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Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com
corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e
programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até
o fim dos tempos.
No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última
filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o
seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas
da família.
Na cozinha, uma avó que conta dia e noite histórias do
outro mundo.
No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do
Paraguai rachando lenha,
E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só
que está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na
depressa.
Antes que ele acorde e se descubra também morto.
Quem, eu? — um poeta como outro qualquer,
José Paulo Paes, Coordenação de Vivina de Assis Viana, 1996, Atual Editora, São
Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 — 1998), paulista de
Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor;
formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico
(Curitiba — PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através
de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim
(1946 — 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou
a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal
de Notícias e Revista Brasiliense; escreveu e publicou: O Aluno (1947), Cúmplices
(1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967),
Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos
(ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro
Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de
Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996),
Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998),
Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito,
edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores,
no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor e tradutor, verteu para
o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses,
tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis,
Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard,
Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos
Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias
poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.






