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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Luis Fernando Veríssimo - O Lixo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.

 Bom dia...
 Bom dia.

 A senhora é do 610.
 E o senhor do 612.

 É.
 Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...

 Pois é...
 Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...

 O meu quê?
 O seu lixo.

 Ah...
 Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...

 Na verdade sou só eu.
 Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.

 É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
 Entendo.

 A senhora também...
 Me chame de você.

 Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
 É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...

 A senhora... Você não tem família?
 Tenho, mas não aqui.

 No Espírito Santo.
 Como é que você sabe?

 Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
 É. Mamãe escreve todas as semanas.

 Ela é professora?
 Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?

 Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
 O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.

 Pois é...
 No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.

 É.
 Más notícias?

 Meu pai. Morreu.
 Sinto muito.

 Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
 Foi por isso que você recomeçou a fumar?

 Como é que você sabe?
 De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.

 É verdade. Mas consegui parar outra vez.
 Eu, graças a Deus, nunca fumei.

 Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
 Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.

 Você brigou com o namorado, certo?
 Isso você também descobriu no lixo?

 Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
 É, chorei bastante, mas já passou.

 Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
 É que eu estou com um pouco de coriza.

 Ah.
 Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.

 É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
 Namorada?

 Não.
 Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.

-Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
 Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.

 Você já está analisando o meu lixo!
 Não posso negar que o seu lixo me interessou.

 Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
 Não! Você viu meus poemas?

 Vi e gostei muito.
 Mas são muito ruins!

 Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
 Se eu soubesse que você ia ler...

 Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
 Acho que não. Lixo é domínio público.

 Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
 Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...

 Ontem, no seu lixo...
 O quê?

 Me enganei, ou eram cascas de camarão?
 Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.

 Eu adoro camarão.
 Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...

 Jantar juntos?
 É.

 Não quero dar trabalho.
 Trabalho nenhum.

 Vai sujar a sua cozinha?
 Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.

 No seu lixo ou no meu?
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Esta crônica-diálogo, um texto do livro "O analista de Bagé", de autoria de Luis Fernando Veríssimo, foi lida por Genésio dos Santos e Denise de Paula, em 17.10.2009, no 3° Sarau no Quintal realizado no Espaço-residência de Marcia Cherubin e Silvio, em Santo André - SP.

sábado, 27 de junho de 2009

Genésio dos Santos: A construção da poesia (outubro/2003)

Eu procuro as palavras...
É pelas palavras que explico o que me cabe explicar.
É através delas que eu vivo.

Elas vêm e vão, caoticamente,
sem nenhuma regularidade,
sem ritmo nem melodia.
E pedem que eu as ordene
e que as faça inteligíveis
aos olhos de quem as lê.
Ou não me pedem nada.

De todo modo,
eu deixo que elas se aproximem,
que vivenciem meu mundo
e se aquietem junto a mim.
Ou que, se fizerem rebuliço,
me deixem atônito.

Por um instante me ponho em dúvida
se vou saber lidar com elas.
No entanto as acaricio
e elas correspondem me acariciando também.

Só aos poucos é que vou me familiarizando.
E aí me faço artífice,
organizo-as, desloco uma aqui, ponho outra acolá,
substituo uma e outra e viro a página.

Vou atrás de outras palavras.

Começo a me dar conta de que a poesia pode estar nascendo.


A imagem pode conter: 1 pessoa
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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 — 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

Genésio dos Santos: Amor (fevereiro de 2007)

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O amor bateu na porta,
a casa estava vazia
e ele se retraiu.

Mas eis que a porta se abriu
e o amor podendo entrar
bem ligeiro se instalou.

Esse amor atrevido
não teve hora pra chegar
nem tem pressa de partir.

Foi chegando de mansinho
e eu me fazendo de bobo,
mas fico bem esquisito.

Ele de mim se apodera,
veio sem ser convidado
e me deixa bem perplexo.

Mesmo que o amor atropele

querendo furar a fila
percebo que não tem jeito.

O amor é como um doce
que antes não fora provado,
quem o provou lambuzou-se.

Com lápis, carvão ou giz
faço registro do amor
e quase me desconcerto.

E se o amor é um tattoo
gravado à ponta de faca

sempre deixa cicatrizes.

Vindo calmo ou turbulento
me rendo incontinenti
às peraltices do amor.

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Genésio dos Santos, paulista de Itapetininga, nascido em 1952, é poeta e cronista.

Genésio dos Santos: No mundo da lua (setembro de 2007)

Vi uma lua no céu
Vi uma lua tão bela.
Era uma lua redonda
Era uma lua amarela.

Primeiro eu vi a lua
Pela fresta da janela,
Depois fui até a porta
Lá também estava ela.

Zanzando pelas veredas

Me perdi em mil querelas,
De novo olhei pro céu
Mais uma vez era ela.

Me encorajei numa prosa
E a lua não me deu trela,
Com o silêncio da lua
Me bateu saudades dela.

Foi matutando no assunto
Que voltei para a janela,
A lua andou comigo
Eu também andei com ela.

O pranto corre na face
Um sonho que se esfacela,
Um sorriso preso aos lábios
Um novo sonho revela.

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Genésio dos Santos, paulista de Itapetininga, nascido em 1952, é poeta e cronista.