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sábado, 30 de agosto de 2025

Dušan Matić: Mar

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

Hoje dormes, densa beldade veranil
maturas em pleno agosto
feito mulher que descobriu que o amor é
tudo e é cinza e é inesgotável
chama que o primeiro sopro reaviva
e um segundo sopro apaga
e um terceiro sopro novamente reaviva
e assim por diante
pelas crianças nascidas e pelas não nascidas
deixa em paz a onda balouçante.

Dormes, densa beldade veranil
Tu, que cegas até o infinito
luz brilhante, brilho no brilho
voragem junto à voragem, voragem na voragem
Todos os gritos de todos os naufrágios em ti se igualam
e hoje se aquietam em tua supérflua harmonia diamantina.

Dorme também tu diante dessa infinitude
diante desse brilho reluzente que lucila
dorme sobre o travesseiro inquieto das lembranças
das lembranças truncadas e dos instantes desperdiçados
dorme, embriagado no esquecimento
dorme, à beira das visões que fitar não soubeste
à margem infértil do conhecimento
à margem da cegueira e do paladar perdido
e no encontro das tempestades
e lá tembém onde a aurora se reparte
e onde tu não estás
nem com o teu grito nem com a verdejante
duração.

Dorme
e tudo o que quiseram as curiosas gaitas dos sentidos
as mãos em trabalho ignotos
e o jejum da eternidade eu não quero nem pelo preço desses
prematuros
nem tampouco pelo preço da vigília por crianças futuras de mulheres
desonradas
quando pela terra passarem desapiedados conquistadores
nos desertos dos devaneios tudo isso são cumes desnudados
onde se põem as noites e as canções não terminadas
de egoístas amantes satisfeitos.

No primeiro catre desvendarás o mapa do mundo
desenharás todas as coordenadas e abrirás todos os compassos
daqui até a África
as linhas são as mesmas, o silvar do vento é o mesmo, o chamado do
deserto é o mesmo,
e as escusas mãos no laço de carne as mesmas como no coração do
primeiro caminhante.

É melhor que durmas
Não sorri quando te agradar algo que não sabias que iria agradar-te
cobre a tua cabeça com ambas as mãos
e diz quem poderá romper esse escudo de granizo.

Inquietações e madições rebentarão quando com fragor
baixares os teus inaudíveis lábios sobre amargos lábios
que rasgam o mundo no horror da alagria e no horror do sofrimento
ó rosa do adocicado horror, ó rosa da não digesta ausência, ó mesma
rosa do horror
ó rosa selvagem do misto sangue
dia, e não há dia
noite, e não há noite
estrelas ou fluir de sangue apagados.

É melhor que durmas
o gato se estira sobre a parede ensombreada
as uvas amadurecem nas parreiras
o reconhecimento estendeu-se sobre o mundo.

dorme
duas tardias borboletas apressam-se rumo ao sol traiçoeiro
e com a vinda da noite desaparecerão
e duas belezas com elas também.

Dorme, e quando nada mais restar tu
dorme, o amor espera pelo amanhã e por ti e pelas encantadas
asas do espaço onde ardem as cores da eternidade
mesmo quando há negror nas raízes do teu olhar e nos teus feridos
seios

e quando te seduz a floresta perdida de teu sangue
de tua mortal verdade.

Dorme,
a eternidade é aquele fulgor, aquela infinitude
aquela ensandecida harmonia sobre o vloco dos naufrágios
e o teu sonho além de todas as justiças e todas as injustiças
a eternidade é aquela que se engalfinha inquieta diante de teus
pés mortificados
e obediente tombará diante dos adormecidos, amados, cruéis
pés teus.

Dušan Matić

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Spavaš danas, gusta lepoto leta
zriš u srcu avgusta
kao žena koja je poznala da ljubav je
sve i pepeo i opet neiscrpna
žar što ga prvi dah raspiri
i drugi dah ugasi
i treći dah opet raspiri
i tako redom
za decu rođenu i decu nerođjenu
bujan talas za to ne mari.

