sábado, 30 de junho de 2018

Vicente Huidobro: . . . Rangem as rodas da terra e vou andando a cavalo em minha morte . . . [Altazor, Canto I, excerto]

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[traduzido por Antonio Risério e Paulo César Souza]

Rangem as rodas da terra
E vou andando a cavalo em minha morte
Vou colado à minha morte como um pássaro ao céu
Como uma data na árvore que cresce
Como o nome na carta que envio
Vou colado à minha morte
Vou pela vida colado à minha morte
Apoiado no bastão de meu esqueleto

O sol nasce em meu olho direito e se põe no meu olho esquerdo
Em minha infância uma infância ardente como um álcool
Me sentava nos caminhos da noite
A escutar a eloquência das estrelas
E a oratória da árvore
Agora a indiferença neva na tarde de minha alma
Abram-se em espigas as estrelas
Parta-se a lua em mil espelhos
Volte a árvore ao ninho de sua amêndoa
Só quero saber por quê
Por quê
Por quê
Sou protesto e arranho o infinito com minhas garras
E grito e gemo com miseráveis gritos oceânicos
O eco de minha voz faz troar o caos

Sou desmesurado cósmico
As pedras as plantas as montanhas
Me saúdam. As abelhas e os ratos
Os leões e as águias
Os astros os crepúsculos as auroras
Os rios e as selvas me perguntam
Que tal como está você?
E enquanto os astros e as ondas tenham algo a dizer
Será por minha boca que falarão aos homens

Vicente huidobro.jpg
Vicente Huidobro

Crujen las ruedas de la tierra
Y voy andando a caballo en mi muerte
Voy pegado a mi muerte como un pájaro al cielo
Como una fecha en el árbol que crece
Como el nombre en la carta que envío
Voy pegado a mi muerte
Voy por la vida pegado a mi muerte
Apoyado en el bastón de mi esqueleto

El sol nace en mi ojo derecho y se pone en mi ojo izquierdo
En mi infancia una infancia ardiente como un alcohol
Me sentaba en los caminos de la noche
A escuchar la elocuencia de las estrellas
Y la oratoria del árbol
Ahora la indiferencia nieva en la tarde de mi alma
Rómpanse en espigas las estrellas
Pártase la luna en mil espejos
Vuelva el árbol al nido de su almendra
Sólo quiero saber por qué
Por qué
Por qué
Soy protesta y araño el infinito con mis garras
Y grito y gimo con miserables gritos oceánicos
El eco de mi voz hace tronar el caos

Soy desmesurado cósmico
Las piedras las plantas las montañas
Me saludan. Las abejas las ratas
Los leones y las águilas
Los astros los crepúsculos las albas
Los ríos y las selvas me preguntan
¿Qué tal cómo está Ud.?
Y mientras los astros y las olas tengan algo que decir
Será por mi boca que hablarán a los hombres
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Altazor e outros poemas — Vicente Huidobro, Tradução e Seleção de Antonio Risério e Paulo César Souza e Apresentação de Antonio Risério, Coleção Toda Poesia 11, Edição bilíngue, 1991, Art Editora, São Paulo —  SP; Vicente García Huidobro Fernández (1893 1948), chileno de Santiago do Chile, foi poeta e escritor de vanguarda estética; o poeta passou boa parte de sua vida na Europa, transitando entre a França e a Espanha e foi um dos promotores da poesia de vanguarda na América Latina; teve participação ativa nas revistas Sic e Nord-Sud, ao lado de Apollinaire e de outros; foi o mentor do que passou a se chamar criacionismo poético, e que consistia em buscar a inovação na poesia como uma necessidade e uma obsessão, um paroxismo na procura do novo, um bilinguismo textual; bibliografia: Ecos del Alma (1911), La gruta del silencio e Canciones en la noche (ambos em 1913), Pasando y pasando e Las pagodas ocultas (ambos em 1914), AdánEl espejo de agua (ambos em 1916), Horizon carré (1917), Poemas árticos, Ecuatorial, Tour Eiffel Hallali (todos em 1918), Manifestes (1925), Mio Cid Campeador (1929), Altazor o el viaje em paracaídas (1931), Sátiro, o El poder de las palabras (1939), e tantos outros títulos; Huidobro escreveu algumas de suas obras em francês; em diferentes períodos, colaborou com as revistas de arte Dada (Espanha), Nord-Sud e L’Esprit Noveau (França), Vanity Fair (Estados Unidos) e dirigiu, em conjunto com Tristan Tzara, o caderno literário da revista Feuielle Volante; também participou como fundador e/ou co-fundador das revistas  Musa JovenAzul (Chile), entre outras atividades; escreveu roteiro para o filme cubista Cagliostro, fez crítica de cinema na imprensa argentina, foi conferencista e deu palestras sobre poesia; durante a 2ª Guerra, alistou-se nas tropas aliadas, participou como correspondente de guerra na França, transmitiu crônicas do campo de batalha para a rádio Voz da América; foi militante do partido comunista chileno.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Friedrich Nietzsche: O andarilho

