terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Jacques Prévert: O tempo sem fôlego

Resultado de imagem para jacques prévert poemas poesia de todos os tempos
____________________
[traduzido por Silviano Santiago]

Encantada com tudo nunca se espantando com nada
uma mocinha cantava
de acordo com as estações seguindo o seu caminho

Quando as cebolas me farão rir
me farão chorar as cenouras
o burro da cartilha soube me ensinar a ler
a ler de verdade

Mas uma manivela desfez a primavera
e cubos de gelo atacaram o rosto dela

Tenho lágrimas demais para chorar
eles guerreiam contra a natureza
Eu que era íntima do sol
Não ouso mais olhá-lo de frente.

Resultado de imagem para jacques prévert
Jacques Prévert

Le temps haletant

Émerveillée de tout ne s'étonnant jamais de rien
une fillette chantait
suivant les saisons suivant son chemin

Quand les oignons me feront rire
les carottes me feront pleurer
l'âne de l'alphabet a su m'apprendre à lire
à lire pour de vrai

Mais une manivelle a défait le printemps
et des morceaux de glace lui ont sauté à la figure

J'ai trop de larmes pour pleurer
ils font la guerre à la nature
Moi qui tutoyais le soleil
je n'ose plus le regarder en face.
____________________
Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; sua obra: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953) e outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Olympio Higino: O Amor

Resultado de imagem para Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher
____________________
Amor é mal que as vezes mata a gente,
outras vezes alenta com ternura;
é chama crepitante aonde a criatura
deseja se abrasar constantemente.

É dor que se sentindo, se não sente,
pranto e riso ventura e desenventura;
e no peito ocultar toda a tortura;
cair do Belo ao Abismo, de repente.

É o céu de Aspásia pontilhado a flores,
de Dante o inferno recalcado em dores
delícias e cilícios contrastando.

Amor é tudo! É doce e tem veneno:
é quem me faz sofrer desde pequeno
é quem me faz morrer, vida me dando.

(jornal O Componedor, 6/1909, p. 4 — Rio de Janeiro.)
____________________
Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; na pesquisa feita pelos organizadores de Ouve meu grito, nada consta a respeito de Olympio Higino, autor do poema; ressalte-se que na Introdução do livro consta que vários autores dos poemas não puderam ser identificados, nem mesmo podemos citar suas profissões, se se tratavam de operários ou não, pois permaneciam anônimos ou apenas mencionavam as iniciais de seus nomes ou pseudônimos; para a elaboração da obra, a pesquisa foi feita em mais de uma vintena de jornais anarquistas, e para a identificação dos autores recorreu-se a dicionários e histórias da literatura, de livros sobre anarquistas, comunistas e socialistas; ainda sobre Olympio Higino, em pesquisa “googleana” feita por este Verso e Conversa, para confirmação de postagem, também nada se encontrou; o aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa agradece ao leitor/leitora que tiver informação a respeito e quiser compartilhar com este blogue.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Paul Éluard: A curva dos teus olhos

Resultado de imagem para algumas das palavras paul éluard
____________________
[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Resultado de imagem para fr paul éluard
Paul Éluard

La courbe de tes yeux

La courbe de tes yeux fait le tour de mon cœur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
Et si je ne sais plus tout ce que j’ai vécu
C’est que tes yeux ne m’ont pas toujours vu.

Feuilles de jour et mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs,

Parfums éclos d’une couvée d’aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l’innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards.

(Capitale de la douleur — 1926)
____________________
Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, Organização e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, edição bilíngue, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, francês de Saint-Denis, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; ainda com 16 anos de idade, ao contrair tuberculose, teve que interromper seus estudos; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; bibliografia: Premiers poèmes (1913), De Devoir (1916), Les Animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’Amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La Dame de Carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’Amour la Poésie (1930), À toute épreuve (1930), La Vie immédiate (1932), La Rose publique (1934), Facile (1935), L’Évidence Poétique Habitude de la Poésie (1937), Cours naturel (1938), La victoire de Guernica (1938), Le Livre ouvert (1941), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1944), Le lit la table (1944), Poésie ininterrompue (1946), Ode à Staline (1950), Le Phénix (1951), Picasso (dessins, 1952) e outros títulos; o poeta lutou tanto na primeira quanto na segunda grande guerra mundial; filiou-se ao partido comunista francês, mas, sendo excluído depois, nunca deixou de apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée’ (Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Augusto dos Anjos: Poema negro

Resultado de imagem para toda a poesia de augusto dos anjos
____________________
A Santos Neto

Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!

A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.

Em vão com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia douda
E muita vez, à meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!

É a Morte esta carnívora assanhada
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino...
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajos pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!

E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam...
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.

Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!

Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros;
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.

Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
Recomeça o barulho das matracas.

A desagregação da minha idéia
Aumenta. Como as chagas da morféia
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-se os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!

Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.

Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos,
Desperto. É tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.

Meu coração, como um cristal, se quebre;
O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!

Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.

1906

Resultado de imagem para augusto dos anjos caricatura
____________________
Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Olavo Bilac: Palavras

Resultado de imagem para poesias olavo bilac Martin Claret
____________________
As palavras do amor expiram como os versos,
Com que adoço a amargura e embalo o pensamento:
Vagos clarões, vapor de perfumes dispersos,
Vidas que não têm vida, existências que invento;

Esplendor cedo morto, ânsia breve, universos
De pó, que um sopro espalha ao torvelim do vento,
Raios de sol, no oceano entre as águas imersos,
 As palavras da fé vivem num só momento...

