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[traduzido por Augusto de Campos]
Embora o sino acorde uma voz que
ressoa
Clara no ar puro e limpo e fundo da
manhã
E desperta, infantil, uma outra voz
que entoa
Um angelus por entre a
alfazema e a hortelã,
O sineiro evocado à clave da ave,
irmão
Sinistro cavalgando, a gemer sua
loa,
A pedra que distende a corda em sua
mão,
Só ouve retinir um vago som que
ecoa.
Esse homem sou eu. Dentro da noite
louca
Agrada-me puxar a corda do Ideal,
De pecados se alegra a plumagem
leal
E a minha voz me vem aos pedaços e
oca!
Mas um dia, cansado deste afã
obscuro,
Ó Satã, eu roubo esta pedra e me
penduro.
Le sonneur
Cependant que la cloche éveille sa voix claire
A l'air pur et limpide et profond du matin
Et passe sur l'enfant qui jette pour lui plaire
Un angélus parmi la lavande et le thym,
Le sonneur effleuré par l'oiseau qu'il éclaire,
Chevauchant tristement en geignant du latin
Sur la pierre qui tend la corde séculaire,
N'entend descendre à lui qu'un tintement lointain.
Je suis cet homme. Hélas! de la nuit désireuse,
J'ai beau tirer le câble à sonner l'Idéal,
De froids péchés s'ébat un plumage féal,
Et la voix ne me vient que par bribes et creuse!
Mais, un jour, fatigué d'avoir enfin tiré,
Ô Satan, j'ôterai la pierre et me pendrai.
1862-1866
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Mallarmé [poemas: edição bilíngue], Coleção Signos — Tradução
e textos/estudos de Augusto de Campos, Décio Pignatari & Haroldo de Campos e
Nota Introdutória de Augusto de Campos, 4ª edição, 2010, Editora Perspectiva, São
Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842
— 1898) ou Étienne Mallarmé, francês e parisiense,
fez seus primeiros estudos em um internato, foi expulso, decidiu aprender Inglês,
viajou para Londres, fez um ano de curso e, de volta à França, foi aprovado e designado
a lecionar inglês, iniciando sua carreira vitalícia como professor, primeiro em
escolas provinciais e depois em Paris; foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário
e de arte e, claro, professor de inglês; de sua biografia, consta ter sido um dos
primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta; seus poemas
iniciais surgiram na década de 1860 e, assim como boa parte dos poetas de sua geração,
ele também foi influenciado pela poesia de Charles Baudelaire; à época, Mallarmé
tornou-se figura central de um grupo de escritores com os quais discutia poesia
e arte, entre eles Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; colaborou no jornal
Le Parnasse Contemporain e publicou seus textos poéticos e/ou ensaios nas revistas
Artiste (revue l’Artiste, 1862), Renaissance Artistique (1874), Independent
Review (Revue Indépendante, 1885 e 1888), Cosmopolis (1897);
traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler; Stéphane Mallarmé
também recriou, dirigiu e editou a revista Última Moda (revue La Dernière
Mode, 1874), criada “no verão de 1873”, por seu amigo
e editor Charles Wendelen, composta apenas de gravuras e litografias; Mallarmé inovou-a
e revitalizou-a preenchendo com ensaios sobre estética literária e, de início, fazendo
uso dos pseudônimos Marguerite de Ponty, Miss Satin, Zizy, Olympe la nègresse, Ix,
Le Chef de bouche chez Brébant ...; sob sua direção a revista La Dernière Mode resistiu
por mais 8 edições, e Mallarmé, sozinho, escreveu sobre moda, culinária e educação
de crianças; suas obras: Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés midi d'un faune (A
tarde de um fauno, 1876), Vers et Prose (antologia, 1892), Divagations (coleção de ensaios,
1897), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance
de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897), Poésies (Poesias, publicação póstuma, 1899)
e outros textos, parte dos quais inacabados, como Igitur (Igitur, conto poético-filosófico iniciado em 1869), postumamente publicado
inacabado em 1925.



