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[traduzido por Augusto de Campos}
Farei um estribote com mestria e arte,
Palavras novas em louvor da divindade,
Pois creio em Deus, feito homem e gerado
Em vigem santa para sermos resgatados;
No pai, no filho e na santa trindade,
A saber, três pessoas em uma unidade,
E que o arco do céu foi por ele quebrado
Para lançar no inferno o anjo revoltado;
E acredito que São João o teve
entre seus braços
E o levou para o rio, onde foi
batizado,
E que o reconheceu pelo sinal
gravado
No ventre de sua santa mãe,
antes do parto;
Creio em Roma e São Pedro, por
Deus designado
Juiz de penitência, senso e
insanidade.
Mas não creio nos frades, reis
da falsidade,
Ávidos por dinheiro, avaros de
bondade,
Belos por fora, estufados de
pecado,
Que aos outros interdizem os
seus próprios atos.
Em lugar de matinas, agora são
versados
Em dormir com putanas, até que
o sol vai alto,
E só cantam baladas e salmos
transviados:
Antes, é ver no céu Caifás e
Pilatos.
Outrora os sacerdotes viviam
encerrados
E adoravam a Deus diante dos
santos adros;
Hoje vão à cidade e viram potentados.
Se tendes uma amante ou sóis
homem casado,
Façam de cobertor; sem serdes
consultado,
Sobre a vossa mulher, cujo
sexo é selado
Com as bolas redondas que lhes
pendem do cajado;
Cartas lacradas e buracos bem
tapados,
Eis de onde saem os herejes e os
malvados,
Que juram e renegam e jogam
com três dados;
Assim os monges negros fazem a
caridade.
Meu estribote finda, todo
compassado,
Segundo a boa arte e as leis
da divindade,
Se eu falei mal, que seja
perdoado,
Só desejo é que Deus seja mais
bem amado
E, pelo amor de Deus,
esfolados os frades.
Estribot
Un estribot farai que er mot
maistratz,
De motz novels e d'art e de
divinitatz,
Qu'ieu ai en Dieu crezensa,
que fon de maire natz,
D'une santa pieusela, per que’I
mons es salvatz;
Et es paire e filhs e santa
trinitatz,
Et es en tres personas et una
unitatz;
E cre que’l cels e’l tros ne
fos per et traucatz,
E’n trabuquei los angels, can
los trobet dampnatz;
E crey que Sans Joans lo tenc
entre sos bratz
E’l bateget en l’aigua et
flum, can fo propchatz;
E conosco be la senha abanchas
que fos natz,
El ventre de sa maire que’s
vols al destre latz;
E cre Rom' e Sant Peire, a cuy
fon comandatz
Jutge de penedensa, de sen e
de foldatz.
Mas so non crezon clerge, que
fan las falcetatz,
Que son larc d'aver penre et
escas de bontatz,
E son bel per la cara et ore
de peccatz,
E devedon als autres d’aco que
fan lurs atz.
Et en loc de matinas an us
ordes trobatz
Que jazon ab putanas tro’l
solelhs es levatz;
Enans canton baladas e prozels
trasgitatz,
Abans conquerran Dieu Cayfas o
Pilatz.
Monge solon estar dins los
mostiers serratz,
On adzoravon Dieu denan las
magestatz;
Era son en las vilas, on an lurs
poestatz.
Si avetz bela femna o es homs
molheratz,
El seran cobertor, sieus peza
o sieus platz;
E cant el son dessus e’l con
son sagelatz
Ab las bolas redondas que
pendon ais matratz,
Can Ias letras son clauzas e
lo traucx es serratz,
D'aqui eyson li’ retge e li
essabatatz,
Que juron e renegon e jogon a
tres datz;
Aiso fan monge negre en loc de
caritaz.
Mon estribot fenis, que es tot
compassatz,
C’ai trag de gramatica e de
divinitatz,
E si mal o ai dig, que’n sia
perdonatz,
Que yeu o dic per Dieu, qu'en
sia pus amatz,
E per ma! estribatz clérigos.
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Verso Reverso Controverso: Augusto de Campos — estudos críticos e poemas bilíngue de várias autorias,
Apresentação, Tradução dos poemas, Informação bibliográfica e Notas de Augusto de
Campos, 2ª edição revista, 1998, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Peire Cardenal (c. 1216 — 1271, datas aproximadas), trovador satírico, nascido
na comuna Le Puy-en-Velay, departamento de Haute-Loire, região francesa de Auvergne-Rhône-Alpes,
tido como um dos últimos trovadores provençais, “deu ao gênero uma nova dimensão
de protesto social. Cardenal protesta contra os ricos, contra o clero e contra as
mulheres, com uma energia e uma perícia dificilmente igualáveis na poesia ocitânica”;
de seus traços biográficos, consta ter sido educado como cônego, educação voltada
à poesia lírica vernácula e que, em prol da “vaidade humana”, abandonou seu ofício
na igreja; acerca de sua obra, tem-se que restaram, e chegaram até nós, “96 peças
suas, um número raramente igualado por outros poetas da época”.