Mas as palavras más, as do ódio e do despeito,
O "não!" que desengana, o "nunca!" que alucina,
E as do aleive, em baldões, e as da mofa, em risadas,

Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito:
Ficam no coração, numa inércia assassina,
Imóveis e imortais, como pedras geladas.

(Tarde)

Resultado de imagem para olavo bilac
____________________
Poesias — Olavo Bilac, 4ª reimpressão, 2016, Martin Claret, São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; colaborou em jornais, como a Gazeta de Notícias, e em publicações periódicas, como as revistas A Imprensa, A Leitura, Branco e Negro, Brasil—Portugal e Atlântida; escreveu Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade — crônicas (1916) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira; juntamente com os poetas Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, veio a formar o que ficou conhecido como a Tríade Parnasiana; no Rio de Janeiro e em São Paulo, estudou Medicina e Direito sem no entanto concluir nenhum dos cursos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Rainer Maria Rilke: Um Deus o pode. Mas, da lira ao solo, . . . [soneto]

Resultado de imagem para o livro de ouro da poesia alemã (em alemão e português) ediouro
____________________
[traduzido por Ivo Barroso]

I/3

Um Deus o pode. Mas, da lira ao solo,
há-de o homem consegui-lo? À dissensão
tendemos, e não há Templo de Apolo
no cruzar dos ramais do coração.

O canto, como o queres, não são teus
desejos, nem a busca do atingível.
Cantar é ser. Tão fácil para o Deus.
Mas, quando somos?  E Ele, quando ao nível

de nosso ser os céus e a terra extende?
Moço, no amor ainda não és, conquanto
a palavra te force a boca aprende

a esquecer que cantaste. E sem provento.
Um outro sopro é o verdadeiro canto.
Um sopro ao nada. Um voo em Deus. Um vento.

(Sonetos a Orfeu, Parte 1  1923)

Resultado de imagem para rainer maria rilke

I/3

Ein Gott vermags. Wie aber, sag mir, soll
ein Mann ihm folgen durch die schmale Leier?
Sein Sinn ist Zwiespalt. An der Kreuzung zweier
Herzwege steht kein Tempel für Apoll.

Gesang, wie du ihn lehrst, ist nicht Begehr,
nicht Werbung um ein endlich noch Erreichtes;
Gesang ist Dasein. Für den Gott ein Leichtes.
Wann aber sind wir? Und wann wendet er

an unser Sein die Erde und die Sterne?
Dies ists nicht, Jüngling, dass du liebst, wenn auch
die Stimme dann den Mund dir aufstösst,  lerne

vergessen, dass du aufsangst. Das verrinnt.
In Wahrheit singen, ist ein andrer Hauch.
Ein Hauch um nichts. Ein Wehn im Gott. Ein Wind.

(Sonette an Orpheus, Erster Teil  1923)
____________________
O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologias de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Gérard de Nerval: Versos áureos

Resultado de imagem para cinco séculos de poesia alexei bueno editora record
____________________
[traduzido por Alexei Bueno]

Mas como! Tudo é sensível!
Pitágoras

Oh! Homem pensador, julgas que é em ti somente
Que há a razão neste mundo onde em tudo arfa a vida?
Das forças que tu tens tua vontade é servida,
Mas dos conselhos teus o universo está ausente.

Respeita no animal um espírito agente:
Cada flor é uma alma à Natureza erguida;
Um mistério de amor no metal tem guarida;
“Tudo é sensível!” Tudo em teu ser é potente.

Teme, no muro cego, um olho que te espia:
Pois mesmo na matéria um verbo está sepulto...
Não a faças servir a alguma função impia!

No ser obscuro às vezes mora um Deus oculto;
E, como olho a nascer por pálpebras coberto,
Nas pedras cresce um puro espírito desperto!

Resultado de imagem para gérard de nerval
Gérard de Nerval

Vers dorés

Eh quoi! tout est sensible.
Pythagore

Homme! libre penseur! te crois-tu seul pensant
Dans ce monde où la vie éclate en toute chose?
Des forces que tu tiens ta liberté dispose,
Mais de tous tes conseils l'univers est absent.

Respecte dans la bête un esprit agissant:
Chaque fleur est une âme à la Nature éclose;
Un mystère d'amour dans le métal repose:
"Tout est sensible!" Et tout sur ton être est puissant.

Crains, dans le mur aveugle, un regard qui t'épie:
A la matière même un verbe est attaché...
Ne la fais pas servir à quelque usage impie!

Souvent dans l'être obscur habite un Dieu caché;
Et, comme un oeil naissant couvert par ses paupières,
Un pur esprit s'accroît sous l'écorce des pierres!
____________________
Cinco séculos de poesia (diversos autores) — poemas traduzidos, Tradução e Prefácio de Alexei Bueno, edição bilíngue, 2013, Editora Record, São Paulo — SP; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista e romancista; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; parte de seus poemas foram publicados em jornais e revistas da época; bibliografia: Elégies et Odelettes (1834), Voyage en Orient (1851), Les Filles du feu (1854), Promenades et souvenirs (1854), Les Chimères (1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (1855) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Augusto dos Anjos: O martírio do artista

____________________
Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
É como paralítico que, à míngua
Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

____________________
Eu, outras poesias, poemas esquecidos — Texto e Nota: Antonio Houaiss, Elogio do poeta: Orris Soares, Notas biográficas: Francisco de Assis Barbosa — 30ª. edição, 1965, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.