Spavaš, gusta lepoto leta
o ti zaslepljujući nedogledu
sjaj do sjaja, sjaj u sjaju
ambis do ambisa, ambis u ambisu
Svi krici svih brodolomnika u tebi su izjednačeni
i smireni danas u tvom izlišnom dijamantnom skladu.

Spavaj i ti pred tim nedogledom
pred tim sjajem od sjaja svakog sjajnijim
spavaj na nemirnom uzglavlju uspomena
krnjih uspomena i promašenih trenutaka
spavaj, pijana od zaborava
spavaj na ivici čarolija koje nisi znala da vidiš
na jalovoj ivici saznanja
na ivici slepila i izgubljenog ukusa
i na dodiru oluja
i tamo gde se deli zora
i gde te nema
ni krikom ni zimzelenom
trajanja.

Spavaj
šta su htele smešne gajde smisla
šta ruke na nepoznatom poslu
post večnosti ja neću ni po cenu ove nedonoščadi
ni po cenu svanuća za decu buduću žena obeščašćenih
kad zemljom prodju bezazleni osvajači
na puste fatamorgane
to su samo ćelavi vrhunci
gde zalaze večeri i pesme nedopevane
sitih sebičnih ljubavnika.

Na prvom krevetu rasklopićeš mapu sveta
ispisaćeš sve koordinate i raširićeš sve šestare
odavde pa do Afrike
isti je stroj, isti je šum vetra, isti zov pustare
i iste turobne ruke u zamci mesa kao u srcu prvog prolaznika.

Bolje spavaj.
Ne smej se kad zavoliš što nisi znala da ćeš zavoleti
glavu svoju obujmi rukama obema
taj obruč od tuči ko će moći da slomi.

Prsnuće damari i kletve tek kad skrušeno
spustiš neuslišene usne na gorke usne
što cepaju svet na užas radosti i na užas patnje.
O ružo slatkog užasa, o ružo nesvarene otsutnosti, o ista ružo užasa
o divlja ružo pomešane krvi
dan, a nema dana
noć, a nema noći
zvezde i krvotok ugašeni.

Bolje spavaj,
mačka se proteže na osenčenom zidu
groždje zri na čokotima
bonača je polegla nad svetom
spavaj
dva pozna leptira žure varljivom suncu
i dolaskom noći nestaće ih
i dve lepote s njima.

Spavaj, kad ništa drugo ne preostaje ti
spavaj, ljubav čeka na sutra i na tebe i na omamljena
krila prostora gde gore boje večnosti
i kad je tama u korenju tvog vida i u tvojim ranjavim grudima
i kad te mami izgubljena prašuma tvoje krvi
tvoje smrtne istine.

Spavaj,
večnost je taj sjaj, taj nedogled
taj uzaludni sklad nad paperjem brodolomnika
i tvoj san preko svih pravdi svih nepravdi

večnost je taj talas što nesmiren vrvi pred tvojim
smrtnim nogama
taj talas silan ciklon što lomi katarke
i poslušno pašće pred nemilosrdnom, ljubljenom, zaspalom
nogom tvojom.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
____________________
Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Dušan Matić (1898 1979[?] [1980]), iugoslavo nascido em Tchúpria, matriculou-se em Filosofia na Sorbonne Paris em 1917, motivado por doença interrompeu o curso e, de volta a Belgrado, completou o curso em 1922, formando-se pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado, foi poeta do surrealismo, crítico, ensaísta, professor e tradutor; viajou pela França, Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda e Dinamarca; foi participante do grupo surrealista de Belgrado e de seu almanaque surrealista Nemoguće (O Impossível); colaborou com os periódicos de vanguarda modernistas surrealistas e suas dissenções: revistas Zenit [Zenith], Putevi (Estradas), Svedočanstva (Testemunhos), da qual o poeta foi um iniciador, Naša stvarnost (Nossa Realidade) e 50 u Evropi [50 na Europa], todas de Belgrado, nas quais publicou poemas, ensaios e outros escritos; ainda em 1922, já em Dresden-Alemanha, estudou filosofia romântica alemã; antes, aos 16 anos e sob o pseudônimo de Uroš Jovanović, publicara sua primeira poesia no Radničke novine (Jornal dos Trabalhadores) do Partido Social-Democrata Sérvio; em duas épocas, foi professor de ensino médio e lecionou línguas sérvia e francesa; suas obras: Položaj nadrealizma u društvenom procesu (em colaboração com Oskar Davičo e Đorđe Kostić, A Posição do Surrealismo no Processo Social, 1932), Gluho doba (Os Tempos Surdos, romance, 1940), Bagdala (poemas [cancioneiro emotivo], 1954), Buđenje materije (O Despertar da Matéria, ensaio, 1959), Proplanak i um (coleção de ensaios, artigos e entrevistas, O Prado e a Mente, 1969), Bitka oko zida (seleção de ensaios, Uma luta sobre o muro, 1971), André Breton oblique (1976) Tajni plamen (Chama Secreta, 1976) ...; traduziu Émile Zola (Germinal e Son Excellence Eugène Rougon) e Ivan Pavlov (obra sobre reflexos condicionados), foi cotradutor de Roger Martin du Gard (do multivolume Les Thibault: Le Cahier gris [O Caderno Cinzento]); Dušan Matić, que sofreu prisões por suas atividades e teve que se aposentar de dar aulas, sem condenação, foi um dos principais membros da Associação de Cientistas, Escritores e Artistas da Sérvia.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Dušan Matić: Em nome da planta

