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[traduzido
por Paulo Henriques Britto]
Do Brooklyn, sobre a Brooklyn
Bridge, nesta manhã tão bela,
venha voando.
Numa clara nuvem química de
fogo,
venha voando,
ao rápido rufar de mil
tambores azuis
a descer do céu encarneirado
e se espalhar sobre a
arquibancada brilhante da enseada,
venha voando.
Apitos, fumaça e flâmulas
dançam ao vento. Navios
trocam sinais cordialmente com
uma abundância de bandeiras
que sobem e descem como
pássaros por todo o porto.
Entram dois rios, portando,
graciosos,
tantas geleiazinhas
translúcidas
em centros de mesa de cristal
a arrastar correias de prata.
É céu de brigadeiro, conforme
o combinado.
As ondas se sucedem como
versos nesta manhã tão bela.
Venha voando.
Venha traçando com o bico fino
de cada sapato preto
uma trilha cor de safira,
a capa cheia de asas de
borboleta e blagues,
e só Deus sabe quantos anjos
encarapitados
na aba negra e larga do
chapéu,
venha voando.
Trazendo um ábaco inaudível,
musical,
a fronte um pouco franzida de
censura, e fitas azuis,
venha voando.
Fatos e arranha-céus brilham
na água; Manhattan
está inundada de moral e bons
costumes nesta manhã tão bela,
por isso venha voando.
Singrando os céus com heroísmo
natural,
sobrevoando os acidentes, os
filmes perniciosos,
todos os táxis e injustiças à
solta,
enquanto as buzinas ressoam
nos seus belos ouvidos
que ao mesmo tempo escutam
uma harmonia suave, incriada,
digna do almiscareiro,
venha voando.
Por quem os museus severos hão
de comportar-se
como corteses tangarás,
por quem os simpáticos leões
aguardam
na escadaria da Biblioteca
Pública,
ansiosos por seguir-lhe os
passos
até as salas de leitura,
venha voando.
Podemos chorar; podemos ir às
compras,
ou jogar o jogo de estar
sempre equivocadas
com nossos preciosos
vocabulários,
ou, implacáveis, nos queixar,
mas por favor
venha voando.
Com dinastias de estruturas
negativas
escurecendo e morrendo a sua
volta,
com uma sintaxe que de súbito
vira e brilha
qual maçaricos a voar em
bando,
venha voando.
Venha feito uma luz no alvo
céu encarneirado,
feito um cometa à luz do dia
com uma cauda longa de
palavras nem um pouco nebulosos,
do Brooklyn, por sobre a
Brooklyn Bridge, nesta manhã tão bela,
venha voando.
(Uma Primavera Fria — 1955)
Invitation to Miss Marianne Moore
From Brooklyn, over the Brooklyn Bridge, on this fine morning,
please come flying.
In a cloud of fiery pale chemicals,
please come flying,
to the rapid rolling of thousands of small blue drums
descending out of the mackerel sky
over the glittering grandstand of harbor-water,
please come flying.
Whistles, pennants and smoke are blowing. The ships
are signaling cordially with multitudes of flags
rising and falling like birds all over the harbor.
Enter: two rivers, gracefully bearing
countless little pellucid jellies
in cut-glass epergnes dragging with silver chains.
The flight is safe; the weather is all arranged.
The waves are running in verses this fine morning.
Please come flying.
Come with the pointed toe of each black shoe
trailing a sapphire highlight,
with a black capeful of butterfly wings and bon-mots,
with heaven knows how many angels all riding
on the broad black brim of your hat,
please come flying.
Bearing a musical inaudible abacus,
a slight censorious frown, and blue ribbons,
please come flying.
Facts and skyscrapers glint in the tide; Manhattan
is all awash with morals this fine morning,
so please come flying.
Mounting the sky with natural heroism,
above the accidents, above the malignant movies,
the taxicabs and injustices at large,
while horns are resounding in your beautiful ears
that simultaneously listen to
a soft uninvented music, fit for the musk deer,
please come flying.
For whom the grim museums will behave
like courteous male bower-birds,
for whom the agreeable lions lie in wait
on the steps of the Public Library,
eager to rise and follow through the doors
up into the reading rooms,
please come flying.
We can sit down and weep; we can go shopping,
or play at a game of constantly being wrong
with a priceless set of vocabularies,
or we can bravely deplore, but please
please come flying.
With dynasties of negative constructions
darkening and dying around you,
with grammar that suddenly turns and shines
like flocks of sandpipers flying,
please come flying.
Come like a light in the white mackerel sky,
come like a daytime comet
with a long unnebulous train of words,
from Brooklyn, over the Brooklyn Bridge, on this fine morning,
please come flying.
(A Cold Spring — 1955)
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O Iceberg Imaginário e outros poemas — Elizabeth Bishop [edição
bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo Crítico e Notas de Paulo Henriques Britto,
2001, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Elizabeth Bishop (1911 — 1979), estadunidense
de Worcester, Massachusets, concluiu o secundário no Walnut
Hill School, Natick — Massachusetts,
depois estudou no Vassar
College, Poughkeepsie — estado
de Nova York, faculdade na qual cursou Inglês e Literatura dos Séculos XVI e XVII, foi poeta, professora,
escritora e epistológrafa; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo na
cidade do Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto — MG, onde adquiriu
uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brazil
(1962-1963, em parceria com Emanuel Brasil); suas obras: antologia Trial
balances (estréia da publicação em livro, apresentada pela poeta Marianne
Moore, 1935), North & South (coleção de poemas, 1946), Poems: North & South. A Cold Spring (1955),
Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete
Poems (1969), Geography III (1976), One Art: Letters, selected and edited by Robert
Giroux (Uma Arte — As Cartas de Elizabeth Bishop, 1994-1995), Edgar Allan Poe &
The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments by Elizabeth Bishop (editado
e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos em verso e prosa; verteu para o
inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira,
João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por
ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria
com Emanuel Brasil; recebeu premiações: Pulitzer Prize for Poetry (1956,
por Poems: North & South. A Cold
Spring), National Book Award for Poetry (1970, por The Complete Poems), Books Abroad/Neustadt
International Prize (1976) + outros prêmios e honrarias; em 1949, a poeta foi
consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington D. C. e, em
1966, iniciando-se a dar aulas de literatura, lecionou na University of
Washington, Seatle, depois vieram Harvard University, Cambridge — Massachusets,
e New York University; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se
amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria
Carlota), com quem passou a conviver [de 1951 a 1967], e cuja história é mostrada
no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz
Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.



