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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Peire Cardenal: Estribote

 
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[traduzido por Augusto de Campos}

Farei um estribote com mestria e arte,
Palavras novas em louvor da divindade,
Pois creio em Deus, feito homem e gerado
Em vigem santa para sermos resgatados;
No pai, no filho e na santa trindade,
A saber, três pessoas em uma unidade,
E que o arco do céu foi por ele quebrado
Para lançar no inferno o anjo revoltado;
E acredito que São João o teve entre seus braços
E o levou para o rio, onde foi batizado,
E que o reconheceu pelo sinal gravado
No ventre de sua santa mãe, antes do parto;
Creio em Roma e São Pedro, por Deus designado
Juiz de penitência, senso e insanidade.
Mas não creio nos frades, reis da falsidade,
Ávidos por dinheiro, avaros de bondade,
Belos por fora, estufados de pecado,
Que aos outros interdizem os seus próprios atos.
Em lugar de matinas, agora são versados
Em dormir com putanas, até que o sol vai alto,
E só cantam baladas e salmos transviados:
Antes, é ver no céu Caifás e Pilatos.
Outrora os sacerdotes viviam encerrados
E adoravam a Deus diante dos santos adros;
Hoje vão à cidade e viram potentados.
Se tendes uma amante ou sóis homem casado,
Façam de cobertor; sem serdes consultado,
Sobre a vossa mulher, cujo sexo é selado
Com as bolas redondas que lhes pendem do cajado;
Cartas lacradas e buracos bem tapados,
Eis de onde saem os herejes e os malvados,
Que juram e renegam e jogam com três dados;
Assim os monges negros fazem a caridade.
Meu estribote finda, todo compassado,
Segundo a boa arte e as leis da divindade,
Se eu falei mal, que seja perdoado,
Só desejo é que Deus seja mais bem amado
E, pelo amor de Deus, esfolados os frades.


Estribot

Un estribot farai que er mot maistratz,
De motz novels e d'art e de divinitatz,
Qu'ieu ai en Dieu crezensa, que fon de maire natz,
D'une santa pieusela, per que’I mons es salvatz;
Et es paire e filhs e santa trinitatz,
Et es en tres personas et una unitatz;
E cre que’l cels e’l tros ne fos per et traucatz,
E’n trabuquei los angels, can los trobet dampnatz;
E crey que Sans Joans lo tenc entre sos bratz
E’l bateget en l’aigua et flum, can fo propchatz;
E conosco be la senha abanchas que fos natz,
El ventre de sa maire que’s vols al destre latz;
E cre Rom' e Sant Peire, a cuy fon comandatz
Jutge de penedensa, de sen e de foldatz.
Mas so non crezon clerge, que fan las falcetatz,
Que son larc d'aver penre et escas de bontatz,
E son bel per la cara et ore de peccatz,
E devedon als autres d’aco que fan lurs atz.
Et en loc de matinas an us ordes trobatz
Que jazon ab putanas tro’l solelhs es levatz;
Enans canton baladas e prozels trasgitatz,
Abans conquerran Dieu Cayfas o Pilatz.
Monge solon estar dins los mostiers serratz,
On adzoravon Dieu denan las magestatz;
Era son en las vilas, on an lurs poestatz.
Si avetz bela femna o es homs molheratz,
El seran cobertor, sieus peza o sieus platz;
E cant el son dessus e’l con son sagelatz
Ab las bolas redondas que pendon ais matratz,
Can Ias letras son clauzas e lo traucx es serratz,
D'aqui eyson li’ retge e li essabatatz,
Que juron e renegon e jogon a tres datz;
Aiso fan monge negre en loc de caritaz.
Mon estribot fenis, que es tot compassatz,
C’ai trag de gramatica e de divinitatz,
E si mal o ai dig, que’n sia perdonatz,
Que yeu o dic per Dieu, qu'en sia pus amatz,
E per ma! estribatz clérigos.
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Verso Reverso Controverso: Augusto de Campos estudos críticos e poemas bilíngue de várias autorias, Apresentação, Tradução dos poemas, Informação bibliográfica e Notas de Augusto de Campos, 2ª edição revista, 1998, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Peire Cardenal (c. 1216 1271, datas aproximadas), trovador satírico, nascido na comuna Le Puy-en-Velay, departamento de Haute-Loire, região francesa de Auvergne-Rhône-Alpes, tido como um dos últimos trovadores provençais, “deu ao gênero uma nova dimensão de protesto social. Cardenal protesta contra os ricos, contra o clero e contra as mulheres, com uma energia e uma perícia dificilmente igualáveis na poesia ocitânica”; de seus traços biográficos, consta ter sido educado como cônego, educação voltada à poesia lírica vernácula e que, em prol da “vaidade humana”, abandonou seu ofício na igreja; acerca de sua obra, tem-se que restaram, e chegaram até nós, “96 peças suas, um número raramente igualado por outros poetas da época”.

sábado, 31 de agosto de 2024

Peire Cardenal: Serventês

 
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[traduzido por Augusto de Campos}

Tenho horror à impostura e à falsidade,
Mas da verdade sou servo fiel,
Quer minha voz agrade ou desagrade
Não calo, minha luta é sem quartel.
A lealdade às vezes trás revés
E a má fé boa sorte muita vez,
Mas o vilão que salta à nossa frente
Do alto irá cair rapidamente.

Os ricos têm tão grande piedade
Dos seus irmãos, quanto Caim de Abel.
Ganham dos lobos em rapacidade
E mentem mais que moças de bordel.
Se os furardes em dois pontos ou três
Nenhuma só verdade colhereis,
Só mentira, que neles é corrente
E sobreverte como uma torrente.

Vejo barões de tanta validade
Quanto os vidros que enfeitam um anel,
Quem confia na sua probidade
Dá lobo por ovelha, fel por mel.
Pois eles não têm peso nem nobreza,
Lembram rosários de rara beleza,
Com flor e cruz e lúcida corrente
De prata falsa que a fusão desmente.

De leste a oeste, a toda a humanidade
Proponho um trato novo, sem igual:
Aos leais darei ouro em quantidade
Se os desleais me derem um real.
Um marco de ouro darei ao cortês
Se cada descortês me der um réis.
Um monte de ouro a todo o que é decente
Por um ovo de cada um que mente.

Os homens que ainda têm honestidade
Cabem numa só tira de papel
Que eu poderia guardar na metade
Do polegar da luva. Um só farnel
Daria para a fome dos leais;
Mas se eu fosse prover para os venais,
Nem que tivesse todo um continente
Para dar de comer a tanta gente!

A esse que só na face tem bondade
Não tolero que chamem de leal,
Nem verdadeiro ao que ri da verdade,
Nem justo ao que só sabe fazer mal.
Pois quem fez mal não deve ter lauréis,
Nem honrarias e nem rapapés.
Assim diz o ditado sabiamente:
Quem uma vez mentiu, outra não tente.

A todos clamo neste serventês:
Quem a verdade, o amor e a honradez
Não respeitar, que nunca se apresente
Diante de mim com veste de inocente.

Peire Cardenal

Sirventes

Tos temps azir falsetat et enjan
Et ab vertat et ab dreg mi capdeth,
E si per so vauc atras o enan,
No m'en rancur, ans m'es tot bon e belh;
Que’ls us dechai iiaitatz manhtas ves
E’ls autres sors enjans e mala fes;
Mas si tant es qu'om per falsetat mon,
D'aquel montar dissen pueys en preon.

Li ric home an pietat tan gran
De l’autra gen, quon ac Cayms d'Abei,
Que mais volon tolre que lop no fan
E mais mentir que tozas de bordelh;
Si’ls crebavatz en dos locx o en tres,
No us cugessetz que vertatz n’issis ges,
Mas messongas, don an al cor tal fon
Que sobrevertz cum aigua de toron.

Manhs baros vey en manhs luecx que y estan
Plus falsamens que veyres en anelh,
E qui per fis los ten, falh atretan
Cum si un Iop vendia per anhel;
Quar ilh no son ni de ley ni de pes,
Ans foron fag a ley de fals poges,
On par la cros e la flors en redon,
E no y trob' om argent, quan io refon.

Des orient entro'l solelh colguan
Fas a la gent un covinent novelh:
Al lial home donaral un bezan,
Si’l deslials mi dona un clavelh,
Et un marc d'aur donarai al cortes,
Si’l deschauzitz mi dona un tornes,
Al vertadier darai d'aur un gran mon,
S'avi' eu un huou dels messongiers qui son.

Tota la ley que’l mais de la gens an,
Escrivri' eu en fort petit de pelh;
En la mitat dei polguar de mon guan;
E’ls prozomes payssera d'un gastelh;
Quar ja pels pros no fora cars conres,
Mas si fos hom que los malvatz pagues,
Cridar pogratz e non gardessetz on:
Venetz manjar, li pro home dei mon!

Sei qui no val ni ten pro per semblan,
Pro ni valen no’s tanh que hom l'apel,
Ni dreituríer, quan met dreg en soan,
Ni vertadier, quan vertat nos espel;
Car qui fai mal ni tort, razos non es
Qu'en cueilla grat ni gran lauzor ni pres,
Anz es ben digz us reprochiers pel mon:
Sel qu'una ves escoria, autra non ton.

A totas gens dic e mon sirventes,
Que, si vertatz e dreitura e merces
Non governon home en aquest mon,
Ni sai ni lay no cre valors l'aon.
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Verso Reverso Controverso: Augusto de Campos estudos críticos e poemas bilíngue de várias autorias, Apresentação, Tradução dos poemas, Informação bibliográfica e Notas de Augusto de Campos, 2ª edição revista, 1998, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Peire Cardenal (c. 1216 1271, datas aproximadas), trovador satírico, nascido na comuna Le Puy-en-Velay, departamento de Haute-Loire, região francesa de Auvergne-Rhône-Alpes, tido como um dos últimos trovadores provençais, “deu ao gênero uma nova dimensão de protesto social. Cardenal protesta contra os ricos, contra o clero e contra as mulheres, com uma energia e uma perícia dificilmente igualáveis na poesia ocitânica”; de seus traços biográficos, consta ter sido educado como cônego, educação voltada à poesia lírica vernácula e que, em prol da “vaidade humana”, abandonou seu ofício na igreja; acerca de sua obra, tem-se que restaram, e chegaram até nós, “96 peças suas, um número raramente igualado por outros poetas da época”.