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segunda-feira, 30 de março de 2026

Lirio Resende: Exortação a Primeiro de Maio

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O trabalho não é festa,
Enquanto no mundo resta
Uma exploração que empesta,
O bem-estar, a paz geral!
Protestai, trabalhadores;
Fazei rufar os tambores
E marchai contra os horrores
Do maldito capital!

Explorados e premidos
Afinai vossos sentidos
Deixem de ser iludidos!
Há uma nova Luz, olhai!
Quem só quer emancipar,
Deve agir, tem de lutar,
Quer em Terra, quer em Mar,
Vossas forças congregai!

Avante, segui à luta,
Pois que a burguesia estulta,
Vai dirigindo a labuta
No mais torpe barbarismo!...
E se nosso esforço é falho,
Tombaremos no trabalho,
Sem repouso ou agasalho,
Despenhados num abismo!

Vamos todos à conquista,
Do novo sol que se avista,
E muitas léguas não dista,
Do elmo dos altos dos montes!
É o fanal da Liberdade,
Apontando à Humanidade,
Da futura sociedade
Os fraternos horizontes!

Primeiro de Maio é dia
De luta, não de alegria,
Pois que lembra a tirania
Contra os modernos pioneiros!
Dia também de descanso
Para darmos um balanço,
Pois nossos passos no avanço,
Vão prosseguindo ligeiros!

Neste Primeiro de Maio
Redobremos sem desmaio,
Nossa firmeza, e num raio
Mostremos não vacilar!
Que impere o nosso direito!
E tudo que diz respeito,
Para alcançarmos o preito,
Da Liberdade e o Bem-Estar!

(A Razão, 1º/5/1919, p. 9.)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de “pedreiros da anarquia”, “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem. [...], Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP, no texto O gênero na composição poética anarquista nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente libertária”; neste texto (O gênero na composição...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos Liberdade, Voz Cosmopolita, A Razão, todos do Rio de Janeiro, Renovação, entre outros...).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Teixeira Bastos: Cena noturna

Resultado de imagem para Ouve meu grito antologia de poesia operária 1894 1923
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Por alta noite um padre numa esquina,
De uma viela imunda, velha e esguia,
Envolvido em alcoólica neblina,
E esperando talvez a luz do dia.

De espaços a fulgidia campina
Olhava distraído, mas, não via
Sequer um palmo só ante a retina
E às pedras da calçada assim dizia:

Há muito que morreu o Padre Eterno,
E que são letra morta os Evangelhos!
Espessa noite reina lá nos céus!

O Verdadeiro Cristo e o Falerno,
Ou o Porto guardado em tonéis velhos;
E tu, ouro brilhante, és o meu Deus.

Teixeira Bastos

(jornal A Vanguarda, 2/9/1911, p. 1 — Rio de Janeiro)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ — Proed SR. 2e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Francisco José Teixeira Bastos (1857 1901), português e lisboeta, formado pelo Curso Superior de Letras [atual Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa], foi poeta, jornalista, publicista e ensaísta que, nos últimos vinte e cinco anos do século XIX, adquiriu reconhecimento, sendo considerado um dos indutores da teoria positivista de Augusto Comte em Portugal; ladeado por Teófilo Braga, Teixeira Bastos editou vários periódicos de crítica literária: dirigiu a revista Era Nova, a Revista de Estudos Livres, o jornal O Positivismo, e colaborou nos periódicos O Século, Renascença, A Mulher, O Pantheon, Galeria republicana, Livre Exame, entre outros; suas obras: Rumores vulcânicos (poesia, 1879), Luís de Camões e a Nacionalidade Portuguesa (ensaio, 1880), Ensaios sobre a Evolução da Humanidade (ensaios, 1882), Vibrações do Século (poesia, 1882), Princípios da Filosofia Positiva (ensaio, 1883), Teófilo Braga e a sua Obra (ensaio, 1892), A crise: estudo sobre a situação política, financeira, econômica e moral da nação (ensaio, 1894), Poetas brasileiros (crítica literária, 1895) ...; foi sócio-eleito da Academia Real das Ciências de Lisboa.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Lirio de Rezende: Últimos momentos de Nero

 
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Maldito seja o dia em que eu nasci
Maldito o ebúrneo leite que mamei
Maldita a vida inútil que passei
E malditas as mágoas que sofri

Maldita seja a paz que idealizei
Mais os lauréis do gênio que expandi
Maldita seja a lei que proclamei
E todo bem que aos nobres concedi.