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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

Um andarilho vai pela noite 
A passos largos; 
Só curvo vale e longo desdém 
São seus encargos. 
A noite é linda  
Mas ele avança e não se detém. 
Aonde vai seu caminho ainda? 
Nem sabe bem.

Um passarinho canta na noite: 
“Ai, minha ave, que me fizeste! 
Que meu sentido e pé retiveste, 
E escorres mágoa de coração 
Tão docemente no meu ouvido, 
Que ainda paro 
E presto atenção?  
Por que me lanças teu chamariz?” 

A boa ave se cala e diz: 
“Não, andarilho! Não é a ti não, 
Que chamo aqui 
Com a canção  
Chamo uma fêmea de seu desdém  
Que importa isso a ti também? 
Sozinho, a noite não está linda  
Que importa a ti? Deves ainda 
Seguir, andar, 
E nunca, nunca, nunca parar! 
Ficas ainda? 
O que te fez minha flauta mansa, 
Homem da andança?”

A boa ave se cala e pensa: 
“O que lhe fez minha flauta mansa, 
Que fica ainda?  
O pobre, pobre homem da andança!”

(Poemas, 1871—1888.)

Friedrich Nietzsche

Der Wanderer

Es geht ein Wand'rer durch die Nacht
Mit gutem Schritt;
Und krummes Tal und lange Höhn 
Er nimmt sie mit.
Die Nacht ist schön 
Er schreitet zu und steht nicht still,
Weiß nicht, wohin sein Weg noch will.

Da singt ein Vogel durch die Nacht.
"Ach Vogel, was hast du gemacht!
Was hemmst du meinen Sinn und Fuß
Und gießest süßen Herz-Verdruß
In's Ohr mir, daß ich stehen muß
Und lauschen muß 
Was lockst du mich mit Ton und Gruß?"

Der gute Vogel schweigt und spricht:
"Nein, Wandrer, nein! Dich lock' ich nicht
Mit dem Getön.
Ein Weibchen lock' ich von den Höhn 
Was geht's dich an?
Allein ist mir die Nacht nicht schön 
Was geht's dich an? Denn du sollst gehn
Und nimmer, nimmer stille stehn!
Was stehst du noch?
Was tat mein Flötenlied dir an,
Du Wandersmann?"

Der gute Vogel schwieg und sann:
"Was tat mein Flötenlied ihm an?
Was steht er noch?
Der arme, arme Wandersmann!"
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Os Pensadores — Volume XXXII: Nietzsche — Obras Incompletas, Seleção de textos de Gérard Lebrun e Tradução e Notas de Rubens Rodrigues Torres Filho, 1974 — Abril Cultural, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844  1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, compositor e poeta; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos  (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886),  Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard  Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 — 1885),  Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Hilda Hilst: Poemas aos homens do nosso tempo

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I

homenagem a
 Alexander Solzhenitsyn

Senhoras e senhores, olhai-nos.
Repensemos a tarefa de pensar o mundo.
E quando a noite vem
Vem a contrafação dos nossos rostos
Rosto perigoso, rosto-pensamento
Sobre os vossos atos.

