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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Elizabeth Bishop: Convite a Marianne Moore

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Do Brooklyn, sobre a Brooklyn Bridge, nesta manhã tão bela,
      venha voando.
Numa clara nuvem química de fogo,
      venha voando,
ao rápido rufar de mil tambores azuis
a descer do céu encarneirado
e se espalhar sobre a arquibancada brilhante da enseada,
      venha voando.

Apitos, fumaça e flâmulas dançam ao vento. Navios
trocam sinais cordialmente com uma abundância de bandeiras
que sobem e descem como pássaros por todo o porto.
Entram dois rios, portando, graciosos,
tantas geleiazinhas translúcidas
em centros de mesa de cristal a arrastar correias de prata.
É céu de brigadeiro, conforme o combinado.
As ondas se sucedem como versos nesta manhã tão bela.
      Venha voando.

Venha traçando com o bico fino de cada sapato preto
uma trilha cor de safira,
a capa cheia de asas de borboleta e blagues,
e só Deus sabe quantos anjos encarapitados
na aba negra e larga do chapéu,
      venha voando.

Trazendo um ábaco inaudível, musical,
a fronte um pouco franzida de censura, e fitas azuis,
      venha voando.
Fatos e arranha-céus brilham na água; Manhattan
está inundada de moral e bons costumes nesta manhã tão bela,
      por isso venha voando.

Singrando os céus com heroísmo natural,
sobrevoando os acidentes, os filmes perniciosos,
todos os táxis e injustiças à solta,
enquanto as buzinas ressoam nos seus belos ouvidos
que ao mesmo tempo escutam
uma harmonia suave, incriada, digna do almiscareiro,
      venha voando.

Por quem os museus severos hão de comportar-se
como corteses tangarás,
por quem os simpáticos leões aguardam
na escadaria da Biblioteca Pública,
ansiosos por seguir-lhe os passos
até as salas de leitura,
      venha voando.
Podemos chorar; podemos ir às compras,
ou jogar o jogo de estar sempre equivocadas
com nossos preciosos vocabulários,
ou, implacáveis, nos queixar, mas por favor
      venha voando.

Com dinastias de estruturas negativas
escurecendo e morrendo a sua volta,
com uma sintaxe que de súbito vira e brilha
qual maçaricos a voar em bando,
      venha voando.

Venha feito uma luz no alvo céu encarneirado,
feito um cometa à luz do dia
com uma cauda longa de palavras nem um pouco nebulosos,
do Brooklyn, por sobre a Brooklyn Bridge, nesta manhã tão bela,
      venha voando.

(Uma Primavera Fria — 1955)

Elizabeth Bishop

Invitation to Miss Marianne Moore

From Brooklyn, over the Brooklyn Bridge, on this fine morning,
      please come flying.
In a cloud of fiery pale chemicals,
      please come flying,
to the rapid rolling of thousands of small blue drums
descending out of the mackerel sky
over the glittering grandstand of harbor-water,
      please come flying.

Whistles, pennants and smoke are blowing.  The ships
are signaling cordially with multitudes of flags
rising and falling like birds all over the harbor.
Enter: two rivers, gracefully bearing
countless little pellucid jellies
in cut-glass epergnes dragging with silver chains.
The flight is safe; the weather is all arranged.
The waves are running in verses this fine morning.
      Please come flying.

Come with the pointed toe of each black shoe
trailing a sapphire highlight,
with a black capeful of butterfly wings and bon-mots,
with heaven knows how many angels all riding
on the broad black brim of your hat,
      please come flying.

Bearing a musical inaudible abacus,
a slight censorious frown, and blue ribbons,
      please come flying.
Facts and skyscrapers glint in the tide; Manhattan
is all awash with morals this fine morning,
      so please come flying.

Mounting the sky with natural heroism,
above the accidents, above the malignant movies,
the taxicabs and injustices at large,
while horns are resounding in your beautiful ears
that simultaneously listen to
a soft uninvented music, fit for the musk deer,
      please come flying.

For whom the grim museums will behave
like courteous male bower-birds,
for whom the agreeable lions lie in wait
on the steps of the Public Library,
eager to rise and follow through the doors
up into the reading rooms,
      please come flying.
We can sit down and weep; we can go shopping,
or play at a game of constantly being wrong
with a priceless set of vocabularies,
or we can bravely deplore, but please
      please come flying.

With dynasties of negative constructions
darkening and dying around you,
with grammar that suddenly turns and shines
like flocks of sandpipers flying,
      please come flying.

