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domingo, 19 de outubro de 2025

Eugênio de Castro: Acorda cedo como os passarinhos . . . [soneto]

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[A minha filha Violante]

Acorda cedo como os passarinhos,
E vem logo, direita, à minha cama;
Sacode-me com jeito, por mim chama
E abre-me os olhos com os seus dedinhos.

Estremunhado, zango-me. - "Beijinhos,
Não quer beijinhos?" com voz d'ouro exclama;
Da minha ira empalidece a chama,
E, acarinhando-a, pago os seus carinhos.

Senhor! que amor de filha tu me deste!
Dá-lhe um caminho brando e sem abrolhos,
Dá-lhe a Virtude por amparo e guia;

E destina também, ó Pai celeste,
Que a mão com que ela agora me abre os olhos,
Seja a que há de fechar-m’os algum dia!

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Poesias Selectas (várias autorias) — Apresentação de Alvaro Reis e Compilação de Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data [com dedicatória manuscrita à tinta e data de 16.2.923], Imprensa Methodista, São Paulo — SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, cursou Letras em Lisboa, exerceu o ofício de pedagogo na Escola Normal Superior da Universidade de Coimbra, ali também trabalhou como Secretário e lecionou Letras, foi escritor, poeta e “autor dramático”; ainda estudante já publicara livros de poesia (Cristalização e Morte, Canção de Abril, Jesus de Nazaré, Per Umbram e Horas Tristes); após formado, em viagem para Paris tomou contato com as novidades do Simbolismo e de volta a Lisboa, foi um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborou com a revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês; em 1890 publicou Oaristos, o qual, por seu prefácio revolucionário, é considerada um marco do Simbolismo Lusitano; o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), mais importante revista literária portuguesa da época; suas obras: Cristalização e Morte e Canção de Abril (ambas em 1884), Jesus de Nazaré (1885), Per Umbram (1887), Horas Tristes (1888), Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias e Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc; atualmente, Eugênio de Castro é conhecido pelos prefácios de Oaristos e Horas, introdutores do movimento simbolista em terras lusitanas.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Goethe: A donzela diz

 
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[traduzido por Eugênio de Castro]

Amor, lembras-me, ao ver-te carrancudo,
o teu busto de pedra arrefecida:
como este, não me dás sinal de vida;
e mais do que ele estás fechado e mudo.

Oculta-se o inimigo atrás do escudo,
o amigo deve andar de fronte erguida.
Foges de mim, que após ti vou, dorida;
pára! Não anda o mármore sisudo.

Ah! para qual dos dois voltar-me devo?
A frieza dos dois hei de agüentar,
de ti que és vivo, e dele, sem alento?

Basta de queixas vãs! Em doce enlevo
tão longamente a pedra vou beijar,
que dela enfim me arrancarás ciumento!

Goethe

Das Mädchen spricht

Du siehst so ernst, Geliebter! Deinem Bilde
Von Marmor hier möcht ich dich wohl vergleichen;
Wie dieses gibst du mir kein Lebenszeichen.
Mit dir verglichen, zeigt der Stein sich milde.

Der Feind verbirgt sich hinter seinem Schilde,
Der Freund soll offen seine Stirn uns reichen.
Ich suche dich, du suchst mir zu entweichen;
Doch halte stand, wie dieses Kunstgebilde.

An wen von beiden soll ich nun mich wenden?
Sollt ich von beiden Kälte leiden müssen,
Da dieser tot und du lebendig heißest?

Kurz, um der Worte mehr nicht zu verschwenden,
So will ich diesen Stein so lange küssen,
Bis eifersüchtig du mich ihm entreißest.

[Berühmte Sonette]
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O Mundo Maravilhoso do Soneto: Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner ...