Maldito seja o trono, a humanidade
Maldito o amor, o gozo, a liberdade
Que não passam de meras ilusões

Maldita seja a Madre-Natureza
Que permite o momento de fraqueza
Em que morre o maior dos corações

(Voz Cosmopolita, 1/2/1923, p. 2.)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de “pedreiros da anarquia”, “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem. [...], Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP, no texto O gênero na composição poética anarquista nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente libertária”; neste texto (O gênero na composição...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos Liberdade, Voz Cosmopolita, A Razão, todos do Rio de Janeiro, Renovação, entre outros...).

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Adalberto Viana: Cântico Segundo

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(A Anarquia)

Quando este amor fecundo e sem vaidade,
Fizer banir da Terra a hipocrisia,
Derrubando essa lei de iniqüidade
E o reinado feroz da burguesia.

Quando o povo não sofra de apatia
Quando existir de fato a sã verdade;
E forem Deus, Estado e Fidalguia
Anulados a bem da humanidade:

E quando se inaugure sobre a Terra
O programa genial da guerra à guerra
E unidos todos como irmãos leais;

Então no mundo existirá, perfeito
Um regime comum de mais respeito,
Para a junção de todos os mortais!

(jornal Liberdade, 2ª quinzena/5/1912, p. 2.)
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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Adalberto Viana, ou Adalberto Vianna, foi poeta, barbeiro e militante anarquista; nos relata Milton Lopes, no Emecê — Boletim do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa — Ano III, nº 10. Novembro de 2008:
     ‘... Adalberto Viana, barbeiro de profissão, juntamente com onze colegas, redigiu e assinou dois documentos publicados no jornal anarquista Spartacus em sua edição de 18 de outubro de 1919. Eram eles as Bases de Acordo e o Regulamento de Organização do que o jornal intitulava “Um Ensaio de Livre Organização do Trabalho”, que consistia na fundação de um salão para que aqueles profissionais, vítimas das perseguições dos patrões em função de recente greve da categoria pudessem trabalhar. No entanto, o Salão Liberdade, como foi designado por seus 12 fundadores, possuía características diferentes de todos os outros estabelecimentos do gênero. Segundo suas Bases de Acordo, todos os seus 12 fundadores e sócios fariam parte de seu conselho de administração, que se reuniria semanalmente para tratar de todas as questões referentes ao salão. O mesmo conselho, integrado por todos os participantes do Salão, elegeria um administrador, um tesoureiro e um escriturário (que deveriam todos ser trabalhadores do salão) cujas funções poderiam ser revogadas a qualquer momento. O administrador deveria prestar contas duas vezes por mês e toda féria diária entregue ao tesoureiro e depois de contada e conferida juntada à féria bruta, de onde sairia o retorno financeiro para os associados e para o próprio Salão. No Salão Liberdade, que se localizaria na rua José Maurício atual República do Líbano, 41) todo associado poderia retirar até 50 mil réis além do que havia produzido, sendo o dinheiro que sobrasse reinvestido no salão. Começando a trabalhar às 8 horas da manhã, os integrantes do Salão se comprometiam a pagar a seus componentes de acordo com o memorial de seu sindicato, a União dos Oficiais de Barbeiro, assim como a cumprir quaisquer resoluções daquele sindicato. Ressalvava-se que “em nenhum caso o Salão poderá pertencer a quem pretenda explorar com ordenados a outros barbeiros; isto é, a quem se proponha a ser patrão”.
     Os princípios autogestionários e de apoio mútuo que orientavam a criação do Salão Liberdade eram produto direto da maneira como os barbeiros anarquistas tiveram que se organizar para sobreviver durante a greve da categoria em 1919. A 02 de agosto de 1919 o Spartacus em sua coluna Ação Proletária noticiava a eclosão da greve dos barbeiros no dia anterior, cansados da exploração patronal, lutando por um salário razoável, participação proporcional nos lucros e abolição completa da gorjeta. “Como se vê — comentava o jornal — as pretensões dos oficiais barbeiros não se limitam a melhorias de ordem econômica, pois a abolição da humilhante gorjeta tem uma significação altamente moral”. No número seguinte o jornal comentava que os barbeiros grevistas estavam exercendo seu ofício nas sedes das associações operárias, tendo como fregueses os trabalhadores e, desta forma, também boicotando as barbearias que permaneciam abertas, furando a greve. ...’;
Edgar Rodrigues escreve em Os pedreiros da anarquia [VERVE: Revista Semestral do NU-SOL Núcleo de Sociabilidade Libertária/Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº 7 (maio 2005)]:
     “... Conheci e soube de operários barbeiros, Amílcar dos Santos, Adalberto Viana (bom poeta libertário), Daniel Montalvão, Zacarias de Lima, e empregados do comércio: Adelino Tavares de Pinho, Antônio Duarte Candeias, Atílio Pessagno, Aquilino Massena, F.G. Sousa Passos (autor de vários opúsculos e deixou uma excelente obra inédita, O Sentido Artístico do Anarquismo). ...”;
Iara Aun Khoury, historiadora, expõe no Texto/Documento A Poesia Anarquista, em Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História São Paulo, volume 8, Nº 15, setembro de 1987/fevereiro de 1988 volume 8:
     “... É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; [ . . . ]; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância; ...”.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Adalberto Vianna: Cântico Primeiro

