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segunda-feira, 23 de março de 2015

Olegário Mariano: Renúncia

Nossos Clássicos 97: Olegário Mariano
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Renunciar.  Todo o bem que a vida trouxe,
Toda a expressão do humano sofrimento
A gente esquece assim como se fosse
Um vôo de andorinha em céu nevoento.

Anoiteceu de súbito. Acabou-se
Tudo... A miragem do deslumbramento...
Se a vida que rolou no esquecimento
Era doce, a saudade inda é mais doce.

Sofre de ânimo forte, alma intranqüila!
Resume na lembrança de um momento
Teu amor. Olha a noite: ele cintila.

Que o grande amor, quando a renúncia o invade,
Fica mais puro porque é pensamento,
Fica muito maior porque é saudade.

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Olegário Mariano — poesia, Coleção Nossos Clássicos — Volume 97, Organização, Apresentação e Notas de Herman Lima, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1968, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta, jornalista e letrista musical; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; obras literárias: Angelus (1911), Sonetos (1912), Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913), Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918), Últimas Cigarras (1920), Bataclan (crônicas em versos, 1923), Canto da minha terra (1930), Destino (1931), Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933), A Vida que já vivi (memórias, 1945), Toda uma Vida de Poesia (1957), e tantos outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Joubert de Carvalho ('Cai, cai balão', 'Tutu-marambá' e outros); também fez parceria musical com diversos outros autores.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Olegário Mariano: Trovas Soltas

Nossos Clássicos 97: Olegário Mariano
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A debater-me na treva,
Canto o amor que me quebranta:
O peso que a gente leva
É menor quando se canta.

Quando a dor mais me consome
Digo baixinho o teu nome
Para a dor afugentar,
Porque dizendo o teu nome
Tenho a impressão de cantar.

O coração e a razão
Cada qual se contradiz.
“Lembra!”  diz o coração.
“Esquece!”  a razão me diz.
E essa eterna indecisão
É o que me torna infeliz.

Um dia te ouvi dizer:
"Esquece!"  E pus-me a chorar.
Deixei o tempo correr...
Se me esqueci de esquecer,
Não me esqueço de lembrar...

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Olegário Mariano — poesia, Coleção Nossos Clássicos — Volume 97, Organização, Apresentação e Notas de Herman Lima, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1968, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta e jornalista; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; obras literárias: Angelus (1911); Sonetos (1912); Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913); Água corrente  (prefácio de Olavo Bilac, 1918); Últimas Cigarras (1920); Bataclan (crônicas em versos, 1923); Canto da minha terra (1930); Destino (1931); Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933); A Vida que já vivi (memórias, 1945); Toda uma Vida de Poesia (1957); e tantos outros títulos.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Olegário Mariano: As três sombras que passaram

Nossos Clássicos 97: Olegário Mariano
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Veio a primeira. Trazia
Nos braços, nas mãos cheirosas,
Uma braçada de rosas...
Esperança! Flor de um dia!
No esplendor do corpo lindo,
Passou cantando e sorrindo...

Veio a segunda, ébria e louca,
Boêmia, inconsciente e perdida.
Sua boca era uma taça.
Tira um beijo à flor da boca.
Sacode-me o beijo e... passa
De mão em mão... Pobre Vida!

Veio a terceira, a mais bela,
Suave, espiritual, sonora...
Chorou, quis ficar comigo,
Sem saber quem era aquela,
Deixei-a ir... Foi-se embora...
Era a Felicidade, meu amigo.

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Olegário Mariano — poesia, Coleção Nossos Clássicos — Volume 97, Organização, Apresentação e Notas de Herman Lima, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1968, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta e jornalista; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; obras literárias: Angelus (1911); Sonetos (1912); Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913); Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918); Últimas Cigarras (1920); Bataclan (crônicas em versos, 1923); Canto da minha terra (1930); Destino (1931); Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933); A Vida que já vivi (memórias, 1945); Toda uma Vida de Poesia (1957); e tantos outros títulos.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Olegário Mariano: Versos Matutos *

Nossos Clássicos 97: Olegário Mariano
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 Caboclo, meu caboclinho,
Que foi que te aconteceu?

 Bati o pé no caminho,
Fui andando... Anoiteceu.
As estrelas, de mansinho,
Numa poeira me envorveu.

 Caboclo, meu caboclinho,
Que foi que te aconteceu?

 Foi meu amô que morreu.

Devorei a redondeza
Vinte légua sem tremê,
Percurando por Teresa
Que fugiu sem me dizê.

E os riacho do caminho,
Seguindo o destino seu,
Me preguntava baixinho:
"Caboclo, meu caboclinho,
Que foi que te aconteceu?"

E eu segui... Um peso na alma
E os óio rente com o chão.
Na calma da noite calma,
O luar batia em minh'alma
Na altura do coração.

A três léguas do "Desterro"
Parei. Me pus a assuntá.
Vinha vindo o trem de ferro
Quem sabe onde vai pará?

Passou p'r'o mim como o vento...
Mas, Deus do céu, pude vê
Que Teresa ia lá dentro...
Então, perdendo a cabeça,
Com as forças que pude tê,
Gritei: Você não se esqueça
De quem gosta de você!

Mas o trem, sem sabê nada,
Sumiu... desapareceu...
Aqui tem, meu camarada,
Que foi que me aconteceu.

* Nota de Herman Lima: Publicados na revista Para Todos... de
 2.11.1929, com o pseudônimo de João Marambá, estes versos
 mereceram referência especial de Manuel Bandeira, lamentando
 sua omissão dos dois volumes de Toda uma Vida de Poesia.


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Olegário Mariano poesia, Coleção Nossos Clássicos Volume 97, Organização, Apresentação e Notas de Herman Lima, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1968, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta e jornalista; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; obras literárias: Angelus (1911); Sonetos (1912); Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913); Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918); Últimas Cigarras (1920); Bataclan (crônicas em versos, 1923); Canto da minha terra (1930); Destino (1931); Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933); A Vida que já vivi (memórias, 1945); Toda uma Vida de Poesia (1957); e tantos outros títulos.

Olegário Mariano: O Enterro da Cigarra *

Nossos Clássicos 97: Olegário Mariano
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As formigas levavam-na… Chovia…
Era o fim… Triste outono fumarento!...
Perto, uma fonte, em suave movimento,
Cantigas de água trêmula carpia.

Quando eu a conheci, ela trazia
Na voz um triste e doloroso acento.
Era a cigarra de maior talento,
Mais cantadeira desta freguesia.

Passa o cortejo entre árvores amigas…
Que tristeza nas folhas… Que tristeza!
Que alegria nos olhos das formigas!…

Pobre cigarra! Quando te levavam,
Enquanto te chorava a Natureza,
Tuas irmãs e tua mãe cantavam…


* Nota de Herman LimaEste soneto como “Água Corrente”,
 “As Duas Sombras”, “A Boêmia Triste” e “O Meu Brasil” é
 das composições mais conhecidas de Olegário Mariano, citado
 de norte a sul do Brasil. A seu respeito escreveu Manuel
 Bandeira, no ensaio dedicado ao poeta, citado neste volume: 
“Nunca me esquecerei de uma tarde em que, numa tranqüila varanda
 de Petrópolis, uma boa velhinha me contou que lera num jornal
 uns versos tão bonitos, tão simples, que só de os ler uma vez
 os decorara. Como eram? Lembra-se? perguntei. “E fiquei enternecidíssimo quando ela começou: “As formigas levavam-na...
 Chovia...” Desde esse dia passei a querer grande bem à poesia de
 Olegário. Compreendi instantaneamente que ela haveria de ficar.” 

Olegário Mariano,
por Cândido Portinari
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Olegário Mariano poesia, Coleção Nossos Clássicos Volume 97, Organização, Apresentação e Notas de Herman Lima, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1968, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta e jornalista; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; obra literária: Angelus (1911); Sonetos (1912); Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913); Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918); Últimas Cigarras (1920); Bataclan (crônicas em versos, 1923); Canto da minha terra (1930); Destino (1931); Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933); A Vida que já vivi (memórias, 1945); e tantos outros títulos.