 
____________________
[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

Pagão mais irado emergiste do lodo por seres apenas
Passo minúsculo, chamado Sangue-no-colo (o sobrenome não
importa).
Balouçavas a cabeça de carneiro da constelação de amantes
obscurecido e bruto. Nem respeitavas aos céus, nem à fome, nem o
teu
enuviado alheamento de ti próprio, de tua falsa testemunha
semipresente, mas sem cumprimentos. Foste energia
mas sem tempo.

E o que importa que de mosquitos as asas tenham zumbido
centenas de dedos femininos no teu dilacerado pulso
contendo-te um
batimento, se nostálgico estavas, se fedias ao sangue
da significação. Com quem retornavas da caça
não vinhas carregado de dias apenas. E com quem regressavas
ao longo do rastro de relâmpagos anteriores gradualmente iluminados
na partida de dentro da morte e com quem regressas dos desertos
sobre o espelho de aço da mente
através dessa mesma ignorância. Com a qual balouças brancos
suaçus
de peles de cobra e sombras. E que agarravam em armadilhas
das mudançasque te eram estranhas.
Não para eles.

Foste o que és: chaga irada da infidelidade sobre os corpos
dos amantes, daquelas tempestades de tuas estranhezas em descidas
tuas. Que bates com o dente do mostrador na arrombada porta
do relógio, embora ninguém te desse corda para a eternidade
revolveres,
tenho ao menos a impressão. Mas, seres o que és! Por isso és
mais supérfluo para ti próprio às vezes que a sombra de teu brilho
foi. Por isso nas figueiras
às vezes ouviste cerrar de dentes que esfregam sem ti a sua
diminuição,
mas também a multiplicação. Por isso jorraste chuvas de ti
batendo no vazio com a tua panqueca molhada,
de certa forma com o coração desgasto, cercado pela infinitude, tu,
ossinho metálico
dentro de uma tâmara.

Apareceste na constelação de amantes obscurecido e abatido.
Quiseste manter a tua alheia vida. Durou
algo como o voo do rtelâmpago de um fim ao infinito da caça
de si próprio e foste o que és: propriedade do amor.
E não ele.

Dušan Matić

U ime bilja

§ 1

Izlazio si iz mulja pogan a Ijut što si samo
Bat jedan, zvan Krvovrat (prezime nije važno).
Klimao si ovnujskom glavom iz sazveždja Ijubavnika
neosvetljen i surov. Nisi poštovao ni nebo, ni glad, ni svoju
mutnu otudjenost sebi, tvom lažnom svedoku
napola prisutnom, ali bez zdravo. Bio si strujanje,
i bez vremena.

