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[traduzido por Augusto de
Campos]
De Naves-Éguas
—
I —
Quando
o lobo ulula para a lua
É porque as nuvens destroçaram o céu.
Ventres rasgados de éguas,
Negras velas de corvos ao léu.
O azul não cravará as garras
Do escarro-esgoto dos ciclones.
Desfolha-se ao nitrido das borrascas
O jardim auriconífero dos crânios.
Ouvis os sons que golpeiam o escuro?
São os ancinhos da aurora pelos prados.
Com remos de braços decapitados
Remais para a terra do futuro.
Navegai para os altos horizontes!
Lançai gritos de corvos do arco-íris!
Logo a árvore branca deixará cair
Uma folha amarela — a minha fronte.
—
5 —
Quero
cantar, cantar, cantar, cantar!
Eu não ofenderei cabra nem lebre.
Se há algo na vida que nos faz chorar,
Algo também nos faz ficar alegres.
A maçã da alegria todos portam,
Mas o assobio do ladrão nos ronda.
E o outono, sábio jardineiro, um dia corta
Uma folha amarela – a minha fronte.
Há uma só senda no jardim da aurora.
Vento de outubro corrói a floresta.
Para conhecer tudo e não ter glória
Veio ao mundo o poeta.
Veio para beijar as vacas
E ouvir no coração o triturar da aveia.
Cava, foice de versos, cava!
Vai, sol-arbusto, e flor-semeia!
[Setembro de] 1919
КОБЫЛЬИ
КОРАБЛИ
1
Если
волк на звезду завыл,
Значит, небо тучами изглодано.
Рваные животы кобыл,
Черные паруса воронов.
Не просунет когтей лазурь
Из пургового кашля-смрада;
Облетает под ржанье бурь
Черепов златохвойный сад.
Слышите ль? Слышите звонкий стук?
Это грабли зари по пущам.
Веслами отрубленных рук
Вы гребетесь в страну грядущего.
Плывите, плывите в высь!
Лейте с радуги крик вороний!
Скоро белое дерево сронит
Головы моей желтый лист.
5
Буду
петь, буду петь, буду петь!
Не обижу ни козы, ни зайца.
Если можно о чем скорбеть,
Значит, можно чему улыбаться.
Все мы яблоко радости носим,
И разбойный нам близок свист.
Срежет мудрый садовник-осень
Головы моей желтый лист.
В сад зари лишь одна стезя,
Сгложет рощи октябрьский ветр.
Все познать, ничего не взять
Пришел в этот мир поэт.
Он пришел целовать коров,
Слушать сердцем овсяный хруст.
Глубже, глубже, серпы стихов!
Сыпь черемухой, солнце-куст!
Сентябрь 1919
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Poesia Russa Moderna [várias autorias] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo
de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores,
e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33,
2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Sergei
Alexandrovich Yesenin ou Sierguéi Iessiênin (1895 — 1925), russo de Konstantinovo,
região de Ryazan Oblast, à época Império Russo, estudou em escola rural, frequentou
seminário e foi poeta; aos dezessete anos mudou-se para Moscou, de 1912 a 1915
estudou na Universidade do Povo da Cidade de Moscou em homenagem a A. L. Shanyavsky,
trabalhou como tipógrafo e revisor; começou a escrever poemas, participou de grupos
literários e publicou seu primeiro livro, Ritual para os Mortos (Radunitsa — Радуница,
1916); apoiou a Revolução de Outubro por acreditar que proporcionaria uma vida melhor
ao campesinato, o que se refletiu em outro volume de poemas, Otherland; logo desiludiu-se
e passou a criticar o governo bolchevique o que reflete em seu poema O outubro vermelho
me enganou; em 1922 casa-se pela terceira vez, agora com a dançarina Isadora Duncan
e a acompanha em turnê pela Europa; alcoolista, bebendo frequentemente e com o comportamento
mudado, recebe muita crítica negativa na imprensa internacional; em 1923 retorna
para sua terra natal e publica Tavern Moscou, Confessions of a Hooligan, Deolate
and Pale Moonlight e The Black Man; sua saúde mental entra em declínio, é hospitalizado
e, após alta em 27 de dezembro de 1925, corta os pulsos, escreve um poema de despedida
com o próprio sangue (До свиданья, друг мой, до свиданья — “Até logo, Até logo,
Companheiro”) e depois comete suicídio por enforcamento; embora tenha sido um dos
poetas mais populares da Rússia, teve grande parte de seus textos proibida durante
o governo de Joseph Stálin; somente em 1966 foram republicadas na Rússia suas obras
completas; nos meios literários, o poeta é considerado o maior expoente do chamado
Imagismo Russo, viveu com a mesma geração a que também pertenceu Vladimir Maiakóvski,
um seu grande admirador; o suicídio de Iessiênin causou grande impacto na opinião
pública da época: Maiakóvski escreveu “A Sierguéi Iessiênin” (Сергей Есенин) — um
poema crítico em resposta ao suicídio e ao poema do suicida, escrito com sangue;
suas obras: Radunitsa (1916); Livro Rural das Horas (1918), Inoniya (1918); Confessions
of a Hooligan (1921); Pugachyov (1922).