A muitos os poetas lembrariam
Que o homem não é para ser engolido
Por vossas gargantas mentirosas.
E sempre um ou dois dos vossos engolidos
Deixarão suas heranças, suas memórias

A IDEIA, meus senhores

E essa é mais brilhosa
Do que o brilho fugaz de vossas botas.
Cantando amor, os poetas na noite
Repensam a tarefa de pensar o mundo.
E podeis crer que há muito mais vigor
No lirismo aparente
No amante Fazedor da palavra

Do que na mão que esmaga.

A IDEIA é ambiciosa e santa.
E o amor dos poetas pelos homens
É mais vasto
Do que a voracidade que vos move.
E mais forte há de ser
Quanto mais parco

Aos vossos olhos possa parecer.

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50 poemas de revolta (vários autores), 2017, 1ª edição, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 — 2004),  paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Cantares de perda e predileção (1983), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970),  Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D  (1982), Contos d'escárnio (1992), Cartas de um sedutor (1991), Cantares do sem nome e de partidas (1995) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volumes I e II (2000 e 2001); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas  SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a séde do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Apollinaire: Ao proletário

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[traduzido por Daniel Fresnot]

Ó cativo inocente que não sabes cantar
Escuta trabalhando enquanto deves calar
Com os golpes de ferramentas o ruído elementar
Marca na natureza o bom e austero trabalho
O vento justo e puro ou a brisa de maio
Da feia usina sopra a fumaça
A terra por amor alimenta tua carcaça
E a árvore da ciência que nutre a revolta
O mar e seu réquiem teus afogados envolta
E o verdadeiro fogo estrela maravilhosa
Bolha por ti a noite como esperança formosa
Encantando até o dia o local azulado
Onde pelo pão cotidiano sofre o coitado
Com somente um som grave ômega brado

Não custa mais caro a luz das estrelas
Do que teu sangue e tua vida proletária e tuas medulas
Dás à luz sempre dos teus vigorosos rins
Filhos que são deuses calmos e infelizes
Das dores de amanhã estão grávidas tuas filhas tantas
E feias do trabalho tuas mulheres são santas
Envergonhadas de suas mãos vãs de carne nua
Tuas virgens queriam um doce luxo ingênuo
Que viessem de mãos enluvadas mais brancas que as delas
E vão embora alegres uma noite na hora das mazelas
Ora você sabe que és tu que fizestes a beldade
Que alimenta os humanos da injusta cidade
E pensas às vezes em alcovas divinas
Quando é triste e cansado de dia no fundo das minas

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Apollinaire

Au prolétaire

Ô captif innocent qui ne sais pas chanter
Écoute en travaillant tandis que tu te tais
Mêlés aux chocs d’outils les bruits élémentaires
Marquent dans la nature un bon travail austère
L’aquilon juste et pur ou la brise de mai
De la mauvaise usine soufflent la fumée
La terre par amour te nourrit les récoltes
Et l’arbre de science où mûrit la révolte
La mer et ses nénies dorlotent tes noyés
Et le feu le vrai feu l’étoile émerveillée
Brille pour toi la nuit comme un espoir tacite
Enchantant jusqu’au jour les bleuités du site
Où pour le pain quotidien peinent les gars
D’ahans n’ayant qu’un son le grave l’oméga

Ne coûte pas plus cher la clarté des étoiles
Que ton sang et ta vie prolétaire et tes moelles
Tu enfantes toujours de tes reins vigoureux
Des fils qui sont des dieux calmes et malheureux
Des douleurs de demain tes filles sont enceintes
Et laides de travail tes femmes sont des saintes
Honteuses de leurs mains vaines de leur chair nue
Tes pucelles voudraient un doux luxe ingénu
Qui vînt de mains gantées plus blanches que les leurs
Et s’en vont tout en joie un soir à la male heure
Or tu sais que c’est toi toi qui fis la beauté
Qui nourris les humains des injustes cités
Et tu songes parfois aux alcôves divines
Quand tu es triste et las le jour au fond des mines
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Álcoois e Outros Poemas — Apollinaire, Tradução, Introdução e Notas de Daniel Fresnot, 2005, Martin Claret, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880  1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma  Itália, escritor e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris  França, transitou por todos os gêneros literários  poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica  e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; com sua arte, colecionou amigos e colaboradores, entre eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; bibliografia: L’Hérésiarque e Cie (1910), Álcoois  (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913),  Le Poète Assassiné (1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.

