
____________________
II
Em verso vou cantar o meu Diamante preto!
Do mais grácil, estranho e bizantino aspecto,
Flexível corno um junco e esbelto como um fuso,
Seu núbil corpo tem, num dualismo confuso,
A finura do lírio e o garbo das serpentes;
Soberba e esguia, com seus passos indolentes,
Quando caminha. lembra uma túlipa a andar;
Lenta e sutil, parece até que vai no ar,
Como um caule de flor, levada pela aragem;
Basta vê-la uma vez para que a sua imagem
Leve, tão leve como os perfumes e o som,
Fique vibrando em nós, eternamente, com
A doçura sem par duma voz que se extingue...
Franzino e original, o seu corpo é um
moringue
Em cujo colo estreito alguém tivesse posto
Um moreno botão de rosa-chã, — seu rosto,
Grácil botão que exala uma essência secreta,
Botão onde pousou noturna borboleta
Com asas negras, muito negras, — seus bandós.
Sua desfalecida e liquescente voz,
Dorida como um ai e lassa como um canto,
Sua lânguida voz, maravilhoso encanto,
De que Ela tem o amavioso monopólio,
É um fio de veludo, um suavíssimo óleo:
Suave, a sua voz suave se derrama...
Seu hálito infantil endoidece e embalsama,
Subtil como o ananás, forte como um veneno.
Seu pescoço sem par é um cortiço moreno,
Que os meus desejos vão circundando em colmeia.
Tem música no andar, quando à tarde passeia
Do seu alto balcão nos marmóreos losangos.
A sua boca é um sorvete de morangos.
Seu magro busto oval brilha, como um santelmo,
Sob o seu penteado, esse ebânico elmo
Pesado e nocturnal, com reflexos azuis.
Seu gesto excede em graça as larvas dos pauis,
Que em curvos voos vão voando à flor dos pântanos.
Tem as unhas de opala; o seu riso
quebranta-nos;
Vibrante de coral, seus cílios são de seda;
Seu capitoso olhar é um vinho que embebeda;
Seus negros olhos são duas amoras negras!
Original, detesta as convenções e as regras;
Ama o luxo, o requinte e a excentricidade,
Faz tudo o que lhe apraz, impõe sua vontade,
Diz o que sente, sem lisonja, sem disfarce.
Cousa que muito poucos têm, sabe domar-se:
Como é medrosa, a fim de ver se perde o medo,
Às quietas horas do Mistério e do Segredo,
Percorre longos, funerários corredores,
Onde pairam, chorando as suas fundas dores,
Fantasmas glaciais, errantes e protervos!
Nervosa, com o fim de subjugar seus nervos,
Corta as unhas em bico, à guisa de punhais:
— Chega mesmo a morder pedaços de veludo!
Detesta o movimento, as expansões e tudo
O que possa alterar o seu viver inerte;
Não costuma sair; sonha; não se diverte;
Seus raros gestos são cheios de bizarria,
Finos, excepcionais, sem par. Pedi-lhe um dia
Que me dissesse qual é o sonho singular,
O sonho que Ela mais quisera realizar,
Aquilo que Ela mais desejaria ter,
Ao que Ela respondeu: — «Desejaria viver
«No pólo norte, numa estufa de cristal!»
Odeia a luz: ama a penumbra vesperal...
Odeia o piano: adora o som lento do órgão...
E suas finas mãos que bem raro me outorgam
A permissão de as oscular, suas mãos finas,
As suas mãos arquiducais, longas, divinas,
Não sustiveram nunca o peso duma agulha.
Ama os perfumes e as visões; odeia a bulha;
Seu corpo estonteante e lânguido que exala
Doces e sensuais aromas de Sofala,
Do Cairo, do Japão, do Iêmen e da Pérsia,
Seu corpo sensual foi feito para a inércia:
— Até para falar às vezes tem preguiça!
Tal é a fria flor taciturna, insubmissa,
Cujos olhos astrais cortam como estiletes,
Tal é a bem Amada impassível, trigueira,
Cujos olhos astrais — agudos alfinetes,
Ferem meu coração — dorida pregadeira!
Coimbra, 15 de novembro de 1889.
Oaristos — 1890
____________________
Poesia
Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços
Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo
— SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 — 1944), português coimbrense, fez o curso
de Letras em Lisboa, foi pedagogo na Escola Normal Superior da Universidade de Coimbra,
onde também exerceu o cargo de Secretário e lecionou Letras; escritor e poeta, ainda
estudante publicou livros de poesia; já formado, em viagem para Paris tomou contato
com as novidades do Simbolismo e, de volta a Lisboa, foi um dos fundadores da revista
Os Insubmissos (1889), colaborou com a revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do
Simbolismo Francês; em 1890 publicou sua obra Oaristos, a qual, por seu prefácio
revolucionário, é considerada um marco do Simbolismo Lusitano; o poeta dirigiu
a Arte (1895 a 1897), mais importante revista literária portuguesa da época; obras:
Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias,
Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates
(1907), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma
Candeia Velha (1925) etc; atualmente, Eugênio de Castro é conhecido pelos prefácios
de Oaristos e Horas, introdutores do movimento simbolista em terras lusitanas.