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(A Anarquia)

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Heróis do novo Mundo, profetas da Anarquia,
Rasgai todas as leis, falai aos operários;
Havemos de acabar com toda a hipocrisia
E derribar de vez os míseros salários!

Ireis abandonar fosforescências místicas
Mas tereis dessa Luz os sonhos imponentes!
E de sonhar assim com forças silogísticas
Propaga-se a verdade aos seres padecentes.

Iremos transformar do mundo os seus algozes
Mostrarmos no direito a força da igualdade,
Cingirmo-nos ao bem, deixar de ser ferozes
E praticar de fato as leis da Humanidade!

Iremos demonstrar os vícios ignorados
De onde se extrai ainda a louca fantasia;
Iremos cultivar direitos mais sagrados
Apontando ao desprezo a forte burguesia!

(Jornal Liberdade, 1ª quinzena/6/1918, p. 2.)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Adalberto Viana, ou Adalberto Vianna, foi poeta, barbeiro e militante anarquista; nos relata Milton Lopes, no Emecê — Boletim do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa — Ano III, nº 10. Novembro de 2008:
     ... Adalberto Viana, barbeiro de profissão, juntamente com onze colegas, redigiu e assinou dois documentos publicados no jornal anarquista Spartacus em sua edição de 18 de outubro de 1919. Eram eles as Bases de Acordo e o Regulamento de Organização do que o jornal intitulava “Um Ensaio de Livre Organização do Trabalho”, que consistia na fundação de um salão para que aqueles profissionais, vítimas das perseguições dos patrões em função de recente greve da categoria pudessem trabalhar. No entanto, o Salão Liberdade, como foi designado por seus 12 fundadores, possuía características diferentes de todos os outros estabelecimentos do gênero. Segundo suas Bases de Acordo, todos os seus 12 fundadores e sócios fariam parte de seu conselho de administração, que se reuniria semanalmente para tratar de todas as questões referentes ao salão. O mesmo conselho, integrado por todos os participantes do Salão, elegeria um administrador, um tesoureiro e um escriturário (que deveriam todos ser trabalhadores do salão) cujas funções poderiam ser revogadas a qualquer momento. O administrador deveria prestar contas duas vezes por mês e toda féria diária entregue ao tesoureiro e depois de contada e conferida juntada à féria bruta, de onde sairia o retorno financeiro para os associados e para o próprio Salão.
     No Salão Liberdade, que se localizaria na rua José Maurício atual República do Líbano, 41) todo associado poderia retirar até 50 mil réis além do que havia produzido, sendo o dinheiro que sobrasse reinvestido no salão. Começando a trabalhar às 8 horas da manhã, os integrantes do Salão se comprometiam a pagar a seus componentes de acordo com o memorial de seu sindicato, a União dos Oficiais de Barbeiro, assim como a cumprir quaisquer resoluções daquele sindicato. Ressalvava-se que “em nenhum caso o Salão poderá pertencer a quem pretenda explorar com ordenados a outros barbeiros; isto é, a quem se proponha a ser patrão”.
     Os princípios autogestionários e de apoio mútuo que orientavam a criação do Salão Liberdade eram produto direto da maneira como os barbeiros anarquistas tiveram que se organizar para sobreviver durante a greve da categoria em 1919. A 02 de agosto de 1919 o Spartacus em sua coluna Ação Proletária noticiava a eclosão da greve dos barbeiros no dia anterior, cansados da exploração patronal, lutando por um salário razoável, participação proporcional nos lucros e abolição completa da gorjeta. “Como se vê  comentava o jornal  as pretensões dos oficiais barbeiros não se limitam a melhorias de ordem econômica, pois a abolição da humilhante gorjeta tem uma significação altamente moral”. No número seguinte o jornal comentava que os barbeiros grevistas estavam exercendo seu ofício nas sedes das associações operárias, tendo como fregueses os trabalhadores e, desta forma, também boicotando as barbearias que permaneciam abertas, furando a greve. ...’;
Edgar Rodrigues, historiador, pesquisador e arquivista, escreve em Os pedreiros da anarquia [VERVE: Revista Semestral do NU-SOL Núcleo de Sociabilidade Libertária/Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº 7 (maio 2005)]:
     “... Conheci e soube de operários barbeiros, Amílcar dos Santos, Adalberto Viana (bom poeta libertário), Daniel Montalvão, Zacarias de Lima, e empregados do comércio: Adelino Tavares de Pinho, Antônio Duarte Candeias, Atílio Pessagno, Aquilino Massena, F.G. Sousa Passos (autor de vários opúsculos e deixou uma excelente obra inédita, O Sentido Artístico do Anarquismo). ...”;
Iara Aun Khoury, historiadora, expõe no Texto/Documento A Poesia Anarquista, em Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História São Paulo, volume 8, Nº 15, setembro de 1987/fevereiro de 1988:
     “... É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; [ . . . ]; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância; ...”.