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Eugênio de Castro: Um cacto no pólo

 
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V

          Julguei que se tinha levantado um obelisco místico no meio da praça; e que o obelisco dava uma sombra azul; e que tinham acendido um fogão no quarto úmido; e que tinham dado alta ao doente.
          Julguei que nascia o sol à meia-noite; e que uma boca muda me falava; e que esfolhavam lírios sobre o meu peito; e que havia uma novena ao pé do jardim de Aclimação.
          Uma boca muda me falou; mas o obelisco, de tênue que era, não deu sombra; e o fogão não aqueceu o quarto úmido; e o doente teve uma recaída.
          E o clown entrou, folião, na Igreja; e fez jogos malabares com os cibórios e os turíbulos; e tornou a nevar; e, após os brancos etésios, soprou o mistral forte.
          E na alcova branca entrou a Dama expulsa, cujo corpo é de âmbar e cera e todo recendente de um matrimónio aromal de mirra e valeriana, a Dama dos flexuosos e vertiginosos dedos rosados.
          E seus cabelos de czarina eram claros como a estopa e finos como as teias de aranha; e seu ventre alvo, de estéril, era todo azul, todo azul de tatuagens.
          E a Educanda fugiu do Recolhimento; e com a Dama expulsa passei a noite em branco; e a noite foi toda escarlate.
          E no dia seguinte, em vez dos sacros livros, que de ordinário me deleitam, li Schopenhauer, e achei Arthur Schopenhauer setecentas vezes superior a todos os Doutores da Igreja.

Horas  1891

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Notas e Traços Biográficos de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, fez o curso de Letras em Lisboa, foi pedagogo na Escola Normal Superior da Universidade de Coimbra, onde também exerceu o cargo de Secretário e lecionou Letras; escritor e poeta, ainda estudante publicou livros de poesia; já formado, em viagem para Paris tomou contato com as novidades do Simbolismo e, de volta a Lisboa, foi um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborou com a revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês; em 1890 publicou sua obra Oaristos, a qual, por seu prefácio revolucionário, é considerada um marco do Simbolismo Lusitano; o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), mais importante revista literária portuguesa da época; obras: Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias, Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc; atualmente, Eugênio de Castro é conhecido pelos prefácios de Oaristos e Horas, introdutores do movimento simbolista em terras lusitanas.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Eugênio de Castro: Tua frieza aumenta o meu desejo: . . . [soneto]

 
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VIII

Un autre, plus heureus, va unir son
sort à celui de mon amie. Mais
quoi-qu’elle trompe ainsi mes
plus chéres esperances, dois-je la
moins aimer?
Mackensie

Tua frieza aumenta o meu desejo:
Fecho os meus olhos para te esquecer,
Mas quanto mais procuro não te ver,
Quanto mais fecho os olhos mais te vejo.

Humildemente, atrás de ti rastejo,
Humildemente, sem te convencer,
Antes sentindo para mim crescer
Dos teus desdéns o frígido cortejo.

Sei que jamais hei de possuir-te, sei
Que outro, feliz, ditoso como um rei
Enlaçará teu virgem corpo em flor.

Meu coração no entanto não se cansa:
Amam metade os que amam com espr'ança,
Amar sem espr'ança é o verdadeiro amor.

Paris, 29 de setembro de 1889.

Oaristos — 1890

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, fez o curso de Letras em Lisboa, foi pedagogo na Escola Normal Superior da Universidade de Coimbra, onde também exerceu o cargo de Secretário e lecionou Letras; escritor e poeta, ainda estudante publicou livros de poesia; já formado, em viagem para Paris tomou contato com as novidades do Simbolismo e, de volta a Lisboa, foi um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborou com a revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês; em 1890 publicou sua obra Oaristos, a qual, por seu prefácio revolucionário, é considerada um marco do Simbolismo Lusitano; o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), mais importante revista literária portuguesa da época; obras: Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias, Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc; atualmente, Eugênio de Castro é conhecido pelos prefácios de Oaristos e Horas, introdutores do movimento simbolista em terras lusitanas.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Eugênio de Castro: Em verso vou cantar o meu Diamante preto! . . .

 
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II

Em verso vou cantar o meu Diamante preto!

