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terça-feira, 18 de março de 2025

Fabián Restivo: Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica — É a sorte de minha vida

 
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[traduzido por Rogério Tomaz Jr.]

Por alguma razão que desconheço, sinto que hoje Pepe está com a guarda baixa. Anda suspirador e parcimonioso. Vejo que antes de mergulhar em alguma resposta deixa passar várias ondas. Então, sem olhar para ele, levanto e, enquanto procuro o isqueiro no bolso, olho para a rua pela janela e tento uma pergunta curta.
     — E a Lucía[*]?
      O que tem a Lucía?
      Como você a vê, como ela te vê, como é a vida pela história, pelo amor e pela relação política? Isso...

Quando ele vai falar sobre ela, caminha por um campo minado. Escolhe cada palavra, pensa, mastiga, olha o chão procurando mais. Dá um leve sorriso por um segundo. Está prestes a dizer algo e sua boca o ajuda a não deixar escapar o que vem do peito e é a primeira (e a única) vez que seus olhos ficam chorosos. Eu não esperava por isso. Olha pelo canto do olho para a casa, onde ela sempre parece realizar o ritual amoroso de fingir que está vigiando se ele não está fumando. Pepe se apoia na mesa. Coça a cabeça. Descansa. Respira. Enquanto o espero, lembro que, quando estamos os três juntos, se Lucía fala, ele nunca a interrompe. Ele olha para ela, presta atenção nela. E se eles discutem, as balas assobiam. Mas na hora das refeições sempre havia apenas dois copos na mesa: um para mim e outro para eles. Os pactos e rituais permanecem intactos: há trinta anos bebem do mesmo copo. Quando digo a Lucía que me parece um detalhe, ela desmistifica com muita rapidez e com uma risada: “menos coisas para lavar”. Suas intimidades amorosas são privadas e se você viu alguma, fique quieto. Lição aprendida.
     O velho toma ar e solta:
      É a sorte da minha vida.

E ele fica lá, assentindo com a cabeça a própria frase. Olho para ele e aceno com a cabeça também. Um galo que não sabe os horários começa com grande escândalo a anunciar o dia às cinco da tarde. O velho cai na gargalhada e seus olhos brilham:
      Esse galo de merda está louco!

Vejo que as nuvens passaram. Pepe se repõe. Bate forte as mãos nos joelhos, levanta os ombros e começa:
      Vejamos, Lucía é uma política enorme, valiosa, é uma mulher excepcional, e também me lembra onde deixo meus óculos e o meu gorro de lã. O que mais se pode pedir? Nesta idade o amor é um doce costume...
      E na política?
      Lucía é uma formiguinha. Sistemática, paciente...
      Você era mais agitado.
      Sim, mais caótico, menos previsível. Mais contraditória, sei lá. Lucía era mais metodológica, mais organizada... Não sei direito se essas coisas têm a ver com formação ou com as tripas, o disco rígido, tem de tudo. E certamente existem tipos de inteligência, algumas são mais disciplinadas, outras são mais caóticas. Dizem que o velho Churchill, por exemplo, era um cara que todos os dias te dizia nove besteiras e uma genialidade. Era o preço que tinha que pagar com Churchill, entende? Afinal, lhe vinham as ideias, como a dos porta-documentos.

Na época mais dura da clandestinidade, Lucía estava a cargo dos documentos falsos. Mas não ficou só nisso. Havia idealizado todo um sistema com a sua irmã. Na época se vendiam uns porta-documentos que tinham vários envelopes transparentes que se desdobravam quando eram abertos, então ali colocavam cédula de identidade, carta de motorista, a carteira de sócio do Peñarol e outras coisas, o clandestino o abria desajeitado, permitindo que se visse tudo, e o policial já não desconfiava.
      O que você achava da Lucía antes de serem um casal?
      Não, quase não tive contato com ela. Estava em outra coluna, nem a conhecia.
      Vocês se conheceram depois da prisão?
      Não, antes.
      Antes.
      Antes, mas nos conhecemos em momentos de grande desastre, caíam companheiros como erva daninha. Por isso nós tínhamos uma organização dividida em colunas, porque era o que nos dava mais segurança. Cada coluna tentava reproduzir a organização como um todo, quando uma era derrubada, as outras seguiam operando. Pegamos o esquema de resistência da guerra da Argélia, mais ou menos, e tal. Eu a conheci naqueles dias e andamos juntos um par de meses até que fomos presos. Depois nos juntamos quando saímos, anos depois.
      Havia um acordo de se juntarem quando saíssem ou aconteceu?
      Sim, eu mandei uma carta que lhe chegou e pronto. Na mesma noite que saímos, nos juntamos. E aqui estamos.
      Alimentando as galinhas às três da tarde.
      Claro, simples assim.
      Você mandou uma carta.
      Sim, mandei uma carta. Mas, imagina, ela estava na cadeia de Punta de Rieles e eu estava nos quartéis que me levavam de um lado para outro e às vezes três ou quatro meses sem visita. Nenhuma relação, nenhuma. Mas, bem, quando saímos existia uma efervescência muito grande. Nos juntamos e aqui estamos. E nos casamos faz pouco tempo. Nos casamos pela lei de herança, porque estamos ficando velhos e depois dá uma confusão com os papéis para quem fica. Você não tem ideia. Nada mais além disso, simples facilidade burocrática.

O suspiro dá um ar de nostalgia onde não há espaço nem tempo para a clarividência. Apenas todas as lembranças como um furacão organizado onde a seriedade termina naquele sorriso de quem sabe que tem final feliz. Acompanho silenciosamente seus gestos e não vou quebrar aquele vidro finíssimo, até que ele solta uma travessura quase inocente...
      Claro que nos demos alguns luxos: o juiz veio, nos casou no meio da cozinha e tchau.
      Essa pergunta é mais difícil, como a Lucía te vê ou como você acha que a Lucía te vê?
      Eu sei lá...
      Eu sei que é mais fácil perguntar a ela, mas como você acha que ela te vê?
      Como um louco que precisa ser cuidado um pouco, porque nunca sabe onde deixou os óculos, o boné, um monte de coisas.
      Uma coisa é o casal e outra coisa é o trabalho político, há espaço que não se misturam. Existe uma mão dupla? Vocês têm essa relação dupla?
      Não, politicamente ela tem o seu lugar, a sua militância. Ela está na direção do MPP [Movimento de Participação Popular] e vai, e debate. Ela é praticamente a primeira senadora, seus companheiros lhe dão muita atenção.
     Lucía é uma figura histórica de verdade, sem firula.
      Mas entre vocês?
      Funcionamos bem entre nós. Falamos de política, convivemos, às vezes temos algumas nuances e tal, mas se não estivéssemos em sintonia o casal não teria durado. Durou justamente por isso, porque éramos iguais. E sempre dizemos aos nossos companheiros que quem não consegue conquistar a companheira e acompanhá-la, está perdido. Porque o casal vira uma coisa só, e a vida de militante é incompreensível.
      Se vocês não estão dentro, se vocês não estão juntos dentro... Porque isso é vinte e quatro por sete.
      Claro, você é militante sempre. A essa altura da vida estamos redimidos, somos uma espécie de símbolo. E sei lá, é isso que significa para mim. É a perna que me mantém no chão e tive uma sorte bárbara.
      Você repete muito isso.
      É porque é isso mesmo: é a sorte da minha vida.

(Conversas com Pepe Mujica... pág. 55)

Fabián Restivo

[*] Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Lucía Topolansky Saavedra, nascida em 1944, uruguaia de Montevidéo, é política da Frente Ampla uruguaia, foi deputada, senadora e vice-presidenta daquele país; na década de 1960-1970, foi guerrilheira e militante do Movimiento de Libertación Nacional — Tupamaros, foi presa; vive em Rincón del Cerro, Montevidéo e é casada com Pepe Mujica.
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Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica — Fabián Restivo, Tradução de Rogério Tomaz Jr., texto da quarta-capa por Olívio Dutra, 1ª edição, outono de 2024, Editora Coragem, Porto Alegre — RS; Fabián Restivo, nascido em 1961, argentino, ‘autointitulado “um fotógrafo que escreve”’, é jornalista, escritor, fotógrafo, documentarista e cineasta; frequentou a Universidad Mayor de San Andrés La Paz, Bolívia, escreve para o jornal argentino Página 12; o autor deste Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica tem “mais de 40 anos de carreira e obras publicadas internacionalmente”, foi fotógrafo do documentário Adiós, comandante Che (dirigido e roteirizado por Edgardo Cabeza, 1997) e também dirigiu o documentário Conversas com Pepe Mujica (2024); Fabián Restivo ainda realizou outros trabalhos "nos mais variados formatos, inclusive direção de teatro ou programas de canais de televisão".

José Alberto “Pepe” Mujica Cordano, nascido em 1935, uruguaio de Paso de La Artena Montevidéo, é político e agricultor, foi presidente do Uruguai (2010 2015), senador (2015 2018), combatente contra a ditadura militar uruguaia, guerrilheiro e membro do então Movimiento de Libertación Nacional Tupamaros, na década de 1960 1970, época em que foi preso algumas vezes, na última permanecendo recluso por 13 anos, tendo sido libertado em 1985, ao ser anistiado no final do período ditatorial; foi presidente pro tempore do Mercosul em 2013, reside em Rincón del Cerro, Montevidéo Uruguai; Pepe Mujica já havia sido deputado por Montevidéo (1994), senador (1999), ministro da Agricultura, Pecuária e Pesca (2005).