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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Catulo da Paixão Cearense: O Marruêro (1)

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Sá dona, 2 eu sou marruêro!... 
Nacendo, cumo tinguí, 
fui ruim, cumo piranha, 
mais pió que sucuri.

Pixúna daquelas banda, 
véve a gente a campiá!... 
Deus fez o hôme, sá dona, 
prá vivê sêmpe a lutá.

Meu pai foi bixo timíve 
e eu fui timíve tômbém! 
O pinto já sai do ovo 
cum a pinta que o galo tem. 
Se meu pai foi marruêro, 
havéra de eu tá na tóca, 
a rapá no caitetú 
a massa da mandioca?! 

Bebedô de manduréba, 
pissuindo carne e caroço, 
eu nunca vi cabra macho 
que me fizesse sobrôço! 

Nunca drumí uma noite 
imbaxo de tejupá!... 
Nací prá vivê nas gróta, 
prá vivê nos môcôsá... 
prá drumi longe dos rancho, 
purriba duns gravatá... 
vendo a lua pulas fôia 
d’um férmôso iriribá!
Nos gaio da umarizêra, 
o cantá do sanhassú; 
na boca triste da noite, 
o gimido da inhabú... 

as tuada da cabôca, 
lavando n’água do rio, 
e os canto, prú via dela, 
nos samba... nos disafio... 
nada disso, não, sá dona, 
me dava sastisfação, 
cumo o mugido bravio 
dos valente barbatão!

Nada fazia, sá dona, 
o coração me pulá, 
cumo uví pulas varjóta, 
os berro dos marruá! 

Na paz de Deus eu vivia 
nos brêdo dos matagá, 
tocando a minha viola 
só prá meu gado iscutá. 

Lá, prás banda onde eu vivia 3 
já se falava do amô: 
todas as boca dizia 
que era farso e matadô! 

Mas porém, foi trazantonte, 
no samba do Zé Benito, 
que eu apanhei uma chifrada 
que me deu esse Mardito! 

Nas marvadage do Amô 
não hai cabra que não cáia, 
quando o diabo tira a roupa, 
tira o chifre e tira o rabo 
prá se vistí cuma sáia! 

Se adisfoiando n’um samba, 
cantando uma alouvação, 
eu vi a frô dos cabôrge 
das morena do sertão! 

Trazia dento dos óio 
instrépe e mé, cumo a abêia! 
Oiôu-me cumo uma onça!... 
E, ao despois, cumo uma ovêia! 

Aqueles óio, sá dona, 4 
eu confesso a vasmincê, 
ruía a gente prú dento 
que nem dois caxinguelê! 

Sem mardade, um bêjo dado 
naquela boca orvaiada, 
havéra de tê, sá dona, 
o chêro das madrugada! 

A fala dela, sá dona, 
era o gemê do regato, 
que vae bêjando as fôiáje, 
que cái da bôca dos mato! 

As duas rôla morena, 
prú baxo do cabeção, 
chêrava 5 cumo a água fresca, 
das lagôa do sertão!... 

Pruquê os dois peito alembrava 
dois maduro cajá-manga, 
e a bôca, toda vremeia, 
paricia uma pitanga. 

Chêrava as mão da cabôca, 
cumo os verde maturí!... 
Era taliquá, sá dona, 
dois ninho de jurití! 

Os pezinho da cabôca 6
quando dansava o baião, 
paricia dois pombinho, 
a mariscá pulo chão! 

Ai, sá dona!... 7 A sáia dela, 
cô das pena da irerê, 
tinha os ôrôma 8 dos mato, 
quando vai anoitecê!!

Aquêles braço, sá dona 9
(Deus não me castigue, não!!) 
tinha o calô das fuguêra 10
das noite de São João!... 

Sá dona!... Os cabelo dela 
tinha o calô naturá 
da pomba virge dos mato, 
quando cumeça a aninhá!... 

Apois, os cabelo dela 
tão prêto prô chão caía, 
que toda a frô que butava 
nos cabelo, a frô murchava, 
pensando que anoiticia!!

O suô que ela suava 
no samba, chêrava tanto, 
que inté a gente sintia 11
um chêro de dia santo! 

As anca, as cadêra dela, 
surrupiando no côco, 
toda a se tamborilá, 
a móde que parecia 
o xaquaiá de uma onda, 
que vem jupiando, redonda, 
na praia se derramá! 

Japiaçóca dos brejo, 
no arrastado do rojão, 
cantava cum tanta magua, 
cum tanto amô e paxão, 
que ispaiava, no terrêro, 
um chêro de coração! 12

O coração das viola 
aparava, de mansinho, 
se os dois fióte de rola, 13
pulava fóra do ninho!... 

Entonce, aquêles dois óio, 
sereno, cumo o luá, 
vinha prá riba da gente, 
taliquá dois marruá. 

Intrava dento da gente, 
cumo duas zelação!... 
Mas porém, a gente via, 
no fundo daqueles óio, 
a hora da Ave-Maria, 
gemendo nas corda fria 
das viola do sertão!!! 

Prú móde daqueles óio, 
dois marvado mucuim, 
um violêro, afulêmado, 
partiu prá riba de mim! 

Temperei minha viola, 
intrei logo a puntiá, 
e ambos os dois nos peguêmo, 14
n’um disafio, ao luá! 

Prémêtí a Santo Antônio, 
se eu saísse vencedô, 15 
de infeitá o seu fiínho 
cum um ramaiête de frô! 

Só despois que nestas corda 
fiz pinto cessá xerêm, 
vi que o bichão se chamava: 
 Manué Juaquim do Muquêm.

Manué Juaquim era um cabra 
naturá de Piancó!... 
Quando gimia no pinho, 
chorava, cumo um jaó! 

Eu, sá dona, arrespundia 
nestas corda de quandú, 
e os acalanto se abria, 
cumo as frô do imbirucú.

Foi despois do disafio, 
quando eu saí vencedô, 
que os canto e os gemê dos pinho 
n’uma porquêra 16 acabô. 

Inquanto nós dois cantava, 
sem ninguém tê dado fé, 
tinha fugido a cabôca 
cum o Pedro Cachitoré!!! 17

Tinha fugido, sá dona, 
aquela frô dos meus ai, 
cumo uma istrela que foge, 
sem se sabê prá onde vai!!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

O canto alegre dos galo 17-a
nos sertão 18 amiudava!...
Nos taquará das lagôa 
as saracura cantava!... 

Cantando, 19 passava um bando 
das verde maracanã!... 
Férmosa, cumo a cabôca, 
vinha rompendo a minhã! 

O vento manso da serra 
vinha acordando os caminho!...
Vinha das mata chêrosa 
um chêro de passarinho!... 

Lá, no fundo 20 d’uma gróta, 
adonde um córgo gimía, 
gargaiava as siriêma 
cum o fresco nacê do dia.

Uma araponga, atrépada 
n’um braço de mato, im frô, 
gritava, cumo si fôsse 
os grito da minha dô!!

E a sabiá, lá nos gaio 
da larangêra, 21 serena, 
cantava, 22 cumo si fosse 
uma viola de pena! 

Um passarinho inxirido, 
mardosamente iscundido 
nas fôia de um tamburi, 
sastifeito, mangofando, 
de mim se ria, gritando 
lá de longe: “bem te vi”! 

Chegando na incruziada, 
despois do dia rompê, 
sipurtei o meu segredo 
n’um véio tronco de ipê.

Dênde essa hora, inté hoje, 
eu conto as hora, a pená!... 
Eu vórto a sê marruêro!... 
Vou vivê cum os marruá! 

Eu tinha o corpo fechado 
prá tudo o que é marvadez! 
Só de surucucutinga 
eu fui murdido trez vez!... 23

Dos marruá mais bravio, 
que nos grotão derribei, 
munta pontada, sá dona, 24 
munta chifrada 25 eu levei.

Prá riba de mim, Deus pode 
mandá o que êle quizé! 

O mundo é grande, sá dona,
Grande é o amô!... Grande é a fé!... 

Grande é o pudê de Maria, 
ispôsa de São José!... 

O Diabo, também, sá dona, 26 
foi grande!... Cumo inda é!!!

Mas porém, nada é mais grande, 
mais grande que Deus inté, 
que uma cornada dos chifre 27 
dos óio d’uma muié! 

(Meu Sertão, 1918, Rio de Janeiro, Livraria Castilho,
A. J. de Castilho  editor, pág. 75 a 85.)


Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
1 Domador de touros, pastor de gado.
2 Em transcrições posteriores (p. ex., Meu Sertão, 15ª edição, Rio, 1954, págs. 79 e segs. o vocativo  Sá dona, foi substituído por “marruêro”.
3 Na transcrição citada, pág. 81, está: “naci”, ao invés de “vivia”.
4 “xingoso”, ao invés de “sá dona”, na edição citada, pág. 82.
5 Está “trimia”, ao invés de “chêrava”; e antes do verso seguinte, foi intercalado este “quando o vento bêja as agua”, na edição referida, pág. 83.
6 Na edição citada, pág. 83: “curumba”, ao invés de “cabôca”.
7 Na transcrição mencionada, pág. 83, está: “Eu me alembro”, substituindo “Ai, sá dona!”
8 “tinha sôdade”, na transcrição citada, pág. 83, ao invés de “tinha os orôma”.
9 Na pág. 84 da edição mencionada, está “Aqueles braço de fogo”.
10 Na edição referida, pág. 84, está “quêmava cumo as fuguêra”.
11 Entre esse verso e o que se lhe segue, foi acrescentado, na edição citada, pág. 84, um outro: “um chêro de igreja nova”.
12 Na edição citada, pág. 85: “os ôrôma do coração”.
13 Na pág. 85 da edição referida foi intercalado, entre esse verso e o seguinte, um outro: “quando ela tava sambando”.
14 Na edição citada, pág. 86, está: “se”, ao invés de “nos”.
15 Na transcrição da edição citada, pág. 86, está: “se eu vencesse o cantadô”.
16 Na edição citada, pág. 87, está: “n’um turumbamba acabou”.
17 Entre essa quadra e a seguinte, foi intercalada, na edição referida, pág. 87, uma outra: “Tinha fugido a curumba/cum aquele bode ronhêro./um tocadô de pandêro/e runfadô de zabumba!”
17-a Essa quadra é precedida, na edição referida, pág. 88, da seguinte: “Na luz do Só, que acordava,/lá, no coró do Nacente,/a móde que Deus, contente,/cum a natureza sonhava!”
18 Na edição citada, pág. 88, está: “nos capoerão”.
19 Na edição citada, pág.88, está: “Alegre”, ao invés de “Cantando”.
20 Na transcrição referida, pág. 88, está: “fundão”.
21 Na transcrição mencionada, pág. 89, está “tabibúia”, ao invés de “larangêra”.
22 Na pág. 89, da edição citada: “trinava”, ao invés de “cantava”.
23 Depois dessa estrofe, na edição citada, pág. 90, há esse terceto: “tândo cum o corpo fechado,/prás feitiçage do Amô,/pensei que eu tava curado!”
24 Na edição citada, pág. 90, está: “munta chifrada penosa”.
25 Na edição mencionada, pág. 90, está: “marrada”, ao invés de “chifrada”.
26 Está, na edição citada, pág. 90: “O diabo, o Anjo mardito”.
27 Na edição referida, pág. 90, está: “que uma chifrada, marruêro”.
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume V — Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Catulo da Paixão Cearense (1863  1946), maranhense de São Luís, que interrompeu seus estudos para ser cantador, foi relojoeiro, poeta, músico, compositor, violonista, professor, teatrólogo e cantador; em 1912 compôs o seu primeiro poema, ‘O Marruêro’, um dos mais famosos de sua obra poética; transferindo-se para o Rio de Janeiro, já adolescente, durante anos dedicou-se à composição de modinhas que o celebrizaram e estão incorporadas na música popular brasileira, ‘Luar do Sertão’, Cabôca de Caxangá’, ‘Talento e Formosura’; sua bibliografia: Meu Sertão (1918), Sertão em Flor (1919), Poemas Bravios, Aos Pescadores (1923), Mata Iluminada, O Evangelho das Aves, Fábulas e Alegorias, Alma do Sertão (1928), Um Caboclo Brasileiro, Poemas Escolhidos (1944), Um Boêmio no Céu, e outros títulos; ainda em vida, o poeta foi homenageado com um busto, erigido no Passeio Público, no Rio de Janeiro, cidade onde ele sempre viveu desde que viera do norte. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Luís Carlos: A Catulo Cearense

A tua Musa, já não mais só tua,
Por ser lírica irmão da água da fonte,
Que, de muito correr sobre o horizonte,
Rola, por fim, no mar, que a perpetua.

Tanto apura a beleza, quando estua
Nas vertigens de luz da tua fronte,
Que a Terra do Brasil faz que desponte
Na glória virgem da beleza nua.

Primeiro trovador entre os primeiros,
O Sol e a Lua são teus dois tinteiros
De tintas velhas de esplendor tão novol

Por isso, eternos, o teu estro encerra
O espírito de sol da nossa terra
E o coração de luar do nosso povo.

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Poesias Escolhidas — Luís Carlos, Preâmbulo de Luís Carlos Junior e Apresentação/Prefácio de Lasinha Luís Carlos, 1970, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Nhô Bentico (Abílio Víctor): A morte de Catulo

Livro - Pitoco e Outros Poemas - Sebo do Messias
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A morte nunca foi boa,
puis ninguém ela perdoa.
A morte, que tudo vence,
num dia lindo d'um mêis
do ano quarenta e seis,
matô Catulo Cearense.

Dêxo as mata sintida,
as cachuêra imudecida;
ponhô de luto o grótão,
O próprio vento gemeu
baxinho: Morreu... morreu
o poeta d' "O Meu Sertão".

O bando de passarinho
ficô chorano nos ninho
quano Catulo morreu!
As istrela, num cortêjo,
trazeno ramos de bêjo,
na iscada do céu desceu!

O sór tombô nas montanha,
numa tristeza tamanha,
amorteceno o clarão.
A lua, rasgano as mata,
c'os raio da cor de prata,
iluminô seu caixão...

A natureza interinha
sintiu a perda que tinha
c'a morte do trovadô;
no sereno que caía
a gente inté percebia
que a natureza chorô.

Morreu o pueta das mata,
das istrela e a lua de prata,
o cantadô do "Marruêro",
mais não morreu a sodade
que fica pr'a eternidade
no coração brasilêro!
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Pitoco e outros poemas  Coleção Pé Vermeio, Organização, Edição e Apresentação de Maria das Mercês Rocha Leite, 1ª  edição, 2007, Editora Petra, Tatuí SP; este poema foi publicado originalmente em Favas de Ingá; Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato (1938), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.

No linque http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/catulo3.html#12 estão disponíveis poemas de Catulo da Paixão Cearense (1863  1946) e textos sobre a sua obra e sua vida.