Rafael Alberti: O anjo das adegas

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[traduzido por Amálio Pinheiro]

1

Foi quando a flor do vinho morria na penumbra
e disseram que o mar a salvaria do sonho.
Nesse dia desci às apalpadelas
tua alma caiada e úmida.
E comprovei que uma alma oculta frio e ladeiras
e que mais de uma janela pode abrir com seu eco outra voz, se é bela.

Te vi flutuar a ti, flor de agonia, flutuar sobre teu próprio espírito.
(Alguém tinha jurado que o mar te salvaria do sonho.)
Foi quando comprovei que muralhas se quebram com suspiros
e que há portas ao mar que se abrem com palavras.

2

A flor do vinho, morta nos tonéis,
sem jamais ter visto o mar, a neve.

A flor do vinho, sem provar do chá,
sem jamais ter visto um piano de cauda.

Caiam seus barris quatro arrombadores.
Os vinhos doces, chorando, embarcam fora de hora.

Sem jamais ter visto o mar, morta, a flor do vinho branco.
As penumbras bebem azeite e a cera um anjo.

Eis aqui passo a passo o meu longo trajeto.
Guardai-me o segredo, azeitonas, abelhas.

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Rafael Alberti

El ángel de las bodegas

1

Fue cuando la flor del vino se moría en penumbra
y dijeron que el mar la salvaría del sueño.
Aquel día bajé a tientas a tu alma encalada y húmeda.
Y comprobé que un alma oculta frío y escaleras
y que más de una ventana puede abrir con su eco otra voz, si es buena.

Te vi flotar a ti, flor de agonía, flotar sobre tu mismo espíritu.
(Alguien había jurado que el mar te salvaría del sueño.)
Fue cuando comprobé que murallas se quiebran con suspiros
y que hay puertas al mar que se abren con palabras.

2

La flor del vino, muerta en los toneles,
sin haber visto nunca la mar, la nieve.

La flor del vino, sin probar el té,
sin haber visto nunca un piano de cola.

Cuatro arrumbadores encalan los barriles.
Los vinos dulces, llorando, se embarcan a deshora.

La flor del vino blanco, sin haber visto el mar, muerta.
Las penumbras se beben el aceite y un ángel la cera.

He aquí paso a paso toda mi larga historia.
Guardadme el secreto, aceitunas, abejas.

(Sobre los ángeles 1929)
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Sobre os anjos — Rafael Alberti, Introdução, Tradução e Notas de Amálio Pinheiro, Coleção Toda Poesia 13, Edição bilíngue, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Rafael Alberti Merello (1902  1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte HorizonteAlfarRevista de Occidente, Litoral e outros veículos; conheceu e conviveu com Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; bibliografia:  Marineroen tierra (1925), El alba de Alhelí  (1928), Cal y Canto (1928),  Sobre los ângeles (1928  1929), Sermones y moradas (1929 1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933),  Entre el clavel y la espadaLa arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987), e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Apollinaire: Na cadeia *

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[traduzido por Daniel Fresnot]

     I

Antes de entrar na minha cela
Foi preciso ficar nu
E que voz sinistra apela
Guillaume o que te aconteceu

Lázaro entrando no túmulo
Ao invés de sair como fez
Adeus, adeus cantada ciranda
Ó meus anos ó jovens talvez

     II

Não, não me sinto mais lá
                 Eu mesmo
Sou o quinze da
                 Décima primeira

O sol filtra através
                 Das vidraças
Seus raios fazem nos meus versos
                 As palhaças

E dançam sobre o papel
                 Escuto
Alguém que bate com o pé
                 O reduto

     III

No fosso feito um urso
Cada manhã eu passeio
Giramos, giramos, giramos sempre
O céu é azul como uma corrente
No fosso feito um urso
Cada manhã eu passeio