sábado, 26 de novembro de 2022

Neno Vasco: A Marselhesa do Fogo

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Coro:

A chama a crepitar! Em círculo formai!
Dançai!
Dançai!
De archote aceso o mundo iluminai!

Correi, correi, filhos do Povo!
Deixai a pena e vinde ver...
Vinde assistir ao quadro novo:
O burgo vil a arder, a arder!
A chama alegre, a crepitar,
Anda a correr entre os casebres:
Arde um covil de fome e febres:
A chama heróica sobe ao ar...

A chama heróica sobe, voa,
Sobre as pocilgas rubro véu:
E a crepitar o fogo entoa
Uma canção que sobe ao céu...
Quanta miséria desinfecta
A chama audaz de rubro tom!
O burgo é velho, o fogo é bom!
A chama sobe em linha recta...

O burgo todo se esboroa
A chama varre a podridão
Oh! como a terra será boa!
Oh! quantas messes brotarão!
Colhe as panteras no covil
Queimada vá! Colhe as serpentes!
A chama tem línguas frementes,
E põe no céu um tom febril...

A chama faz cair tugúrios,
E faz ruir prisões também:
Lambe quartéis, mantos purpúreos,
A podridão que a terra tem...
E enquanto o burgo se reduz,
As brasas rubras fumegantes
[As chamas têm tons fulgurantes]
Duma potente e nova luz.

A chama canta, salta e corre,
O velho burgo tomba enfim...
Oh! quanto abutre cai e morre!
Oh! quanto abutre em seu festim!
De face a arder que a chama crésta!
Oh párias nus vinde dançar.
Dançar em roda, correr, cantar,
Que esta fogueira é vossa festa!

[A] Guerra Social,16/7/1911,
[nº2], p. 3, [Rio de Janeiro].

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Neno Vasco (1878 1920) ou Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós Vasconcelos, português de Penafiel, distrito do Porto, estudou no Liceu, de Amarante, formou-se pela Faculdade de Direito de Coimbra, foi advogado, jornalista, poeta, escritor, dramaturgo e militante anarco-sindicalista; colaborou com o jornal lisboeta O Mundo, a revista A Sementeira, também portuguesa, A Voz do Trabalhador, em São Paulo, tendo sido fundador dos jornais Amigo do Povo, A Terra Livre, e lançado a revista Aurora, periódicos de ideário anarquista; Neno Vasco viveu parte de sua vida e militância no Brasil; suas obras: A Academia de Coimbra ao Povo Português (1901), Pecado de Simonia (peça teatral, 1907), Anedota em 1 acto (peça teatral, 1911), Geórgias: ao trabalhador rural (1913), Da Porta da Europa — factos e idéias: a questão religiosa, a questão política, a questão econômica 1911 — 1912 (1913), A Concepção Anarquista do Sindicalismo (1920), Greve de inquilinos (farsa teatral em 1 acto, 1923); como tradutor, verteu para a língua portuguesa Élizée Reclus — Evolução, Revolução e Ideal Anarquista (1904) e o hino A Internacional (1909).

domingo, 30 de outubro de 2022

Adalberto Viana: Ego sum!...

