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domingo, 30 de novembro de 2025

Batista Cepelos: O trem de ferro

 
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Um fino apito, estrídulo sibila,
rangem as rodas num arranco perro,
e, lentamente, a se arrastar, desfila,
fumegante e luzente, o trem de ferro.

Soa no espaço um derradeiro berro
e tão rápido corre que horripila,
esse monstro a rolar de cerro em cerro,
apavorando a solidão tranqüila.

Vence choupanas, matagais tristonhos,
despenhadeiros, báratros medonhos,
nada lhe amaina o rábido furor.

Corre, corre veloz, nada o embaraça,
desfraldando a bandeira de fumaça,
como um bravo guerreiro vencedor!


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador do livro 60 Poetas Trágicos, ali registrou acerca do poeta Batista Cepelos:
De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), ou Baptista Cepellos, paulista de Cotia, formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, romancista, tradutor e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, obra prefaciada por Olavo Bilac, 1906, e 3ª edição refundida e modificada em 1911), Os Corvos (prosa, 1907), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire, Paul Verlaine e Lorenzo Stecchetti; como promotor público, Batista Cepelos trabalhou em Apiaí SP, Itapetininga SP e Cantagalo RJ.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

genésio dos santos: talvez não seja a vida só poesia

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1.
talvez um ronronar, gata no cio
um se enroscar em fios já tecidos
um desnudar de todos os vestidos
um galopar sem freios nem navios

talvez um se esgueirar em mar de espumas
quem sabe se esquivar dar um perdido
quedar-se quieto sem nenhum gemido
na noite noite que ora se avoluma

coser retalhos de tempos jazidos
partir pra Utopos que anda sempre à espera
longe de primaveras e de outonos

quem sabe penetrar no sem-sentido
talvez um sim, um não, talvez talvez
palavras vãs! talvez eterno sono

sp, 12 a 17.04.2025

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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

sábado, 17 de fevereiro de 2024

matusalém da silva: "tropeçando em risca de ladrilho"


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Constatei-me velho desde o instante em que
me vi tropeçando em taco, em risca de ladrilho.
[Ziraldo, carthumorista].

sinto em mim sua presença
embora ausente põe limites no que faço
até controla o que penso
imagino-a à espreita
na curva do caminho

quando eu estiver bem velhinho
alquebrado com vista fraca ouvindo pouco
“tropeçando em risca de ladrilho”
é inevitável que venha

o ontem: acabou-se o que era doce
o instantâneo hoje: de modo algum traz amargor
o amanhã? deixemos pra depois...

sem pressa sem pressa...
não sou vidente mas ela vem
que assim seja

sp — 05.02.24
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matusalém da silva e alguns outros silva, além de genésio dos santos, são um só ativista da palavra.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

genésio dos santos: o espalhador de utopias

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carrego sonhos:
sinta-se à vontade
não há venda nem compra

faço trocas:
não aceito pix nem dinheiro nem cartão
sou da época do mutirão

demore quanto puder ou quiser:
pra certas escolhas
o tempo é o que menos importa

satisfação garantida:
bom proveito
ou seu sorriso ou sua lágrima de volta

sp, 02.02.2024

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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Zalina Rolim: O cão e os pássaros

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Feroz é um velho cão de guarda. A gente,
Que o vê de longe, teme-lhe os olhares,
E examina a grossura da corrente
Férrea, que o liga ao muro dos seus lares.

Ninguém lhe amima o dorso largo e forte;
Ninguém procura o seu olhar profundo;
Do seu caminho fogem, de tal sorte
Que ele se vê sozinho neste mundo.

O próprio dono evita-lhe os afagos,
Olha-o receoso, e se aproxima a custo.
Do velho cão nos grandes olhos vagos,
Paira a tristeza de um castigo injusto.

Não compreende o terror por ele aceso;
Quer mostrar-se bondoso, e a cauda agita,
Mas o rumor dos ferros, que o têm preso,
Mais pavor nos corações excita.

E ele, sentindo assomos de revolta,
Tenta quebrar os elos da cadeia...
Mas, pouco a pouco, a placidez lhe volta,
E o louco instinto, devagar, sopeia.

