____________________
Ele sempre nadou contra a corrente. Escreveu que a Bossa Nova é uma
variante americana do samba, tão brasileira como um carro montado no Brasil.
Que João Gilberto inventou um jeito de cantar para adaptar a música brasileira
ao estilo americano. Garantiu que, num disco de 1929, o violão de Sinhô, soando
em dupla com o do paulista Pedroso de Camargo, já antecipava a batida da Bossa Nova*.
Personagem singular da história do jornalismo brasileiro, trata-se do
único que, a partir de seus artigos em jornais, começou a construir uma outra
carreira, a de historiador da cultura urbana. Hoje, seus artigos reunidos em
livros são respeitável fonte de estudos e pesquisas, assim como toda sua obra
de historiador.
Alma de pesquisador que se revelou quando o poeta e criador de jornais
Reynaldo Jardim encomendou, em 1961, no Jornal do Brasil: “Tinhorão, faça uma série sobre música
popular brasileira”. Mas não havia livro, nem pesquisa, quase nada sobre isso.
“Então se vira, vai entrevistar o pessoal”, aconselhou Jardim. Um e outro não
tinham idéia de que naquele momento — por acaso, sorte, oportunidade, conjunção
astral? — estava dado o primeiro passo para uma
carreira ímpar no jornalismo.
Ímpar porque José Ramos foi contratado pelo Diário Carioca (DC) e por todos os outros jornais e revistas em que veio a trabalhar — Jornal do Brasil, Correio da Manhã, O Cruzeiro, O Jornal, Última Hora, revista Veja, entre outros —
para a função de redator, ou copidesque, termo recém-adaptado do jornalismo
norte-americano nos anos 1950. Mas que entrou para o vocabulário jornalístico
não como a mesa em forma de ferradura onde trabalhavam os redatores
norte-americanos, e sim como a designação do próprio redator.
Ele sempre se refere à “humilde função de copidesque”, na qual o
jornalista não assina matérias, não escreve o texto de sua autoria, apenas
torna mais legível o que o outro escreveu, e muitas vezes faz milagres.
Nesta função o jovem José Ramos começou em 1952 no pequeno e famoso Diário
Carioca, onde Pompeu de Souza e
Danton Jobim introduziram o uso do lead e o primeiro, enxuto e corretíssimo, manual de redação. Uma revolução
na imprensa brasileira.
Lá ele ganhou o apelido de Tinhorão, que se tornou um
sobrenome-adjetivo, pois eis que se trata de uma planta tóxica. E por ter se
destacado como exímio fazedor de textos-legendas, recebeu um epíteto
apropriadíssimo: “Tinhorão, o legendário”.
Poderia ter ficado como copidesque a vida toda. Mas não o irrequieto
Tinhorão, que fazia suas pesquisas e escrevia desde sempre nos suplementos de
cultura de tantos veículos de informação. E que nos anos 1970, já em São Paulo,
para onde viera fazer parte da primeira turma da revista Veja, lançada em 1968, foi chamado para fazer
crítica de música popular brasileira no Caderno B do Jornal
do Brasil.
Aí se cristalizou a fama de chato, que já havia se formado em fins da
década de 1950, começo da de 1960, com suas críticas à Bossa Nova e seu
nacionalismo. A colaboração na coluna foi extinta em 1981, segundo o
informaram, um corte por medida de economia. A par da vida jornalística, que
tanto exige dedicação intelectual e física, Tinhorão já escrevia livros desde
1966.
Em 1980, insatisfeito com a profissão e com sua vida pessoal, largou
literalmente tudo e tornou-se um quase ermitão, um militante solitário da
cultura, vivendo literalmente dentro da pesquisa: sua quitinete de 31 metros
quadrados entupida de livros, discos, partituras, documentos raros e de
incrível valor. Mas era feliz, fazendo o que queria, embora vivendo com
estreita margem financeira.