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Aos adversários Aureliano Leal e Nuno de Almeida

Sim. Eu sou Anarquista! Eu quero a Liberdade!
Detesto a escravidão! condeno a disciplina!
Eu busco um mundo novo, um mundo de equidade
Onde não haja lei, governo ou guilhotina!

Estimo com fervor toda esta Humanidade!
Não tenho religião, mas tenho uma doutrina!
Palpita no meu ser um sonho de igualdade
E quero realizá-lo à luz que me ilumina!

São belos para mim os grandes precipícios!
Não penso nas prisões, nem temo o potentado!
Minha idéia feliz irá banindo os vícios.

Inspirada no amor com sangue conquistado!
Desejo a Terra Livre! Abaixo os sacrifícios!
Façamos a Anarquia, ó Povo escravizado!

[jornal] Liberdade, 7/1919, p. 1.
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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Adalberto Viana, ou Adalberto Vianna, foi poeta, barbeiro e militante anarquista; nos relata Milton Lopes, no Emecê — Boletim do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa — Ano III, nº 10. Novembro de 2008:
     ‘... Adalberto Viana, barbeiro de profissão, juntamente com onze colegas, redigiu e assinou dois documentos publicados no jornal anarquista Spartacus em sua edição de 18 de outubro de 1919. Eram eles as Bases de Acordo e o Regulamento de Organização do que o jornal intitulava “Um Ensaio de Livre Organização do Trabalho”, que consistia na fundação de um salão para que aqueles profissionais, vítimas das perseguições dos patrões em função de recente greve da categoria pudessem trabalhar. No entanto, o Salão Liberdade, como foi designado por seus 12 fundadores, possuía características diferentes de todos os outros estabelecimentos do gênero. Segundo suas Bases de Acordo, todos os seus 12 fundadores e sócios fariam parte de seu conselho de administração, que se reuniria semanalmente para tratar de todas as questões referentes ao salão. O mesmo conselho, integrado por todos os participantes do Salão, elegeria um administrador, um tesoureiro e um escriturário (que deveriam todos ser trabalhadores do salão) cujas funções poderiam ser revogadas a qualquer momento. O administrador deveria prestar contas duas vezes por mês e toda féria diária entregue ao tesoureiro e depois de contada e conferida juntada à féria bruta, de onde sairia o retorno financeiro para os associados e para o próprio Salão.
     No Salão Liberdade, que se localizaria na rua José Maurício atual República do Líbano, 41) todo associado poderia retirar até 50 mil réis além do que havia produzido, sendo o dinheiro que sobrasse reinvestido no salão. Começando a trabalhar às 8 horas da manhã, os integrantes do Salão se comprometiam a pagar a seus componentes de acordo com o memorial de seu sindicato, a União dos Oficiais de Barbeiro, assim como a cumprir quaisquer resoluções daquele sindicato. Ressalvava-se que “em nenhum caso o Salão poderá pertencer a quem pretenda explorar com ordenados a outros barbeiros; isto é, a quem se proponha a ser patrão”.
     Os princípios autogestionários e de apoio mútuo que orientavam a criação do Salão Liberdade eram produto direto da maneira como os barbeiros anarquistas tiveram que se organizar para sobreviver durante a greve da categoria em 1919. A 02 de agosto de 1919 o Spartacus em sua coluna Ação Proletária noticiava a eclosão da greve dos barbeiros no dia anterior, cansados da exploração patronal, lutando por um salário razoável, participação proporcional nos lucros e abolição completa da gorjeta. “Como se vê — comentava o jornal — as pretensões dos oficiais barbeiros não se limitam a melhorias de ordem econômica, pois a abolição da humilhante gorjeta tem uma significação altamente moral”. No número seguinte o jornal comentava que os barbeiros grevistas estavam exercendo seu ofício nas sedes das associações operárias, tendo como fregueses os trabalhadores e, desta forma, também boicotando as barbearias que permaneciam abertas, furando a greve. ...’;
Edgar Rodrigues, historiador, pesquisador e arquivista, escreve em Os pedreiros da anarquia [VERVE: Revista Semestral do NU-SOL Núcleo de Sociabilidade Libertária/Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº 7 (maio 2005)]:
     “... Conheci e soube de operários barbeiros, Amílcar dos Santos, Adalberto Viana (bom poeta libertário), Daniel Montalvão, Zacarias de Lima, e empregados do comércio: Adelino Tavares de Pinho, Antônio Duarte Candeias, Atílio Pessagno, Aquilino Massena, F.G. Sousa Passos (autor de vários opúsculos e deixou uma excelente obra inédita, O Sentido Artístico do Anarquismo). ...”;
Yara Aun Khoury, historiadora, expõe no Texto/Documento A Poesia Anarquista, em Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História São Paulo, volume 8, Nº 15, setembro de 1987/fevereiro de 1988:
     “... É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; [ . . . ]; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância; ...”.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Adalberto Viana: Sexto Cântico

