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quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Leandro Gomes de Barros: O povo na cruz


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Alerta, Brasil, alerta!
Desperta o sono pesado
Abre os olhos que verás
Teu povo sacrificado
Entre peste, fome e guerra
De tudo sobressaltado.

O brasileiro hoje em dia
Luta até para morrer,
Porque depois dele morto
Tudo nele quer roer,
De forma que até a terra
Não acha mais que comer.

A fome come-lhe a carne
O trabalho gasta o braço
Depois o governo pega-o
Há de o partir a compasso
Alfândega, Estado, Intendência
Cada um tira um pedaço.

O médico cobra a receita
O boticário a mezinha
O juiz confisca logo
Alguns bens se acaso tinha
Inda ficando uma parte
Diz a Intendência, é minha.

Assim morre o brasileiro
Como o bode exposto à chuva,
Tem por direito o imposto
E palmatória por luva,
Família só herda dele
Nome de órfão e viúva.

Morrendo um pobre diabo
Se acaso deixar dinheiro
Ainda deixando um filho
Este não é seu herdeiro
Só herda dele o juiz
O escrivão, o coveiro.

E o governo bem vê
Nossos martírios cruéis
Só faz é nos botar selo
Da cabeça até os pés,
Diz de manhã morre um
Ao meio-dia nasce dez.

E grita vá o imposto
Morra quem estiver doente
Morrem cem nascem dez mil,
O Brasil tem muita gente
O tempo vai muito bem
Toca o banquete p’ra frente.

O governo estraga o pão
Dizendo não custou nada
Dinheiro nasce no mato,
Acha-se em qualquer estrada
Vendo o mendigo morrer
Como fosse ao pé da estrada.

Porque o pobre infeliz
A quem a fome deu cabo
Diz o prefeito morreu
Pode levar o diabo
Diz o coveiro: de graça
A sepultura não abro.

São essas as garantias
Que competem ao brasileiro
Ter fome em cima do pão
Ser pobre tendo dinheiro
Ser mandando pelos servos
Isto causa desespero.

Como vive o brasileiro
Com três impostos a pagar
Um corpo com três feridas
Como assim pode escapar?
Um ser escravo de três
Se acaba de trabalhar.

São tantas as perseguições
Dos impostos que se paga
Que um fiscal p’ra nação
Não pode haver maior praga
É como bala de rifle
Onde vai fura ou esmaga.

Não há mesmo quem resista,
Estes impostos d’agora
Diz o governo que tem
Que morra tudo em u'a hora?
Quando o norte se acabar
Eu boto bagaço fora.

E se não houver inverno,
Como o povo todo espera,
De Pernambuco não fica
Nem os esteios da tapera,
Paraíba fica em nada
Rio Grande desespera.

O Rio de Janeiro, hoje
Parece um grande condado,
Ri-se o rico, chora o pobre,
Lamentando o seu estado
Diz o governo eu vou bem,
Tudo vai do meu agrado.

São Paulo para o governo
É primor da criação,
Eu acho até parecido
Com sítio da maldição,
Aquele que Judas comprou
Com o ouro da traição.

Filho de chefe político
Inda bem não é gerado
Diz o pai minha mulher
Já tem no ventre um soldado
Mas antes de sentar praça
Eu o quero reformado.

Assim antes de ser casa,
Já podia ser tapera,
Ou caju que antes da fruta,
Já a semente prospera,
Ou é raça de pescada
Que antes de ser já era.

Nosso Pernambuco velho
Há anos anda caipora,
Vendo-se a hora e o instante
Que a capital vai embora
O governo está marcando
Em botar-lhe o bagaço fora.

Paraíba, coitadinha!
Já perdeu toda esperança,
É mesmo que uma boneca
Nas unhas d’uma criança,
Faz toda súplica ao governo
Mas suplica e nada alcança.

Em que hoje está tornado
O país da Santa Cruz!
Está igual à mariposa
No calor do fogo ou luz,
O brasileiro é um verme,
O estrangeiro é mastruz.

O Brasil hoje só presta,
Para inglês, padre e soldado,
Médicos, feiticeiros e brabos,
O mais vive acabrunhado,
De forma que fica o mundo,
Por só estes situado.

O rico matando um pobre,
Nem se recolhe a prisão,
Diz logo o advogado,
Matou com muita razão
Se passa um mês na cadeia,
Tem a gratificação.

(O povo na cruz, cordel, s/d)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Leandro Gomes de Barros (1865  1918), paraibano nascido em Pombal Fazenda da Melancia , educado pela família do Padre Vicente Xavier de Farias, proprietários da fazenda, foi poeta cordelista; em companhia da família de quem foi “adotivo”, mudou-se para a Vila do Teixeira, futuro berço da Literatura Popular nordestina, e ali permaneceu até os 15 anos de idade; conheceu vários cantadores e poetas ilustres, seguiu para Jaboatão, Vitória de Santo Antão e Recife, passou a imprimir seus versos no próprio prelo ou em diversas tipografias; sua atividade poética o fez viajar por todo aquele sertão, sempre divulgando e vendendo seus poemas, tendo sido um dos poucos poetas populares a viver unicamente de suas centenas de histórias rimadas; suas obras: O cachorro dos mortos, O cavalo que defecava dinheiro, História de Juvenal e o Dragão, Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, A confissão de Antônio Silvino, A vida de Pedro Cem, Os sofrimentos de Alzira, Como Antônio Silvino fez o diabo chorar, Vida e testamento de Cancão de Fogo, A mulher roubada, Suspiros de um sertanejo, e dezenas de outros textos, abordando variados temas e com múltiplas edições; no Jornal do Brasil  9 de setembro de 1976, Carlos Drummond de Andrade publicou em sua coluna a crônica Leandro x Olavo Bilac, na qual acentuou sobre o poeta cordelista: “Não foi príncipe de poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão e do Brasil em estado puro”.