Inclina o corpo e estende-se por terra,
Preso ao terror, que a própria força inspira;
E, silencioso, úmidos olhos cerra,
Sem mais vislumbre de despeito ou ira.

Velando à porta do casebre, sonha...
O campo é todo verde; o céu fulgura,
E erra no espaço, trêfega e risonha,
A azado vento a derramar frescura.

Nova agonia o coração lhe aperta,
Nostálgico, aspirando o fim de tudo...
Nisto, um ligeiro frêmito o desperta,
E ele abre os olhos, cauteloso e mudo.

São passarinhos. Ei-los! Não têm medo
Vêm partilhar com ele o magro almoço.
E, compassivo, espera imóvel, quedo,
Que eles se vão, para roer um osso.

E o velho cão de pavoroso aspecto,
Que nunca teve a graça de uns carinhos,
Sentindo o peito a transbordar de afeto,
Trêmulo escuta a voz dos passarinhos.

(Livro das Crianças 1897)

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Zalina Rolim: poetisa e educadora [biografia e poesia] — Maria Amélia Blasi de Toledo Piza, 2008, Editora Ottoni, Itu — SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; passou parte de sua infância em Itapetininga, terra de seus familiares, mas também morou em Itapeva [ex Faxina], Araraquara, São Roque, Sorocaba e Itu, todas cidades do interior paulista, sempre acompanhando o pai, então juiz de Direito e nomeado para estas localidades; em 1893, a educadora e poeta mudou-se para a capital, São Paulo, quando o pai veio a assumir cargo no Tribunal de Justiça estadual; Zalina Rolim só frequentou regularmente uma escola em Itapeva, aos sete anos de idade e por um breve período, e ali também aprendeu português, francês, italiano e inglês em aulas ministradas por João Kopke [educador e escritor, 1852 1926]; no mais, todo seu aprendizado cultural se deu em casa e sob a orientação direta do pai; na capital paulista, foi pioneira na formação educacional do primeiro Jardim da Infância de São Paulo, anexo à Escola Normal da Capital [depois, Escola Normal Caetano de Campos, hoje Edifício Caetano de Campos, da Secretaria de Educação de São Paulo, na Praça da República]; traduziu obras dos idiomas inglês e italiano, colaborou com a Revista do Jardim da Infância, além de ter participado com adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano, A Província de São Paulo e A Cidade de Itu; suas obras: O Coração (poesias, 1893), Livro das Crianças (1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); a poeta e educadora, mesmo sem formação acadêmica oficial, exerceu funções pedagógicas como auxiliar de diretoria na criação deste primeiro Jardim de Infância paulistano; hoje há na cidade de São Paulo duas instituições com seu nome: Escola Estadual Dona Zalina Rolim [Rua Luís Carlos, 740 Vila Aricanduva] e... isto é, havia... pois em pesquisa googleana, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa descobriu, através de página da prefeitura de São Paulo, que o Espaço de Leitura Zalina Rolim [Rua Corredeira, 26 Vila Mariana] encontra-se permanentemente desativado [notícia de fevereiro de 2023].

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Zalina Rolim: Hora nostálgica


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Alvorecera um dia luminoso,
De límpida e suave transparência;
Tranquilo como um sonho venturoso,
Alegre como o riso da inocência.

Do céu azul sereno e fulgurante,
Por sobre o verde cafezal extenso,
Caía o sol, de um brilho deslumbrante,
Dourando a plantação, cálido, intenso...

Um velho escravo, trêmulo e alquebrado,
A custo erguendo o baço olhar magoado,
Contempla ao longe a alcantilada serra;

E os lábios entre-abrindo, vagamente,
Murmura: Quem me dera, ó Deus clemente!
Tornar a ver o céu da minha terra.

