. Uma frase ociosa,
Talvez, de Fra Pandolfo. “Eu acho que o seu manto
Cobre demais o pulso”, ou: “Não pode tanto
A arte, não, reproduzir não pode o leve
Rubor em sua garganta, a ir e vir tão breve”.
Galanteria cortês, não mais  o suficiente
Para fazer brilhar um rosto, de repente.
Tinha um jeito, a duquesa, um coração aberto
Ao gostar… ao olhar… Contentamento certo,
O dela; incerto, o meu… Ela não distinguia
Entre gozar das graças que eu lhe concedia,
O declínio da luz ao sol poente, o ramo
De cerejas que um bobo serviçal do amo
Lhe oferecia, a mula branca que montava
Pela terraça, a rir  a tudo ela igualava
Com uma boa palavra, ou um rubor, ao menos.
Que agradecesse, tudo bem  mas é somenos
Equiparar o dom dos novecentos anos
Do meu nome a presentes sem nome? Até planos
De dissuadi-la… Rebaixar-me a isso… O dom
Da palavra me falta… E como, alto e bom som,
Chegar a ela, assim: “Olhe, sua atitude
Me desagrada, passou do ponto, mude”?
Que aceitasse o sermão e até mostrasse medo,
Isto, pra mim, seria ceder, e eu nunca cedo.
Claro, meu caro, de passagem, um sorriso
Ela me dava  mas a quem não dava? Aviso
Não dei, dei ordens: os sorrisos, de imediato,
Murcharam. Mas já pode levantar-se… É fato…
Nesse retrato, agora, ela parece viva…
Podemos ir? Embaixo, a companhia festiva
Nos aguarda. Repito: a generosidade
Do conde, seu senhor, sem dúvida há de
Saber pesar a minha justa pretensão
Ao dote da menina, a cujas graças vão
Os meus melhores sentimentos. De passagem,
Olhe essa peça de escassíssima tiragem:
É um bronze de Netuno domando um delfim,
Que Claus de Innsbruck fez fundir só para mim.

Robert Browning

My last duchess

[Ferrara]

That’s my last Duchess painted on the wall,
Looking as if she were alive. I call
That piece a wonder, now: Fra Pandolf’s hands
Worked busily a day, and there she stands.
Will’t please you sit and look at her? I said
“Fra Pandolf” by design, for never read
Strangers like you that pictured countenance,
The depth and passion of its earnest glance,
But to myself they turned (since none puts by
The curtain I have drawn for you, but I)
And seemed as they would ask me, if they durst,
How such a glance came there; so, not the first
Are you to turn and ask thus. Sir, ’twas not
Her husband’s presence only, called that spot
Of joy into the Duchess’ cheek: perhaps
Fra Pandolf chanced to say “Her mantle laps
Over my lady’s wrist too much,” or “Paint
Must never hope to reproduce the faint
Half-flush that dies along her throat”: such stuff
Was courtesy, she thought, and cause enough
For calling up that spot of joy. She had
A heart how shall I say? too soon made glad,
Too easily impressed; she liked whate’er
She looked on, and her looks went everywhere.
Sir, ’twas all one! My favour at her breast,
The dropping of the daylight in the West,
The bough of cherries some officious fool
Broke in the orchard for her, the white mule
She rode with round the terrace all and each
Would draw from her alike the approving speech,
Or blush, at least. She thanked men, good! but thanked
Somehow I know not how as if she ranked
My gift of a nine-hundred-years-old name
With anybody’s gift. Who’d stoop to blame
This sort of trifling? Even had you skill
In speech (which I have not) to make your will
Quite clear to such an one, and say, “Just this
Or that in you disgusts me; here you miss,
Or there exceed the mark” and if she let
Herself be lessoned so, nor plainly set
Her wits to yours, forsooth, and made excuse,
E’en then would be some stooping; and I choose
Never to stoop. Oh sir, she smiled, no doubt,
Whene’er I passed her; but who passed without
Much the same smile? This grew; I gave commands;
Then all smiles stopped together. There she stands
As if alive. Will’t please you rise? We’ll meet
The company below, then. I repeat,
The Count your master’s known munificence
Is ample warrant that no just pretence
Of mine for dowry will be disallowed;
Though his fair daughter’s self, as I avowed
At starting, is my object. Nay, we’ll go
Together down, sir. Notice Neptune, though,
Taming a sea-horse, thought a rarity,
Which Claus of Innsbruck cast in bronze for me!
____________________
31 Poetas 214 Poemas — do Rig-Veda e Safo a Apollinaire: Antologia de poemas traduzidos, Seleção, Apresentação, Notas e Comentários de Décio Pignatari, 1996 — Companhia das Letras, São Paulo — SP; Robert Browning (1812 1889), inglês nascido em Londres, teve grande parte de sua educação obtida em casa com seu pai e foi poeta e dramaturgo; obras: Pauline: A Fragment of a Confession (poesia, 1833), Paracelsus (drama metafísico, poesia, 1835), Strafford (teatro, 1837), Sordello (poema, 1840), Bells and Pomegranates (teatro, séries de I a VIII, 18411846), Kong Victor and King Charles (tragédia, 1842), Men and Women (coletânea de poesias, 1855), Dramatics Personae (1864), The Ring and The Book (romance em versos, 18681869) e outros títulos; consta da biografia de Robert Browning que seu poema The Pied Piper of Hamelin, no qual relata/reconta a história infantil de O Flautista de Hamelin, adquiriu grande repercussão naquela época vitoriana e se tornou sua principal contribuição para o cânone da literatura infantil.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Leopardi: A noite do dia de festa