E suas pesquisas, então, continuavam causando polêmica: ele demonstrou
que o samba nasceu na Cidade Nova, no coração do Rio, e não no Recôncavo
baiano. Que a modinha nasceu no Brasil como dança, e só depois virou canção em
Portugal. Descobriu que Lereno, o poeta e músico fluminense Domingos Caldas
Barbosa, introduziu a modinha e o lundu na Corte portuguesa na década de 1770,
inaugurando a criação da música popular urbana como seria entendida no futuro.
Em 2009 sua produção chegava a 28 livros, editados entre Brasil e Portugal.
Embora sem contar com o reconhecimento formal da Academia (“esse pessoal
come Tinhorão e arrota Mário de Andrade”, costuma observar), suas pesquisas até
hoje não foram refutadas e ele mesmo diz: quem quiser que conte outra história,
o que ainda não aconteceu. Suas opiniões, sim, sempre originaram grandes e
raivosas polêmicas, hoje em menor intensidade e paixão, amenizadas pelo tempo e
por tantas transformações das coisas deste mundo. Mas não do pensamento de
Tinhorão, fiel ao seu método histórico, o materialismo dialético, ferramenta de
explicação dos fenômenos que trouxe definitiva luz às suas interrogações, ainda
jovem.
Quem houve falar dele, assim de orelhada, do seu nacionalismo e de suas
contendas, pensa tratar-se de um ser mal-humorado, ranheta, tosco. Uma imagem
oposta ao jovem Tinhorão que completou 82 anos em 7 de fevereiro de 2010. Ágil,
vital, elétrico, engraçado, sempre com uma resposta afiada na ponta da língua,
um tipo muito culto e erudito, apreciador da boa música e não só da popular.
Esforçado, estudioso desde criança, o filho de um imigrante português
que, menino, foi mandado sozinho para o Brasil, não conheceu facilidades na
vida e batalhou para abrir seu caminho.
Não era de noitadas depois de sair da Redação. Sempre teve muitas
atividades, foi frequentador assíduo de sebos no centro do Rio e ávido
recortador de jornais. Nunca recebeu patrocínio oficial, à exceção de uma parca
bolsa de estudos no seu curso de mestrado em História Social, na Universidade
de São Paulo.
Empreendedor de sua própria obra, portanto, é alguém a quem o país só
tem a agradecer, mesmo discordando dele algumas vezes.
* Nota da biógrafa Elizabeth Lorenzotti: Samba,
maldito costume, de Sinhô,
gravado por Henrique Chaves, pela Columbia, em setembro de 1929 em São Paulo.
Acervo Tinhorão, Instituto Moreira Salles.
____________________
Elizabeth Lorenzotti: Tinhorão,
O Legendário [biografia], 2009, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São
Paulo — SP; Elizabeth de Souza Lorenzotti, mineira de Poços de
Caldas, graduada em Jornalismo pela USP — Universidade de São Paulo, com mestrado
em Ciências da Comunicação e doutorado em Literatura Brasileira, também pela
USP, é jornalista, escritora, professora, pesquisadora, biógrafa e poetisa; suas
obras: Que falta ele faz! — Suplemento Literário [do jornal O Estado de São
Paulo] (2007, Imprensa Oficial, São Paulo — SP), Tinhorão, o
Legendário (2010, Imprensa Oficial, São Paulo — SP), As Dez Mil Coisas, poesia
(2011, Biblos Editora, São Paulo — SP), Jornalismo Século XXI: o modelo #mídiaNINJA (e-book, editora e-galáxia, 2014), além de publicações em
jornais e revistas; atuações no jornalismo: redatora da Rádio Tupi — Diários e
Emissoras Associados, repórter da Folha da Manhã, editora da Editora Abril, redatora
d’O Estado de São Paulo, assessora de imprensa de Atena Editora e Comunicação, editora-chefe
do Jornal da USP — USP-SP, diretora de redação da Revista do IDEC, repórter da
Revista Bienart, etc.; foi professora de jornalismo na Universidade Metodista
de São Paulo e na PUC — São Paulo; Beth Lorenzotti também trabalhou na imprensa
sindical: iniciou e impulsionou a Folha Bancária diária — jornal
do Sindicato dos Bancários de São Paulo, no início dos anos 1980; pilota o blog vivababel.blogspot.com/.