O Coração — 1893

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Zalina Rolim — Arruda Dantas [biografia e poemas], Apresentação [Prefácio], Organização de dados biográficos e Posfácio “Post Scriptum” de Arruda Dantas, 1983, Editora Pannartz, São Paulo — SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; passou parte de sua infância em Itapetininga, terra de seus familiares, mas também morou em Itapeva [ex Faxina], Araraquara, São Roque, Sorocaba e Itu, todas cidades do interior paulista, sempre acompanhando o pai, então juiz de Direito e nomeado para estas localidades; em 1893, a educadora e poeta mudou-se para a capital, São Paulo, quando o pai veio a assumir cargo no Tribunal de Justiça estadual; Zalina Rolim só frequentou regularmente uma escola em Itapeva, aos sete anos de idade e por um breve período, e ali também aprendeu português, francês, italiano e inglês em aulas ministradas por João Kopke [educador e escritor, 1852 1926]; no mais, todo seu aprendizado cultural se deu em casa e sob a orientação direta do pai; na capital paulista, foi pioneira na formação educacional do primeiro Jardim da Infância de São Paulo, anexo à Escola Normal da Capital [depois, Escola Normal Caetano de Campos, hoje Edifício Caetano de Campos, da Secretaria de Educação de São Paulo, na Praça da República]; traduziu obras dos idiomas inglês e italiano, colaborou com a Revista do Jardim da Infância, além de ter participado com adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano, A Província de São Paulo e A Cidade de Itu; suas obras: O Coração (poesias, 1893), Livro das Crianças (poesias, 1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); a poeta e educadora, mesmo sem formação acadêmica oficial, exerceu funções pedagógicas como auxiliar de diretoria na criação deste primeiro Jardim de Infância paulistano; hoje há na cidade de São Paulo duas instituições com seu nome: Escola Estadual Dona Zalina Rolim [Rua Luís Carlos, 740 Vila Aricanduva] e... isto é, havia... pois em pesquisa googleana, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa descobriu, através de página da prefeitura de São Paulo, que o Espaço de Leitura Zalina Rolim [Rua Corredeira, 26 Vila Mariana] encontra-se permanentemente desativado [notícia de fevereiro de 2023].

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Zalina Rolim: Primeira página


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É o livro da saudade, vem comigo
Abrir-lhe as folhas, coração de luto,
Entra por ele como num jazigo
Onde branqueja o mármore impoluto.

Olha, a tristeza em tudo, pobre amigo,
Nem um verdor de planta ou flor ou fruto...
Os passarinhos fogem deste abrigo,
Ninguém penetra aqui de olhar enxuto.

Volta à página branca, docemente;
De joelhos, coração calado e crente
Como quem pisa num terreno santo.

No santuário onde encerro as minhas penas,
Entra em silêncio o desfiar apenas
O rosário tristíssimo do pranto.

(do "Livro da saudade")

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Zalina Rolim — Arruda Dantas [biografia e poemas], Apresentação [Prefácio], Organização de dados biográficos e Posfácio “Post Scriptum” de Arruda Dantas, 1983, Editora Pannartz, São Paulo — SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; passou parte de sua infância em Itapetininga, terra de seus familiares, mas também morou em Itapeva [ex Faxina], Araraquara, São Roque, Sorocaba e Itu, todas cidades do interior paulista, sempre acompanhando o pai, então juiz de Direito e nomeado para estas localidades; em 1893, a educadora e poeta mudou-se para a capital, São Paulo, quando o pai veio a assumir cargo no Tribunal de Justiça estadual; Zalina Rolim só frequentou regularmente uma escola em Itapeva, aos sete anos de idade e por um breve período, e ali também aprendeu português, francês, italiano e inglês em aulas ministradas por João Kopke [educador e escritor, 1852 1926]; no mais, todo seu aprendizado cultural se deu em casa e sob a orientação direta do pai; na capital paulista, foi pioneira na formação educacional do primeiro Jardim da Infância de São Paulo, anexo à Escola Normal da Capital [depois, Escola Normal Caetano de Campos, hoje Edifício Caetano de Campos, da Secretaria de Educação de São Paulo, na Praça da República]; traduziu obras dos idiomas inglês e italiano, colaborou com a Revista do Jardim da Infância, além de ter participado com adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano, A Província de São Paulo e A Cidade de Itu; suas obras: O Coração (poesias, 1893), Livro das Crianças (poesias, 1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); a poeta e educadora, mesmo sem formação acadêmica oficial, exerceu funções pedagógicas como auxiliar de diretoria na criação deste primeiro Jardim de Infância paulistano; hoje há na cidade de São Paulo duas instituições com seu nome: Escola Estadual Dona Zalina Rolim [Rua Luís Carlos, 740 Vila Aricanduva] e... isto é, havia... pois em pesquisa googleana, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa descobriu, através de página da prefeitura de São Paulo, que o Espaço de Leitura Zalina Rolim [Rua Corredeira, 26 Vila Mariana] encontra-se permanentemente desativado [notícia de fevereiro de 2023].

