quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Dia Internacional da Mulher - Debate com as blogueiras

Reproduzo do site do Sindicato dos Bancários de São Paulo:
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São Paulo  Abrindo as comemorações do mês de março, que marca o Dia Internacional da Mulher, o Sindicato promoverá em 1º de março o Debate com as Blogueiras. Participarão Helena Stepanovich (do blog Os Amigos do Presidente Lula), Conceição Oliveira (do blog Maria Frô) e Conceição Lemes (do blog Vi o Mundo).

O encontro será realizado entre 19h e 21h no Auditório Amarelo do Sindicato (Rua São Bento, 413, centro de São Paulo), que tem lotação de 80 lugares. Os interessados podem se inscrever pelo inscricao@spbancarios.com.br.

Mediado pela presidenta do Sindicato, Juvandia Moreira, o debate será transmitido ao vivo pelo Momento Bancário em Debate Especial, via webtv (pelo site) e twitcam. Esse é mais um dos muitos debates promovidos pelo Sindicato, com o objetivo de fomentar a democratização da comunicação.
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Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro e tem um lado; entorta, mas não verga pra direita.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Carlos Drummond de Andrade: A imagem no espelho



Aos 20 anos escreveu suas memórias. Daí por diante é que começou a viver. Justificava-se:

— Se eu deixar para escrever minhas memórias quando tiver 70 anos, vou esquecer muita coisa e mentir demais. Redigindo-as logo de saída, serão mais fiéis e terão a graça das coisas verdes.

O que viveu depois disto não foi precisamente o que constava do livro, embora ele se esforçasse por viver o contado, não recuando nem diante de coisas desabonadoras. Mas os fatos nem sempre correspondiam ao texto e, para ser franco, direi que muitas vezes o contradiziam.

Querendo ser honesto, pensou em retificar as memórias à proporção que a vida as contrariava. Mas isto seria falsificação do que honestamente pretendera (ou imaginara) devesse ser a sua vida. Ele não tinha fantasiado coisa alguma. Pusera no papel o que lhe parecia próprio de acontecer. Se não tinha acontecido, era certamente traição da vida, não dele.

Em paz com a consciência, ignorou a versão do real, oposta ao real prefigurado. Seu livro foi adotado nos colégios, e todos reconheceram que ele era o único livro de memórias totalmente verdadeiro. Os espelhos não mentem.
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Carlos Drummond de Andrade  Contos Plausíveis (com 150 ilustrações de Márcia e Irene), José Olympio Editora, 2ª edição, 1985, Rio de Janeiro  RJ; o poeta Drummond (1902  1987) deixou-nos como legado vastíssima obra em verso e prosa publicada em livros e em jornais; em Contos Plausíveis, o cronista nos informa que tais contos "(serão contos?) são plausíveis no sentido de que tudo neste mundo, e talvez em outros, é crível, provável, verossímil. Todos os dias a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela. Não posso dizer, verdadeiramente, que os escrevi. Escreveram-se no dia-a-dia do Jornal do Brasil, sem intermediação de forças misteriosas. Queriam existir como estórias, ocuparam papel e hoje formam livro."; quanto às 150 figuras que "quiseram viver com independência, e soltaram-se no volume, sem obediência aos contos a que se ligavam", Drummond nos propõe um "quebra-cabeça inocente": descobrir a qual conto cada ilustração se refere;  e o autor arremata: "Parece que na vida também é assim: as pessoas e coisas nem sempre andam de par constante.";

Eu, Genésio dos Santos, um ativista da palavra e atrevido aprendiz de blogueiro que possibilita ao leitor este texto drummondiano ainda não me ocupei com a tarefa de ligar às figuras as palavras contidas em Contos Plausíveis; no entanto, prometo, já, a mim mesmo, que um dia me ocuparei de  tão inocente quebra-cabeça.

Nhô Bentico (Abílio Víctor): Manhã de minha terra

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O sór derrama seus raio
briante, por tras da serra;
o orvaio parece infeite,
cubrindo a rôpa da terra.

As arve istrala seus gaio
cumo que se espriguiçando;
as foia sêca, já morta,
o vento vai derrubando.

Balança, nos ramo verde,
os ninho dos passarinho: 
o  vento mostra cuidado,
soprando devagarinho.

Um galo canta, distante,
despois das asa batê.
Êsse galo tá contente,
contente de amanhecê!

Rincha um cavalo turdio,
bem juntinho da portêra,
i uma vaca se coça
na vareta da manguêra.

Os porco, fussa na lama,
lá im baixo, no chiquerão,
inquanto um tôro, berrando,
co'o casco, cavoca o chão.

Pula um cabrito assanhado,
por riba de dois jacá;
um jaguapoca, sentado,
tá latindo sem pará.

Já, in bando, a galinhada
vai ciscando no terrêro;
lá drento, um barrigudinho,
de fome já fais berrêro.

Umas cabrocas bunita,
levando trôxa na mão,
descem cantando contente,
p'ro lado do riberão.

No arto, passa gritando
um bando preto de anú.
I dois cabocro. c'a inxada,
tão carpindo o carurú...

O sór derrama seus raio
briante, por trais da serra,
pintanto o lindo cenário
da manhã de minha terra!
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Poemas Sertanejos  Reedição dos livros Folhas do Mato (1938 e 1940) e Favas de Ingá (1950), Gráfica Itapetininga, 1980, Itapetininga SP; este poema foi publicado originalmente em Favas de Ingá (1950); Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato, Versos Humorísticos, Favas de Ingá e Poemas Sertanejos.

Glauco Mattoso: Haikais Fecais





"O homem come para viver, trabalha para comer e come para cagar.
 Donde se conclui que o homem vive para cagar. 
Caguemos, pois, que não temos para isso toda a eternidade."
Jornal Dobrábil/24




Tive grande idéia:

aí me deu diarréia

e babau  caguei-a!



 



Se janto alfabeto

mijo sopa e dejeto

poema concreto



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Memórias de um pueteiro  as melhores gozações de Glauco Mattoso, Edições Trote, 2ª edição, 1982, Rio de Janeiro  RJ; Glauco Mattoso é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias; Pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (paulistano de 1951), o nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); Pedro José Ferreira da Silva, hoje aposentado, foi funcionário do Banco do Brasil.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Espelho SP: Maria, Maria!

Carlos Drummond de Andrade: Ou isto ou aquilo

Estátua: Drummond, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ

O dono da usina, entrevistado, explicou ao repórter que a situação é grave. Há excedente de leite no país, e o consumo não dá pra absorver a produção intensiva:

– Uma calamidade. Imagine o senhor que o jornal aqui do município reclama contra a poluição do rio, que está coberto por uma camada alvacenta. Não é nenhum corpo estranho não, é leite. Estão jogando leite no rio porque não têm mais onde jogar. Os bueiros estão entupidos. A população, como o senhor deve saber, é insuficiente para beber toda essa leitalhada ou comê-la em forma de queijo, requeijão, manteiga e coisinhas.

– Insuficiente? Parece que a produção de crianças ainda é maior que a produção de leite.

– Numericamente sim, mas não têm capacidade econômica para beber leite. Têm apenas boca, entende? Então nada feito. Se falta dinheiro aos pais dos garotos para adquirir o produto, ainda bem que se joga leite fora, em vez de jogar os garotos.
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Carlos Drummond de Andrade  Contos Plausíveis (com 150 ilustrações de Márcia e Irene), José Olympio Editora, 2ª edição, 1985, Rio de Janeiro  RJ; o poeta Drummond (1902 – 1987) deixou-nos como legado vastíssima obra em verso e prosa publicada em livros e em jornais; em Contos Plausíveis, o cronista nos informa que tais contos "(serão contos?) são plausíveis no sentido de que tudo neste mundo, e talvez em outros, é crível, provável, verossímil. Todos os dias a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela. Não posso dizer, verdadeiramente, que os escrevi. Escreveram-se no dia-a-dia do Jornal do Brasil, sem intermediação de forças misteriosas. Queriam existir como estórias, ocuparam papel e hoje formam livro."; quanto às 150 figuras que "quiseram viver com independência, e soltaram-se no volume, sem obediência aos contos a que se ligavam", Drummond nos propõe um "quebra-cabeça inocente": descobrir a qual conto cada ilustração se refere;  e o autor arremata: "Parece que na vida também é assim: as pessoas e coisas nem sempre andam de par constante.";

Eu, Genésio dos Santos, um ativista da palavra e atrevido aprendiz de blogueiro que possibilita ao leitor este texto drummondiano ainda não me ocupei com a tarefa de ligar às figuras as palavras contidas em Contos Plausíveis; no entanto, prometo, já, a mim mesmo, que um dia me ocuparei de  tão inocente quebra-cabeça.

Carlos Drummond de Andrade: O nome

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        Na República mais ou menos federativa da Copaíba, a situação não estava nada boa, pelo quê os maiorais do Partido da Situação (PSI) se reuniram para encontrar uma saída.
           Temos de mudar a situação, afirmou um.
           Não temos condições para mudar a situação, objetou outro.
          Sugeriu o terceiro:
         Se a situação é isso que a gente está vendo, e se não podemos mudar a situação, mudemos pelo menos o nome do Partido da Situação.
        Idéia aprovada, lembraram-se diversos nomes. Partido da Situação em Termos (PST) não foi julgado conveniente. Partido sem Culpa pela Situação (PSC) afigurou-se escapista. Não se considerou objeto de exame a proposta de Partido Qualquer Coisa (PQC).
          Alcançou dois votos a lembrança de Partido do Ovo (PO). era simples e expressivo, por ser o ovo a célula inicial de que resultaria nova situação. Com a vantagem de se poder acrescentar-lhe, em época de eleições, uma consoante sugestiva: Partido do P'Ovo.
          A idéia foi afastada sob a alegação de que Ovo, só, não define orientação e dá margem a perguntas: Frito? Estrelado? Poché? Galado? Gorado? De Colombo?
        Venceu finalmente a proposta mais sábia: Partido, simplesmente (P). Com este nome, enfrenta-se qualquer situação, e até mesmo a falta de situação.