I šta mar što su krilima mušica zujale
stotine ženskih prstiju na tvom razvaljenom pulsu
brojeći ti juedan
udar, kad si bio sumoran, kad si bazdio na krv
smisla. S kojim se vraćao nisi iz lova
natovaren danima samo. S kojim si vraćao se
niz tragove ranijih munja stepeničasto osvetljenih
na polasku iz smrti. S kojim si vraćao se iz pustara
iza čeličnog ogledala uma
kroz istu neznan. Kojom su promicale bele srne
zmijskijih koža no senke koje su te hvatale u zamke
promena stranih tebi.
Ne njima.

Bio si koji jesi: ljuti ožiljak neverstva na telima
ljubavnica, tih bura tvojih tudjina na nizbrdici
tebe. Koji kucaš zubom od skazaljki u probijena vrata
časovnika, mada te niko nije navio večnost da raznivaš
čini mi se. Ali biti koji jesi! Zato si
izlišniji ponekad sebi od senki sopstvenoj svestlosti
bio. Zato si u smokvama
ponekad čuo škrgute što ruskaju bez tebe svoju smanjenost,
ali umnoženu. Zato si cedio kiše iz sebe
udarajući u prazno raskvašenom svojom lepinjom,
nešto otrcanog srca, pregradjenog beskrajem, ti, gvozdena koštico
u urmi.

Javio si se u sazveždju ljubavnika neosvetljen i surov.
Hteo si da zadržiš svoj život tudji. Trajao je
koliko let ševa od kraja do beskraja lova na
sebe i bio si koji jesteš: svojina ljubavi.
Ne ona.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Dušan Matić (1898 1979[?] [1980]), iugoslavo nascido em Tchúpria, matriculou-se em Filosofia na Sorbonne — Paris em 1917, motivado por doença interrompeu o curso e, de volta a Belgrado, completou o curso em 1922, formando-se pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado, foi poeta do surrealismo, crítico, ensaísta, professor e tradutor; viajou pela França, Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda e Dinamarca; foi participante do grupo surrealista de Belgrado e de seu almanaque surrealista Nemoguće (O Impossível); colaborou com os periódicos de vanguarda modernistas surrealistas e suas dissenções: revistas Zenit [Zenith], Putevi (Estradas), Svedočanstva (Testemunhos), da qual o poeta foi um iniciador, Naša stvarnost (Nossa Realidade) e 50 u Evropi [50 na Europa], todas de Belgrado, nas quais publicou poemas, ensaios e outros escritos; ainda em 1922, já em Dresden-Alemanha, estudou filosofia romântica alemã; antes, aos 16 anos e sob o pseudônimo de Uroš Jovanović, publicara sua primeira poesia no Radničke novine (Jornal dos Trabalhadores) do Partido Social-Democrata Sérvio; em duas épocas, foi professor de ensino médio e lecionou línguas sérvia e francesa; suas obras: Položaj nadrealizma u društvenom procesu (em colaboração com Oskar Davičo e Đorđe Kostić, A Posição do Surrealismo no Processo Social, 1932), Gluho doba (Os Tempos Surdos, romance, 1940), Bagdala (poemas [cancioneiro emotivo], 1954), Buđenje materije (O Despertar da Matéria, ensaio, 1959), Proplanak i um (coleção de ensaios, artigos e entrevistas, O Prado e a Mente, 1969), Bitka oko zida (seleção de ensaios, Uma luta sobre o muro, 1971), André Breton oblique (1976) Tajni plamen (Chama Secreta, 1976) ...; traduziu Émile Zola (Germinal e Son Excellence Eugène Rougon) e Ivan Pavlov (obra sobre reflexos condicionados), foi cotradutor de Roger Martin du Gard (do multivolume Les Thibault: Le Cahier gris [O Caderno Cinzento]); Dušan Matić, que sofreu prisões por suas atividades e teve que se aposentar de dar aulas, sem condenação, foi um dos principais membros da Associação de Cientistas, Escritores e Artistas da Sérvia.

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Dušan Matić: Diante da tempestade

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

Que seja a noite novamente assim como desejais
Eu nada sei mais
Nada compreendo mais
À noite pegajosa e agroamarga só se aconchega
A noite e a noite e a noite.

