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[traduzido por Raul Machado]
Por quanto mar gelado, e desde
quantos anos,
— quem o dirá jamais, róseo e
equóreo tesouro?!
a vaga, a correnteza, a
enchente e o sorvedouro
te levaram, rolando, em seus
golfões insanos?
Hoje, livre, porém, dos
vórtices tiranos,
tentas, feliz, dormir sobre as
areias de ouro.
Mas o tentas em vão! Pois,
largo e imorredouro,
soluça, no teu seio, o choro
dos oceanos!
Minh'alma também lembra uma
prisão sonora!
E como, forte, em ti, ainda
suspira e chora
da antiga voz do mar a música
das águas,
assim, no coração, morto de
amor por Ela,
— surdo e eterno bramir de longínqua procela —
ruge em mim o clamor de
inesquecíveis mágoas!
La
conque
Par quels froids Océans,
depuis combien d'hivers,
—
Qui le saura jamais, Conque frêle et nacrée! —
La houle sous-marine et les
raz de marée
T'ont-ils roulée au creux de
leurs abîmes verts?
Aujourd'hui, sous le ciel,
loin des reflux amers,
Tu t'es fait un doux lit de
l'arène dorée.
Mais ton espoir est vain.
Longue et désespérée,
En toi gémit toujours la grande
voix des mers.
Mon âme est devenue une prison
sonore:
Et comme en tes replis pleure
et soupire encore
La plainte du refrain de
l'ancienne clameur;
Ainsi du plus profond de ce
coeur trop plein d'Elle,
Sourde, lente, insensible et
pourtant éternelle,
Gronde en moi l'orageuse et
lointaine rumeur.
[Les Trophées — 1893]
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O Mundo Maravilhoso do Soneto,
de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho,
1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; José María de Heredia Girard (1842 — 1905), nascido
em Cuba (à época, colônia espanhola), na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago
de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado para a França, estudou e
bacharelou-se no colégio dos padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent, em Senlis,
foi poeta, escritor e tradutor; em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde permaneceu
por pouco mais de um ano, aprofundou os conhecimentos da língua e da literatura
espanhola, compôs seus primeiros poemas franceses que chegaram até nós, e depois
retornou para Paris — França; fez parte do grupo que tinha em Leconte de Lisle
um “chefe e mestre”, e do qual também participavam François Coppée, Sully Prudhomme,
Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos como os poetas do Parnaso,
“os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se francês, publicou Les
Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi
eleito membro da Academia Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal,
em Paris, e organizou uma edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia
é reconhecido como um dos poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção
pouco abundante, mas de boa qualidade”; além da já citada publicação de Les Tropheés,
deixou-nos também sua obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu
para a Revue de Deux Mondes, o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol
para o francês, A Verdadeira História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes,
do Capitão Bernal Diaz del Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne
— 3 volumes, 1877-1878).