Mostrando postagens com marcador Manoel Herzog. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Manoel Herzog. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de abril de 2015

Manoel Herzog: Programando a noite de amor

____________________
< Primeira tentativa >

Às onze conecto a rede
Plugo eletrodos no tampo
Pego o protótipo e a sede
Lasciva se lança a campo.

(O sistema informa: "Desculpe, esta máquina não reconhece quadrinhas em versos heptassílabos rimados. Tente heptassílabos brancos ou quadrinhas em decassílabos")

< Segunda tentativa >

Faz tempo que adquiri um novo boneco
Par de sexos, cabeças três tipos
Corrido liso crespo corte reco
Est'ultimo faz estilo joãozito.

(accept)

Mais barato que puta ou que marido
Troca de cor cabelo sexo ou cara
Regula-se a umbigada e até o gemido
Satisfação desejo sonho ou tara.

(accept)

Ruim é sair do modelo
De quatro versos, binários
Sistema lê, senão quadras,
Só os heptassílabos brancos.

( O sistema informa: "Desculpe, você mudou a matriz de quadrinhas decassilábicas para heptassílabos brancos. Eleja um único tipo de linguagem e continue sua programação erótico-poética. Bom divertimento")

< Terceira tentativa >

Antropomorfo boneco
Ligado em computador
Eu vou ligado também
Pelos eletrodos todos
Toda irradiação que eu mando
Lá nalgum lugar do mundo
Num computador dum outro
Se reflete em seu boneco
Se eu bimbar boneco bimba
Se eu chupar boneco chupa
Não sei com quem estou brincando
Mas também pouco isso importa
Se é mulher, se é homem, bicho
Só fodemos personagens
Nessa impessoal trepada
Cibernética d'agora
Imune a qualquer virose
Desilusão amorosa.
Os bonecos são perfeitos
Pele pelos cheiros todos
Temperatura de gente
Movimentam qual queiramos
Como mandem nossas ondas
Mentais pros computadores
Sexo virtual pra gente
Mas bem real pros bonecos
Teletransporte de transa
Foda de metempsicose
Transmigração d'almas coito
Celestial, sensorial.
Só se impõe nisto, contudo,
Frente a tais modernidades
A adoção de uma linguagem
Padronizada de máquina
Verso duro, em heptassílabo 
Liberdade tem limite 
Pra gozar desde que em lóculos
Sextavados, megabytes
Podem-se inventar manias
Taras medos tudo é aceito
No boneco impessoal,
Menos se fugir de um metro
Menos se voltar a um tempo
Onde os corpos se sonhavam
De amor extravideogame.

____________________
Hiperconexões: realidade expandida  poemas, volume 2 (vários autores), Organização de Luiz Bras, Posfácio-Linguagens de Victor Del Franco, 2014, Editora Patuá, São Paulo  SP; sobre Manoel Herzog, paulista de Santos, nascido em 1964, advogado, poeta e romancista, em 'Nós, ciborgues'  últimas páginas de Hiperconexões , escreveu-se que "além da vida material presente, em que é representado por um clone, aloca-se num futuro onde escreve por mediunidade, incorporando entidades astrais. Dedica-se ao erotismo e às experiências bizarras no mundo virtual, base de sua literatura"; Manoel Herzog publicou Brincadeira Surrealista (poesia, 1987), Os Bichos (romance, 2012), Companhia Brasileira de Alquimia (romance, 2013), A comédia de Alissia Bloom (poesia, 2014); coordena oficinas de literatura e escreve crônicas no site Cinezen.