Em vez do ouro e do mal e do bem e da parede de desespero
Que não tem mais fim e onde com a cabeça bato a cada instante
Um encantamento sem forma um entendimento sem grito
Pela longa noite que se aproxima
Um olhar e uma visão risível e turvieterna

Além do sangue que corre entre todas as dores e todas as dores
Não há altura que possa medir-lhes a profundidade.

Esquece tuas lembranças esquece teu esquecimento
Como o viajante esquece distraído o lenço na estação desconhecida
a ponte chagosa das chagas do mundo estende-se por sobre esses
precipícios

Por sobre esse horror e barro
Em que se despedaça o hábito de luz em lágrimas irresgatáveis

Eis aí na clareira deste tremor sem fundo que eu vele e durma
Quebradiço e tristonho e só
Em nada me auxilia a audácia.

Dušan Matić

Pred buru

Neka noć bude opet onakva kakvu vi hoćete
Ja više ništa ne znam
Ništa ne razumem
Do samo noć kako opora i smolasta nadolazi
Noć i noć i noć.

Mesto zlata i zla i dobra i zida očaja
Koji se ne svršava o koji udarim glavom svaki čas
Jedan zanos bez lika jedan razum bez krika
Za dugu noć koja nailazi
Pogled i vidik smešni i smešani zanavek.

Sem krvi koja teče izmedju bola svakog i bola svakog
Nema tog viska koji će da im meri dubinu.

Zaboravi svoje pamćenje zaboravi svoj zaborav
Ko putnik rasejani bošču na nepoznatoj stanici
Most ranjav od rana sveta pruža se preko tih urvina
Preko tog užasa i blata
Gde se lomi navika svetlosti u suzi neotkupljenoj.

Eto na proplanku te jeze bez dna da bdim i spavam
Lomljiv i tavan i sam
Drskost mi ništa ne pomaže.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Dušan Matić (1898 —  1979[?] [1980]), iugoslavo nascido em Tchúpria, matriculou-se em Filosofia na Sorbonne Paris em 1917, motivado por doença interrompeu o curso e, de volta a Belgrado, completou o curso em 1922, formando-se pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado, foi poeta do surrealismo, crítico, ensaísta, professor e tradutor; viajou pela França, Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda e Dinamarca; foi participante do grupo surrealista de Belgrado e de seu almanaque surrealista Nemoguće (O Impossível); colaborou com os periódicos de vanguarda modernistas surrealistas e suas dissenções: revistas Zenit [Zenith], Putevi (Estradas), Svedočanstva (Testemunhos), da qual o poeta foi um iniciador, Naša stvarnost (Nossa Realidade) e 50 u Evropi [50 na Europa], todas de Belgrado, nas quais publicou poemas, ensaios e outros escritos; ainda em 1922, já em Dresden-Alemanha, estudou filosofia romântica alemã; antes, aos 16 anos e sob o pseudônimo de Uroš Jovanović, publicara sua primeira poesia no Radničke novine (Jornal dos Trabalhadores) do Partido Social-Democrata Sérvio; em duas épocas, foi professor de ensino médio e lecionou línguas sérvia e francesa; suas obras: Položaj nadrealizma u društvenom procesu (em colaboração com Oskar Davičo e Đorđe Kostić, A Posição do Surrealismo no Processo Social, 1932), Gluho doba (Os Tempos Surdos, romance, 1940), Bagdala (poemas [cancioneiro emotivo], 1954), Buđenje materije (O Despertar da Matéria, ensaio, 1959), Proplanak i um (coleção de ensaios, artigos e entrevistas, O Prado e a Mente, 1969), Bitka oko zida (seleção de ensaios, Uma luta sobre o muro, 1971), André Breton oblique (1976) Tajni plamen (Chama Secreta, 1976) ...; traduziu Émile Zola (Germinal e Son Excellence Eugène Rougon) e Ivan Pavlov (obra sobre reflexos condicionados), foi cotradutor de Roger Martin du Gard (do multivolume Les Thibault: Le Cahier gris [O Caderno Cinzento]); Dušan Matić, que sofreu prisões por suas atividades e teve que se aposentar de dar aulas, sem condenação, foi um dos principais membros da Associação de Cientistas, Escritores e Artistas da Sérvia.