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(Anarquia)

Que vem a ser governo? Atroz negaça
Por espertos armada ao povo tolo!
Embusteiros que vivem na trapaça
E cabeças sinistras sem o miolo.

É desordem total que sempre ameaça
Roubar dos lares o maior consolo,
Nos obrigando a sustentar de graça
Parasitas que vivem nesse bolo!

Patriotismo, não! É patuscada!
A lei fundamental, é burla inteira!
Política? Isso então é palhaçada!

Não é mais que uma grande “pepineira”.
Pois, de velhacos é somente escada
E de quem quer mamar, vaca leiteira!...

(jornal Liberdade, 2ª quinzena/9/1918, p. 3.)
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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Adalberto Viana, ou Adalberto Vianna, foi poeta, barbeiro e militante anarquista; nos relata Milton Lopes, no Emecê — Boletim do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa — Ano III, nº 10. Novembro de 2008:
     ‘... Adalberto Viana, barbeiro de profissão, juntamente com onze colegas, redigiu e assinou dois documentos publicados no jornal anarquista Spartacus em sua edição de 18 de outubro de 1919. Eram eles as Bases de Acordo e o Regulamento de Organização do que o jornal intitulava “Um Ensaio de Livre Organização do Trabalho”, que consistia na fundação de um salão para que aqueles profissionais, vítimas das perseguições dos patrões em função de recente greve da categoria pudessem trabalhar. No entanto, o Salão Liberdade, como foi designado por seus 12 fundadores, possuía características diferentes de todos os outros estabelecimentos do gênero. Segundo suas Bases de Acordo, todos os seus 12 fundadores e sócios fariam parte de seu conselho de administração, que se reuniria semanalmente para tratar de todas as questões referentes ao salão. O mesmo conselho, integrado por todos os participantes do Salão, elegeria um administrador, um tesoureiro e um escriturário (que deveriam todos ser trabalhadores do salão) cujas funções poderiam ser revogadas a qualquer momento. O administrador deveria prestar contas duas vezes por mês e toda féria diária entregue ao tesoureiro e depois de contada e conferida juntada à féria bruta, de onde sairia o retorno financeiro para os associados e para o próprio Salão. No Salão Liberdade, que se localizaria na rua José Maurício atual República do Líbano 41, todo associado poderia retirar até 50 mil réis além do que havia produzido, sendo o dinheiro que sobrasse reinvestido no salão. Começando a trabalhar às 8 horas da manhã, os integrantes do Salão se comprometiam a pagar a seus componentes de acordo com o memorial de seu sindicato, a União dos Oficiais de Barbeiro, assim como a cumprir quaisquer resoluções daquele sindicato. Ressalvava-se que “em nenhum caso o Salão poderá pertencer a quem pretenda explorar com ordenados a outros barbeiros; isto é, a quem se proponha a ser patrão”.
     Os princípios autogestionários e de apoio mútuo que orientavam a criação do Salão Liberdade eram produto direto da maneira como os barbeiros anarquistas tiveram que se organizar para sobreviver durante a greve da categoria em 1919. A 02 de agosto de 1919 o Spartacus em sua coluna Ação Proletária noticiava a eclosão da greve dos barbeiros no dia anterior, cansados da exploração patronal, lutando por um salário razoável, participação proporcional nos lucros e abolição completa da gorjeta. “Como se vê  comentava o jornal  as pretensões dos oficiais barbeiros não se limitam a melhorias de ordem econômica, pois a abolição da humilhante gorjeta tem uma significação altamente moral”. No número seguinte o jornal comentava que os barbeiros grevistas estavam exercendo seu ofício nas sedes das associações operárias, tendo como fregueses os trabalhadores e, desta forma, também boicotando as barbearias que permaneciam abertas, furando a greve. ...’;
Edgar Rodrigues, historiador, pesquisador e arquivista, escreve em Os pedreiros da anarquia [VERVE: Revista Semestral do NU-SOL Núcleo de Sociabilidade Libertária/Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº 7 (maio 2005)]:
     “... Conheci e soube de operários barbeiros, Amílcar dos Santos, Adalberto Viana (bom poeta libertário), Daniel Montalvão, Zacarias de Lima, e empregados do comércio: Adelino Tavares de Pinho, Antônio Duarte Candeias, Atílio Pessagno, Aquilino Massena, F.G. Sousa Passos (autor de vários opúsculos e deixou uma excelente obra inédita, O Sentido Artístico do Anarquismo). ...”;
Iara Aun Khoury, historiadora, expõe no Texto/Documento A Poesia Anarquista, em Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História São Paulo, volume 8, Nº 15, setembro de 1987/fevereiro de 1988:
     “... É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; [ . . . ]; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância; ...”.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Lirio de Rezende: Organização & Trabalhador que labutas

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Organização

Os governos se organizam
Empregando a tirania
Para esmagar as idéias
Que prosperam dia a dia!

Façamos também o mesmo
Em pujantes alcatéias;
Esmagada a tirania
Vencerão nossas idéias!

(Voz Cosmopolita, 1/4/1922, p.2.)

Trabalhador que labutas

Trabalhador que labutas
Escravizado ao poder,
Tu plantas as boas frutas
Que os outros sabem comer

(Voz Cosmopolita, 18.12.1923, p.2.)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de "pedreiros da anarquia", “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem [...], Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP, no texto “O gênero na composição poética anarquista” nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente libertária”; neste texto (O gênero na composição ...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro"; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos LiberdadeVoz CosmopolitaA Razão, todos do Rio de Janeiro, entre outros...).

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Sylvio Figueiredo*: Os conscritos

 
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(Guerra européia de 1914)

Sinto um pávido horror ante o quadro pungente;
são conscritos que vão, coagidos, à batalha,
morrer ao trom do obus que lacera, estraçalha
e em longas filas vão passando lentamente.

E são homens que têm horror à guerra; e vão
entretanto morrer e matar sem piedade;
bons heróis do labor, vão semear irrisão!
a infâmia, o pranto, a dor, a viuvez, a orfandade!

Minha imaginação, rude e indomável potro,
sonha o homem que dirá: “Não irei para a guerra!
Matai-me, se o quereis; prefiro sobre a Terra,
ser vítima de um crime a ser cúmplice de outro!”

(jornal Voz do Povo, 9/5/1920, p. 2.)

Nota do Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que pelos traços biobibliográficos de Sylvio Figueiredo, em Os Poetas Satíricos do Café Paris (organização, apresentação e introdução de Luiz Antonio Barros, 2014), ficamos sabendo que embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris, Niterói (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; antes, em 1913, o poeta publicou Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café.
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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo, fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; bibliografia: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Sylvio Figueiredo*: Ao operário

 
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Operário ignorante e maltrapilho,
escravo, ilota da moderna idade
que neste afã perdes a cor e o brilho
do olhar, fanando a flor da mocidade.

Que vês de fome definhar teu filho
e de teu lar fugir a alacridade,
desperta finalmente e segue o trilho
da rebeldia e da felicidade!

Atenta na abjeção em que caíste,
a ardente voz dos teus irmãos escuta,
pensa na agrura do teu fado triste.

E, sem achares forças que te domem,
quebra os grilhões, instrui-te e, altivo, luta
por seres livre para seres HOMEM!

(jornal Spartacus, 25/10/1919, p. 2.)

Nota do Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que pelos traços biobibliográficos de Sylvio Figueiredo, em Os Poetas Satíricos do Café Paris (organização, apresentação e introdução de Luiz Antonio Barros, 2014), ficamos sabendo que embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris, Niterói (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; antes, em 1913, o poeta publicou Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café.
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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo, fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; bibliografia: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras.