____________________
Vade retro, Satan! Coisa
indecente,
mulher de calças, a fazer
serviço
que era feito por
homens... Deixa disso!
não penses nessa coisa
irreverente!
Tu, numa forja1, por
exemplo, à frente
da fornalha! Imagina, ó
meu derriço2,
pensa bem, anjo meu, terno
e roliço,
tu, no trabalho da barbuda
gente!
Lérias3, o idiota — feminismo — estulto4!
não se coaduna o forte e o
vil trabalho
com ser gentil, com
feminino vulto.
Por isso é que contigo
zango e ralho;
faze o labor doméstico e
eu me oculto
no meu... Cada macaco no
seu galho5!
Notas de Luiz Antonio
Barros:
1. Forja: oficina de
ferreiro: fundição. ([dicionário] Aurélio)
2. Derriço: xodó; namorada.
([dicionário] Houaiss, 2001)/(Houaiss/Aurélio)
3. Lérias: conversa fiada;
tolices ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes [filólogo], 1953);
4. Estulto: insensato,
estúpido; que não apresenta um bom discernimento. ([dicionário]
Houaiss, 2001)
5. Cada macaco no seu galho: ditado cujo significado é “ninguém deve ir
além das suas atribuições ([Enciclopédia e dicionário ilustrado, 1998], [André]
Koogan)
____________________
Os Poetas Satíricos
do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz
Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Sylvio de Figueiredo (1891 — 1972) ou Sílvio Figueiredo,
fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes,
mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor;
colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide
de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí,
por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através
de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou
crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses,
espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no
original, conhecedor que era de tais idiomas; obras: Sonetos (quarenta sonetos,
em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida
escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata
da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas,
1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras; pelos traços
biográficos do autor, relatados neste Os Poetas Satíricos..., ficamos
sabendo que embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da
Roda do Café Paris, Niterói (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há
notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do
Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios
de Niterói, por volta de 1930”; ressalte-se também que, conforme já citado, em
1913 o poeta já publicara Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria
de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e
boêmia de tal Café.