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Zalina Rolim: Em caminho


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Sou filha de lavradores;
Moro longe da cidade;
Amo os pássaros e as flores
E tenho oito anos de idade.

Quereis seguir-me à campina?
A tarde convida e chama,
O calor do sol declina,
E o horizonte é um panorama.

Neste samburá de vime
Levo cousa apetitosa;
Mas, ai! que ninguém se anime
A meter-lhe a mão curiosa.

É o jantar do papaizinho;
Manjares de fino gosto;
Carne, legumes, toucinho,
Tudo fresco e bem disposto.

Papai trabalha na roça;
O dia inteiro labuta;
Tem a pele rija e grossa
E a alma afeita à luta.

Mas leal, franco, modesto
Como ele, não há no mundo:
Vive de trabalho honesto,
Cavando o solo fecundo.

Acorda ao nascer da aurora,
Abre a janela de manso,
E o campo e os ares explora
Da vista aguda num lanço.

Depois, nos ombros a enxada,
Abraça a Mamãe, sorrindo,
Beija-me a face rosada
E vai-se ao labor infindo.

Em casa também se lida
Daqui, dali, todo o instante,
Que o trabalho é lei da vida
E nada tem de humilhante.

Depois do trabalho, estudo;
Abro os meus livros e leio;
Eles me falam de tudo
O que eu desejo e receio.

Contam-me histórias bonitas,
Falam da terra e dos ares,
De vastidões infinitas,
De rios, campos e mares.

Mamãe diz que são modelos
De amigos leais e finos;
Que a gente deve atendê-los
Como aos maternais ensinos.

E agora, adeus, até breve.
Eis-me de novo a caminho:
Não esfrie o vento leve
O jantar do papaizinho.

(Livro das Crianças — 1897)

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Zalina Rolim: poetisa e educadora [biografia e poesia] — Maria Amélia Blasi de Toledo Piza, 2008, Editora Ottoni, Itu — SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; passou parte de sua infância em Itapetininga, terra de seus familiares, mas também morou em Itapeva [ex Faxina], Araraquara, São Roque, Sorocaba e Itu, todas cidades do interior paulista, sempre acompanhando o pai, então juiz de Direito e nomeado para estas localidades; em 1893, a educadora e poeta mudou-se para a capital, São Paulo, quando o pai veio a assumir cargo no Tribunal de Justiça estadual; Zalina Rolim só frequentou regularmente uma escola em Itapeva, aos sete anos de idade e por um breve período, e ali também aprendeu português, francês, italiano e inglês em aulas ministradas por João Kopke [educador e escritor, 1852 1926]; no mais, todo seu aprendizado cultural se deu em casa e sob a orientação direta do pai; na capital paulista, foi pioneira na formação educacional do primeiro Jardim da Infância de São Paulo, anexo à Escola Normal da Capital [depois, Escola Normal Caetano de Campos, hoje Edifício Caetano de Campos, da Secretaria de Educação de São Paulo, na Praça da República]; traduziu obras dos idiomas inglês e italiano, colaborou com a Revista do Jardim da Infância, além de ter participado com adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano, A Província de São Paulo e A Cidade de Itu; suas obras: O Coração (poesias, 1893), Livro das Crianças (1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); a poeta e educadora, mesmo sem formação acadêmica oficial, exerceu funções pedagógicas como auxiliar de diretoria na criação deste primeiro Jardim de Infância paulistano; hoje há na cidade de São Paulo duas instituições com seu nome: Escola Estadual Dona Zalina Rolim [Rua Luís Carlos, 740 Vila Aricanduva] e... isto é, havia... pois em pesquisa googleana, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa descobriu, através de página da prefeitura de São Paulo, que o Espaço de Leitura Zalina Rolim [Rua Corredeira, 26 Vila Mariana] encontra-se permanentemente desativado [notícia de fevereiro de 2023].

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

genésio dos santos: ambígua idade

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caminho partes partidas
parte de mim se esvai
outra parte permanece
partes que se coabitam
cultivo a que se mantém
escapo da que se vai

ardor tumulto enxurrada
êxtase langor placidez
vida viceja em ambas
da parte que permanece
revolvo constantemente
viço lição semente

da parte que apodrece
reciclo-a como adubo
pra futuras gerações
esta parte presunçosa
parece querer dizer
sem ela o todo perece

sobreviverá nos livros?
guiará desorientados
para além do diz-que-diz-que
da lembrança familiar?

da outra parte, silêncio 
faz de conta que não ouve
faz de conta que é conforme
faz de conta que se ajeita

pedaços que já não colam
rodeiam feito satélites
num corpo que se faz uno
mas sabe que são só cacos
unidos em uma gosma
a que hoje chamamos vida

e a parte presunçosa
que ora mira o futuro
aos poucos se esfumaça 
os olhos já não dão conta
o olfato já não dá conta
o tato já não dá conta
o corpo já não dá conta

e o todo, sem se dar conta,
insiste em querer sentir
insiste em querer pensar
insiste em querer propor
insiste em querer viver

o faro já não dá conta
o instinto já não dá conta...

contemplativo e silente
num presente sem urgências
partilho partes partidas

(2019—2023)

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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

domingo, 30 de julho de 2023

Zalina Rolim: Tanto se alarga e toma corpo e avulta . . . [soneto]


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Tanto se alarga e toma corpo e avulta
No seio meu esta afeição, que embora
Lute e me esforce já ninguém ignora
E eu já não posso mais trazê-la oculta;

Canta em meus olhos, meu sorriso enflora;
Oráculo ideal que olha e consulta
Minha alma — dia a dia, e alegre exulta
Se ele sorri-se ou chora se ele chora.

Por este afeto a minha vida inteira;
Nele acendeu-se a minha luz primeira,
Nele o meu céu, meus íntimos altares!

Ria-se embora o mundo impiedoso:
Pelos fulgores do terreno gozo
Eu não daria um só dos seus olhares...

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Zalina Rolim — Arruda Dantas [biografia e poemas], Apresentação [Prefácio], Organização de dados biográficos e Posfácio “Post Scriptum” de Arruda Dantas, 1983, Editora Pannartz, São Paulo — SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; passou parte de sua infância em Itapetininga, terra de seus familiares, mas também morou em Itapeva [ex Faxina], Araraquara, São Roque, Sorocaba e Itu, todas cidades do interior paulista, sempre acompanhando o pai, então juiz de Direito e nomeado para estas localidades; em 1893, a educadora e poeta mudou-se para a capital, São Paulo, quando o pai veio a assumir cargo no Tribunal de Justiça estadual; Zalina Rolim só frequentou regularmente uma escola em Itapeva, aos sete anos de idade e por um breve período, e ali também aprendeu português, francês, italiano e inglês em aulas ministradas por João Kopke [educador e escritor, 1852 1926]; no mais, todo seu aprendizado cultural se deu em casa e sob a orientação direta do pai; na capital paulista, foi pioneira na formação educacional do primeiro Jardim da Infância de São Paulo, anexo à Escola Normal da Capital [depois, Escola Normal Caetano de Campos, hoje Edifício Caetano de Campos, da Secretaria de Educação de São Paulo, na Praça da República]; traduziu obras dos idiomas inglês e italiano, colaborou com a Revista do Jardim da Infância, além de ter participado com adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano, A Província de São Paulo e A Cidade de Itu; suas obras: O Coração (1893), Livro das Crianças (poesias, 1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); a poeta e educadora, mesmo sem formação acadêmica oficial, exerceu funções pedagógicas como auxiliar de diretoria na criação deste primeiro Jardim de Infância paulistano; hoje há na cidade de São Paulo duas instituições com seu nome: Escola Estadual Dona Zalina Rolim [Rua Luís Carlos, 740 Vila Aricanduva] e... isto é, havia... pois em pesquisa googleana, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa descobriu, através de página da prefeitura de São Paulo, que o Espaço de Leitura Zalina Rolim [Rua Corredeira, 26 Vila Mariana] encontra-se permanentemente desativado [notícia de fevereiro de 2023].