Do mais grácil, estranho e bizantino aspecto,
Flexível corno um junco e esbelto como um fuso,
Seu núbil corpo tem, num dualismo confuso,
A finura do lírio e o garbo das serpentes;
Soberba e esguia, com seus passos indolentes,
Quando caminha. lembra uma túlipa a andar;
Lenta e sutil, parece até que vai no ar,
Como um caule de flor, levada pela aragem;
Basta vê-la uma vez para que a sua imagem
Leve, tão leve como os perfumes e o som,
Fique vibrando em nós, eternamente, com
A doçura sem par duma voz que se extingue...

Franzino e original, o seu corpo é um moringue
Em cujo colo estreito alguém tivesse posto
Um moreno botão de rosa-chã,  seu rosto,
Grácil botão que exala uma essência secreta,
Botão onde pousou noturna borboleta
Com asas negras, muito negras,  seus bandós.
Sua desfalecida e liquescente voz,
Dorida como um ai e lassa como um canto,
Sua lânguida voz, maravilhoso encanto,
De que Ela tem o amavioso monopólio,
É um fio de veludo, um suavíssimo óleo:
Suave, a sua voz suave se derrama...

Seu hálito infantil endoidece e embalsama,
Subtil como o ananás, forte como um veneno.

Seu pescoço sem par é um cortiço moreno,
Que os meus desejos vão circundando em colmeia.

Tem música no andar, quando à tarde passeia
Do seu alto balcão nos marmóreos losangos.

A sua boca é um sorvete de morangos.

Seu magro busto oval brilha, como um santelmo,
Sob o seu penteado, esse ebânico elmo
Pesado e nocturnal, com reflexos azuis.

Seu gesto excede em graça as larvas dos pauis,
Que em curvos voos vão voando à flor dos pântanos.

Tem as unhas de opala; o seu riso quebranta-nos;
Vibrante de coral, seus cílios são de seda;
Seu capitoso olhar é um vinho que embebeda;
Seus negros olhos são duas amoras negras!

Original, detesta as convenções e as regras;
Ama o luxo, o requinte e a excentricidade,
Faz tudo o que lhe apraz, impõe sua vontade,
Diz o que sente, sem lisonja, sem disfarce.

Cousa que muito poucos têm, sabe domar-se:
Como é medrosa, a fim de ver se perde o medo,
Às quietas horas do Mistério e do Segredo,
Percorre longos, funerários corredores,
Onde pairam, chorando as suas fundas dores,
Fantasmas glaciais, errantes e protervos!
Nervosa, com o fim de subjugar seus nervos,
Corta as unhas em bico, à guisa de punhais:

 Chega mesmo a morder pedaços de veludo!

Detesta o movimento, as expansões e tudo
O que possa alterar o seu viver inerte;
Não costuma sair; sonha; não se diverte;
Seus raros gestos são cheios de bizarria,
Finos, excepcionais, sem par. Pedi-lhe um dia
Que me dissesse qual é o sonho singular,
O sonho que Ela mais quisera realizar,
Aquilo que Ela mais desejaria ter,
Ao que Ela respondeu:  «Desejaria viver
«No pólo norte, numa estufa de cristal!»

Odeia a luz: ama a penumbra vesperal...
Odeia o piano: adora o som lento do órgão...
E suas finas mãos que bem raro me outorgam
A permissão de as oscular, suas mãos finas,
As suas mãos arquiducais, longas, divinas,
Não sustiveram nunca o peso duma agulha.

Ama os perfumes e as visões; odeia a bulha;
Seu corpo estonteante e lânguido que exala
Doces e sensuais aromas de Sofala,
Do Cairo, do Japão, do Iêmen e da Pérsia,
Seu corpo sensual foi feito para a inércia:
 Até para falar às vezes tem preguiça!

Tal é a fria flor taciturna, insubmissa,
Cujos olhos astrais cortam como estiletes,
Tal é a bem Amada impassível, trigueira,
Cujos olhos astrais  agudos alfinetes,
Ferem meu coração  dorida pregadeira!

Coimbra, 15 de novembro de 1889.