Come like a light in the white mackerel sky,
come like a daytime comet
with a long unnebulous train of words,
from Brooklyn, over the Brooklyn Bridge, on this fine morning,
      please come flying.

(A Cold Spring — 1955)
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O Iceberg Imaginário e outros poemas — Elizabeth Bishop [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo Crítico e Notas de Paulo Henriques Britto, 2001, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, concluiu o secundário no Walnut Hill School, Natick Massachusetts, depois estudou no Vassar College, Poughkeepsie estado de Nova York, faculdade na qual cursou Inglês e Literatura dos Séculos XVI e XVII, foi poeta, professora, escritora e epistológrafa; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo na cidade do Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto — MG, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brazil (1962-1963, em parceria com Emanuel Brasil); suas obras: antologia Trial balances (estréia da publicação em livro, apresentada pela poeta Marianne Moore, 1935), North & South (coleção de poemas, 1946), Poems: North & South. A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), One Art: Letters, selected and edited by Robert Giroux (Uma Arte — As Cartas de Elizabeth Bishop, 1994-1995), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments by Elizabeth Bishop (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos em verso e prosa; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu premiações: Pulitzer Prize for Poetry (1956, por Poems: North & South. A Cold Spring), National Book Award for Poetry (1970, por The Complete Poems), Books Abroad/Neustadt International Prize (1976) + outros prêmios e honrarias; em 1949, a poeta foi consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington D. C. e, em 1966, iniciando-se a dar aulas de literatura, lecionou na University of Washington, Seatle, depois vieram Harvard University, Cambridge Massachusets, e New York University; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver [de 1951 a 1967], e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Marianne Moore: Que são os anos?

 

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[traduzido por Jorge Wanderley]

Que é nossa inocência,
qual a nossa culpa? Todos estão
despidos, ninguém está a salvo. E de onde
vem a coragem  a pergunta não respondida
a dúvida resoluta,
chamando em mudez, ouvindo surda que
no infortúnio, mesmo a morte
encoraja outros
e na derrota estimula

a ama para que seja forte? Vê
em profundidade e é feliz, aquele
que atinge a mortalidade
e em sua prisão se eleva
sobre si mesmo como
o mar em um despenhadeiro, lutando para ser
livre e incapaz de sê-lo,
e encontra em sua rendição
sua continuidade.

Assim também, aquele que sente fortemente
se comporta. O pássaro, mesmo,
crescido enquanto canta, erige em aço
sua forma ascendente. Embora cativo,
seu canto poderoso
diz que a satisfação é mesquinha
coisa, quanto é coisa pura e alegria.
                    Isto é mortalidade.
                    Isto é eternidade.

Marianne Moore

What are years?

What is our innocence,
what is our guilt? All are
naked, none is safe. And whence
is courage: the unanswered question,
the resolute doubt,
dumbly calling, deafly listening that
in misfortune, even death,
encourages others
and in its defeat, stirs

the soul to be strong? He
sees deep and is glad, who
accedes to mortality
and in his imprisonment rises
upon himself as
the sea in a chasm, struggling to be
free and unable to be,
in its surrendering
finds its continuing.

So he who strongly feels,
behaves. The very bird,
grown taller as he sings, steels
his form straight up. Though he is captive,
his mighty singing
says, satisfaction is a lowly
thing, how pure a thing is joy.
                    This is mortality,
                    this is eternity.
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Antologia da Nova Poesia Norte-Americana — Seleção, Tradução e Notas de Jorge Wanderley, edição bilíngue, 1992, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro RJ; Marianne Moore (1887 1972), estadunidense de Kirkwood, Missouri, estudou no Bryn Mawr College e no Carlisle Commercial College, foi professora, escritora e poetisa modernista; trabalhou como editora da revista literária e cultural The Dial e foi divulgadora de então novos poetas, tais como Allen Ginsberg e Elizabeth Bishop; lecionou no Carlisle Indian School; em 1921, teve seu primeiro livro, Poems, publicado em Londres, com seus poemas tendo sido coletados em revistas e jornais, selecionados, organizados e editados pela poeta imagista H. D. (Hilda Doolittle), sem que houvesse conhecimento da autora; obras: Poems (1921), Selected Poems (1935), What Are Years (1941), Nevertheless (1944), Fables of La Fontaine (tradução, 1955), Idiosyncrasy and Technique (1956), The Absentee: A Comedy in Four Acts (dramatização de novela de Maria Edgeworth, 1962), The Complete Poems (1967), The Accented Syllable (1969) etc; além dos livros editados, Marianne Moore também teve seus poemas divulgados em jornais e revistas estadunidenses; foi laureada pelos Prêmio Pulitzer de Poesia, National Book Award e Prêmio Bollingen.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Marianne Moore: Poesia

 
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[traduzido por Jorge Wanderley]

Eu também não gosto dela: há coisas bem mais
                    importantes que toda esta frioleira.
Lendo-a, porém, com um profundo desprezo por ela, a
                    gente descobre
nela, de qualquer modo, um lugar para o que é genuíno.
                    Mãos que podem reter, olhos
                    que podem se ampliar, cabelos que podem se
                         eriçar
                         se for preciso, essas coisas são importantes,
                         não porque

uma altissonante interpretação lhes possa ser dada mas
                     porque são úteis. Quando elas começam a
                     derivar a ponto de se tornarem ininteligíveis,
a mesma acusação pode ser feita a nós outros,
                     que não admiramos o que
                     não podemos entender: o morcego
                          pendente de cabeça para baixo ou à
                          procura de algo para

comer, elefantes se empanturrando, um cavalo selvagem
                     rolando,
                     um lobo incansável sob
uma árvore, o crítico imóvel com arrepios no pelo como
                     um cavalo que sente uma pulga, o torcedor de
                     baseball, o técnico em estatística...
                                E nem vale o argumento
para discriminar entre "documentos profissionais e

livros escolares"; todos esses fenômenos são importantes.
                     É preciso fazer uma distinção,
porém: quando arrastada à fama por meios-poetas, o
                     resultado não é poesia,
                     a menos que os poetas entre nós possam ser
                          "intérpretes rigorosos da
                          imaginação"  acima
                     de insolência e trivialidades e que possam apresentar
para inspeção, jardins imaginários contendo rãs
                     verdadeiras; então nós a teremos encontrado.
Nesse ínterim, se você exige para uma mão
                          o rude material da poesia em
                     toda a sua rudeza e
                     para o que está na outra mão
                                legitimidade, então você se interessa por poesia.

Marianne Moore

Poetry

I, too, dislike it: there are things that are important beyond
                     all this fiddle.
Reading it, however, with a perfect contempt for it, one
                     discovers in
it, after all, a place for the genuine.
                     Hands that can grasp, eyes
                     that can dilate, hair that can rise
                          if it must, these things are important not
                          because a

high-sounding interpretation can be put upon them but
                     because
they are useful. When they become so derivative as to
                     become unintelligible,
the same thing may be said for all of us, that we
                     do not admire what
                     we cannot understand: the bat
                          holding on upside down or in quest of
                          something to

eat, elephants pushing, a wild horse taking a roll, a tireless
                     wolf under
a tree, the immovable critic twitching his skin like a horse
                     that feels a flea, the baseball fan, the statistician 
                          nor is it valid
to discriminate against “business documents and

school-books”; all these phenomena are important. One
                     must make a distinction
however: when dragged into prominence by half poets the
                     result is not poetry,
                     nor till the poets among us can be
                          “literalists of
                          the imagination”  above
                     insolence and triviality and can present
for inspection, imaginary gardens with real toads in them,
                     shall we have
it. In the meantime, if you demand on the one hand,
                     the raw material of poetry in
all its rawness and
that which is on the other hand
                     genuine, then you are interested in poetry.
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Antologia da Nova Poesia Norte-Americana — Seleção, Tradução e Notas de Jorge Wanderley, edição bilíngue, 1992, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Marianne Moore (1887 1972), estadunidense de Kirkwood, Missouri, estudou no Bryn Mawr College e no Carlisle Commercial College, foi professora, escritora e poetisa modernista; trabalhou como editora da revista literária e cultural The Dial e foi divulgadora de novos poetas, tais como Allen Ginsberg e Elizabeth Bishop; lecionou no Carlisle Indian School; em 1921, teve seu primeiro livro, Poems, publicado em Londres, com seus poemas tendo sido coletados em revistas e jornais, selecionados, organizados e editados pela poeta imagista H. D. (Hilda Doolittle), sem que houvesse conhecimento da autora; suas obras: Poems (1921), Selected Poems (1935), What Are Years (1941), Nevertheless (1944), Fables of La Fontaine (tradução, 1955), Idiosyncrasy and Technique (1956), The Absentee: A Comedy in Four Acts (dramatização de novela de Maria Edgeworth, 1962), The Complete Poems (1967), The Accented Syllable (1969) etc; além dos livros editados, Marianne Moore também teve seus poemas divulgados em jornais e revistas estadunidenses; foi laureada pelos Prêmio Pulitzer de Poesia, National Book Award e Prêmio Bollingen.