Drummond
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Carlos Drummond de Andrade  Contos Plausíveis (com 150 ilustrações de Márcia e Irene), 1985, 2ª edição, José Olympio Editora, Rio de Janeiro RJ; o poeta Drummond (1902 1987) deixou-nos como legado vastíssima obra em verso e prosa publicada em livros e em jornais; em Contos Plausíveis, o cronista nos informa que tais contos "(serão contos?) são plausíveis no sentido de que tudo neste mundo, e talvez em outros, é crível, provável, verossímil. Todos os dias a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela. Não posso dizer, verdadeiramente, que os escrevi. Escreveram-se no dia-a-dia do Jornal do Brasil, sem intermediação de forças misteriosas. Queriam existir como estórias, ocuparam papel e hoje formam livro."; quanto às 150 figuras que "quiseram viver com independência, e soltaram-se no volume, sem obediência aos contos a que se ligavam", Drummond nos propõe um "quebra-cabeça inocente": descobrir a qual conto cada ilustração se refere;  e o autor arremata: "Parece que na vida também é assim: as pessoas e coisas nem sempre andam de par constante.";

Eu, Genésio dos Santos, um ativista da palavra e atrevido aprendiz de blogueiro que possibilita ao leitor este texto drummondiano, ainda não me ocupei com a tarefa de ligar às figuras as palavras contidas em Contos Plausíveis; no entanto, prometo, já, a mim mesmo, que um dia me ocuparei de  tão inocente quebra-cabeça.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Casimiro de Abreu: Segredos

Casimiro de Abreu












Eu tenho uns amôres – quem é que os não tinha
Nos tempos antigos? – Amar não faz mal;
As almas que sentem paixão como a minha
Que digam, que falem em regra geral.

– A flor dos meus sonhos é môça e bonita
Qual flor entr'aberta do dia ao raiar,
Mas onde ela mora, que casa ela habita,
Não quero, não posso, não devo contar!

Seu rosto é formoso, seu talhe elegante,
Seus lábios de rosa, a fala é de mel;
As tranças compridas, qual livre bacante,
O pé de criança, cintura de anel;

– Os olhos rasgados são côr das safiras,
Serenos e puros, azuis como o mar;
Se falam sinceros, se pregam mentiras,
Não quero, não posso, não devo contar!

Oh! ontem no baile com ela valsando
Senti as delícias dos anjos do céu!
Na dança ligeira qual silfo voando
Caiu-lhe do rosto seu cândido véu!

– Que noites e que baile! – Seu hálito virgem
Queimava-me as faces no louco valsar,
As falas sentidas que os olhos falavam
Não posso, não quero, não devo contar!

Depois indolente firmou-se em meu braço,
Fugimos das salas, do mundo talvez!
Inda era mais bela rendida ao cansaço,
Morrendo de amôres em tal languidez!

– Que noite e que festa! e que lânguido rosto
Banhado ao reflexo do branco luar!
A neve do colo e as ondas dos seios
Não quero, não posso, não devo contar!

A noite é sublime! – Tem longos queixumes,
Mistérios profundos que eu mesmo não sei:
Do mar os gemidos, do prado os perfumes,
De amor me mataram, de amor suspirei!

– Agora eu vos juro... Palavra! – não minto!
Ouvi-as formosa também suspirar;
Os doces suspiros que os ecos ouviram
Não quero, não posso, não devo contar!

Então nesse instante nas águas do rio
Passava uma barca, e o bom remador
Cantava na flauta: – "Nas noites d'estio
O céu tem estrêlas, o mar tem amor!" 

– E a voz maviosa do bom gondoleiro
Repete cantando: – "viver é amar!" 
Se os peitos respondem à voz do barqueiro...
Não quero, não posso, não devo contar!

Trememos de mêdo... a bôca emudece
Mas sentem-se os pulos do meu coração!
Seu seio nevado de amor se intumesce...
E os lábios se tocam no ardor da paixão!

– Depois... mas já vejo que vós, meus senhores,
Com fina malícia quereis me enganar.
Aqui faço ponto; – segredos de amôres
Não quero, não posso, não devo contar!

Rio – 1857.
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A transcrição deste poema é cópia fiel de Poetas Românticos Brasileiros – Volume III (Casimiro de Abreu, Junqueira Freire, Fagundes Varela e Laurindo Rabelo), Editora e Encadernadora Lumen Ltda., São Paulo – SP (sem data)  Casimiro José Marques de Abreu (1839  1860), fluminense, foi poeta.