 
____________________
[traduzido por Décio Pignatari]

Noite sem vento, doce, clara. A lua
Flutua sobre tetos e pomares,
Serena, revelando, ao longe, os montes.
As ruas e os caminhos silenciam,
Minha amada. Pelos balcões, são raros
Os lampiões, um sono suave invade
Os aposentos, você dorme, nada
Perturba o seu repouso, muito menos
A chaga que me abriu dentro do peito!
Mas você dorme, e ao céu de aspecto ameno
E à antiga natureza onipotente
Que me vota à aflição dirijo os olhos.
“Para você nem mesmo uma esperança;
Para os seus olhos, só um brilho: lágrimas”,
Ela me disse. Mas que dia magnífico!
Dormem danças e jogos, mas, em sonho
Talvez para você desfilem todos
De quem gostou ou aos quais agradou
(Menos eu, que nesse rol não compareço).
Mas se calculo os dias que me restam,
Vejo-me aos gritos, a rolar na terra:
Que vida horrível numa vida jovem!
Vai pela rua o canto solitário
De quem já trabalhou, passou na tasca,
E volta tarde para a casa pobre.
Vai-me apertando, amargo, o coração,
Se penso sem como tudo passa e passa,
Quase sem deixar rastro. Já se foi
O dia de festa, e agora chega o dia
Normal, e tudo se escoa no tempo,
Todos os atos humanos. E o estrondo
Dos antigos, as vozes dos heróis
De ontem, onde estão? e o grande império,
E as armas e o fragor que faz tremer
Os caminhos da terra e do oceano?
Tudo é paz e silêncio. O mundo
Tudo aquieta. Já não se pensa em nada.
Quando criança, vinha a espera ansiosa
Do dia de festa, que findava logo.
Sofrendo, comprimia o travesseiro,
Ao ouvir pela noite aquele canto
Que ia morrendo, aos poucos, lentamente,
Morrendo e me apertando o coração.

([1820] publicado em Canti  1831)

Giacomo Leopardi

XIII

La sera del dì di festa

Dolce e chiara è la notte e senza vento,
E queta sovra i tetti e in mezzo agli orti
Posa la luna, e di lontan rivela
Serena ogni montagna. O donna mia,
Già tace ogni sentiero, e pei balconi
Rara traluce la notturna lampa:
Tu dormi, che t’accolse agevol sonno
Nelle tue chete stanze; e non ti morde
Cura nessuna; e già non sai nè pensi
Quanta piaga m’apristi in mezzo al petto.
Tu dormi: io questo ciel, che sì benigno
Appare in vista, a salutar m’affaccio,
E l’antica natura onnipossente,
Che mi fece all’affanno. A te la speme
Nego, mi disse, anche la speme; e d’altro
Non brillin gli occhi tuoi se non di pianto.
Questo dì fu solenne: or da’ trastulli
Prendi riposo; e forse ti rimembra
In sogno a quanti oggi piacesti, e quanti
Piacquero a te: non io, non già, ch’io speri,
Al pensier ti ricorro. Intanto io chieggo
Quanto a viver mi resti, e qui per terra
Mi getto, e grido, e fremo. Oh giorni orrendi
In così verde etate! Ahi, per la via
Odo non lunge il solitario canto
Dell’artigian, che riede a tarda notte,
Dopo i sollazzi, al suo povero ostello;
E fieramente mi si stringe il core,
A pensar come tutto al mondo passa,
E quasi orma non lascia. Ecco è fuggito
Il dì festivo, ed al festivo il giorno
Volgar succede, e se ne porta il tempo
Ogni umano accidente. Or dov’è il suono
Di que’ popoli antichi? or dov’è il grido
De’ nostri avi famosi, e il grande impero
Di quella Roma, e l’armi, e il fragorio
Che n’andò per la terra e l’oceano?
Tutto è pace e silenzio, e tutto posa
Il mondo, e più di lor non si ragiona.
Nella mia prima età, quando s’aspetta
Bramosamente il dì festivo, or poscia
Ch’egli era spento, io doloroso, in veglia,
Premea le piume; ed alla tarda notte
Un canto che s’udia per li sentieri
Lontanando morire a poco a poco,
Già similmente mi stringeva il core.

([1820] Canti — 1831)
____________________
31 Poetas 214 Poemas — do Rig-Veda e Safo a Apollinaire: Antologia de poemas traduzidos, Seleção, Apresentação, Notas e Comentários de Décio Pignatari, 1996 — Companhia das Letras, São Paulo — SP; Giacomo Leopardi (1798 1837), italiano de Recanati, incentivado pelo pai e com uma vasta biblioteca à sua disposição, desde os seis anos de idade estudou com preceptores, aprendeu latim, grego, hebraico, francês e outras línguas modernas, cultivou interesses filológicos, traduziu e comentou os clássicos que lia (Homero, entre outros), foi ensaísta, filólogo e poeta; suas obras: Storia dell’astronomia (1813), Saggio sopra gli errori popolari degli antichi (1815), Canti (coleção de poemas, 1ª edição em 1831) e outras obras em prosa, estudos e pensamentos.