Na cela do lado
Fazem correr a fonte
Com as chaves que faz tinir
O carcereiro está a vir
Na cela do lado
Fazem correr a fonte

     IV

Como me entendio entre estes muros pelados
            E pintados de cores pálidas
Uma mosca no papel a passos miúdos
            Percorre minhas linhas desiguais

O que será de mim o Deus que conhece a minha dor
            Tu que me a deste
Tenha piedade de meus olhos sem lágrimas minha pálida dor
            O ruído de minha cadeira acorrentada

E todos estes pobres corações batendo na cadeia
            O Amor que me acompanha
Tenha piedade sobretudo de minha fraca razão
            E este desespero que a ganha

     V

Que lentamente passam as horas
Como passa um enterro

Chorarás a hora em que choras
Que passará rápido demais
Como passam todas as horas

     VI

Escuto os ruídos da cidade
E prisioneiro sem horizonte
Nada vejo além de um céu hostil
E os muros nus de minha prisão

O dia vai embora eis que queima
Uma lâmpada na prisão
Estamos sós na minha cela
Bela claridade Cara razão

Setembro 1911

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Apollinaire

À la Santé

     I

Avant d’entrer dans ma cellule 
Il a fallu me mettre nu 
Et quelle voix sinistre ulule 
Guillaume qu’es-tu devenu 

Le Lazare entrant dans la tombe 
Au lieu d’en sortir comme il fit 
Adieu adieu chantante ronde 
Ô mes années ô jeunes filles

     II

Non je ne me sens plus là 
                 Moi-même 
Je suis le quinze de la 
                 Onzième 

Le soleil filtre à travers 
                 Les vitres 
Ses rayons font sur mes vers 
                 Les pitres 

Et dansent sur le papier 
                 J’écoute 
Quelqu’un qui frappe du pied 
                 La voûte

     III

Dans une fosse comme un ours 
Chaque matin je me promène 
Tournons tournons tournons toujours 
Le ciel est bleu comme une chaîne 
Dans une fosse comme un ours 
Chaque matin je me promène 

Dans la cellule d’à côté 
On y fait couler la fontaine 
Avec le clefs qu’il fait tinter
Que le geôlier aille et revienne 
Dans la cellule d’à coté 
On y fait couler la fontaine

     IV

Que je m’ennuie entre ces murs tout nus 
            Et peint de couleurs pâles 
Une mouche sur le papier à pas menus 
            Parcourt mes lignes inégales 

Que deviendrai-je ô Dieu qui connais ma douleur 
            Toi qui me l’as donnée 
Prends en pitié mes yeux sans larmes ma pâleur 
            Le bruit de ma chaise enchainée

Et tour ces pauvres coeurs battant dans la prison 
            L’Amour qui m’accompagne 
Prends en pitié surtout ma débile raison 
            Et ce désespoir qui la gagne 

     V

Que lentement passent les heures
Comme passe un enterrement 

Tu pleureras l’heure ou tu pleures 
Qui passera trop vitement 
Comme passent toutes les heures

     VI

J’écoute les bruits de la ville 
Et prisonnier sans horizon 
Je ne vois rien qu’un ciel hostile 
Et les murs nus de ma prison

Le jour s’en va voici que brûle 
Une lampe dans la prison 
Nous sommes seuls dans ma cellule 
Belle clarté Chère raison

Septembre 1911

* Nota do Tradutor: Em 1911, o secretário de Apollinaire roubou uma estatueta do Museu do Louvre e a escondeu na casa do poeta. Por causa disso, Apollinaire ficou detido por uma semana na cadeia de la Santé, em Paris.
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Álcoois e Outros Poemas — Apollinaire, Tradução, Introdução e Notas de Daniel Fresnot, 2005, Martin Claret, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880  1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma  Itália, escritor e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris — França, transitou por todos os gêneros literários  poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica  e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; com sua arte, colecionou amigos e colaboradores, entre eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; bibliografia: L’Hérésiarque e Cie (1910), Álcoois  (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913),  Le Poète Assassiné (1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.