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E todos os dias
quando ela, de manhã cedo, ia, ainda morrinhenta da cama, preparar o café
matinal da família, ia toda envolvida num nevoeiro de sonhos, sonhados durante
um demorado dormir de oito horas a fio. Por vezes — lá na cozinha, só, vigiando pacientemente
a água que fervia — ao lhe
chegarem as reminiscências deles em tumulto, juntas, borbulhava-lhe nos lábios
uma interjetiva qualquer, eco desconexo do muito que lhe falavam por dentro.
De quando em
quando, sofreando um gesto glorioso de satisfação, dizia — é ele — e isso de leve traduzia a grande carícia que lhe era dado
gozar naquele instante, refazendo aquele sonho bom — tão bom e acariciador que bem lhe
parecia um inebriamento de capitosos perfumes a se evolar do Mistério
vagarosamente, suavemente... Depois, logo que o café se aprontava e, na sala de
jantar, todos ao redor da mesa se punham a sorvê-lo, mastigando o pão de cada
dia — ela, d'olhos parados,
presos a uma linha do assoalho, levando compassadamente a xícara aos lábios,
ficava a um canto a pensar, remoendo a cisma, procurando decifrar naqueles
traços nebulosos — tão mal
grudados pela memória — a
figura viva daquele com quem, em sonhos, se vira indo de braço dado ruas em
fora.
Esforço a esforço,
de evocação em evocação, aparecia-lhe aos poucos a sua figura, o seu ar; e,
após esse paciente trabalho de reconstrução, lhe vinha, anunciado por um
sorriso reprimido que lhe encrespava radiosamente o semblante, o seu nome
sílaba por sílaba... Go—do—fre—do. Então com volúpia, ela, lhe pesava
os recursos: ganhava cento e vinte, no emprego da Central, talvez, em breve,
viesse a ter mais. Quarenta para casa e o resto para o vestuário e alimentos.
Era pouco — convinha — mas servia, pois, assim ficaria livre da
tirania do cunhado, das impertinências do pai; teria sua casa, seus móveis e,
certamente, o marido lhe dando algum dinheiro, ela — quem sabe! — que tão bons sonhos tinha, arriscando
no "bicho", aumentaria a renda do casal; e, quando assim fosse, havia
de comprar um corte de fazenda boa, um chapéu, de jeito que, sempre, pelo carnaval,
iria melhorzinha à Rua do Ouvidor, assistir passarem as sociedades.
O café já se havia
acabado; e ela ficara ainda distraída e sentada, quando soou de lá da sala de
visitas a voz vigorosa do cunhado:
—
Lívia! Traz o meu guarda-sol que ficou atrás da porta do quarto. Depressa!...
Anda que faltam só oito minutos para o trem!
E como se demorasse
um pouco, o Marques, redobrando de vigor no timbre, gritou:
— Oh!
C'os diabos! Você ainda não achou! Safa! Que gente mole!
Humildemente,
Lívia lá foi aos pulos, como uma corça domesticada, entregar o objeto pedido,
para lhe ser arrancado bruscamente das mãos...
Envolvida ainda
naquele sonho que lhe soubera tão bem a manhã, ela, através das frinchas da
veneziana viu o cunhado atravessar a rua e se perder por entre o dédalo de
casas.
Certificada disso,
abriu a janela. O subúrbio todo despertava languidamente.
As montanhas, verde-negras,
quase desnudas de vegetação, confusamente surgiam do seio da cerração tênue e
esgarçada. As casas listravam de branco e ocre o pardacento geral, enquanto
bocados de neblina, finos, adelgaçados, flutuavam sobre elas como sombras
erradias.
As ruas descalçadas
e enlameadas eram atravessadas por alguns transeuntes cabisbaixos, mal
vestidos, andando céleres em busca do embarcadouro.
Corria, de resto,
como sempre, morosamente o viver diário; e a Lívia, sacudida pelo silvo agudo
de uma locomotiva, levantou de repente os olhos, até ali fitos na estação que
emergia do ambiente pardo a clarear-se, para pregá-los numa nesga do céu que o
sol abria, por entre a névoa, furiosamente, vitoriosamente.
A súbitas, sua alma
voou, asas abertas, vôo rasgado, para outras bandas, outras regiões. Voou para
a cidade de luxo e elegância que, ao fim daquelas fitas de aço, refulgia e
brilhava.
Representaram-se-lhe
os teatros de luxo, os bailes do tom, a rua da moda onde triunfavam as belezas.
Ao considerar isso, viu-se ali também, ela, sim!, ela, que não era feia, tendo
o seu porte flexível e longo, envolvido de rendas, a desprender custosas
essências e aqueles seus dedos de unhas de nácar, ornados de ouro e pérolas,
escolhendo, na mais chique loja, cassas, baptistes, voiles...
Numa galopada de
sonhos, supôs maiores coisas e — lembrando-se do que lhe contara a madrinha (oh! como era
rica!) — imaginou a Europa,
aquelas terras soberbas, por onde a "Dindinha" passeava a sua velhice
e o seu egoísmo.
Doidamente revolvia
a alma e as cismas... Calculou-se lá também, na alameda de um soberbo jardim,
de landau, com ricas vestes ao corpo unidas,
ressaltando delas o esplendor de suas formas e o esguio patrício de seu corpo.
Imaginou que, através de um caro chapéu de palhinha branca, se coasse a luz
macia do sol da Europa, polvilhando-lhe a tez de ouro, em cujo fundo brilhassem
muito os seus olhos vivos, negros e redondos.
— Oh!
que bom! Quem me dera! —
quase exclamou por esse tempo.
De reviravolta,
Lívia adivinhou outra cousa no sonho. Não pensara bem; era outro que não o
Godofredo, o rapaz que imaginara.
Aquele nariz
grosso, aquela testa alta, o bigode ralo, não eram dele; eram antes do
Siqueira, estudante de farmácia, filho do agente. Esse poderia lhe dar aquilo — a Europa, o luxo — pois que formado ganharia muito.
Dessa forma — resolvera — "amarraria a lata" no
Godofredo e "pegaria" com o Siqueira. E era muito melhor! O Siqueira,
afinal, ia formar-se, seria um marido formado, ao braço do qual, se não fosse à
Europa, viria a gozar de maior consideração...
Demais a Europa era
desnecessária — para
quê? Era querer muito. Quem muito quer nada tem; e ela para ter alguma
cousa devia querer pouco. Bastava pois que lhe tirassem dali, fosse esse, fosse
aquele; mas... se em todo o caso pudesse ser um mais assim... seria muito
melhor.
E desde quando
vinha ela querendo aquilo? Havia muitos anos; havia dez talvez. Desde os doze
que namorava, que "grelava" só para aquele fim; entretanto, apesar de
haver tido mais de quinze namorados, ainda ali estava, ainda ali ficava, sob o
mando do cunhado.
Quinze namorados!
Quinze! De que lhe
serviram?
Um levara-lhe
beijos, outro abraços, outro uma e outra cousa; e sempre, esperando casar-se,
isto é, libertar-se, ela ia languidamente, passivamente deixando. Passavam um,
dois meses, e os namorados iam-se sem causa. Era feio, diziam; mas que fazer?
como casar-se? Por consequência, como viver? A sua própria mãe não lhe
aconselhava? Não lhe dizia: "Filha, anda com isso; preciso ver esta letra
vencida"?
De resto, o amor
lhe desculparia, pois não é o amor o máximo tirano? Não é a própria essência da
vida, das coisas mudas, dos seres, enfim?
Porventura ela os
amara? Teria ela amado aquela legião de namorados? Amara um, sequer? Não
sabia...
— O
que é amar? interrogava fremente.
Não é escrever
cartas doces? Não é corresponder a olhares? Não é dar aos namorados as ameaças
da sua carne e da sua volúpia?
— Se
era isso, ela amara a todos, um a um; se não era, a nenhum amara...
E o que era amar?
Que era então?
Ao lhe chegar essa
interrogação metafísica, para o seu entendimento, ela se perdeu no próprio
pensamento; as idéias se baralharam, turbaram-se; e, depois, fatigada, foi
passando vagarosamente a mão esquerda pela testa, correu-a pacientemente pela
cabeça toda até à nuca.
Por fim, como se
fosse um suspiro, concluiu:
—
Qual amor! Qual nada! A questão é casar e para casar, namorar aqui, ali,
embora por um se seja furtada em beijos, por outro em abraços, por outro...
— Ó
Lívia! Você hoje não pretende varrer a casa, rapariga! Que fazes há tanto tempo
na janela?!
Obedecendo ao
chamado de sua mãe, Lívia foi mais uma vez retomar a dura tarefa, da qual, ao
seu julgar, só um casamento havia de livrá-la para sempre, eternamente...

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Lima Barreto — Melhores Contos, Seleção de Francisco de Assis Barbosa, Quinta Edição, 2000, Global Editora, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 — 1922), carioca, estudou
no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do
Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista,
romancista e jornalista; escreveu para jornais desde 1902; particularmente para
o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição
do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos,
chegou a fundar um periódico, o Floreal; obras literárias: O
Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão
Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado
em folhetins, 1911, e editado em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e
Outros Contos (1911), Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério
dos Vivos (1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos
publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação
póstuma, 1948) e outros...