Oaristos — 1890

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, fez o curso de Letras em Lisboa, foi pedagogo na Escola Normal Superior da Universidade de Coimbra, onde também exerceu o cargo de Secretário e lecionou Letras; escritor e poeta, ainda estudante publicou livros de poesia; já formado, em viagem para Paris tomou contato com as novidades do Simbolismo e, de volta a Lisboa, foi um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborou com a revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês; em 1890 publicou sua obra Oaristos, a qual, por seu prefácio revolucionário, é considerada um marco do Simbolismo Lusitano; o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), mais importante revista literária portuguesa da época; obras: Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias, Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc; atualmente, Eugênio de Castro é conhecido pelos prefácios de Oaristos e Horas, introdutores do movimento simbolista em terras lusitanas.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Eugênio de Castro: Presságios

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Quando eu nasci, tocava o fogo
Na minha freguesia,
E um meu vizinho, que perdera ao jogo,
Golpeava as veias, quando eu nascia.

Chegando ao mundo, comigo vinha
Uma irmãzinha,
Pó que, mudado em flor, voltou logo a ser pó...
E eu comecei, chegando ao mundo, a ver-me só...

A linda gêmea, que Deus me dera,
Logo morria, mal nascera,
Morria logo...
Na freguesia, tocava a fogo...

Com tais avisos, com tais presságios,
Breve me afiz a padecer, sem protestar,
Ódios, tormentos, decepções, lutos, naufrágios,
Os idos, os de agora e os mais que hão de chegar.

Interlúnio. Obras Poéticas. Lumen, vol. II.

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Presença da Literatura Portuguesa IV — Simbolismo, por Antonio Soares Amora, 1969, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, foi poeta e professor da Universidade de Coimbra, onde também formou-se em Letras; um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborador da revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês, o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), a mais importante revista literária portuguesa da época; obra poética: Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias, Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), Cravos de Papel (1922), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Eugênio de Castro: O cravo de papel

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Cravo de papel de seda,
Com delgado pé de arame,
Nenhuma abelha o beijou
Fugida do alado enxame.

Fina serrilha acairela
Suas pétalas de lume:
Vermelho, p'la cor, engana,
Mas, falso, não tem perfume.

Feito por mão feminina,
Quem o fez com tal primor
Talvez nele se pintasse,
Dizendo amar sem amor…

À laia de bandeirola,
Ostenta, acordando fados,
Uma quadrinha com versos
Cheios d'amor, mas errados.

Nesse trajo, a arder se vê
Em ardente romaria.
Um Manuel o compra e of’rece
À sua noiva, Maria.

Mas a mãe da noiva observa
Em seu materno temor:
 Quem um cravo falso dá,
Dá decerto um falso amor!

Manuel, que ama deveras,
Responde com ansiedade:
 Se este cravo é de mentira,
Meu amor é de verdade!

Não seja assim, tia Rosa,
Tão rabugenta e cruel:
Tenha confiança em mim
E no cravo de papel.

Ainda que seja d'oiro,
A oferta de quem quer bem
Vale mais pelo que diz
Do que p'lo peso que tem.

Este cravo, sendo falso,
Vence os cravos verdadeiros,
Cuja cor, cujo perfume
São doces mas passageiros.

Não diga mal, tia Rosa,
Deste cravo que é honrado:
Se ele nasceu sem perfume,
Tem o do amor com que é dado!

Ouvindo Manuel, Maria
Desfalecia d'amor,
E, sobre o seu seio, o cravo
Par'cia um santo no andor.

Manuel cumpriu a palavra,
Foi firme nos seus afetos;
Casou, e morreu velhinho,
Deixando filhos e netos.

E Maria, também velha,
Viúva de Manuel,
Levou p’ra a cova, ainda fresco,
O seu cravo de papel.

Cravos de Papel. Obras Poéticas. Lumen, vol. IX

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Presença da Literatura Portuguesa IV — Simbolismo, por Antonio Soares Amora, 1969, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, foi poeta e professor da Universidade de Coimbra, onde também formou-se em Letras; um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborador da revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês, o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), a mais importante revista literária portuguesa da época; obra poética: Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias, Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), Cravos de Papel (1922), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc.