sábado, 31 de maio de 2014

Hermes Fontes: A Formiga

Fausto Barreto E Carlos De Laet - Antologia Nacional
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E dizer-se que não tens nervos, ó nervosa
ó vibrátil, sutil, minúscula formiga!
Dizer que não tens alma! E haverá quem o diga,
se o teu exemplo toda gente o imita e glosa?!

Tão pequenina és tu, e, astuta e laboriosa,
arrastas uma folha — e a arrastada te abriga...
E o requinte que pões em roer o grão da espiga?
E a perícia em bordar as pétalas da rosa?

Passas, eu me pergunto onde o melhor motivo:
se — Atlas — erguer nas mãos e nos ombros a Esfera,
se — formiga — arrastar um ramo nutritivo;

Ou — sonhador que a própria angústia retempera — 
dia e noite viver, qual dia e noite vivo,
ao peso imaterial de uma triste quimera...
Microcosmo, 1919

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Antologia Nacional, por Fausto Barreto e Carlos de Laet, 36a. edição, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro  RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888  1930), sergipano de Buquim, bacharel pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, foi poeta, um dos fundadores do jornal Estréia (1904) e colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, entre outros periódicos de sua época; obra poética: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922) etc.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Raul de Leôni: Sei de tudo o que existe pelo mundo . . . * [soneto]

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Sei de tudo o que existe pelo mundo.
A forma, o modo, o espírito e os destinos.
Sei da vida das almas e aprofundo
O mistério dos seres pequeninos.

Sei da ciência do Espaço, sei o fundo
Da terra e os grandes mundos submarinos,
Sei o Sol, sei o Som e o elo profundo
Que há entre os passos humanos e os divinos.

Sei de todas as coisas, a teoria
Do Universo e as longínquas perspectivas
Que emergem da expressão das coisas vivas.

Sei de tudo e 
 oh! tristíssima ironia! 
Pelo caminho eterno por que vou,
Eu, que sei tudo, só não sei quem sou…


* Conforme Nota de Luiz Santa Cruz, trata-se de um dos poemas recolhidos por Agrippino Grieco, entre os salvados de um incêndio ordenado pelo próprio poeta e divulgado no número a ele dedicado por Múcio Leão, em "Autores e Livros", 23.11.1941. É um soneto de adolescência, escrito aos 15 anos; complementa a Nota, "Nisso Raul de Leôni, mais uma vez, assemelha-se a Rimbaud: foi um poeta da adolescência e, quando muito, mal saído dela, como registrou Agrippino Grieco."
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Raul de Leôni — Poesia — textos escolhidos, Coleção Nossos Clássicos, Volume 58, seleção e organização de Luiz Santa Cruz, 1961, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro  RJ; Raul de Leôni (1895  1926), nascido em Petrópolis  RJ, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro; diplomata e poeta, em 1914 inicia sua colaboração literária com revistas (Fon-Fon e Para Todos) e jornais cariocas (Jornal do Brasil, Jornal do Comércio, O Jornal e O Dia); publicou Ode a Um Poeta Morto (1919) e Luz Mediterrânea (1922).

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Antero de Quental: Tese e Antítese

Nossos Clássicos 6: Antero de Quental
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I

Já não sei o que vale a nova ideia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspecto, à luz da barricada,
Como bacante após lúbrica ceia...

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;
Respira fumo e fogo embriagada:
A deusa da alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medéia!

Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obus...

Mas a ideia é num mundo inalterável,
Num cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

II

Num céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espetáculo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante:
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...

A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!

Combatei, pois, na terra árida e bruta,
Té que a revolva o remoinhar da luta,
Té que fecunde o sangue dos heróis!

Odes Modernas

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Coleção Nossos Clássicos — Antero de Quental, poesia e prosa, Volume 6, Apresentação de Adolfo Casais Monteiro, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, segunda edição, 1960, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Antero Tarquínio de Quental (1842  1891), natural de Ponta Delgada  Portugal, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta e escritor; publica seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publica Odes Modernas, na qual enaltece a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual;  em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português; em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou: Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886), entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

Lima Barreto: Lívia

Livro: Os Melhores Contos De Lima Barreto
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E todos os dias quando ela, de manhã cedo, ia, ainda morrinhenta da cama, preparar o café matinal da família, ia toda envolvida num nevoeiro de sonhos, sonhados durante um demorado dormir de oito horas a fio. Por vezes lá na cozinha, só, vigiando pacientemente a água que fervia ao lhe chegarem as reminiscências deles em tumulto, juntas, borbulhava-lhe nos lábios uma interjetiva qualquer, eco desconexo do muito que lhe falavam por dentro.

De quando em quando, sofreando um gesto glorioso de satisfação, dizia é ele e isso de leve traduzia a grande carícia que lhe era dado gozar naquele instante, refazendo aquele sonho bom tão bom e acariciador que bem lhe parecia um inebriamento de capitosos perfumes a se evolar do Mistério vagarosamente, suavemente... Depois, logo que o café se aprontava e, na sala de jantar, todos ao redor da mesa se punham a sorvê-lo, mastigando o pão de cada dia ela, d'olhos parados, presos a uma linha do assoalho, levando compassadamente a xícara aos lábios, ficava a um canto a pensar, remoendo a cisma, procurando decifrar naqueles traços nebulosos tão mal grudados pela memória a figura viva daquele com quem, em sonhos, se vira indo de braço dado ruas em fora.


Esforço a esforço, de evocação em evocação, aparecia-lhe aos poucos a sua figura, o seu ar; e, após esse paciente trabalho de reconstrução, lhe vinha, anunciado por um sorriso reprimido que lhe encrespava radiosamente o semblante, o seu nome sílaba por sílaba... Godofredo. Então com volúpia, ela, lhe pesava os recursos: ganhava cento e vinte, no emprego da Central, talvez, em breve, viesse a ter mais. Quarenta para casa e o resto para o vestuário e alimentos.


Era pouco convinha mas servia, pois, assim ficaria livre da tirania do cunhado, das impertinências do pai; teria sua casa, seus móveis e, certamente, o marido lhe dando algum dinheiro, ela
quem sabe! que tão bons sonhos tinha, arriscando no "bicho", aumentaria a renda do casal; e, quando assim fosse, havia de comprar um corte de fazenda boa, um chapéu, de jeito que, sempre, pelo carnaval, iria melhorzinha à Rua do Ouvidor, assistir passarem as sociedades.

O café já se havia acabado; e ela ficara ainda distraída e sentada, quando soou de lá da sala de visitas a voz vigorosa do cunhado: 

Lívia! Traz o meu guarda-sol que ficou atrás da porta do quarto. Depressa!... Anda que faltam só oito minutos para o trem!

E como se demorasse um pouco, o Marques, redobrando de vigor no timbre, gritou: 

Oh! C'os diabos! Você ainda não achou! Safa! Que gente mole!


Humildemente, Lívia lá foi aos pulos, como uma corça domesticada, entregar o objeto pedido, para lhe ser arrancado bruscamente das mãos...

Envolvida ainda naquele sonho que lhe soubera tão bem a manhã, ela, através das frinchas da veneziana viu o cunhado atravessar a rua e se perder por entre o dédalo de casas.

Certificada disso, abriu a janela. O subúrbio todo despertava languidamente.

As montanhas, verde-negras, quase desnudas de vegetação, confusamente surgiam do seio da cerração tênue e esgarçada. As casas listravam de branco e ocre o pardacento geral, enquanto bocados de neblina, finos, adelgaçados, flutuavam sobre elas como sombras erradias.

As ruas descalçadas e enlameadas eram atravessadas por alguns transeuntes cabisbaixos, mal vestidos, andando céleres em busca do embarcadouro.

Corria, de resto, como sempre, morosamente o viver diário; e a Lívia, sacudida pelo silvo agudo de uma locomotiva, levantou de repente os olhos, até ali fitos na estação que emergia do ambiente pardo a clarear-se, para pregá-los numa nesga do céu que o sol abria, por entre a névoa, furiosamente, vitoriosamente.

A súbitas, sua alma voou, asas abertas, vôo rasgado, para outras bandas, outras regiões. Voou para a cidade de luxo e elegância que, ao fim daquelas fitas de aço, refulgia e brilhava.

Representaram-se-lhe os teatros de luxo, os bailes do tom, a rua da moda onde triunfavam as belezas. Ao considerar isso, viu-se ali também, ela, sim!, ela, que não era feia, tendo o seu porte flexível e longo, envolvido de rendas, a desprender custosas essências e aqueles seus dedos de unhas de nácar, ornados de ouro e pérolas, escolhendo, na mais chique loja, cassas, baptistes, voiles...


Numa galopada de sonhos, supôs maiores coisas e lembrando-se do que lhe contara a madrinha (oh! como era rica!) imaginou a Europa, aquelas terras soberbas, por onde a "Dindinha" passeava a sua velhice e o seu egoísmo.


Doidamente revolvia a alma e as cismas... Calculou-se lá também, na alameda de um soberbo jardim, de landau, com ricas vestes ao corpo unidas, ressaltando delas o esplendor de suas formas e o esguio patrício de seu corpo. Imaginou que, através de um caro chapéu de palhinha branca, se coasse a luz macia do sol da Europa, polvilhando-lhe a tez de ouro, em cujo fundo brilhassem muito os seus olhos vivos, negros e redondos. 


Oh! que bom! Quem me dera! quase exclamou por esse tempo.

De reviravolta, Lívia adivinhou outra cousa no sonho. Não pensara bem; era outro que não o Godofredo, o rapaz que imaginara.

Aquele nariz grosso, aquela testa alta, o bigode ralo, não eram dele; eram antes do Siqueira, estudante de farmácia, filho do agente. Esse poderia lhe dar aquilo a Europa, o luxo pois que formado ganharia muito.


Dessa forma resolvera "amarraria a lata" no Godofredo e "pegaria" com o Siqueira. E era muito melhor! O Siqueira, afinal, ia formar-se, seria um marido formado, ao braço do qual, se não fosse à Europa, viria a gozar de maior consideração...


Demais a Europa era desnecessária para quê? Era querer muito. Quem muito quer nada tem; e ela para ter alguma cousa devia querer pouco. Bastava pois que lhe tirassem dali, fosse esse, fosse aquele; mas... se em todo o caso pudesse ser um mais assim... seria muito melhor.


E desde quando vinha ela querendo aquilo? Havia muitos anos; havia dez talvez. Desde os doze que namorava, que "grelava" só para aquele fim; entretanto, apesar de haver tido mais de quinze namorados, ainda ali estava, ainda ali ficava, sob o mando do cunhado.

Quinze namorados!

Quinze! De que lhe serviram?

Um levara-lhe beijos, outro abraços, outro uma e outra cousa; e sempre, esperando casar-se, isto é, libertar-se, ela ia languidamente, passivamente deixando. Passavam um, dois meses, e os namorados iam-se sem causa. Era feio, diziam; mas que fazer? como casar-se? Por consequência, como viver? A sua própria mãe não lhe aconselhava? Não lhe dizia: "Filha, anda com isso; preciso ver esta letra vencida"?

De resto, o amor lhe desculparia, pois não é o amor o máximo tirano? Não é a própria essência da vida, das coisas mudas, dos seres, enfim?

Porventura ela os amara? Teria ela amado aquela legião de namorados? Amara um, sequer? Não sabia... 

O que é amar? interrogava fremente.

Não é escrever cartas doces? Não é corresponder a olhares? Não é dar aos namorados as ameaças da sua carne e da sua volúpia? 

Se era isso, ela amara a todos, um a um; se não era, a nenhum amara...

E o que era amar? Que era então?

Ao lhe chegar essa interrogação metafísica, para o seu entendimento, ela se perdeu no próprio pensamento; as idéias se baralharam, turbaram-se; e, depois, fatigada, foi passando vagarosamente a mão esquerda pela testa, correu-a pacientemente pela cabeça toda até à nuca.

Por fim, como se fosse um suspiro, concluiu: 

Qual amor! Qual nada! A questão é casar e para casar, namorar aqui, ali, embora por um se seja furtada em beijos, por outro em abraços, por outro... 

Ó Lívia! Você hoje não pretende varrer a casa, rapariga! Que fazes há tanto tempo na janela?!

Obedecendo ao chamado de sua mãe, Lívia foi mais uma vez retomar a dura tarefa, da qual, ao seu julgar, só um casamento havia de livrá-la para sempre, eternamente...

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Lima Barreto — Melhores Contos, Seleção de Francisco de Assis Barbosa, Quinta Edição, 2000, Global Editora, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881  1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; escreveu para jornais desde 1902; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, o Floreal; obras literárias:  O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e editado em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Antero de Quental: Hino à Razão

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Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade entre clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!

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Coleção Nossos Clássicos — Antero de Quental, poesia e prosa, Volume 6, Apresentação de Adolfo Casais Monteiro, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, segunda edição, 1960, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Antero Tarquínio de Quental (1842  1891), natural de Ponta Delgada  Portugal, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta e escritor; publica seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publica Odes Modernas, na qual enaltece a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português; em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou: Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886), entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Antero de Quental: Estoicismo

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A Manoel Duarte de Almeida 

Tu que não crês, nem amas, nem esperas,
Espírito de eterna negação,
Teu hálito gelou-me o coração
E destroçou-me da alma as primaveras...

Atravessando regiões austeras,
Cheias de noite e cava escuridão,
Como n'um sonho mau, só oiço um não,
Que eternamente ecoa entre as esferas...

 Porque suspiras, porque te lamentas,
Cobarde coração? Debalde intentas
Opôr á Sorte a queixa do egoísmo...

Deixa aos tímidos, deixa aos sonhadores
A esperança vã, seus vãos fulgores...
Sabe tu encarar sereno o abismo!


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Antero de Quental  Sonetos, Coleção de Clássicos Sá da Costa, edição organizada e anotada por Antônio Sérgio e prefaciada por Oliveira Martins, terceira edição, 1968, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa  Portugal; Antero Tarquínio de Quental (1842  1891), natural de Ponta Delgada  Portugal, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta e escritor; publica seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publica Odes Modernas, na qual enaltece a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português; em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou: Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Machado de Assis: O Dicionário

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Era uma vez um tanoeiro, demagogo, chamado Bernardino, o qual em cosmografia professava a opinião de que este mundo é um imenso tonel de marmelada, e em política pedia o trono para a multidão. Com o fim de a pôr ali, pegou de um pau, concitou os ânimos e deitou abaixo o rei; mas, entrando no paço, vencedor e aclamado, viu que o trono só dava para uma pessoa, e cortou a dificuldade sentando-se em cima.

— Em mim, bradou ele, podeis ver a multidão coroada. Eu sou vós, vós sois eu.

O primeiro ato do novo rei foi abolir a tanoaria, indenizando os tanoeiros, prestes a derrubá-lo, com o título de Magníficos. O segundo foi declarar que, para maior lustre da pessoa e do cargo, passava a chamar-se, em vez de Bernardino, Bernardão. Particularmente encomendou uma genealogia a um grande doutor dessas matérias, que em pouco mais de uma hora o entroncou a um tal ou qual general romano do século IV, Bernardus Tanoarius; — nome que deu lugar à controvérsia, que ainda dura, querendo uns que o rei Bernardão tivesse sido tanoeiro, e outros que isto não passe de uma confusão deplorável com o nome do fundador da família. Já vimos que esta segunda opinião é a única verdadeira.

Como era calvo desde verdes anos, decretou Bernardão que todos os seus súditos fossem igualmente calvos, ou por natureza ou por navalha, e fundou esse ato em uma razão de ordem política, a saber, que a unidade moral do Estado pedia a conformidade exterior das cabeças. Outro ato em que revelou igual sabedoria, foi o que ordenou que todos os sapatos do pé esquerdo tivessem um pequeno talho no lugar correspondente ao dedo mínimo, dando assim aos seus súditos o ensejo de se parecerem com ele, que padecia de um calo. O uso dos óculos em todo o reino não se explica de outro modo, senão por uma oftalmia que afligiu a Bernardão, logo no segundo ano do reinado. A doença levou-lhe um olho, e foi aqui que se revelou a vocação poética de Bernardão, porque, tendo-lhe dito um dos seus dois ministros, chamado Alfa, que a perda de um olho o fazia igual a Aníbal, — comparação que o lisonjeou muito, — o segundo ministro, Ômega, deu um passo adiante, e achou-o superior a Homero, que perdera ambos os olhos. Esta cortesia foi uma revelação; e como isto prende com o casamento, vamos ao casamento.

Tratava-se, em verdade, de assegurar a dinastia dos Tanoarius. Não faltavam noivas ao novo rei, mas nenhuma lhe agradou tanto como a moça Estrelada, bela, rica e ilustre. Esta senhora, que cultivava a música e a poesia, era requestada por alguns cavalheiros, e mostrava-se fiel à dinastia decaída. Bernardão ofereceu-lhe as coisas mais suntuosas e raras, e, por outro lado, a família bradava-lhe que uma coroa na cabeça valia mais que uma saudade no coração; que não fizesse a desgraça dos seus, quando o ilustre Bernardão lhe acenasse com o principado; que os tronos não andavam a rodo, e mais isto, e mais aquilo. Estrelada, porém, resistia à sedução.

Não resistiu muito tempo, mas também não cedeu tudo. Como entre os seus candidatos preferia secretamente um poeta, declarou que estava pronta a casar, mas seria com quem lhe fizesse o melhor madrigal, em concurso. Bernardão aceitou a cláusula, louco de amor e confiado em si: tinha mais um olho que Homero, e fizera a unidade dos pés e das cabeças.

Concorreram ao certame, que foi anônimo e secreto, vinte pessoas. Um dos madrigais foi julgado superior aos outros todos; era justamente o do poeta amado. Bernardão anulou por um decreto o concurso, e mandou abrir outro; mas então, por uma inspiração de insigne maquiavelismo, ordenou que não se empregassem palavras que tivessem menos de trezentos anos de idade. Nenhum dos concorrentes estudara os clássicos: era o meio provável de os vencer.

Não venceu ainda assim porque o poeta amado leu à pressa o que pôde, e o seu madrigal foi outra vez o melhor. Bernardão anulou esse segundo concurso; e, vendo que no madrigal vencedor as locuções antigas davam singular graça aos versos, decretou que só se empregassem as modernas e particularmente as da moda. Terceiro concurso, e terceira vitória do poeta amado.

Bernardão, furioso, abriu-se com os dois ministros, pedindo-lhes um remédio pronto e enérgico, porque, se não ganhasse a mão de Estrelada, mandaria cortar trezentas mil cabeças. Os dois, tendo consultado algum tempo, voltaram com este alvitre:

— Nós, Alfa e Ômega, estamos designados pelos nossos nomes para as coisas que respeitam à linguagem. A nossa idéia é que Vossa Sublimidade mande recolher todos os dicionários e nos encarregue de compor um vocabulário novo que lhe dará a vitória.

Bernardão assim fez, e os dois meteram-se em casa durante três meses, findos os quais depositaram nas augustas mãos a obra acabada, um livro a que chamaram Dicionário de Babel, porque era realmente a confusão das letras. Nenhuma locução se parecia com a do idioma falado; as consoantes trepavam nas consoantes, as vogais diluíam-se nas vogais, palavras de duas sílabas tinham agora sete e oito, e vice-versa, tudo trocado, misturado, nenhuma energia, nenhuma graça, uma língua de cacos e trapos.

— Obrigue Vossa Sublimidade esta língua por um decreto, e está tudo feito.

Bernardão concedeu um abraço e uma pensão a ambos, decretou o vocabulário, e declarou que ia fazer-se o concurso definitivo para obter a mão da bela Estrelada. A confusão passou do dicionário aos espíritos; toda a gente andava atônita. Os farsolas cumprimentavam-se na rua pelas novas locuções: diziam, por exemplo, em vez de: Bom dia, como passou? — Pflerrgpxx, rouph, aa? A própria dama, temendo que o poeta amado perdesse afinal a campanha, propôs-lhe que fugissem; ele, porém, respondeu que ia ver primeiro se podia fazer alguma coisa. Deram noventa dias para o novo concurso e recolheram-se vinte madrigais. O melhor deles, apesar da língua bárbara, foi o do poeta amado. Bernardão, alucinado, mandou cortar as mãos aos dois ministros, e foi a única vingança. Estrelada era tão admiravelmente bela, que ele não se atreveu a magoá-la, e cedeu.

Desgostoso, encerrou-se oito dias na biblioteca, lendo, passeando ou meditando. Parece que a última coisa que leu foi uma sátira do poeta Garção, e especialmente estes versos, que pareciam feitos de encomenda:

O raro Apeles,
Rubens e Rafael, inimitáveis
Não se fizeram pela cor das tintas;
A mistura elegante os fez eternos.

Páginas Recolhidas  1899

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Machado de Assis, Os Melhores Contos, Seleção de Domício Proença Filho, décima-segunda edição, 1997, Global Editora, São Paulo SP; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto  escrito em versos  publicado na Marmota Fluminese, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressureição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.